terça-feira, 10 de julho de 2007

A Padeira - III

Terceiro capítulo de «Brites e as Gaivotas» (início aqui).

Brites e as Gaivotas
Uma história da Padeira de Aljubarrota – Cap. III

E os anos foram passando, uns atrás dos outros, desenfreadamente, como se tivessem pressa de ver Brites fazer-se mulher. Só que não tiveram muita sorte.
- Mulher é que aquilo não é!
Na verdade, Brites não ia nada bem encaminhada para ser rainha de beleza. Era grande como um boi, mal encarada como um lagarto e tinha uma cabeleira que parecia um molho de tojos secos. E diziam que era de bom osso constituída, pois saía sempre inteira das zaragatas de pancadaria em que o seu mau génio invariavelmente a levava a meter-se.
- É uma grande jogadora do pau, melhor até do que alguns homens que eu já tenho visto.
- Sim, maneja o cacete como ninguém.
A Brites nada metia medo. Era o que se podia dizer uma criatura valente.
- Um homem autêntico!
As pessoas assim pensavam. E Brites sem ter culpa nenhuma. Afinal, qual seria o problema de, sendo mulher, ter uma força capaz de levantar acima da cabeça um porco dos gordos, daqueles já prontos para a matança, e ter gosto pela pancadaria? Não poderia uma mulher ser assim? Mal se descuidava e chamavam-lhe logo homem, já era preciso ter azar.
- Grandes machistas, diriam na confraria feminista, se já existisse alguma.

domingo, 8 de julho de 2007

Apresentação de «O que Entra nos Livros», Algarve

Uma sessão de apresentação esta Segunda-feira, dia 9 (16 horas) - ver aqui.
(...)
– António Manuel Venda. O nome, colega, diz-lhe alguma coisa?
– Autor? – perguntou o outro.
– O romance «O Medo Longe de Ti». Editora Temas e Debates.
O homem repetiu tudo para a funcionária, a quem tinha captado o olhar, como se aquilo fosse um jogo de passa-palavra. Enquanto ela se embrenhava nos registos informáticos, ele chegou-se ainda mais perto do senhor Sapinho Júnior e disse-lhe:
– Na Sapinho Livros não têm a obra, presumo…
– Ora exactamente – confirmou o senhor Sapinho Júnior. – E pretendo adquiri-la.
(...)

Textos sobre livros - 31

«Breve História de Quase Tudo», de Bill Bryson (Quetzal Editores, 495 pp.)

A ciência divertida

Aquele que é por muita gente considerado como o maior escritor de viagens da actualidade, num registo algo diferente do habitual, mas sempre fascinante. Notável a escrever, seja sobre a terra dos cangurus, seja sobre os seres que pulam na Grã-bretanha, Bill Bryson mostra em «Breve História de Quase Tudo» como a ciência pode ser uma terra de viagens divertidas e apaixonantes.

Distinguido em 2004 com o «Prémio Aventis», para a melhor obra de divulgação científica, esta «Breve História de Quase Tudo», do «viajante relutante» Bill Bryson, bem poderia fazer parte de algum pacote que apareça por cá à conta do tão apregoado choque tecnológico, de que cada vez se fala menos. O Ministério da Educação – ou o que tem a ver com a ciência e a tecnologia, ou até algum de outras temáticas, como a da economia (se tiver a palavra inovação agarrada) ou até, em último caso, o que trate da solidariedade social –, o Ministério da Educação, dizia, podia bem oferecer um exemplar desta fantástica viagem pela ciência a cada aluno do secundário. Talvez tivesse mais efeitos a médio prazo do que muito do que para aí venha à conta do tal choque.
O poder da escrita de Bryson, o mais lido escritor de viagens do mundo, é colocado aqui exclusivamente ao serviço da ciência, tornando algo capaz de assustar muita gente numa história fascinante (ou num emaranhado de histórias fascinantes), na qual as surpresas surgem a cada página. Porque Bryson fala sobretudo de coisas que dizem respeito a cada ser humano, e ao falar dessas coisas usa sempre um registo tremendamente divertido, deixando a ideia, até pela amostra dos livros de viagens que o tornaram famoso, de que não o faz propositadamente mas sim porque é essa a sua maneira de escrever. Átomos, quarks, aquecimento global, galáxias, partículas, dinossauros, tempestades, ozono, efeito estufa, doenças, estrelas, organismos, cromossomas, galáxias, urânio, asteróides, mil e uma coisas aparecem em menos de 500 páginas onde Bryson condensa a fantástica aventura de quase tudo aquilo que o ser humano conhece.
O ser humano, sempre o ser humano; as pessoas. Muito do fascínio que o livro transmite tem a ver, precisamente, com as pessoas, com as peripécias em que se viram envolvidas na descoberta de… quase tudo. Veja-se como Bryson fala a certa altura da famosa Madame Curie, vencedora de dois Prémios Nobel e que «nunca foi eleita para a Academia de Ciências, em grande parte por, depois da morte de Pierre, ter tido um caso com um físico casado que era suficientemente indiscreto para escandalizar até os franceses – ou, pelo menos, os velhotes que dirigem a academia, o que não será bem a mesma coisa»: «Durante muito tempo, pensou-se que uma coisa tão milagrosamente energética como a radioactividade só podia ser benéfica. Durante anos, vários fabricantes de pasta de dentes e laxantes puseram tório radioactivo nos seus produtos (…) A radioactividade só foi banida dos produtos de consumo em 1938. Nessa altura já era tarde de mais para Marie Curie, que morreu de leucemia em 1934. A radiação é tão perniciosa e duradoura que ainda hoje todos os seus artigos científicos de 1890 – até os seus livros de cozinha – são demasiado perigosos para serem manuseados livremente. Os seus livros de laboratório estão guardados dentro de caixas forradas a chumbo, e quem quiser consultá-los tem de usar roupas especiais de protecção.»
Veja-se ainda uma tirada sobre Isaac Newton: «em estudante, frustrado sobre as limitações da matemática convencional, inventou o cálculo, uma forma matemática inteiramente nova, mas não contou nada a ninguém durante 27 anos». Mas há mais, sempre assim, com a marca divertida de Bill Bryson.

sábado, 7 de julho de 2007

A promiscuidade entre a política e o futebol

A imagem aqui ao lado é uma parte de uma foto divulgada no blog «Mons Cicus». Lá se conta uma estranha (provavelmente inédita não só em Portugal mas em todo o mundo) história de promiscuidade entre a política e o futebol. Em três posts (1, 2 e 3) pode-se ficar a perceber não direi tudo, mas boa parte deste caso que só não surpreende quem não conhece aquilo que é a política em Monchique, ou melhor, que tem sido no último quarto de século de regime «ditutarial».
Na última reunião da Assembleia Municipal, o presidente da câmara apareceu com uma pasta de papelada sobre o assunto, esteve uma meia-hora em explicações e no final tentou decretar que estava tudo explicado e que não se falava mais no assunto. Depois dessa meia-hora, só se poderia fazer uma pergunta: «Importa-se de repetir?» Isto porque não deu para perceber nada da situação.
Muito resumidamente, os responsáveis do clube de futebol mandaram tirar a cortiça dos terrenos que envolvem o campo de jogos e venderam-na. Só que esses terrenos, embora o presidente da câmara diga que pertencem ao clube, parece que pertencem à câmara (um dos seus vereadores – seus dele, presidente – diz isso, precisamente o vereador que apresentou a proposta do post 3 referido ali acima).
Curiosamente, na reunião da Assembleia Municipal estava o presidente do clube (é deputado da maioria que suporta o presidente da câmara), mas não interveio – aliás, eu nunca assisti a uma intervenção dele desde que estou na Assembleia Municipal; como outros deputados da sua bancada, apenas faz sinal com o braço nas alturas de votação.
Esta posição do vereador que diz que os terrenos pertencem à câmara é uma novidade para mim. Nos meus tempos de vereador, ele, o presidente e o vice-presidente votavam sempre no mesmo sentido, invariavelmente contrário àquele que era defendido por mim e pelo meu colega (que completávamos o executivo, de cinco elementos). Aliás, das dezenas de propostas que fiz mais o meu colega (uma delas era para retirar ao presidente o uso de uma das duas viaturas que costumava conduzir – ou o carro ou o jipe), creio que só em relação a uma delas é que não tiveram lata para votar contra; era para não se fumar nas reuniões de câmara (fumavam os três até aí, e não sei se entretanto a prática já foi retomada). Mais surpresa ainda é a posição do vereador porque ele nas reuniões praticamente não intervinha, apenas votava, e muitas vezes nem isso; o presidente antecipava-se e dizia coisas do género «pronto, nós votamos assim» e a coisa seguia. A partir de uma certa altura, como aquilo já me chateava, comecei a protestar, para que o presidente deixasse os seus dois vereadores falarem, para que dessem opiniões, e a situação mudou um pouco; este vereador da proposta do post 3 parecia sentir necessidade de intervir, de dizer qualquer coisa, nem que fosse uma redundância qualquer. Mas continuavam os três a votar sempre no mesmo sentido, como se aquela união fosse inquebrável. Daí a minha surpresa com a actuação daquele vereador. O resto, como referi no início, não me surpreende absolutamente nada.

A Padeira - II

Segundo capítulo de «Brites e as Gaivotas» (início aqui).

Brites e as Gaivotas
Uma história da Padeira de Aljubarrota – Cap. II

- Primeiro que tudo, esclareça-se já uma coisa. A gente está para aqui a falar de mulher, mulher para cá, mulher para lá, e a criatura, afinal, ainda vem nascendo.
A mãe gritava que nem uma louca, e as pessoas até se arrepiavam. Era uns gritos que se ouviam pelos quatro cantos de Faro, e os restantes algarvios só não ouviam também porque fora da cidade a distância já começava a ser grande demais. Coisa que se calhar até nem lhes causava grandes prejuízos.
- A criança nasceu agora mesmo.
- E como já se disse que iria ser mulher, estragou-se logo a surpresa.
O pai estava tão babado que gritou em menos de nada que havia vinho para todos.
- Ah, é isso mesmo, a gente tinha-se esquecido de dizer que o homem tem uma taberna. Modesta, é certo, mas quando o vinho é de graça ninguém se importa com luxos!
- Quer dizer, eu gosto de ser bem servido.
- Bebe e cala-te, mal agradecido!

Começos prometedores - 3

«– Filhusdumagrandessíssima – balbuciou Lituma, sentindo que ia vomitar.»
Início do romance «Quem Matou Palomino Molero?», de Mario Vargas Llosa, 1986 (edição portuguesa de Publicações Dom Quixote, 1988)

A Padeira - I

Leio aqui, no blog «Casario do Ginjal», uma referência a uma mulher da minha terra, a célebre Padeira de Aljubarrota. Eu não sou de Aljubarrota, sou de bem longe, do Algarve; a mulher, que se chamava Brites de Almeida, nasceu na cidade de Faro (e as voltas da vida é que a levaram até Aljubarrota, onde encontraria, digamos assim, a fama). Em tempos escrevi um conto que acaba por ser a história da padeira Brites de Almeida. Faz parte do livro «O Velho que Esperava por D. Sebastião», publicado em 1999. Vou publicar esse conto aqui, em pequenos capítulos. Chama-se «Brites e as Gaivotas».

Brites e as Gaivotas
Uma história da Padeira de Aljubarrota – Cap. I

Puseram-lhe o nome de Brites, que era mesmo um nome um bocado estranho para uma mulher.
- Brites de Almeida.
E ninguém sabia se o Almeida era da parte do pai, se da parte da mãe. De algum haveria de ser, ou se calhar até seria dos dois.
- Sim, vá lá a gente dar palpites! Só aparecerão os cartórios daqui a muitos anos, e serão bem demorados, tanto os anos como os cartórios. Por isso, fica já avisado quem estiver à espera para ver ou quem estiver pensando em lá ir.
- Bem, adiante.
Os desvios do caminho principal eram coisas que não interessavam. Coisas que alguns se punham a dizer para aumentarem a conversa.
- Há quem goste muito de falar.
A verdade é que o facto de a mulher ser Almeida gerava um grande burburinho. Não sobre a veracidade do apelido, que era garantida, mas sobre a proveniência, que como se disse ninguém sabia. Seria do pai, como de costume? Seria da mãe? Seria dos dois?
- É esta a fé de quase toda a gente. Casa-se um Almeida com uma Almeida, se calhar até são primos, e depois nasce uma criatura capaz de deixar o Diabo de boca aberta. Pode muito bem acontecer.
- Mas o melhor é esquecermos isso. Ainda estamos todos enganados, para aqui a conversarmos, ora um ora outro…
- Sim, sabe lá a gente o que diz!
- Exactamente, vizinho! Vamos é para acontecidos vistos e deixemos de fazer figuras tristes de gente alcoviteira.

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Frases mal ditas - 5

«Como os sioures comprendem, p’la história, p’la autoridade e p’la razão de ser, o Partido Socialista não recebe lições de democracia de ninguém nesta câmara.»
Alberto Martins, líder parlamentar do Partido Socialista, 05.07.07 (na Assembleia da República)

Nota: Acho inacreditável a figura triste que Alberto Martins anda a fazer no Parlamento; escrevo isto porque me lembro de que antes do 25 de Abril foi capaz, na Universidade de Coimbra, onde liderava a Associação de Estudantes, de levantar bem a voz para Américo Tomás – é claro que estava a levantar a voz para um idiota, mas muitas das pessoas que rodeavam o idiota não eram para brincadeiras.

Vale a pena

Vale a pena ler o artigo de Baptista Bastos de hoje no «Jornal de Negócios». E o de Sexta-feira passada a mesma coisa. São duas peças notáveis sobre o actual estado (sujo, bastante sujo) da governação em Portugal.

Uma apresentação no Algarve

Uma apresentação do romance «O que Entra nos Livros»… Segunda-feira, dia nove, pelas 16 horas, no Algarve (Vila Real de Santo António – Centro Cultural António Aleixo). A apresentação está integrada na iniciativa «Nas Páginas dos Livros», da Câmara Municipal de Vila Real de Santo António.

terça-feira, 3 de julho de 2007

Entrevista sobre «O que Entra nos Livros»

Uma entrevista sobre o romance «O que Entra nos Livros»… Será no programa «Essência», da SIC Mulher, esta Quinta-feira, dia 5 (18h15 – 19h45); apresentação de Ana Marques. O programa será repetido no próximo Domingo, dia 8, às 15h00.

Textos sobre livros - 30

«Sem Notícias de Gurb», de Eduardo Mendoza (Notícias Editorial, 154 pp. – isto no meu exemplar, porque agora a editora chama-se Casa das Letras)

Mendoza divertidíssimo

Dois extraterrestres na cidade de Eduardo Mendoza, Gurb e um companheiro do qual não se chega a saber o nome, coisa que na obra do escritor catalão não é novidade. Como o prodígio da imaginação.

Tomei contacto com a obra de Eduardo Mendoza (n. Barcelona, 1943) em finais da década de 1980, quando uma série de livros seus foram lançados numa colecção da Dom Quixote chamada «Letras de Espanha». Mendoza surgiu então entre nomes completamente desconhecidos como Luis Landero ou Jesus Moncada e outros de situação bem diferente por cá, como o Nobel de 1989, Camilo José Cela. O primeiro livro que li de Mendoza foi uma das sagas do seu detective inominado (tal como o extraterrestre narrador de «Sem Notícas de Gurb»), que vive num manicómio de Barcelona, «O Labirinto das Azeitonas». Lembro-me de ter lido os primeiros capítulos das aventuras do inusitado investigador numa praia algarvia perto da minha terra, Monchique, e de ter ficado um bocado atrapalhado por não saber o que fazer com as gargalhadas que o livro me provocava no meio do areal cheio de gente. Era a segunda aventura; a primeira, que comprei e li mal cheguei ao fim dessa, «O Mistério da Cripta Assombrada», estava então nas Edições Afrontamento. Depois, claro, li outros livros de Mendoza, «A cidade dos Prodígios» (o primeiro título da colecção da Dom Quixote, onde a verdadeira personagem central é a Barcelona dos anos que intermediaram as duas exposições universais que a cidade acolheu, em 1888 e em 1929) ou «A Verdade Sobre o Caso Savolta» (a estreia de Mendoza como romancista, em 1975, altura em que vivia em Nova Iorque, e já com Barcelona a fazer de protagonista, a Barcelona palco de confrontos entre operários e patrões, no rescaldo da Primeira Guerra Mundial). Estes eram romances mais sérios, mais densos, e aumentaram o meu fascínio pelo autor, tendência que nem outros títulos que li depois («A Ilha Inaudita» ou «O Ano do Dilúvio», que não me marcaram particularmente, sobretudo pelos temas que exploravam) conseguiram inverter.
Já tinha ouvido falar de «Sem Notícias de Gurb», que é o resultado de uma colaboração de Mendoza com o jornal espanhol «El País», quando a cidade de Barcelona estava de pernas para o ar por causa das obras para os Jogos Olímpicos que viria a acolher em 1992. Já tinha ouvido falar, mas não fazia ideia do assunto que tratava. Depois de ler, a sensação com que fiquei é de que só mesmo Mendoza poderia ter escrito um livro assim. A comprová-lo, o comentário que a editora portuguesa trouxe de Espanha junto com o texto em forma de diário de um extraterrestre, o comentário de um crítico (suponho) que diz: «Trata-se de um livro ligeiro, de leitura fácil e bastante perigoso para quem lhe pegue pela primeira vez. É recomendável que a sua leitura se faça em privado, não vá o leitor ter um ataque incontrolável de riso e passe por louco.» Como me lembrei daquela tarde de praia de 1989, eu a ler os primeiros capítulos de «O Labirinto das Azeitonas»... E como me lembrei agora, em 2004 [este texto é de 2004], ao ler o diário escrito pelo extraterrestre sem nome, o companheiro de Gurb, como me lembrei de que deixar uma história assim (dois extraterrestres com poderes quase ilimitados à solta em Barcelona) nas mãos de um grande escritor só podia resultar num livro divertidíssimo. À conta do génio de Mendoza, esquece-se até os problemas da tradução (e a revisão vai pelos mesmos caminhos). Convinha a editora – Notícias Editorial [actual Casa das Letras] – ter mais atenção, pois já num livro anterior que publicou («A Aventura do Cabeleireiro de Senhoras», terceira aparição do detective sem nome) estes problemas são bem evidentes. Mendoza não merece, nem os leitores. E o companheiro de Gurb não gostaria de ver o seu diário assim tratado, ele que se calhar ainda anda por aí, ele e Gurb, mais de uma década depois, sem darem notícias.