quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

O próximo

Era para escrever umas coisas sobre o jogo do Sporting com o Braga – Sporting 2 (Saleiro, Miguel Veloso), Braga 1 –, para a Taça da Liga, mas agora já passaram não sei quantos dias. Esperemos pelo próximo.
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terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Uma passagem de ano

A minha passagem de ano costuma ser por aqui, com as luzes da rua acesas a fazerem com que se calhar o monte, visto de cima, dos aviões que passam bem distantes, pareça uma aldeia perdida no meio do montado Desta vez não, nada de luzes acesas. A gripe chegou aqui ao monte e a passagem da meia-noite foi logo bem cedo deixada para segundo plano; ou terceiro, ou quarto, ou quinquagésimo sétimo, nem sei. Talvez para ajudar à festa, a operadora de telemóveis desligou (não sei se é o verbo correcto para a situação) a rede. A barrinha que aparecia sempre num espaço de cerca de dez centímetros de um determinado móvel de uma determinada divisão de uma das casas, essa nem vê-la. Como já tinha mandado as mensagens do novo ano não me preocupei, e além disso tinha o telefone fixo para alguma eventualidade. Mas pouco antes da meia-noite lembrei-me de mais duas ou três mensagens que ainda devia enviar. Como não ia haver passagem, com a família a tentar dormir, ou mesmo a dormir, meti-me no carro e lá fui pelo montado, atento ao caminho, às vacas e aos bezerros recém-nascidos e também ao telemóvel. Ao fim de mais de um quilómetro, uma barrinha de rede, uma indiscutivelmente capaz de se intrometer pelos ramos dos sobreiros e das azinheiras. Eu ia para travar para ficar com ela, mas no último segundo lembrei-me de que com a chuva e o caminho enlameado o carro haveria de fugir-me contra uma árvore. Então fui abrandando e ao fim de uns dez metros adeus barrinha. Não desesperei – pior era a gripe –, fiz marcha atrás e em menos de nada a barrinha reapareceu. Pus-me a escrever as mensagens, com pressa de enviá-las antes que a ramagem acabasse com a barrinha de rede. Mas acabei por não escrever depressa. Uns vinte metros à frente, talvez nem isso, pareceu-me avistar uma lebre, com os olhos a brilharem e as orelhas espetadas. Era onde chegavam as luzes do carro (máximos e faróis de nevoeiro, para iluminar as bermas, por causa dos animais). Eu olhava para a lebre e pelo meio para o telemóvel, para escrever («2010», «tudo de bom», «que se realizem» e por aí adiante), até que percebi que não era uma lebre, porque o que me parecia as orelhas, afinal, eram dois pequenos matos lado a lado. Mas vi duas orelhas, mesmo assim vi, só que bem mais pequenas. Uma raposa… Era uma raposa, de pêlo acinzentado. Fui-a observando, e fui tratando das mensagens. Quando as enviei, a raposa já estava muito perto do carro, de focinho no chão, para um lado e para outro. Pensei em sair, para ver se ela se assustava comigo, mas depois lembrei-me do frio que fazia do lado de fora e desisti. Continuei a observá-la, até que ao fim de um bocado ela assustou-se mesmo, quando algumas vacas se aproximaram também do carro, curiosas. A raposa, mal as viu, desapareceu, sem que eu tivesse percebido o que procurava, se é que procurava alguma coisa. Apitei às vacas para se desviarem e avancei com o carro umas centenas de metros até encontrar um sítio onde podia dar a volta, e então regressei a casa. Quando abri o portão do monte, iluminei o ecrã do telemóvel para ver as horas e descobri surpreendido que já era mais de meia-noite e dez. Percebi que tinha passado o ano a observar a raposa, dentro do carro, no meio do montado escuro, a mais de um quilómetro de casa, onde a minha família dormia. Voltei a interrogar-me sobre se a raposa procuraria alguma coisa, e se realmente procurasse sobre o que poderia ser. Já estava a entrar em casa nessa altura. Um dos meus filhos tossiu, muito atrapalhado. Corri para o quarto, para ajudá-lo antes que acabasse por acordar a mãe. Deixei de pensar na raposa. Só voltei a pensar nela mais tarde, enquanto dormitava à lareira. Já tinha ido acudir a outros ataques de tosse, mas agora dormitava… Acordei de repente, com mais um ataque de tosse num dos quartos. Antes de correr para lá, vi a raposa na lareira. Estava deitada, e pareceu-me morta. Uns segundos… Eu a tentar regressar ao mundo. A raposa ali, a pouco mais de um metro de mim… A tosse intensificou-se e isso acabou por despertar-me completamente. O fogo tinha acabado na lareira, todos os troncos entretanto ardidos, e no lugar deles apenas um monte de cinza. Nem tinha a forma da raposa esse monte, mas por uns segundos eu tinha visto a raposa da passagem de ano. Levantei-me e corri para o quarto de onde me chegava o barulho da tosse. Um barulho que parecia agora menos atrapalhado, o que achei que podia ser um bom sinal.
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As bibliotecas, os estádios

O Francisco escreve aqui que «em Portugal há mais estádios do que bibliotecas». É bem capaz de ser verdade. Outra coisa que é bem capaz de ser verdade é esta: há bibliotecas que conseguem ter mais pessoas do que certos estádios.
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Sem título

«Tirem-me daqui!»
Desabafo da enfermeira que fazia a triagem na urgência do Hospital Distrital de Évora (ontem, por volta das 23 horas)
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domingo, 3 de janeiro de 2010

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

A velha oliveira

O jornal «Sol» publicou na semana passada uma reportagem sobre árvores antigas de Portugal. Ficou de fora esta oliveira aqui de casa, provavelmente com um bocadinho de injustiça.
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Revista «human» de Janeiro

(clicar na imagem para aumentar)
Nas bancas a partir de hoje. É o número 13, de Janeiro de 2010. Mais informações sobre a edição aqui. Deixo a seguir o meu editorial…
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Um novo ano
Começamos com este número da «human» um novo ano, o segundo do projecto editorial da Just Media para o universo dos recursos humanos e da gestão. E começamos regressando ao alinhamento habitual, depois de em Dezembro passado termos feito a nossa edição especial de 2009. Nesse alinhamento, contudo, introduzimos duas novidades, uma coluna de opinião sobre o tema do coaching (inaugurada por Ana Karina Milheiros, que preside a uma associação de profissionais da área) e uma secção sobre responsabilidade social (em que o primeiro artigo apresenta o exemplo do Grupo Luís Simões, com um projecto que visa reduzir o impacto ambiental da sua frota de camiões).
Uma curiosidade: o tema de capa (como uma empresa procura envolver os seus colaboradores, no caso a Vodafone Portugal), no arranque deste novo ano tem algumas semelhanças com a escolha que fizemos no início de 2009, no lançamento do projecto da «human»; na altura, destacámos também uma instituição de referência, o Banco Santander Totta, e o enfoque foi na valorização das pessoas, algo que nos pareceu ser aí uma realidade. Outra curiosidade: para ambos os casos entrevistámos a responsável pelos recursos humanos, agora Cecília João Bom, há 12 meses Isabel Viegas (duas das mais prestigiadas profissionais da área no nosso país); isto para além de também em ambos os casos termos tido a colaboração dos respectivos presidentes, Nuno Amado e António Coimbra.
Não se fica obviamente por aqui a edição. Liderança (com uma reportagem sobre o que nesse campo se pode aprender com os cavalos), recrutamento e selecção (com as perspectivas de especialistas sobre a actividade este ano) ou a forma como as empresas podem ajudar os colaboradores a realizar os seus sonhos (com um caso bem feliz, da Altitude Software) são alguns exemplos dos trabalhos que preparámos. Mas há outros, para que este possa ser um mês de boas leituras.
Votos de um excelente 2010!

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quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

O pequeno construtor de searas

E a cada final de ano, quando se aproximava o Natal, quando começava a construir searas, ele pensava no que fazer para que os outros dois reis aparecessem.
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Houve um tempo em que ele construía searas. Na casa da tia, em Novembro, logo em fins de Novembro. Usava latinhas de conserva, sem o papel à volta com a marca, sem que depois se percebesse que vinham de acondicionar filetes de cavala, ou lulas, ou sardinhas, ou carapaus, ou até bocados de atum. Punha água e trigo nas latinhas anónimas e esperava que as searas crescessem, dia após dia, para que no Natal pudesse tê-las no presépio, os verdes campos de trigo, bem viçosos, já com as latinhas escondidas pelo musgo apanhado nas pedras do cerro por cima da fazenda.
Nunca falhou com uma seara, uma só que fosse. A cada ano dos natais em que construiu searas para representar no presépio os campos de cultivo, nunca falhou. Punha-as sempre à beira do caminho, do risco de areia que arranjava em cima do musgo desde os ladrilhos da sala até à cabana onde colocava o menino, a mãe e o carpinteiro que estava casado com ela. A cabana da estrela de prata de chocolate, do burro cinzento e da vaca cor-de-laranja com um dos chifres partidos.
Ele usava as figuras que já vinham do tempo da avó. O menino, do mesmo tamanho da mãe, do carpinteiro, do burro e da vaca cor-de-laranja, cinco ou seis ovelhas, um músico de Viena, dois patos e um rei solitário, negro, bem negro, sempre montado num camelo a meio caminho entre os ladrilhos e a cabana, todos do tamanho do menino.
Na igreja da vila, no presépio que o prior mandava fazer todos os anos, havia tantas outras figuras, até um pastor para as ovelhas, como o que depois ele conseguiu comprar na loja onde se entregava o totobola. Um pastor para as ovelhas, de capote amarelo e com um ar tão novo entre as figuras do presépio que ele fazia na casa da tia; foi o pastor que acabou por ser a única novidade em tantos anos no presépio das searas. Mas o presépio da igreja... Aí havia pontes, todas do tamanho do menino e das ovelhas, e castelos, também do tamanho do menino e das ovelhas, e do carpinteiro e da mãe do menino. E poços, desse tamanho também, e fontes, e camponeses, e os três reis magos, e cães, e cavalos, e carros-de-besta (com as bestas), todos do tamanho do menino. Na igreja da vila.
Todas essas figuras, ou umas parecidas, os poços, os camponeses, os cães, os carros-de-besta, os castelos, uma ponte, pelo menos uma, todas ele desejava ter para colocar no presépio da casa da tia. Mas apenas conseguiu o pastor. O rei negro ficava sozinho a meio do risco de areia que levava à cabana do menino, ano após ano. E era apenas disso que ele tinha vergonha, de ter um viajante de terras longínquas sem os dois companheiros de visita, como no presépio da igreja da vila. E a cada final de ano, quando se aproximava o Natal, quando começava a construir searas, ele pensava no que fazer para que os outros dois reis aparecessem. Mas nunca apareceram, nunca, em nenhuma das vezes em que foi buscar a velha caixa de sapatos com as figuras embrulhadas em papel vegetal.
Um dia, na cidade, viu uns presépios diferentes, apenas com o menino, a mãe e o carpinteiro que era o marido da mãe do menino. Nem a cabana aparecia nesses presépios, e do burro e da vaca nem sinal. Só uma caminha de palha para o menino. Nem a estrela que indicava a direcção do menino. Talvez por isso não aparecesse ninguém de visita, nem ovelhas, nesses presépios, talvez por falta da estrela. Foi o que ele pensou, mas aí já não era uma criança; e tinha havia muito tempo deixado de construir searas.
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A primeira frase (7)

«Promessas de que não haveria de ficar atrapalhado, isso tinha o jovem escritor feito muitas.»
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Primeira frase do livro de contos «O Amor por Entre os Dedos» (e do conto que dá o título ao livro).
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Esperar por 2010

O Sporting na Figueira da Foz – Naval 0, Sporting 1 (Saleiro). Por este ano chega de comentários. Vamos esperar que 2010 possa ser completamente diferente (não sei como, mas vamos esperar).
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Nas Canárias

Uma antologia, em castelhano, com autores portugueses e das Canárias, da editora Baile del Sol. Chama-se «De la Saudade a la Magua». Além de mim, participam A. M. Pires Cabral, Maria do Rosário Pedreira, Fernando Esteves Pinto, Filomena Marona Beja, Gonçalo M. Tavares, José Carlos Barros, Lídia Jorge, Miguel Real, Maria Antonieta Preto, Paulo Bandeira Faria, Paulo Kellerman, Rui Costa, José Rivero Vivas, Eduvigis Hernández Cabrera, Anelio Rodríguez Concepción, José Manuel Hernández, Gabriel Cruz, Víctor Ramírez, Roberto Cabrera, Quintín Alonso Méndez, Javier Hernández Velázquez, José Manuel Brito, Eduardo Delgado Montelongo, Alicia Llarena, Agustín Díaz Pacheco. Coordenação de Agustín Díaz Pacheco e Fernando Esteves Pinto. Prefácio de Henrique Manuel Bento Fialho. O que eu escrevi começa assim: «Junto a la alambrada de la Hacienda del Convento, muy cerca de donde liberó los pinchos del alambre de espino del cuerpo de una garza…»
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