domingo, 5 de agosto de 2007
Vale a pena ler
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A propósito
A propósito do segundo comentador referido no post anterior, sobre o jogo do Sporting com o Bétis de Sevilha, recupero aqui um texto que escrevi em Dezembro de 2001 (para uma crónica da abertura das tardes desportivas do fim-de-semana, numa rádio). É um texto sobre um dos piores árbitros que o futebol português conheceu nas últimas décadas, Isidoro Rodrigues. Ontem quem apanhou com o «Isidoro Rodrigues» foi o árbitro do jogo, Lucílio Baptista. O segundo comentador, não sei por quê, teimava em chamar-lhe, imagine-se, «Isidoro Rodrigues». Aqui fica o texto, sobre um árbitro que depois haveria de tornar-se cantor (ver foto).Há muito, muito tempo...
Há muito, muito tempo, ainda o senhor Isidoro Rodrigues era uma criança como árbitro, o Sporting foi ao Funchal defrontar o União da Madeira. Era um jogo muito importante, porque os adversários mais directos, nomeadamente o Futebol Clube do Porto, tinham feito maus resultados no dia anterior. Uma vitória colocava a equipa no primeiro lugar e fazia os adeptos sonharem com o regresso do título, depois de 1982.
Estava a ser um jogo, como dizem os mais inspirados comentadores do pontapé na bola, sem história. Até que a certa altura, com os minutos já bem avançados, o ponta-de-lança Cadete, então conhecido como «o capitão Jorge Cadete», cabeceou a bola já dentro da grande área do União da Madeira. Quando os adeptos gritavam golo, de repente, um futuro jogador do Sporting, o brasileiro Marco Aurélio (um defesa central extraordinário), resolveu agarrar a bola com as duas mãos, mesmo em cima da linha de baliza. Segurou-a bem firme, mas só por um ou dois segundos, e depois atirou-a pela linha de cabeceira.
Não foi golo, mas nenhum sportinguista se importou. Era penalty, o que haveria de ir dar ao mesmo. Mas não, o árbitro, sem que alguém percebesse por quê, assinalou pontapé de canto. A favor do Sporting, é certo, mas apenas pontapé de canto.
Se fosse agora, depois da carreira que esse árbitro veio a construir, ninguém estranharia que de um lance assim ele arranjasse inclusive um pontapé de canto a favor do União da Madeira. Mas ele ainda não era conhecido; como árbitro ainda era uma criança. Isidoro Rodrigues, que ao tempo se arrastava pelas divisões secundárias, foi parar ao jogo à última hora, e aproveitou para fazer das dele. O Sporting não venceu, e a luta pelo campeonato ficou, uma vez mais, comprometida.
Ainda hoje, pelo que se vai observando, o senhor Isidoro Rodrigues continua uma criança como árbitro. Provavelmente por ter escutado nalgum dia de sol mais intenso aquela frase que fala de o melhor do mundo serem as crianças. Talvez algum raio de sol lhe tenha trocado os raciocínios. Logo a ele, que como árbitro, por certo, deve ter sonhado que um dia haveria de ser o melhor do mundo. [texto de 2001]
Bétis contra betinhos
Bétis 1, Sporting 1 (Liedson). Primeiro jogo do Sporting no Torneio do Guadiana, em Vila Real de Santo António. Novas contratações e sobretudo jovens da academia, com algumas vedetas a aparecerem na segunda parte. As coisas estiveram mal durante muito tempo, com a impressão de que quem defrontava o Bétis de Sevilha era um grupo de betinhos. Algumas ideias que me ficaram…- Não vamos ter nenhum Nani esta época, mas Adrien Silva é bom; Yannick Pupo, de quem tanto se falava, não parece grande espingarda, mas pode ser que eu esteja enganado; o central Paulo Renato pareceu-me que pode vir a ser um bom jogador se ganhar capacidade de luta, o que não é fácil.
- Bruno Pereirinha, a quem Rui Oliveira e Costa chama «Parreirinha», dá a ideia de que evoluiu muito com as oportunidades da época passada; já Yannick Djaló, que é muito bom, parece como que anestesiado, além de ter-se agudizado um problema já conhecido (costuma ter pouca sorte em muitos lances e por vezes é desastrado).
- Paredes pouco se viu, o que não é novidade, e de Farnerud como habitualmente não faço grandes comentários (dá a ideia de ser mais jogador de ténis do que de futebol, ou então ciclista).
- Não gostei do lateral esquerdo eslovaco; parece ter qualidades mas é sarrafeiro e maldoso (fez um penalty que o árbitro deixou passar e agrediu um adversário à maluca, tipo Polga dos piores dias).
- Vukcevic, como tem acontecido também com Ismailov, mostra que é bom mas que não se pode contar com ele para coisas geniais, tipo Liedson ou Romagnoli.
- A entrada de Liedson, Romagnoli e Moutinho e a notável reviravolta no jogo, mostrou que vamos ter uma época com a equipa a jogar na base do que havia na época passada, com duas ou três alterações.
- Gladstone, o central com nome de jogador de sallon dos livros de cowboys, pode vir a ter lugar na equipa (obviamente que teria de caras para substituir o desastrado Polga, mas Polga tem o lugar garantido por Paulo Bento…).
- Derlei, enfim, pode ser que renasça esta época, com um bocado de sorte.
- E, finalmente, Ricardo; foi bom tê-lo na baliza adversária, até nos penalties.
- Finalmente, parte dois: a televisão (SIC), além do narrador e do comentador principal (creio que Jorge Baptista), tinha um segundo comentador (ou jornalista, nem sei) que passou o jogo com tiradas ridículas, despropositadas e algumas completamente idiotas.
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sábado, 4 de agosto de 2007
Textos sobre livros - 35
Marías vai-se aos outros
Javier Marías no seu melhor. Vidas de escritores, e não só, contadas de uma forma notável por um adepto do Real Madrid que é ao mesmo tempo um dos nomes maiores da literatura espanhola. Marías conta coisas de Conrad, Joyce e tantos outros, como se viajasse no tempo para conseguir acompanhá-los.
Javier Marías deve ser um escritor bem disposto, pelo menos a julgar pela forma como descreve as vidas deste livro. O adepto do Real Madrid, que foi professor em Oxford (Inglaterra), nos Estados Unidos e na Universidade Complutense de Madrid, e que se tornou num dos criadores mais originais da língua castelhana, tem muitos outros livros traduzidos por cá, mas este é sem dúvida o mais entusiasmante.
A parte final do livro apresenta uma galeria de retratos (igualmente de escritores), tirada directamente da colecção particular de Javier Marías. Essa galeria está acompanhada por um texto onde o autor se detém brevemente sobre cada um dos retratos. Só a título de exemplo, atentemos no que diz sobre o retrato de Jorge Luis Borges, sentado e de óculos numa das mãos: «O pobre Borges parece paciente e cheio de compaixão (...) Não sabe que quando alguém se senta num banco deve manter-se direito ou cruzar as pernas com desenvoltura, nem que uns óculos acabados de tirar devem pelo menos ser escondidos da objectiva (...)»
Mas a parte verdadeiramente genial do livro são as vinte pequenas biografias, marcadas sobretudo pelo insólito. Quem conhece as obras de Faulkner, de Stevenson, de Thomas Mann, de Nabokov, de Oscar Wilde, de Kipling, de Joyce, provavelmente vai ficar bastante surpreendido. Ou talvez não. Mas melhores do que as minhas palavras são as de Javier Marías, daí que fui buscar meia dúzia de excertos de algumas das biografias.
Da biografia de Joseph Conrad – «Muito antes de pedir a futura mulher em casamento (isto é, quando ainda não existia muita confiança entre eles), apareceu uma noite com um pacote de folhas entre as mãos e propôs à jovem que lesse em voz alta algumas páginas que faziam parte do seu segundo romance. Jessie George obedeceu, cheia de emoção e temor, mas o nervosismo de Conrad não ajudava nada. ‘Isso não interessa; começa três linhas abaixo; passa essa página, passa essa página!’ Ou então chegava a repreendê-la por causa da dicção: ‘Fala com clareza; se estás cansada, diz. Não comas as palavras. Os ingleses são todos iguais, fazem o mesmo som para todas as letras.’»
Ainda sobre Conrad – «Quando a mulher estava a dar à luz o primeiro filho, (...), Conrad não parava de cirandar pelo jardim, dominado pela agitação. Ao ouvir uma criança a chorar, aproximou-se indignado da cozinha para perguntar à criada o que era aquilo: ‘Faça o favor de mandar embora essa criança! Está a incomodar a senhora!’, gritou. Mas consta que a criada lhe gritou ainda com mais indignação: ‘É o seu filho, senhor Conrad!’»
Da biografia de William Faulkner – «O emprego na central eléctrica fora o pai que lho arranjara depois de ter sido despedido do seu trabalho anterior, como chefe da estação de correios da Universidade de Mississipi. Ao que parece, houve um professor qualquer que apresentou razoáveis motivos de queixa: a única forma de obter a sua correspondência era rebuscando no caixote do lixo, onde com frequência iam parar directamente, por abrir, os sacos de cartas recebidos. Faulkner não gostava nada que lhe interrompessem a leitura, e a venda de selos caiu de maneira alarmante: a modos de explicação, Faulkner disse à família que não estava disposto a levantar-se continuamente para ir atender ao guichet e ter de agradecer a um filho da mãe qualquer o facto de ter dois cêntimos para comprar um selo.»
Da biografia de James Joyce – «Há bastantes anos tornaram-se célebres aquelas cartas obscenas em que o autor costumava prometer que quando Nora (a esposa) e ele se voltassem a encontrar (ele estava em Dublin e ela em Trieste, onde viviam habitualmente) seriam muito felizes (...) Interrogava Nora sobre o seu passado e o seu presente, a fim de alimentar os seus livros (...) ‘Quando aquela pessoa (...) te meteu a mão ou as mãos debaixo das saias, acariciou-te só por fora ou enfiou o dedo ou os dedos? (...) Apalpou-te por trás? Pediu-te que o apalpasses? Fizeste-o? (...)’ Não se pode negar que Joyce era um homem exigente e amante do pormenor.» Já por palavras minhas, e não de Javier Marías, devo referir que evitei trazer aqui a maior parte das perguntas; deixam estas a anos-luz.
Da biografia de Robert Louis Stevenson – «Já se tinha declarado um incêndio noutra zona e estendia-se tão rapidamente que Stevenson, por curiosidade científica, perguntou a si mesmo se a causa seria o musgo que adorna e cobre os bosques californianos. Para averiguar isto, não lhe ocorreu outra coisa que não fosse aplicar um fósforo a um galho, mas sem tomar a precaução de antes arrancar da árvore o galho em causa. A árvore transformou-se rapidamente numa tocha, o que certamente levou Stevenson a considerar concluída a prova, e além disso satisfatoriamente. Mas o seu comportamento pouco cavalheiresco veio depois: não muito longe, ouviu os gritos dos homens que combatiam o fogo original, e compreendeu que só lhe restava fazer uma coisa, a saber, fugir dali antes que fosse descoberto. Parece que correu como nunca antes fizera na vida (...).»
Finalmente, da biografia de Madame du Deffand – «(...) numa célebre ocasião um cardeal mostrou o seu assombro por São Dionísio Aeropagita, depois do seu martírio, ter caminhado com a cabeça cortada debaixo do braço desde Montmartre até à igreja que tem o seu nome, numa distância de nove quilómetros, o que o deixava sem fala. ‘Ah, Monsenhor’, interrompeu-o Madame, ‘numa situação dessas só o primeiro passo é que custa.’»
O resto destas vidas, só mesmo lendo o livro.
Javier Marías no seu melhor. Vidas de escritores, e não só, contadas de uma forma notável por um adepto do Real Madrid que é ao mesmo tempo um dos nomes maiores da literatura espanhola. Marías conta coisas de Conrad, Joyce e tantos outros, como se viajasse no tempo para conseguir acompanhá-los.
Javier Marías deve ser um escritor bem disposto, pelo menos a julgar pela forma como descreve as vidas deste livro. O adepto do Real Madrid, que foi professor em Oxford (Inglaterra), nos Estados Unidos e na Universidade Complutense de Madrid, e que se tornou num dos criadores mais originais da língua castelhana, tem muitos outros livros traduzidos por cá, mas este é sem dúvida o mais entusiasmante.
A parte final do livro apresenta uma galeria de retratos (igualmente de escritores), tirada directamente da colecção particular de Javier Marías. Essa galeria está acompanhada por um texto onde o autor se detém brevemente sobre cada um dos retratos. Só a título de exemplo, atentemos no que diz sobre o retrato de Jorge Luis Borges, sentado e de óculos numa das mãos: «O pobre Borges parece paciente e cheio de compaixão (...) Não sabe que quando alguém se senta num banco deve manter-se direito ou cruzar as pernas com desenvoltura, nem que uns óculos acabados de tirar devem pelo menos ser escondidos da objectiva (...)»
Mas a parte verdadeiramente genial do livro são as vinte pequenas biografias, marcadas sobretudo pelo insólito. Quem conhece as obras de Faulkner, de Stevenson, de Thomas Mann, de Nabokov, de Oscar Wilde, de Kipling, de Joyce, provavelmente vai ficar bastante surpreendido. Ou talvez não. Mas melhores do que as minhas palavras são as de Javier Marías, daí que fui buscar meia dúzia de excertos de algumas das biografias.
Da biografia de Joseph Conrad – «Muito antes de pedir a futura mulher em casamento (isto é, quando ainda não existia muita confiança entre eles), apareceu uma noite com um pacote de folhas entre as mãos e propôs à jovem que lesse em voz alta algumas páginas que faziam parte do seu segundo romance. Jessie George obedeceu, cheia de emoção e temor, mas o nervosismo de Conrad não ajudava nada. ‘Isso não interessa; começa três linhas abaixo; passa essa página, passa essa página!’ Ou então chegava a repreendê-la por causa da dicção: ‘Fala com clareza; se estás cansada, diz. Não comas as palavras. Os ingleses são todos iguais, fazem o mesmo som para todas as letras.’»
Ainda sobre Conrad – «Quando a mulher estava a dar à luz o primeiro filho, (...), Conrad não parava de cirandar pelo jardim, dominado pela agitação. Ao ouvir uma criança a chorar, aproximou-se indignado da cozinha para perguntar à criada o que era aquilo: ‘Faça o favor de mandar embora essa criança! Está a incomodar a senhora!’, gritou. Mas consta que a criada lhe gritou ainda com mais indignação: ‘É o seu filho, senhor Conrad!’»
Da biografia de William Faulkner – «O emprego na central eléctrica fora o pai que lho arranjara depois de ter sido despedido do seu trabalho anterior, como chefe da estação de correios da Universidade de Mississipi. Ao que parece, houve um professor qualquer que apresentou razoáveis motivos de queixa: a única forma de obter a sua correspondência era rebuscando no caixote do lixo, onde com frequência iam parar directamente, por abrir, os sacos de cartas recebidos. Faulkner não gostava nada que lhe interrompessem a leitura, e a venda de selos caiu de maneira alarmante: a modos de explicação, Faulkner disse à família que não estava disposto a levantar-se continuamente para ir atender ao guichet e ter de agradecer a um filho da mãe qualquer o facto de ter dois cêntimos para comprar um selo.»
Da biografia de James Joyce – «Há bastantes anos tornaram-se célebres aquelas cartas obscenas em que o autor costumava prometer que quando Nora (a esposa) e ele se voltassem a encontrar (ele estava em Dublin e ela em Trieste, onde viviam habitualmente) seriam muito felizes (...) Interrogava Nora sobre o seu passado e o seu presente, a fim de alimentar os seus livros (...) ‘Quando aquela pessoa (...) te meteu a mão ou as mãos debaixo das saias, acariciou-te só por fora ou enfiou o dedo ou os dedos? (...) Apalpou-te por trás? Pediu-te que o apalpasses? Fizeste-o? (...)’ Não se pode negar que Joyce era um homem exigente e amante do pormenor.» Já por palavras minhas, e não de Javier Marías, devo referir que evitei trazer aqui a maior parte das perguntas; deixam estas a anos-luz.
Da biografia de Robert Louis Stevenson – «Já se tinha declarado um incêndio noutra zona e estendia-se tão rapidamente que Stevenson, por curiosidade científica, perguntou a si mesmo se a causa seria o musgo que adorna e cobre os bosques californianos. Para averiguar isto, não lhe ocorreu outra coisa que não fosse aplicar um fósforo a um galho, mas sem tomar a precaução de antes arrancar da árvore o galho em causa. A árvore transformou-se rapidamente numa tocha, o que certamente levou Stevenson a considerar concluída a prova, e além disso satisfatoriamente. Mas o seu comportamento pouco cavalheiresco veio depois: não muito longe, ouviu os gritos dos homens que combatiam o fogo original, e compreendeu que só lhe restava fazer uma coisa, a saber, fugir dali antes que fosse descoberto. Parece que correu como nunca antes fizera na vida (...).»
Finalmente, da biografia de Madame du Deffand – «(...) numa célebre ocasião um cardeal mostrou o seu assombro por São Dionísio Aeropagita, depois do seu martírio, ter caminhado com a cabeça cortada debaixo do braço desde Montmartre até à igreja que tem o seu nome, numa distância de nove quilómetros, o que o deixava sem fala. ‘Ah, Monsenhor’, interrompeu-o Madame, ‘numa situação dessas só o primeiro passo é que custa.’»
O resto destas vidas, só mesmo lendo o livro.
***
Nota: para ilustrar este texto, escolhi uma foto do autor, na versão bastonário da Ordem dos Advogados (Rogério Alves), só que careca.
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Ainda Sá Fernandes
Pode ser ingenuidade minha, mas eu não estava nada à espera disto. Isto, quer dizer, José Sá Fernandes juntar-se a António Costa na câmara de Lisboa. Fiquei sem saber bem o que pensar, ou melhor, até consegui pensar em alguma coisa, principalmente que fiz figura de parvo ao escrever aqui antes das eleições de dia 15 de Julho que se fosse eleitor em Lisboa votaria em Sá Fernandes. Que coisa estranha esta aliança... Foi mesmo um choque para mim. Quase como se há tempos, de repente, tivesse aparecido uma notícia a dizer que Sá Fernandes tinha dito que sim à proposta do homem de Braga.
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A Padeira – VII e VIII
Mais dois capítulos (VII e VIII) de «Brites e as Gaivotas» (início aqui).Brites e as Gaivotas
Uma história da Padeira de Aljubarrota
»»» Cap. VII
Do alto, duas gaivotas controlavam o barco, enquanto iam esvoaçando de um lado para o outro. E grasnavam.
- Ainda bem que a gente tem asas.
- Sim.
Brites seguia no barco, a contemplar a imensidão do oceano. Nova vida ia começar, pensava ela sem ligar ao vento que lhe fustigava o rosto. Até que de repente algo lhe prendeu a atenção, e às gaivotas que voavam por cima também. Um outro barco aproximava-se.
- Barco à vista!!!
Ou vinha em paz e tudo se resolveria, ou então vinha por mal. E aí é que seria o bom e o bonito. Por via das dúvidas, Brites começou a arregaçar as mangas. Isto enquanto a tripulação já andava de um lado para o outro, como se o seu destino se decidisse naquele momento.
- Chamem o capitão!
- Sim, chamem o capitão, que se retirou para descansar!
O capitão apareceu daí a pouco, e nessa altura já se avistava a bandeira dos do barco que antes tinha surgido do nada na linha do horizonte. E só podiam vir mesmo por mal, porque a bandeira indicava que eram piratas árabes, dos muitos que infestavam as águas do Mediterrâneo.
- Preparem-se, homens!! Preparem-se, que temos de nos defender daqueles labregos!!
»»» Cap. VIII
- Ainda bem que a gente tem asas, não me canso eu de grasnar.
- Sim, daqui de cima vê-se bem aquela desgraça.
A peleja foi tão grande que só Brites escapou com vida. Do lado cristão, bem se vê, porque do dos mouros ainda sobraram muitos para a segurarem. De modo que decidiram levá-la mais o saque para a venderem como escrava a algum rico mercador de olhos vesgos ou apreciador de maus encantos.
- Muito fortes devem ser estes mouros.
- Sim, nem Brites lhes resistiu. Eu até daqui de cima tive medo!...
- Os amaldiçoados eram muitos.
- Pois, tivesse Dom Afonso pelejado com uns assim em Lisboa e haveriam os portugueses de estar hoje a seguir o Corão.
- E achas que isso teria tido implicações práticas na nossa vida de gaivotas?
- Acho que não, mas isto sou só eu para aqui a grasnar.
sexta-feira, 3 de agosto de 2007
A resposta
A resposta à minha última pergunta discreta encontrei-a neste cartaz que vi no «Blasfémias».
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quinta-feira, 2 de agosto de 2007
Dalila Rodrigues
Impressionante a entrevista de Dalila Rodrigues, a directora do Museu Nacional de Arte Antiga, agora demitida, apenas porque não tem medo de dizer aquilo que pensa. Foi há pouco, na SIC Notícias. Percebe-se que cada vez mais se desvaloriza o mérito em Portugal, enquanto os responsáveis políticos vão confirmando a ideia, muitos deles, de terem uma convivência difícil em ambiente democrático, para além da tradicional incompetência. A ministra da Cultura, por exemplo, ao permitir que se tivesse chegado a esta situação, marca mais não sei quantos pontos nessa escala, a da incompetência, muitos pontos, muitos mesmo; não me espanta, se pensar que ainda no fim-de-semana passado a vi num molho de papéis vendidos com o «Sol» a autopromover-se (tal como Manuel Pinho e o «boy» que preside ao Turismo de Portugal) e a insultar a minha terra com a idiotice do «Allgarve». Situações como esta só vêm acentuar a ideia de que se instaurou em Portugal um ambiente que faz lembrar o fascismo, embora para nossa sorte os fascistas ainda sejam dos de aviário.Pergunta discreta
Afinal, a quem é que o Zé fazia falta?
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quarta-feira, 1 de agosto de 2007
Aí vai Lisboa
Depois das eleições em Lisboa, há duas semanas, se não estou em erro não escrevi nada. Escrever o quê?!... Hoje, dia da posse, lembrei-me disso. Ouvi no carro o discurso do novo presidente da câmara. E também uns bocados do da presidente da assembleia municipal, que continua a mesma. Deixo aqui algumas coisas de que me lembrei…- Dá que pensar o acordo anunciado entre o vereador José Sá Fernandes (em quem já disse que provavelmente teria votado se morasse em Lisboa) e o presidente António Costa.
- Por vezes, penso se Lisboa justifica a existência de uma câmara municipal. A verdade é que de município pouca coisa tem; parece-me apenas uma zona confusa, sobretudo com edifícios e vias de comunicação (a maior parte delas atrofiadas). Talvez fosse bom estudar uma nova forma de gestão, tipo com um secretário de Estado, ou um ministro, ou então com um enviado especial das Nações Unidas.
- Se a opção fosse ficar como concelho e com uma câmara municipal, talvez todos os portugueses devessem ter direito a votar (veja-se a campanha, feita para todo o país, assim como o período de reflexão foi para todo o país, com jornais a saírem até um dia antes, fosse em Lisboa, fosse, por exemplo, no Alentejo).
- Não consigo compreender esta coisa de José Sá Fernandes se ter aliado a António Costa; muita gente de certeza que se terá sentido traída, além de que a explicação de José Sá Fernandes de que não vai votar obrigatoriamente no mesmo sentido de António Costa me parece despropositada, pois se é para isso para que é que assinou um acordo? (bastava dizer sim ao que achasse bem e não ao que achasse mal, e que se abstivesse quando se tratasse de algum assunto de que não percebesse nada, ou de que percebesse pouco).
- Uma sugestão de aliança, minha, para se obter uma maioria: António Costa e Fernando Negrão juntavam-se, obtinham nove lugares no executivo e como o que representam é mais ou menos o mesmo eliminava-se o risco de Fernando Negrão ir para outro lado e assim só estragavam uma instituição.
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Outra vez
Hoje falou-se outra vez da questão do aeroporto de Lisboa (andava tudo muito calado). Já não é apenas um novo aeroporto, mas aquela coisa do «Portela mais um», que lembra – embora de forma comedida – uma tirada de um treinador de futebol (Quinito), já há muitos anos, quando chegou ao Porto: fazer a equipa, dizia ele, deslumbrado, não o preocupava, era «o Gomes mais dez». A coisa, no entanto, acabaria por correr mal. Mas isso foi já há muitos anos. Antes da anedota que em 1993 celebrizou o homem (na altura ministro de um governo de Portugal) que agora tem a responsabilidade máxima dos estudos que estão a ser feitos para a opção de localização em Alcochete. A anedota, tal como o seu desastrado autor (Carlos Borrego), pode ser recordada aqui. Espera-se que Borrego não ceda a nenhuma tentação de incluir anedotas nos documentos que vier a entregar.
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Textos sobre livros - 34
«Tonto, Morto, Bastardo e Invisível», de Juan José Millás (Temas e Debates, 175 pp.)Jesus e o seu bigode
Um destacado escritor espanhol consegue com as aventuras de um tal Jesus, que é despedido de uma empresa, levar o humor quase até aos limites do absurdo.
O tonto, o morto, o bastardo e o invisível, afinal, são apenas um. Jesus, de seu nome – o que talvez fosse de estranhar se a história acontecesse em Portugal e não em Espanha, onde a ninguém faz espécie que um homem se chame Jesus –, é tudo isso e muito mais, após ser informado pelo chefe de pessoal da empresa onde trabalha de que irá ser despedido. Do mal o menos, terá direito a um ano de salário e a umas palmadinhas nas costas; e depois, conta a certa altura Jesus, «Laura trabalhava, era médica-legista, portanto o horizonte de indigência encontrava-se ainda um pouco afastado». Mas Jesus não consegue encarar a mulher e o filho, sente-se invadido pelo medo e refugia-se na casa de banho. «... deixei que toda a cobardia adiada desde que entrou na empresa uma equipa social-democrata, autorizada a vendê-la em partes, se reunisse de chofre na percepção do espaço (...) fechei várias vezes as torneiras para transmitir a sensação de actividade, confiante de que a angústia se retiraria ao atingir determinada magnitude. Então, lembrei-me do bigode.» Será assim, com a ajuda do bigode, que Jesus irá começar uma vida nova, num mundo bem diferente daquele a que estava habituado e onde as regras são ditadas pela sua imaginação. Juan José Millás, um dos mais destacados nomes da literatura espanhola, consegue com as aventuras de Jesus levar o humor quase até aos limites do absurdo, sem nunca sair dos ambientes quotidianos da vida moderna. Afinal, a vida que leva a sua personagem a empreender uma espantosa fuga, mesmo que para as terras da imaginação. Quantos de nós não terão já estado à beira de fazer o mesmo?
Um destacado escritor espanhol consegue com as aventuras de um tal Jesus, que é despedido de uma empresa, levar o humor quase até aos limites do absurdo.
O tonto, o morto, o bastardo e o invisível, afinal, são apenas um. Jesus, de seu nome – o que talvez fosse de estranhar se a história acontecesse em Portugal e não em Espanha, onde a ninguém faz espécie que um homem se chame Jesus –, é tudo isso e muito mais, após ser informado pelo chefe de pessoal da empresa onde trabalha de que irá ser despedido. Do mal o menos, terá direito a um ano de salário e a umas palmadinhas nas costas; e depois, conta a certa altura Jesus, «Laura trabalhava, era médica-legista, portanto o horizonte de indigência encontrava-se ainda um pouco afastado». Mas Jesus não consegue encarar a mulher e o filho, sente-se invadido pelo medo e refugia-se na casa de banho. «... deixei que toda a cobardia adiada desde que entrou na empresa uma equipa social-democrata, autorizada a vendê-la em partes, se reunisse de chofre na percepção do espaço (...) fechei várias vezes as torneiras para transmitir a sensação de actividade, confiante de que a angústia se retiraria ao atingir determinada magnitude. Então, lembrei-me do bigode.» Será assim, com a ajuda do bigode, que Jesus irá começar uma vida nova, num mundo bem diferente daquele a que estava habituado e onde as regras são ditadas pela sua imaginação. Juan José Millás, um dos mais destacados nomes da literatura espanhola, consegue com as aventuras de Jesus levar o humor quase até aos limites do absurdo, sem nunca sair dos ambientes quotidianos da vida moderna. Afinal, a vida que leva a sua personagem a empreender uma espantosa fuga, mesmo que para as terras da imaginação. Quantos de nós não terão já estado à beira de fazer o mesmo?
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