Mais uns bocadinhos do meu novo romance, «O que Entra nos Livros», no blog «Miniscente», de Luís Carmelo, em pré-publicação.
quarta-feira, 9 de maio de 2007
terça-feira, 8 de maio de 2007
«O que Entra nos Livros»
Chega hoje às livrarias o meu novo romance (ed. AMBAR), de que tenho vindo a falar aqui. Deixo a seguir uma sinopse e o início.Sinopse
Uma estranha carta sobre o romance de António Manuel Venda «O Medo Longe de Ti», publicado em 2003, chega ao autor através da editora, depois de para lá ter sido enviada por um homem que assina J. D. Sapinho Júnior. Trata-se de um velho livreiro de Évora que parece muito interessado numa das personagens e que a certa altura escreve o seguinte: «poderia ajudar-me desde já se, na volta do correio, me enviasse (caso tenha nos seus apontamentos) uma descrição o mais detalhada possível de uma personagem do seu último romance, o mágico velhinho, personagem da qual, em todo o texto (que li por diversas vezes), não abunda a caracterização». O livreiro tem uma longa história para contar.
(«O que Entra nos Livros», de António Manuel Venda, Ed. AMBAR, 200 pp.)
O início
Chamo-me António Manuel Venda. Talvez não devesse começar assim, até porque se este relato for publicado, imaginemos que sob a forma de livro, o nome do autor aparecerá na capa. E depois, no interior, é bem provável que esse mesmo nome seja repetido quase até à exaustão, no topo de cada uma das páginas da esquerda, as de numeração par, numa espécie de desafio ao título, que dominará cada uma das da direita. Mas também há a hipótese de este relato não conhecer a publicação, e aí as coisas já serão diferentes. Se alguma pessoa o encontrar, nem interessa agora estar com especulações sobre o tipo de suporte, poderá querer logo saber quem o escreveu. Neste caso, a presença do nome a abrir o texto não será despropositada. Mas adiante, que os factos são muitos e importa deixá-los escritos antes que a memória, a minha memória, os remeta para um qualquer compartimento enevoado, daqueles onde as coisas parecem ser apenas o resultado de um sonho.
Em Setembro de 2003 publiquei um romance intitulado «O Medo Longe de Ti». Conta uma história de amor. Um jovem escritor português, que vive rodeado pelas suas personagens, encontra na Alemanha a rapariga mais bonita do mundo. Os dois apaixonam-se, mas o jovem escritor acaba por fugir. Isso acontece quando o medo de algum dia perder a rapariga se torna mais forte do que ele. Abandona um programa de estudos numa universidade da Floresta Negra em que ambos se tinham matriculado e viaja de regresso a Portugal. Uma das suas personagens, um mágico pequenino e de idade avançada, que lhe apareceu pela primeira vez quando estava na floresta em cima de uma árvore, faz a mesma viagem. O jovem escritor chega a imaginar como ele o segue num carro de modelo igual ao seu, e da mesma cor, mas de dimensões bem mais reduzidas. E as outras personagens acabarão por fazer um percurso idêntico, os «amigos», como o jovem escritor diz, e os «seres maus», expressão que também lhe pertence. Dezoito ou dezanove anos depois, o escritor, que nunca tirou da cabeça a rapariga mais bonita do mundo, e que continua a viver rodeado pelas suas personagens, inclusive pelo mágico, que é referido ao longo do romance apenas como mágico velhinho, tem um encontro surpreendente, em Lisboa, durante um debate literário.
Este é um resumo da história de «O Medo Longe de Ti». Por causa desse romance, durante os meses seguintes à sua publicação participei nalgumas iniciativas, principalmente em bibliotecas ou livrarias, além de feiras do livro. Falei da história, li pequenos excertos, conversei com leitores, estive em debates, dei alguns autógrafos... Enfim, a mesma coisa que tinha acontecido com os livros anteriores. Até que um dia, mais de um ano depois de o livro ter aparecido nas livrarias, corria o mês de Janeiro de 2005, aconteceu algo absolutamente… Bem, ia para escrever surpreendente, mas não, foi mais do que isso, muito mais.
Tudo começou com um envelope que recebi dos serviços da editora e que deixei uns dias em cima da secretária, por abrir, pensando que se tratava do convite para o lançamento de algum livro. Quando finalmente o abri, dei-me conta de que não era nada disso, de que se tratava de uma carta de alguém a tentar contactar-me através do endereço da editora. Não aparecia o nome de uma pessoa no remetente, mas sim o de uma livraria: «Sapinho Livros Lda». Confesso que não senti uma grande curiosidade em ver o conteúdo, tanto que coloquei a carta na pasta do trabalho e só à noite, ao arrumar alguns documentos, acabei por ficar a saber de que é que se tratava. Tinha apenas um cartão e uma folha A4, escrita de um dos lados, à mão, numa caligrafia muito cuidada e com uns curiosos salamaleques nas letras maiúsculas. Dizia assim…
Caríssimo escritor A. M. Venda
Escreve-lhe J. D. Sapinho Júnior para convidá-lo a deslocar-se à sua humilde livraria, em Évora, no endereço que poderá ver no cartão em anexo. Não é um convite para uma palestra sobre o seu último romance, nem tão-pouco para uma sessão de autógrafos. É, antes, para uma conversa comigo, que seria bom que tivesse lugar no espaço da livraria, e sobre a qual (a conversa, não a livraria) desde já lhe peço o mais absoluto sigilo. Agradeço que me confirme a sua vinda através do número de telefone que aparece no cartão.
Não tenho o seu endereço, nem sei onde reside (talvez em Lisboa, como boa parte dos nossos escritores), pelo que resolvi contactá-lo através da prestigiada casa que o edita.
Não tenho o seu endereço, nem sei onde reside (talvez em Lisboa, como boa parte dos nossos escritores), pelo que resolvi contactá-lo através da prestigiada casa que o edita.
Cumprimenta-o,
J. D. Sapinho Júnior
Acrescento – poderia ajudar-me desde já se, na volta do correio, me enviasse (caso tenha nos seus apontamentos) uma descrição o mais detalhada possível de uma personagem do seu último romance, o mágico velhinho, personagem da qual, em todo o texto (que li por diversas vezes), não abunda a caracterização.
O meu primeiro impulso foi…
segunda-feira, 7 de maio de 2007
Apenas o resumo
Sporting – 3 (autogolo, Liedson 2), Setúbal – 1. Muito pouco a dizer. Vi apenas um pequeno resumo do jogo, e soube o resultado final já depois da meia-noite. Compromissos familiares alhearam-me do mundo; nem das eleições soube, as da Madeira e também as de França (onde elegeram um meio húngaro que não inspira confiança). Mas do resumo ficaram-me algumas ideias: a de que o Sporting ganhou com facilidade (o que me faz continuar a pensar que na Luz a desistência de lutar pela vitória foi uma grande irresponsabilidade – e veja-se o que a Naval foi agora fazer à Luz); a de que Ricardo mesmo sendo o guarda-redes com menos golos sofridos nos principais campeonatos europeus, ameaça voltar a uma das suas fases de deixar entrar uma bola defensável de vez em quando (foi o que me pareceu no golo do Setúbal); e o melhor, o mais interessante mesmo, Liedson passou a liderar a lista dos melhores marcadores. Próxima meta, Paços de Ferreira, a ver o que faz ao Porto (dava jeito um golo nem que fosse com a mão, ou então que o Porto jogasse com um caneira qualquer incapaz de fazer um sprint e então o Paços de Ferreira marcasse um golo como o que fez quando recebeu o Sporting).sábado, 5 de maio de 2007
Sobre árvores cortadas III
Finalmente, um excerto do romance que vai sair agora («O que Entra nos Livros»); deve estar nas livrarias a partir de terça-feira, dia oito de Maio...(…) Daí a pouco, já de regresso a casa, o telemóvel tocou num dos bolsos das calças, o que me fez dirigir o carro para a entrada de uma das estações de serviço de Monchique, numa zona em que a estrada era ladeada por enormes plátanos. Os mesmos que muitos anos antes me tinham inspirado parte do enredo de um conto chamado «A Costureira, o Raposo, o Pisco e o Plátano». A costureira tinha uma casa com costureirinhas muito jovens e dela dizia-se que se dedicava a um negócio bem diferente do da costura. O Raposo era um contador de histórias que vivia num sítio do concelho chamado Besteiro, e era conhecido como Raposo do Besteiro; um exemplo de uma história era a de quando tinha viajado para Lisboa à procura da Aranha aos Quadrados, sendo que depois, em Lisboa, de cada vez que via uma mulher vestida de xadrez, chegava-se ao pé dela e perguntava-lhe se era a famosa Aranha aos Quadrados, com resultados que não podiam deixar de ser considerados um pouco estranhos. O Pisco era o Pisco de Vale Moinhos, um homem muito esquisito que transportava uma bigorna e um martelo de sapateiro em cima de um carrinho de madeira, fazendo-se acompanhar por sete cães ainda mais esquisitos do que ele. E finalmente o plátano… Era um dos daquela zona, um que tinha sido cortado e cujo fantasma acabava por regressar, sendo impossível perceber alguma diferença em relação ao original.
Já tinham passado muitos anos sobre a escrita da história que metia a costureira, o Raposo do Besteiro, o Pisco de Vale Moinhos e o fantasma do plátano, mais de quinze, embora a sua saída em livro fosse um pouco mais recente. Eu lembrava-me muitas vezes dela quando passava na zona dos plátanos, tal como me lembrava de outras histórias dos meus primeiros livros quando passava noutras zonas da serra; aquela era apenas mais uma vez em que isso acontecia. Só que não durou muito a lembrança, porque o toque do telemóvel trouxe-me à memória o senhor Sapinho Júnior, o livreiro de Évora. De rompante, como se nenhuma das minhas histórias fosse capaz de lhe resistir.
Isto é o final de um capítulo.
Sobre árvores cortadas II
Noutro dos meus livros, também um de contos, mais uma árvore cortada, ou melhor, várias árvores (conto «Uma Mulher à Espera», do livro de 2005 «O Amor por entre os Dedos»). Um excerto…(…)
Claro que a mulher só lamuriava de vez em quando, principalmente ao fim da tarde, quando os pardais começavam a amalhar-se nas árvores do largo da câmara. Aliás, um dos assessores do presidente...
- Pois, o tal que na cerimónia confirmou a justeza do preto para o busto do rapazito, que tem a mania de que é um grande escritor.
... o assessor de maior graduação, segundo se opinava nos corredores municipais quando tocava a falar de aguardente de medronho, que era o produto tradicional da terra. Ou melhor, da serra, porque além de Santo Estêvão havia mais terras produtoras por toda a serra. Esse assessor entregou um relatório ao presidente da câmara em que defendia que o grasnar...
- Você escreveu grasnar no relatório?!
- Sim, senhor presidente.
- Ó doutor, grasnar?! Num relatório dos meus serviços?!
- Bem, senhor presidente, é realmente um relatório desses, sem dúvida, mas como parece tratar-se de uma acção de protesto, já se sabe, tem uma componente política marcante…
- E daí o grasnar?!
- Sim, senhor presidente.
O que o assessor defendia era que o grasnar da mulher, ou lá o que fosse que ela fazia...
- Doutor, desculpe estar a telefonar-lhe quase de cinco em cinco minutos.
- Diga, senhor presidente!
- O senhor refere aqui, na página cinco do relatório, e passo a ler, «o grasnar, ou lá o que é aquilo que a amaldiçoada faz».
- Exactamente, senhor presidente.
- Quer dizer que não há certezas?!
- De facto, não há.
Bem, mas o que o assessor defendia era que a mulher grasnava, «ou lá o que é aquilo», por causa dos pardais. Outros diziam, como se viu, que ela lamuriava.
- Bom, grasnar ou lamuriar...
Depois de uma quebra, continua assim…
Ora, o presidente da câmara nem pensou duas vezes. Mandou cortar todas as árvores do largo.
- Também, já eram velhas!...
- Velhas é favor, senhor presidente.
- Podia ter mandado matar os pardais, mas eram muitos e ainda por cima bem manhosos, capazes de se esconderem em menos de nada...
(…)
Sobre árvores cortadas
Os posts anteriores fazem-me lembrar que nos meus livros também aparecem árvores cortadas. Normalmente a mando de autarcas. No primeiro («Quando o Presidente da República Visitou Monchique por Mera Curiosidade», publicado em 1996) há um conto chamado «A Costureira, o Raposo, o Pisco e o Plátano». A certa altura pode ler-se…(...)
Um dos plátanos de Santa Clara foi deitado abaixo, cortaram-no e venderam a madeira para a serração. A junta de freguesia precisou de abrir um caminho e o raio da árvore tinha logo nascido naquele sítio. Talvez já tivesse uns cem ou duzentos anos, ou até mais do que isso. Quanto aos irmãos do plátano, não os cortaram, tiveram mais sorte, nasceram em melhor sítio.
– Às vezes é logo ao nascer que se fica com o destino irremediavelmente marcado.
Um dos plátanos de Santa Clara foi deitado abaixo, cortaram-no e venderam a madeira para a serração. A junta de freguesia precisou de abrir um caminho e o raio da árvore tinha logo nascido naquele sítio. Talvez já tivesse uns cem ou duzentos anos, ou até mais do que isso. Quanto aos irmãos do plátano, não os cortaram, tiveram mais sorte, nasceram em melhor sítio.
– Às vezes é logo ao nascer que se fica com o destino irremediavelmente marcado.
(...)
E mais adiante…
(...)
E mais adiante…
(...)
O plátano que cortaram em Santa Clara apareceu três dias depois no mesmo sítio, com as folhas bem verdes e a dar boa sombra. Na serração ninguém dava com a madeira, tanto que muita gente achava que havia mão de bruxa no assunto. Restava saber de que bruxa, porque a fama de várias mulheres das redondezas para as artes do oculto era muito grande. Podia ser obra de qualquer uma delas, podia até ser obra de todas ao mesmo tempo.
O presidente da junta dizia que nunca tinha pensado que as bruxas pudessem estar de sentido virado para a ecologia, ou melhor, falava-se que ele se tinha saído com essa. E também se falava que a princípio ele não tinha querido acreditar que o plátano tivesse aparecido no sítio de onde o tinham cortado, que tinha dito que o mais certo era tudo não passar de mais uma das histórias do Raposo do Besteiro. Só que não era, o plátano estava de novo no sítio onde nascera e ganhara corpo de árvore.
O presidente da junta dizia que nunca tinha pensado que as bruxas pudessem estar de sentido virado para a ecologia, ou melhor, falava-se que ele se tinha saído com essa. E também se falava que a princípio ele não tinha querido acreditar que o plátano tivesse aparecido no sítio de onde o tinham cortado, que tinha dito que o mais certo era tudo não passar de mais uma das histórias do Raposo do Besteiro. Só que não era, o plátano estava de novo no sítio onde nascera e ganhara corpo de árvore.
(...)
Custa a acreditar
Esta foto foi publicada no dia 17 de Abril no blog «Casario do Ginjal». A árvore foi cortada. O autor escreve… «Depois de visitar o [blog] ‘Paul dos Patudos’, achei que devia mostrar a ‘árvore da boa sombra’ à Ana Paula, para que ela visse a beleza deste monumento, que foi arrancado à terra que o viu nascer, crescer e viver durante mais de dois séculos./ Não quero alimentar polémicas, até porque este tema foi debatido há pouco tempo no blogue ‘Em Almada’, com a minha participação. O que não me inibe de dizer, quase dois anos depois, que continua a ser um acto indesculpável e um atentado ao Património Almadense./ Na altura escrevi uma crónica no ‘Jornal de Almada’, cujo texto teve o seguinte destaque na primeira página do semanário almadense: ‘Era um ex-libris da cidade, um monumento que a natureza preservara, durante anos e anos, para alegria de todos os almadenses. Até que, pelos vistos, houve alguém que se achou com poder suficiente para decidir o futuro da árvore, que pertencia a todos nós, como se ela estivesse ali a mais e já fosse tempo de a transformar em lenha.’»quinta-feira, 3 de maio de 2007
Entrevista com Soares Franco
Coloquei no meu outro blog («Mundo RH») uma entrevista feita em Abril do ano passado para a revista «Pessoal» com Filipe Soares Franco. Tema: dois mundos, o das empresas e o do futebol. Colocarei daqui a uns dias, no mesmo blog, uma entrevista feita antes para a mesma revista com Rui Meireles.terça-feira, 1 de maio de 2007
Pequenas histórias - 10
Antes de rebolar, de preferência numa superfície de pedras pequeninas, para se libertar da água que não sai a poder de um simples movimento brusco. Há gotas que percorrem devagar o capim feito de pêlos, à procura de nada. Percorrem, apenas isso, e por longos minutos, até se fixarem nas pedras pequeninas. As pedras pequeninas não têm cócegas. Talvez as grandes...
Os negociantes
Ainda sobre o jogo do Sporting na Luz… Parece-me que uma resposta para a acomodação da equipa poderá estar nos dirigentes. É tudo gente dos negócios, para quem conta sobretudo a facturação e aquela coisa de que antes só se falava nas empresas mas de que agora também se fala no mundo do pontapé na bola, a gestão de activos (passivos é que nem pensar em geri-los). «Se o segundo lugar dá direito a ir à Liga dos Campeões, para quê esforçarmo-nos a lutar pelo primeiro?», poderão perguntar-se os negociantes do Sporting. Vá lá que o quinto lugar não dá para ir à liga milionária, nem o décimo, nem o último, senão nem sei para que metas apontaria aquela gente.
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