sábado, 2 de fevereiro de 2008

Há séculos por aqui

Pode pensar-se num monstro, mas não, é apenas uma oliveira ali da rua. Conhece tudo por aqui há vários séculos.

Rui Marques

Rui Marques deixou o cargo de Alto-Comissário para a Imigração e o Diálogo Intercultural. Coloco a seguir três excertos do que disse numa entrevista que publiquei há uns meses na revista «Pessoal».

«Muitos jovens que tentam aceder a um emprego, pelo facto de morarem onde moram, pela cor da sua pele, são afastados de oportunidades, o que é uma tremenda injustiça. Temos todos que fazer um esforço e combater o preconceito, o estereótipo, formas invisíveis e não ditas de discriminação que são muito injustas. Não se trata de discriminação positiva, não se está a dar aos imigrantes ou a quem vem de bairros pobres mais do que se dá a outro cidadão.»

«A diversidade que hoje temos é uma enorme riqueza para o nosso país. A diversidade cultural é o que faz a força das sociedades actuais, porque é num clima de diversidade cultural que a inovação pode ser gerada. Também apresenta desafios; é preciso que se saiba fazer viver juntos, fazer conviver pessoas com diferentes religiões, diferentes culturas, diferentes histórias pessoais… Mas sou francamente optimista quanto ao sucesso de sociedades multiculturais. »

«Da mesma forma que para uma sociedade a diversidade é um factor competitivo à escala global, os países que sabem usar melhor a diversidade são mais competitivos em termos internacionais. No quadro das empresas isso é fundamental, porque só em ambiente de grande diversidade é que a criatividade e a inovação atingem o seu expoente máximo. Uma empresa constituída por recursos humanos muito homogéneos tem pouca margem de criatividade e de inovação, factores que sabemos serem críticos para o sucesso.»

Boa pergunta

Paulo Pinto de Mascarenhas, no «Atlântico»… «Os projectos de José Sócrates. Vale a pena ver as obras assinadas pelo primeiro-ministro. É caso para se perguntar o que é pior: ser mesmo o autor daquelas 'remodelações' ou ter assinado por outros?»

15 olhares sobre o montado (XII)


Uma mudança

Francisco José Viegas deixa a Casa Fernando Pessoa para ir dirigir a revista «Ler», no que se espera que possa ser um projecto muito interessante. Os dois anos do Francisco à frente da Casa Fernando Pessoa tocaram a excelência. Com recursos mais do que escassos, a casa tornou-se num lugar de referência da nossa vida cultural. Um verdadeiro exemplo do que é gerir na área da cultura, um exemplo para onde até (ou principalmente) ministros deviam olhar.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Uma crónica

A minha crónica de Fevereiro da revista «Magazine Artes». O título genérico da crónica é «Letra Redonda».

A escolha de Valdano
Não que os grandes escritores não saibam escrever histórias de futebol. Nada disso. O que acontece é que as histórias de futebol escritas por grandes escritores poucas vezes me interessaram. Na volta, o problema é meu. Por exemplo, Camilo José Cela, que tem um livrinho («Onze Contos de Futebol», ed. ASA), escrito nos anos 60… Em páginas ao calhas, encontra-se coisas como «se corre o notório risco de terminar enforcado, o árbitro deve abster-se de assinalar penáltis, castigo que pode ser substituído pelo livre ou até pelo deixar jogar»; mas o que mais há é coisas como «no céu voou um abutre sem penas a que chamam xofrango-quebranta-osso, enquanto as viúvas de mau agoiro (roídas de inveja) ficavam com a voz embargada na garganta». Comprei o livrinho por atenção ao notável escritor galego, mas lê-lo com o fascínio com que li outros livros dele, nem pensar nisso...
Antes do Verão de 2002, com um mundial de futebol quase a começar, foi editado pela Relógio d’Água um livro chamado «Contos de Futebol», com nomes como Alfredo Bryce Echenique, Javier Marías ou Osvaldo Soriano. Sem caírem na prosa cifrada do Cela dos «Onze Contos…», as histórias acabaram por também não me interessar muito. Do livro, a que retive, a que nunca mais esqueci, foi a do coordenador da edição, Jorge Valdano, o famoso futebolista companheiro de Maradona na selecção argentina campeã mundial em 1986 (e talvez uma de Julio Llamazares, sobre o penalty falhado por um jogador do Deportivo de Coruña, no último minuto da última jornada do campeonato espanhol e que custou o primeiro título ao clube galego).
Valdano conta uma história de um guarda-redes que nos sonhos defende um penalty no último minuto de um jogo que está empatado a zero. Um dia acontece na realidade, a quatro minutos do fim. Ele atira o boné para dentro da baliza antes de se colocar na posição para tentar agarrar a bola. E acaba por defender o penalty, tornando-se o herói da multidão, por uns segundos, até ao momento em que, com a bola bem segura, entra na baliza para ir buscar o boné.
Uma vez, em Madrid, perguntei a Valdano durante uma entrevista se a história era verdadeira, e ele disse-me que a ouvia contar desde pequeno, mas que não se tratava de uma situação real. Seria contudo possível no futebol, por isso a tinha escrito; para ele, era uma das muitas histórias de perdedores, uma história que mostrava as duas faces do futebol em poucos segundos, o herói e o proscrito.
Aproveitei para lhe perguntar também como se tinha sentido no meio de tantas estrelas da literatura, se tinha sido mais difícil do que jogar ao lado de Diego Maradona ou de Jorge Burruchaga, e ele disse-me que o mundo do futebol é que era o seu mundo. Eu acrescentei, sem que fosse uma pergunta, que todos os escritores do livro gostavam muito de futebol e Valdano acabou por dizer-me que se sentia muito bem com eles, que tinha muitos amigos na literatura, de todas as gerações, Mario Benedetti, Francisco Umbral, Manuel Vásquez-Montalban... Acrescentei Javier Marías, um grande adepto do Real Madrid, clube onde Valdano tinha jogado e onde então era director-geral. E ele acabou por dizer-me que gostava muito de escrever, mas que aquilo de que gostava mesmo era de ler. E quando eu já não ia dizer mais nada, nem perguntar, acrescentou que se tivesse de escolher entre ser Borges ou ser Maradona, haveria sempre de optar por ser Maradona.

O «Record» de quarta-feira

Vale a pena comprar o «Record» na próxima quarta-feira, dia seis, por causa disto.

15 olhares sobre o montado (XI)


A falha

A cada dia que passa mais convencido fico de que escolhi bem a frase do ano de 2007.

As obras do engenheiro

Ver aqui, 23 obras sempre com projecto assinado por José Sócrates. Desconheço se algumas foram premiadas, mas desconfio de que não.

Dois livros

Os dois pequenos textos que referi no post anterior, sobre dois livros. São incluídos na edição de Fevereiro da revista «Pessoal». O novo volume de poesia de Francisco José Viegas e um livro polémico de Christopher Hitchens.

A poesia de Francisco José Viegas
Um dos mais notáveis autores portugueses, tanto na ficção como na poesia. É o seu título mais recente, «Se me Comovesse o Amor», poesia trazida a público como habitualmente pela Quasi Edições. Na apresentação do livro, o crítico literário Pedro Mexia realçou uma característica do autor, a de fazer muitas coisas diferentes e ser capaz de fazê-las todas bem feitas. Sobre poesia não será muito de ir por aí, mal feita, bem feita; por isso, desta recolha de poemas, o melhor talvez seja confessar como se lê, ou melhor, a sensação que fica quando se lê: a sensação de que somos nós que estamos em muitos dos versos, como se Viegas nos confrontasse com a nossa própria vida, como se a sua poesia fosse um retrato nosso, dos nossos sonhos, dos nossos medos, a redacção quase fiel das nossas interrogações. «Envelheces tanto de cada vez que o dia termina/ e olhas para trás. Tens medo do começo do fim,/ das tardes de domingo…»
Francisco José Viegas, «Se me Comovesse o Amor», Quasi Edições, 56 pp.

Para uma visão laica da vida
Um livro que redefine o debate sobre a religião na vida pública. O autor, o norte-americano Christopher Hitchens, considerado pelo «London Observer» como «um dos jornalistas mais brilhantes do nosso tempo», explica que a religião é «uma distorção das nossas origens, da nossa natureza e do cosmos», descrevendo a sua viagem intelectual para uma visão laica da vida. «Persistem quatro abjecções irredutíveis à fé religiosa: falseia completamente a origem do homem e do cosmos; devido a este erro original consegue combinar o máximo de subserviência com o máximo de solipsismo; é, simultaneamente, o resultado e uma causa de uma perigosa repressão sexual; e, em última análise, fundamenta-se em pensamento ilusório.»
Christopher Hitchens, «deus não é Grande», Publicações Dom Quixote, 358 pp.

Uma nova editora

Não costumo colocar aqui os textos que escrevo na página de livros da revista «Pessoal». Desta vez, abro uma excepção, com o que escrevi para a edição de Fevereiro. Neste post, os primeiros três livros da nova editora de Nelson de Matos (na foto, da autoria de João Andrés); no post seguinte, colocarei dois pequenos textos sobre outros livros.

O regresso de Nelson de Matos
É o regresso à actividade do mais carismático editor português, Nelson de Matos, que durante mais de duas décadas esteve à frente das Publicações Dom Quixote, de que foi proprietário. Com passagens ainda por outras casas de referência do meio editorial português, Nelson de Matos arranca agora com um projecto muito pessoal, as Edições Nelson de Matos, uma chancela que assenta no seu próprio nome, segundo diz para «dar um rosto e uma assinatura ao trabalho» que vai fazer. Os três títulos de lançamento da nova editora, previstos para finais de Fevereiro, revelam um editor atento e com enorme sentido de oportunidade; trata-se de um inédito de José Cardoso Pires, um trabalho sobre as relações entre a Igreja Católica e o Estado Novo e uma colectânea de textos sobre a infância, de personalidades bem conhecidas da vida portuguesa.
«infância – quando eles eram pequeninos», o primeiro título, são relatos de infâncias portuguesas do século XX, infâncias tocadas por acontecimentos como a guerra civil de Espanha, a segunda guerra mundial, a guerra fria, o aparecimento da televisão, a guerra colonial, a chegada do ser humano à Lua, o fim da ditadura em Portugal ou o advento das novas tecnologias. Os textos são de nomes tão diversos como António Mega Ferreira, António Vitorino d’Almeida, Armando Baptista Bastos, Carlos do Carmo, Carlos Vaz Marques, Inês de Medeiros, Jorge Silva Melo, Marcelo Rebelo de Sousa, Mário de Carvalho, Raul Solnado, Rui Reininho, Vicente Jorge Silva ou Zé Pedro. É um trabalho da jornalista Sarah Adamopoulos. António Barreto escreve o prefácio, um texto onde considera o resultado final do livro como «atraente e estranho».Segundo título, «A Oposição Católica ao Estado Novo – 1958/ 1974». O período que se seguiu à campanha para as eleições presidenciais de 1958, em que Humberto Delgado se candidatou pela oposição, com as relações entre o Estado Novo e os católicos portugueses a mudarem na aparência e no ser. Desde essa altura e até ao 25 de Abril de 1974 o Estado Novo enfrentou a contestação às suas instituições e às suas políticas por parte de alguns católicos portugueses. O autor, João Miguel Almeida, investigador do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa e do Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa, apresenta homens e mulheres que protagonizaram essa contestação. O prefácio é de Fernando Rosas.
Finalmente, o título que promete causar maior sensação no mercado editorial português… «Lavagante – encontro desabitado», um texto de José Cardoso Pires nunca publicado em livro e que teve aquela que terá sido a sua primeira versão, muito reduzida, em Dezembro de 1963, no número 11 da revista «O Tempo e o Modo», na altura com o título «Um Lavagante e Outros Exemplares»; a acompanhar essa versão, havia uma «nota de redacção» a avisar de que se tratava de «um capítulo do seu próximo romance, ainda provisoriamente sem título». Deste texto, segundo as Edições Nelson de Matos, existem outras versões, manuscritas, sem data, uma delas com o título «O Lavagante e a Mulher do Próximo». Existem também algumas versões dactilografadas, igualmente sem datas. Ainda segundo a nova editora, todas indiciam, pelas emendas, que são posteriores ao texto publicado em 1963, sendo também possível perceber que se trata de um texto anterior ao romance «O Delfim», publicado pela primeira vez em 1968, pela Moraes Editores. A fixação do texto que agora é publicado, e a revisão, esteve a cargo de Ana Cardoso Pires, uma das filhas do escritor.
Sarah Adamopoulos, «infância – quando eles eram pequeninos», 232 pp.
João Miguel Almeida, «A Oposição Católica ao Estado Novo», 340 pp.
José Cardoso Pires, «Lavagante – encontro desabitado», 92 pp.
Mais informações e capas dos três livros no site da editora.