quarta-feira, 14 de abril de 2010

Bettencourt parecia sorrir

Benfica 2, Sporting 0, vigésima sexta jornada do Campeonato Nacional 2009/ 2010
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Já passava dos 80 minutos de jogo, o Sporting já perdia por dois a zero depois de uma exibição a roçar o vergonhoso, e na «tribuna de honra» (ou lá como é que se chama aquela porcaria), José Eduardo Bettencourt parecia sorrir. Com uma época desastrosa a chegar ao fim, resultado da sua incompetência para o cargo de presidente do Sporting, do seu desleixo e do seu desinteresse, a perder de forma clara para um rival histórico quase a sagrar-se campeão, Bettencourt parecia sorrir. Mas se de facto sorria, sorria de quê? E se o fazia de felicidade, como explicar essa mesma felicidade? Teria acabado de receber os milhares de euros do seu salário? Tremo só de pensar que a próxima época está a ser preparada por este terrível presidente do meu clube. Já sabemos que ele vai fazer asneiras, que vai escolher mal e pelo meio desbaratar uns milhões de euros. É muito triste, mesmo muito triste, isto que está a acontecer ao Sporting.
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terça-feira, 6 de abril de 2010

Um trabalho difícil

Sporting 5 (Yannick 3, Liedson, João Moutinho), Rio Ave 0, vigésima quinta jornada do Campeonato Nacional 2009/ 2010
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Que bom ver Yannick novamente aproveitado pelo treinador! Ao contrário do que acontecia com Paulo Bento – que, faça-se justiça, o lançou, embora depois tenha começado a queimá-lo. Quanto ao avançado francês com nome todo muito elaborado, nem vê-lo, apesar dos seis milhões e meio de euros que custou (e que devia dar para o incompetente presidente que temos ser acusado de gestão danosa). Vai fazendo o seu trabalho Carlos Carvalhal, vencendo adversários e também a equipa que vai gerindo (mal) o clube. Vencer os adversários e ao mesmo tempo aqueles que deviam estar no clube para ajudar e não para destruir, parece ser esse o trabalho de Carlos Carvalhal até ao final da época. Um trabalho difícil.
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sexta-feira, 2 de abril de 2010

Uma vida desinteressante

O volume castanho que se vê na foto não é um armário, é uma pequena moldura com fotografias. Ao lado está um insecto, à esquerda. Não sei que insecto é, ou antes, a que espécie pertence. Sei é o nome dele: Demis (como o nome artístico do cantor grego). Fui eu que lhe pus esse nome. Há bem um mês que está ali, sem se mexer, e eu só costumo dar por ele à noite, com as luzes acesas. De dia, a divisão da casa em que ele está é um bocado escura. Vê-se bem é à noite, com a luz na parede amarela. Quando já tarde vou espreitar se os meus filhos – ainda pequeninos – estão tapados, penso em ir atirar o insecto para o lixo, porque se calhar não passa de um insecto morto. Então, pego-lhe nas asas e preparo-me para lançá-lo para o caixote, e aí ele, de repente, ganha vida, começa a mexer as patas, muito depressa. Tenho de pô-lo de novo na parede, o Demis. Eu se fosse a ele, com estas confusões, nem pensava duas vezes, ia-me embora daqui de casa. Mas qual quê, na noite seguinte, quando reparo, lá está ele, completamente imóvel. Agarro-o novamente pelas asas, com o polegar e o indicador da mão direita, e tiro mais uma vez a prova de que ele está vivo. As patas, como ele as mexe… E enquanto as mexer, bom, enquanto isso acontecer não o meto no caixote do lixo. Deve ser um tipo esperto, o Demis, tão esperto que já percebeu isso. Mas leva uma vida um bocado desinteressante.
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segunda-feira, 29 de março de 2010

Revista «human» de Abril

(clicar na imagem para aumentar)
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Nas bancas a partir desta terça-feira. É o número 16, de Abril de 2010. Mais informações sobre a edição aqui. Deixo a seguir o meu editorial…
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A liderança de Fernando Nobre
Já ouvi por diversas vezes profissionais ligados à gestão das pessoas apresentarem como exemplo em Portugal de um gestor de recursos humanos de excelência o líder da AMI – Assistência Médica Internacional, Fernando Nobre. Durante a entrevista que lhe fiz, e que publicamos nesta edição, falei-lhe do assunto e perguntei-lhe se isso o surpreendia. Não me respondeu nem que sim, nem que não, disse-me foi que isso talvez advenha do facto de ter sido desde há mais de 30 anos um mobilizador de vontades e ter de algum modo sido – e aqui frisou que o dizia com humildade – um paradigma de liderança.
Mais do que a gestão de recursos humanos, foi exactamente a questão da liderança que sobressaiu na entrevista. Tanto que ao lê-la não é difícil encontrar exemplos de verdadeiros ensinamentos sobre a matéria de um homem que ao longo de um quarto de século soube construir em Portugal um projecto para o mundo. Antecipo já alguns a seguir:
«A liderança advém da exemplaridade que se dá no exercício das funções, da perseverança, do espírito de sacrifício, do esforço e da motivação e do incentivo que se dá aos colaboradores.»
«Nunca fui alguém que prometeu sem cumprir. Isso para mim é fundamental na liderança, eu costumo dizer, e é sabido, pode-se enganar uma pessoa toda a vida, pode-se enganar mil pessoas um dia, mas mil pessoas toda a vida é muito difícil, por isso devemos ir sempre pelo discurso da verdade, pela frontalidade.»
«Liderança é ter deveres; deveres, deveres, deveres, e alguns, mas poucos, direitos. Se as lideranças não entenderem isto, acho que há um enorme equívoco.»
«Em todas as missões de alto risco, eu, como líder, tenho de estar no terreno; é esse o papel do líder, se manda pessoas que trabalham consigo para a linha da frente, ele próprio tem de estar na linha da frente, para partilhar com elas os riscos inerentes ao projecto ou à missão.»
Quatro exemplos da liderança de Fernando Nobre. Mas o melhor mesmo é ler a entrevista.
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sábado, 27 de março de 2010

Seis milhões e meio de euros

Marítimo 3, Sporting 2 (João Pereira, Pongolle), vigésima quarta jornada do Campeonato Nacional 2009/ 2010
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Seis milhões e meio de euros. Foi o que custou o ponta-de-lança escolhido (não se sabe bem por quem, mas algum incompetente foi) para «reforçar» a equipa a meio da época, depois do desvario, do desleixo e do desinteresse que caracterizaram a preparação dessa mesma época, a actual, tão negra, tão negra que até assusta. O mesmo ponta-de-lança marcou depois um golo, de grande penalidade, e assim já tem o saldo a zero, um golo a favor e um golo contra. Mas o auto-golo… Já dava para desconfiar que isto poderia acontecer, depois da ameaça no jogo de estreia em que só uma defesa muito boa do guarda-redes do Sporting impediu que marcasse contra nós. Seis milhões e meio de euros… Talvez o Sporting devesse ter gasto esses euros todos para se desfazer do presidente (indiscutivelmente o pior das últimas três ou quatro décadas da história do Sporting, contando inclusive com Jorge Gonçalves), que os pagasse a algum clube distraído que aceitasse ficar com ele.
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António Souto – Crónica (22)

Março de tresvarios
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Pior do que isto, neste momento, só ser português, ou ser gente.
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Este mês de Março ameaça fazer jus ao ditado «Março marçagão, de manhã Inverno e de tarde Verão». Mas só ameaça mesmo, que a chuva, quando se quer libertar das alturas, não está com meias medidas e cai a qualquer hora. E agora que entra Abril, as águas mil hão-de chegar com a mesma teimosia, uma bênção para a natureza e para as árvores, para os milhares de árvores que, no seu dia, e em ano de centenário da República, foram por toda a parte fincadas na terra, com mais ou menos cerimónia, com mais ou menos parcimónia. Mas que a chuva nos dá cabo da paciência, a nós, gente citadina e pouco dada a molhas imprevistas, lá isso dá, e o pior é que nos faz andar um pouco macambúzios e desacordados com a vida e com os outros.
A tal ponto tem andado este mês de Março que os tresvarios, quando vêm ao de cima, resvalam para uma espécie de incontinência colectiva.
Quem não assistiu ao congresso do PSD, todo cheiinho de líderes e ex-líderes e anónimos de base (ou de bases) apoiantes de todos os quadrantes, assim numa espécie de telenovela barata cuja imprevisibilidade se deixa adivinhar nos primeiros episódios, e não se divertiu com um autarca, daqueles consolidados, que discursou e excursou animadamente com a sede à mercê de um copo de vinho que não veio, por não ser suposto rociar a goela com o néctar dos deuses, mas com um copo de água cristalina? O mesmo autarca que apregoou, em jeito de graça (muito aplaudida) ser um mentiroso ganhador de escrutínios, qualidade elementar para uma boa e continuada vitória. Um gracejo, pois então. E no final do dito consílio, arrastados pela verve encantatória de um ex-quase-tudo, as bases votaram uma proposta de alteração estatutária prevendo, ou determinando, um silenciamento pré-eleitoral que os candidatos a líderes, à saída, disseram todos enjeitar. Com acólitos destes…
E quem não assistiu um destes dias, num acto oficial de pompa e circunstância, a um mestre-de-cerimónias contratado para a ocasião anunciando com marcação a preceito: «E agora vai usar da palavra o senhor primeiro-ministro, engenheiro José Trócrates»? E o senhor primeiro-ministro, não se fazendo rogado, ignorou a deixa e usou da palavra, por não poder usar certamente nada mais à mão de semear. Isto há trocas…
E quem não assistiu, em directo ou em diferido, ao senhor presidente do hemiciclo insistindo na necessidade de um secretário de Estado se dirigir à assembleia com a fórmula regimental «senhor presidente, senhores deputados»? O problema é que o orador – ou porque pouco devotado a estas vãs etiquetas, ou porque pouco adestrado nestes protocolos, ou porque muito o nervosismo de debutante – não havia maneira de atinar com a maldita fórmula regimental, e o senhor presidente a dar-lhe com ela, e ela a enrodilhar-se na língua, e o senhor presidente a ameaçar retirar-lhe a palavra, e o orador que ainda não a tinha tomado, e a algazarra no plenário, e…
Melhor do que tudo isto, neste mês de Março, só mesmo o folhetim da comissão de ética agora revirada em comissão de inquérito, com chamadas e desfiles e audições e relatórios, cada um a seu tempo, que muito relatam e pouco concluem, como se viu e como se verá.
Melhor do que isto, só mesmo o PEC, um programa qualquer que dez milhões e seiscentos e cinquenta mil portugueses não sabem o que é, um programa que no dia um de Abril os restantes portugueses já terão esquecido.
Pior do que isto, neste momento, só ser português, ou ser gente.
Eu, pelo sim pelo não, e enquanto me não livro da crise, vou tentar livrar-me da chuva, e havendo uns raios de sol rumarei à beira-mar, entre Oeiras e Cascais, e anónimo tentarei confundir-me entre invernantes serôdios, como aconteceu já num ou noutro fim-de-semana soalheiro, como se para aquelas bandas por ali parisse a galega a meio da tarde…
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Crónica de Março de 2010 de António Souto para o blog «Floresta do Sul»; crónicas anteriores: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21.
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quinta-feira, 25 de março de 2010

Formspring

Mais algumas perguntas a que respondi no Formspring.
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Está convencido de que a política em Portugal é feita por bandidos. Igual convencimento é o de inúmeros portugueses que nem por isso deixam de disciplinadamente visitar as assembleias de voto em cada acto eleitoral que se realiza. Vale a pena votar?
Uma parte significativa é feita por bandidos, alguns até de fora da política, ou que andam com um pé fora e outro dentro. Vale a pena votar, claro, tentar perceber quais são os bandidos e quais é que não são e fazer escolhas.
Li há pouco os livros «A Velocidade da Luz», de Javier Cercas, e «A Louca da Casa», de Rosa Montero. Ambos têm algumas afinidades com os que escreve, pois são ficções sobre a vida do autor. Acha eticamente admissível que o autor se reinvente a si mesmo?
Acho que sim. E tenho de acrescentar duas notas: primeira, eu nos meus livros não exagerei muito na reinvenção, pelo menos em relação a mim próprio; segunda, no livro do Cercas (um grande livro, já o da Rosa Montero não li) tenho de confessar que algumas das reinvenções dele são perturbantes (por exemplo, o terrível acidente que acontece depois de a mulher do narrador descobrir uma traição).
Quando refere autores e livros é no presente, não lê o que eu chamo erradamente de intemporais (não deviam ser todos?). Leu aqueles a que chamam clássicos? Passa-me pela cabeça «O Véu Pintado», «O Monte dos Vendavais», «Anna Karenina», sei lá? Sor
Leio também autores que não os do presente, obviamente. E de entre esses há para mim alguns inesquecíveis (basta ver os que coloquei no meu romance «O que Entra nos Livros»). Já destes três exemplos, li «O Monte dos Vendavais».
Vi no Facebook que apoia Manuel Alegre para presidente da República. Mas na sua terra foi vereador da câmara e esteve na assembleia municipal pelo PSD. Isso tem lógica? (JMS)
O que diz é verdade: fui vereador da câmara da minha terra e também fiz parte da assembleia municipal, sempre eleito em listas do PSD, como independente. Nas últimas eleições presidenciais votei em Manuel Alegre, e nas próximas farei o mesmo. Nunca votaria em Cavaco, fosse lá para o que fosse. Já agora, na minha terra, o meu combate foi contra um dinossauro com grandes dificuldades de convivência com a democracia, e que era companheiro de partido de Manuel Alegre. Não vejo isto como uma espécie de matemática da política, escolho quem me parece ser melhor, apenas isso.
Acha que o futebol educa? JBS
O futebol por si só não educa nem deixa de educar. Depende acima de tudo dos educadores, e muitos dos do nosso futebol são maus, mas também há os que são bons. Como em tudo. Por exemplo, se me lembrar das aulas de português, encontro facilmente um bom exemplo (o do meu professor de português do primeiro ano do ciclo, em Monchique) e um absolutamente mau (o da professora de português que apanhei durante vários anos em Portimão, antes de ir para a faculdade). No caso desta professora, nunca deveria ter sido permitido que entrasse num estabelecimento de ensino, a não ser como aluna.
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terça-feira, 23 de março de 2010

Apenas o começo

Um dia isto será uma grande história.
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Pensou num pequeno exército, só que perigoso, muito perigoso, não porque lhe parecesse organizado, ou dono de armas especiais, mas apenas pelo modo como avançava. Decidido, perto de ser brutal, desconsiderando quase tudo o que pudesse surgir-lhe pela frente. O mundo àquela hora devia parecer tranquilo por ali, nem que para formar tal ideia fosse preciso pôr de parte a correria de algum coelho se uma águia se elevasse bem acima dos sobreiros à cata de alimento. Ou pôr de parte o esvoaçar de um pássaro menos experiente depois de ver essa mesma águia e sobretudo depois de ouvir os gritos que soltava, bem espaçados, como se alguma coisa a deixasse um pouco inibida. Nem que fosse preciso pôr de parte tudo isso… Mas o mundo não estava tranquilo, ele via que não e continuava a pensar no pequeno exército, cada vez mais próximo e com um chefe maior do que qualquer dos seus elementos. Verde, o chefe era verde, médio, assim como se estivesse a meio caminho entre o tom de uma alface e o de uma couve, já o exército andava pelo castanho-claro.
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Inveja

Uma capa muito, mesmo muito bonita. Que inveja!... Não me importava de ter escrito algumas histórias misteriosas para depois aparecerem num livro assim apresentado. Agora, com a foto escolhida para este («A Noite e o Sobressalto», de Pedro Medina Ribeiro, ed. Oficina do Livro, 2010), infelizmente já é tarde demais.
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sexta-feira, 19 de março de 2010

Dia do Pai

No Dia do Pai, mais três excertos de «O Sorriso Enigmático do Javali» (depois destes).
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«Escolheram a noite para a viagem, e essa noite acabou por chegar. O pequeno Tuki ia dormir mais tarde. Tinha prometido que aguentaria umas horas além do habitual, e para consegui-lo tinha inclusive dormido a sesta depois de chegar da escola, a meio da tarde. Saíram a seguir ao jantar, em silêncio, como se fossem para uma missão muito importante.»
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«Foi então que parou, decidido a não dar explicações que o mais certo seria originarem perguntas mais difíceis. E quando voltou às palavras foi para falar da borboleta. A que estava ali, na soleira da porta. Falou sem grandes esperanças de que o filho aceitasse ficar sem resposta sobre os políticos e a sua especial característica que os prendia à mentira como um cão feroz, de preferência rafeiro, a uma corrente das fortes. Mas o filho não insistiu em saber dos políticos.
'Essa malandragem’, pensou o pai do pequeno Tuki.»

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«Talvez. Podia ser mesmo uma explicação. O lagarto pareceu sorrir. Foi só nesse momento que o pai do pequeno Tuki reparou nele, agarrado à manga direita da camisa. Nem era agarrado, era preso. Uma camisa inutilizada. Um buraco. A ponta da cauda do lagarto, a ponta da clave de sol cravada na manga, e o lagarto pendurado. Sorria. Parecia um sorriso atrapalhado, embaraçado. Não tinha ar de querer arranjar problemas, mas a verdade é que tinha arranjado. Aquela camisa... Umas dezenas de euros, pensou o pai do pequeno Tuki. Uma camisa quase nova. Lembrou-se de muitos anos antes, de ver nos livros de cowboys do Tex Willer os chapéus inutilizados… Muitas vezes acontecia, uma bala furava o chapéu, num tiroteio, a um dos companheiros do Tex Willer, que tinha o famoso nome de Kit Carson. Costumava acontecer, e ele, sem ligar a que a bala lhe tivesse passado a uns milímetros da cabeça, limitava-se a dizer, em tom de lamento: ‘Um chapéu quase novo...’
Lembrou-se também de outro sorriso, o do javali.»
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