segunda-feira, 30 de abril de 2007

Grass

Nenhuma destas cebolas, quase de certeza, será algum dia descascada por Günter Grass. Também não deverá escrever sobre nenhuma delas. E eu, tirando isto, também não me estou a ver a escrever mais. Mas nunca se sabe. Foram plantadas hoje, pela fresca, e devem dar uma boa colheita. (clicando na imagem vê-se melhor)

Uma tremenda frustração, mas mesmo assim...

Benfica – 1, Sporting – 1 (Liedson). No post do último jogo do Sporting, escrevi que guardava as palavras para o jogo de ontem à noite, melhor, para «as façanhas» desse jogo. Tinha a sensação de que tudo ia correr bem, e na noite anterior, o jogo macaco do Porto tinha ajudado a confirmar essa sensação. Ontem, com o empate na Luz, fiquei sem saber bem o que pensar, e sem saber bem o que fazer às palavras. Parece que o Sporting poderia ter ganho facilmente o jogo por dois ou três golos, mas a verdade é que apenas empatou e se tivesse tido azar num ou noutro lance poderia ter perdido. Assim, substituo as palavras das façanhas por algumas frases soltas de coisas que fui observando.
- Durante o jogo, não percebi se foi a equipa que não conseguiu ganhar se foi Paulo Bento que a fez apenas empatar; no final, ao ouvir Paulo Bento, pareceu-me que foi mesmo ele que não se atreveu a ganhar o jogo, o que não é nada bom (ou seja, Paulo Bento é um treinador corajoso, atrevido, mas assim uma espécie de corajoso atrevido no seu bairro, um pouco embasbacado quando é preciso cometimentos maiores).
- Apesar de tudo, deu-me gozo ver em determinados momentos a equipa do Sporting jogar, com oito excelentes jogadores, alguns mesmo verdadeiros craques.
- De oito para onze faltam três, Ricardo e os dois centrais que costumam ser «disfarçados» pela capacidade de jogar dos colegas.
- Ricardo tem andado a jogar certinho e a fazer umas defesas de valia de vez em quanto, e ontem fez mais algumas, mas é sempre aquilo que se sabe, a qualquer momento pode enterrar uma equipa, nem que isso aconteça de três em três meses; ontem, depois de uma defesa muito boa, ficou paralisado com o remate de Miccoli, que lhe passou bem perto, e aí começou a desgraça do Sporting.
- Caneira confirmou que é mesmo uma tragédia com botas de futebol, e o que dá mesmo que pensar é que Paulo Bento aposta nele (veja-se a entrada de Tonel, para o lugar de um bom jogador – Abel – que Caneira foi substituir, ou antes, Caneira foi andar de um lado para o outro na zona de jogo de Abel, como antes tinha andado de um lado para o outro na zona central);
- Polga, ao contrário de Caneira, dá tudo e mais alguma coisa, mas é a falta de jeito em estado puro – somando aplicação e falta de jeito, mesmo assim ainda dá para controlar alguma coisa no centro da defesa.
- Provavelmente com Mourinho no banco a equipa ganhava o jogo com dois ou três gritos para o relvado do special one; o pior é pensar que talvez até com uns gritos de Jaime Pacheco ou de Jorge Jesus a equipa teria ganho – com Peseiro, o melhor é nem imaginar o que poderia ter acontecido, e com o triste Fernando Santos idem idem, eventualmente sem aspas.
Mais umas coisas… Como teria sido o jogo com Custódio em vez de Miguel Veloso? E jogando Caneira e lateral direito logo de início, para onde teria ido o centro que depois Liedson mandou para o fundo da baliza de Quim? E se os oito jogadores de campo que ontem foram acompanhados por Polga e Caneira tivessem dois centrais do tipo de outros que o Sporting teve nos últimos anos (Luisinho, Marco Aurélio, André Cruz, por exemplo)?
De qualquer forma, eu ainda estou tentado a acreditar; vou estar atento, sobretudo, ao Porto. Continuo sem conseguir imaginar Jesuldo Ferreira a ganhar um campeonato; pode ser que o Sporting tenha muita sorte e faça sentido esta minha falta de imaginação.

sexta-feira, 27 de abril de 2007

Textos sobre livros – 25

Livro: «O Vendedor de Passados», de José Eduardo Agualusa (Publicações Dom Quixote, 231 pp.)


Borges, uma osga

Um vendedor de passados, falsos, já se vê, é a personagem que José Eduardo Agualusa utiliza neste romance para construir uma sátira e ao mesmo tempo uma reflexão sobre a Angola dos nossos dias; um país onde de repente aparece Jorge Luis Borges.

Angola, um país a passar do socialismo para um capitalismo completamente selvagem, segundo o autor de «O Vendedor de Passados», José Eduardo Agualusa (n. Huambo, 1960), e provavelmente com muita gente a assinar por baixo. Podem acontecer aí as coisas mais estranhas, acontecem de certeza, mas estranho não será aparecer um vendedor de passados falsos, passados esses que deverão passar a funcionar como verdadeiros. Em quantos países em plena transformação não poderia um profissional assim fazer fortuna? Pensemos no Portugal do pós-25 de Abril (pensemos até no Portugal de agora, que talvez não chegando para a fortuna na volta dava para construir uma existência, no mínimo, desafogada a vender passados...).
Mas mesmo não sendo estranho o vendedor de passados numa terra em transformação, é indiscutivelmente uma ideia fabulosa para um romance, ainda mais se desenvolvida por um escritor como há poucos na língua portuguesa. Félix Ventura (personagem, não o escritor, que esse é José Eduardo Agualusa) vende passados falsos e tem um cartão de visita onde se pode ler «Ofereça aos seus filhos um passado melhor». Quantas pessoas não gostariam de construir de um dia para o outro um passado melhor? De forma a, para utilizar o chavão, viverem melhor o presente, e assim prepararem o futuro...
José Eduardo Agualusa já afirmou que o romance lhe saiu apenas da imaginação, que ao contrário do que escreveu imediatamente antes («O Ano em que Zumbi Tomou o Rio») não precisou de fazer investigação. Talvez não seja apenas a imaginação, talvez a investigação seja automática, assegurada pelo correr dos dias do país do autor. Mesmo que não quisesse investigar, ele investiga; mesmo que não quisesse preocupar-se, ele preocupa-se. E escreve, divertindo-se, ele que não consegue fazê-lo de outra forma, ao contrário de tantos casos que a literatura conhece de ginjeira. Diverte-se até com Jorge Luis Borges, Borges que mesmo reencarnando no corpo de uma osga não parece chatear-se muito, até porque tem a oportunidade de fazer as considerações que bem entende, ou melhor, as considerações que José Eduardo Agualusa bem entende que ele deve fazer; e isso basta-lhe.

quarta-feira, 25 de abril de 2007

Há 33 anos

Faz hoje 33 anos… Uma quinta-feira de um Portugal ainda a preto e branco, ou talvez cinzento; sim, cinzento pode muito bem ser a palavra certa. Lembro-me como se fosse ontem.

O meu golpe demasiado azul
O dia 25 de Abril de 1974. Lembro-me perfeitamente desse dia, apesar de ter então apenas seis anos. Melhor, se alguém me aparecer com a velha pergunta de onde é que estava no 25 de Abril, não terei dificuldade em responder, ainda que nessa altura nem sequer andasse na escola. No dia 25 de Abril de 1974, uma quinta-feira, fui para a casa da minha avó materna logo pela manhã. Das conversas que escutava à minha volta, ia percebendo que algo de estranho se passava, mas não entendia o que era. Para mim, todas as figuras que dominavam o país, fosse lá como fosse, pouco significavam. Uma vez, creio que um ano ou dois antes, tinha dado de caras com o presidente da República, Américo Tomás, depois de sair da missa; foi num domingo de manhã. O velhote ia a descer uma das ruas de Monchique, perante a multidão embasbacada e submissa, menos preocupada com ele do que com os guardas que não hesitavam em distribuir encontrões e o que mais fosse necessário. No meio de tanto burburinho, ainda me apertou a mão, enquanto dizia:
– Menino, menino.
Fiquei todo cheio de orgulho, e só daí alguns anos é que percebi o quanto tal orgulho era ridículo. Não haveria de demorar muito, no entanto, para que num outro domingo, de novo à saída da missa, mas então já preparado para ir à catequese, dar de caras com o Mário Soares à frente de uma multidão ululante, todos de punho fechado e com ar de poucos amigos. Meteram-me um medo terrível, mais ainda do que os guardas dos encontrões, que naquele espaço de dois ou três anos haviam desaparecido misteriosamente. Tudo ao contrário do velho presidente-almirante, que tinha sempre ar de não ser homem para fazer mal nem a uma mosca. Só mais tarde percebi que estava enganado, que o presidente do ditador Salazar não era tão bom como isso, assim como o Soares também era capaz de não ser o diabo que a ira que transparecia dos seus gritos e do seu semblante, pelas ruas de Monchique, deixava adivinhar. Apesar de também não ser nenhum anjinho que aparecia ao domingo, pelo fim da manhã, em vilas do interior de Portugal.
O dia 25 de Abril de 1974, o dia do golpe de Estado, como eu ouvia as pessoas dizerem à minha volta, não foi lá muito bom para mim. Nas andanças pelos campos em redor da casa da minha avó, armado de faca e pau para melhor parecer um guerreiro, acabei por estragar as coisas logo a seguir ao almoço. Nessa altura, se calhar, o substituto de Salazar, Marcello Caetano, ainda tinha alguma esperança de conter o golpe para dar cabo do resto do país em mais meia-dúzia de anos. Ou então já tinha perdido a esperança completamente; isto se é que ele alguma vez soube o significado dessa palavra, que o mais certo é nem vir nos compêndios de Direito de agora, quanto mais nos daquela altura, muitos dos quais ainda são de uso corrente. A imagem com que sempre fiquei de Caetano é a de um homem a preto e branco, como a maioria dos homens do regime só de homens daquela altura, e com uns óculos de aros bem espessos e escuros. A culpa podia muito bem ser da televisão, igualmente a preto e branco, mas não. Eles eram mesmo assim, a preto e branco, ou cinzentos, e isso pude eu constatar na altura em que o velho Tomás me apertou a mão (Tomás, por vezes, até tinha a mania de andar com a farda branca da marinha, mas daquela vez estava de fato preto). Era a forma como todos se vestiam, tal como pensavam e agiam, a preto e branco, ou quando muito em tons de cinzento. Creio mesmo que naquele mundo kafkiano a televisão a cores, se existisse, não iria causar grande transformação aos nossos olhos. As imagens haveriam de colorir-se muito pouco ao focar os mandantes, fossem eles Salazar, Caetano, Tomás ou até os que mais tarde regressaram vestidos de cores garridas.
Mas voltando à minha odisseia pelos campos de batalha junto à casa da minha avó, não sei por quê nem como, se calhar porque não conseguia dar outro uso à faca, cortei-me no dedo polegar da mão esquerda. Fiz um golpe de quase uns dois centímetros, coisa que pode não parecer muito mas que comigo, com seis anos, deu para lágrimas, gritos e alguns pulos. O que acabou por me distrair foi o paralelismo que logo alguém me fez com o que acontecia em Lisboa. Eu, tal como os militares, também tinha feito um golpe. Tinha arranjado o meu próprio golpe. Daí que a meio da tarde – já com Marcello Caetano a dizer que se ia embora, mas para o tratarem com dignidade, e que o deixassem levar a biblioteca – eu andasse de um lado para o outro todo contente a mostrar o polegar ferido, como um precioso troféu.
À noite, em casa, ainda eu andava com a mão esquerda bem à vista, não a fazer sinal de que estava tudo bem, mas a mostrar o dedo. Não liguei à surpresa da apresentação na televisão dos senhores da Junta de Salvação Nacional, uma espécie de governo que ia assegurar a transição para aquilo a que chamavam democracia. Para mim, com seis anos, tanto se me dava, ainda por cima aparecendo eles também a preto e branco, num fundo cinzento. Se nem a PIDE, a polícia política do regime (com o sonso Caetano camuflada com o pomposo e enganador nome de Direcção-Geral de Segurança), alguma vez me tinha dado que pensar, não haveriam de ser aqueles artistas a ter essa honra, ainda por cima comandados por um velhote quase mais caquéctico do que Tomás, o tal que dizia «menino, menino» quando apertava a mão. Não me preocupei mesmo nada, nem com as desconfianças que eles geravam, porque a verdade é que mesmo vindo substituir os maus, como se dizia, ninguém sabia o que iriam fazer. Ainda ouvi comentar que de entre os que apareciam no ecrã, se calhar, o único que se aproveitava mesmo era o locutor, o Fialho Gouveia, mas nem a isso dei importância. Continuava orgulhosamente a pensar no meu golpe, mas já um pouco preocupado, porque o dedo estava a ficar demasiado azul.

segunda-feira, 23 de abril de 2007

Guardar as palavras

Sporting – 4 (Alecsandro 3, João Moutinho), Naval – 0. Para o próximo domingo, é claro. Guardar as palavras para o próximo domingo, depois das façanhas da Luz.

Dia Mundial do Livro

Uma coincidência que assinalo num post. Hoje, Dia Mundial do Livro, encontrei numa caixa de correio individual perdida no Alentejo – a minha, precisamente – o primeiro exemplar do meu próximo romance (clicar na imagem para aumentar); disseram-me que o puseram no correio na quinta-feira da semana passada, e chegou hoje. Estava quente do Sol, mesmo bem protegido. Daqui por uns dias chegarão às livrarias muitos outros exemplares. «O que Entra nos Livros», ou melhor, o primeiro exemplar deste romance, chegou-me num dia bom, porque ele próprio é uma homenagem aos livros e, sobretudo, aos escritores. A muitos livros que têm um lugar especial na minha memória, e muitos escritores que também são donos desse lugar. Folheando páginas ao acaso, encontro sem grande esforço nomes como os de Roberto Ampuero, Lídia Jorge, Gabriel García Márquez, Naguib Mahfouz, Camilo José Cela, Xavier Queipo, Clara Pinto Correia, Mario Vargas Llosa, José Riço Direitinho…. E também os de Elli Welt, Paulo Moreiras, Mário de Carvalho, Javier Cercas, José Eduardo Agualusa, Joseph Mitchell, Dinis Machado, Alicia Giménez Bartlett, António Lobo Antunes, Eduardo Mendoza, José Cardoso Pires… E Ondjaki, Michel Folco, José Saramago, Charles Bukowski, Ben Rice, Santiago Gamboa, Juan Eslava Galán... E outros nomes.
Tirado também ao acaso, um bocadinho do romance, diferente dos que aqui tenho vindo a colocar…
A estrada nessa zona tinha inclusive uma parte em calçada de granito, talvez a sua marca maior dos tempos do regime manhoso e crápula de Salazar e de Caetano, dois criminosos em relação a quem eu me espantava por algumas vezes ouvir o tratamento de «doutor» e de «professor», respectivamente, embora cada um deles tivesse acumulado os dois títulos; não deixava de ser uma forma curiosa de os distinguir…

sábado, 21 de abril de 2007

Uma entrevista a José Sá Fernandes

Esta entrevista foi feita em Fevereiro, bem na altura da crise na Câmara Municipal de Lisboa. Fi-la para a revista «Pessoal» (edição de Março de 2007) com a jornalista Ana Leonor Martins. É a versão integral, um pouco maior do que aquela que foi publicada na revista, o que coloco a seguir.



José Sá Fernandes
Em busca da cidade transparente

Há muitos anos que José Sá Fernandes se destaca na vida pública lisboeta por denunciar casos de irregularidades, inclusive da própria câmara municipal. Advogado de profissão, depois de chegar a vereador passou a dedicar às múltiplas actividades que o cargo implica cerca de 10 horas por dia, apesar de não ser remunerado. Procura, acima de tudo, a transparência para a gestão da cidade onde nasceu.

O que significa para si ter um trabalho directamente ligado a Lisboa? Sempre se mostrou preocupado com o rumo da cidade, mas agora tem um cargo que lhe traz maior responsabilidade…
Há uma mudança, de facto. Ser vereador, ainda que sem funções executivas – ou seja, não tenho responsabilidade nenhuma nas asneiras que se andam a fazer em Lisboa –, dá-me oportunidade de ter acesso quer a vários dossiers, quer a uma série de sítios da cidade aos quais não tinha acesso enquanto cidadão. Tenho aprendido imenso ao longo deste ano e meio como vereador. Trabalho cerca de 10 horas por dia para Lisboa, sem ser remunerado, e depois vou para o meu escritório.
Referiu que não é remunerado pelo trabalho que desenvolve na câmara. Como é que lida com isso?
À partida já sabia quais eram as condições, portanto não me posso queixar.
Mas na prática como é que lida com a situação? O tempo de que dispõe para se dedicar à advocacia acaba por ser bem menor do que antes…
É muito simples. Das nove da manhã até ao fim da tarde dedico-me à actividade na câmara, e depois vou para o escritório, porque continuo a ser advogado. Antes de ser advogado dedicava já alguns dias a Lisboa, a questões de defesa do património ou ambientais. Com o cargo de vereador foi preciso acrescentar mais umas horas, e cá estou. Porque eu gosto mesmo de fazer isto.
Acha que essa situação é justa. Se desenvolve um trabalho em benefício da cidade, não devia ser pago por isso?
São estas as condições, e como disse eram conhecidas à partida. Portanto, quem assume o cargo de vereador não se pode limitar a ir às reuniões que se realizam três vezes por mês, sempre à quarta-feira.
Tem uma equipa a trabalhar consigo. Essa é remunerada…
Sim. Isso faz parte das condições para se conseguir exercer o cargo de vereador.
Mas não é muito normal, em Portugal, na maioria dos municípios, existirem tais condições. Como é que isso é possível em Lisboa?
O que a lei diz é que se deve dar condições para que uma pessoa possa exercer o cargo de vereador da oposição. Entendeu-se, desde o tempo do Jorge Sampaio, que essas condições passavam por ter um gabinete, alguns assessores – porque as áreas da câmara são variadíssimas, desde as finanças à acção social, passando pelo património, pela educação, pelo desporto ou pelo urbanismo, e é preciso haver apoio. É impossível uma pessoa sozinha estar habilitada para responder a todas as matérias discutidas numa reunião de câmara. Mas, do conhecimento que tenho, é verdade que o município de Lisboa é o que dá melhores condições à oposição.
Como seria o seu papel se não tivesse esse apoio?
Seria mais limitado.
E como é que iria actuar?
Acho que actuava da mesma maneira. Não tinha era tanta capacidade de intervenção. Assim, conheço os dossiers à lupa. Todos. De outra maneira, continuariam a ser analisados à lupa, porque acho que assim é que tem de ser, mas não podia vê-los todos. Tinha que definir prioridades.
Com a imagem que havia da câmara e da sua posição em relação a ela, não foi quase como pôr o lobo a dormir no galinheiro?
Acho que o que se tem provado é que o lobo continua aí.
Mas se não tivesse esta maior facilidade de movimentação os casos que denunciou teriam vindo a público?
No caso do Parque Mayer, denunciei a situação e coloquei uma acção antes de assumir este cargo. Os casos que tenho levantado, o túnel do Marquês, o Terreiro do Paço, que está em obras há 10 anos, o Convento da Graça, etc, todos esses problemas foram levantados há muito tempo.
São os seus primeiros casos…
Sim, o do Terreiro do Paço foi o primeiro. E o do túnel do Marquês foi o último, enquanto cidadão. Depois ainda foi o negócio do Parque Mayer… Foi importante vir para vereador porque senão tinha descoberto para aí metade das coisas que se passavam na EPUL. Não me tinha apercebido, por exemplo, do que considero ser um escândalo, que se passou no Vale de Santo António, que é um dos sítios envolvido em grande polémica em Lisboa.
Acha que faz sentido uma cidade como Lisboa ser gerida pelos órgãos de uma instituição como uma câmara municipal e respectivas empresas que vão aparecendo na sua órbita? Não lhe parece que a cidade anda mais depressa do que este tipo de instituições e que precisa de outras respostas?
Acho que pode funcionar muito bem. O problema é haver vontade de mudar este paradigma.
Então o problema passa sobretudo pela falta de vontade, não é uma questão de capacidade…
Agora agravou-se. Mas há uma prática de gestão autárquica que tem sido péssima. E as empresas municipais têm a ver com isso, porque infelizmente têm servido muito para distribuição de cargos pelos partidos políticos.
Como é que se pode mudar isso?
No caso de algumas empresas municipais, nem sequer há razão de existirem. Em Lisboa existe uma empresa municipal com três administradores e quatro funcionários. E há serviços da câmara que podiam facilmente substituía-la.
Não lhe parece que só se nota alguma apetência para fazer mudanças quando a exposição dos casos torna o óbvio vergonhoso aos olhos do cidadão?
Para quem está no poder é de facto vergonhoso que só nessas circunstâncias é que se pense em mudar, como se só então é que se apercebessem da má gestão. Mas infelizmente é assim. E existem tantas situações que era fácil mudar se houvesse vontade política… Por exemplo, é preciso reestruturar os serviços, interligando-os melhor. Mas praticamente nenhum vereador vai aos serviços da câmara. Não conhecem as pessoas.
Isso é um mal dos vereadores a tempo inteiro, dos da oposição ou de todos?
Nesse aspecto, acho que é igual. E algumas pessoas já estão na vereação há bastante tempo.
Por exemplo, o vereador, e vice-presidente, Carlos Fontão de Carvalho, que tem um percurso na câmara já longo, inclusive sendo eleito em listas de vários partidos?
Sim, esse deve conhecer o departamento de finanças e pouco mais.
De qualquer maneira, estes problemas todos que existem em Lisboa acabam por ser como que uma fatalidade. Sabe-se que serão sempre os grandes partidos a gerir a câmara…
Não é uma fatalidade. A oposição, no passado, não era oposição. Era só no papel. A minha entrada aqui pelo menos obriga as pessoas a responder. Digo-o sem modéstias.
Entrou na câmara como vereador e conseguiu isso. Imagine agora que os lisboetas em peso decidiam votar em si e era eleito presidente. O que é que acontecia à câmara?
Acho que era o melhor que podia acontecer a Lisboa. A primeira coisa que fazia era tornar a câmara completamente transparente. Por exemplo, no caso Bragaparques… Com este escândalo, pedi a lista de todos os negócios que a câmara tem com o Bragaparques e ainda não me deram. Não é normal. Nem devia ser preciso pedir.
Como interpreta que um colega do executivo o insulte e insista em não lhe dar a documentação que pediu?
Não tem, de facto, cultura nenhuma de transparência. Prefere insultar, como se pedir coisas destas não fosse normal. Mas já me insultavam antes de ser vereador, porque já pedia muitas coisas. Mas não peço assim tantas coisas como isso. Por exemplo, o vereador Fontão de Carvalho queixa-se de que eu faço muitos requerimentos. Fiz 19. Ele respondeu-me a cinco. Dá uma média de um por mês os requerimentos que fiz.
Ele vem do mundo da auditoria, que apela precisamente à transparência e ao rigor. À partida julgar-se-ia que era o tipo de pessoa indicada para conviver com esse tipo de exigência…
É engraçado dizer isso porque foram feitas auditorias a todas as empresas municipais. Muito bem. Mas não foram mostradas. Estou há um ano e meio à espera. Nem sequer sei quem foram os auditores.
Então para que são feitas as auditorias? Ainda se gastam uns largos milhares de euros a fazê-las…
Isso é que eu não percebo.
O senhor tem estado ligado à política, mas do lado, digamos assim, de fora. Se passasse para o lado de quem está no poder, não acha que acabava por ter de se adaptar às regras do jogo político?
Eu estou adaptado às regras. Mas há duas maneiras de fazer política. Numa delas faz-se um jogo, e nessas coisas eu não entro. As pessoas pensam muito mais nos interesses partidários do que propriamente nos interesses de Lisboa. Com a situação que estamos a atravessar agora, é óbvio que tem de haver uma mudança. Não se pode arrastar esta agonia, para continuar a jogar com os interesses partidários. Tem de haver uma mudança, no interesse da cidade. Não a pensar se tenho ou não candidato, se este é o momento ideal, para deixá-los fritar mais um bocadinho…
Acha que consegue quantificar, em percentagem, quanto é que perde a cidade por causa de ser palco de disputas políticas?
As disputas políticas são boas se se centrarem em Lisboa. Mas como não é isso que acontece, a cidade perde tudo, porque fica paralisada. Em vez de se estar a discutir e a resolver problemas, está-se a utilizar tácticas que têm como objectivo interesses partidários. A actuação da maioria que está na câmara é exemplo disso. Há uma resistência ao poder, no sentido de as pessoas estarem agarrados a ele. Ao longo deste ano e meio não foram cumpridas promessas praticamente nenhumas. Mas nem é só isso. Durante este tempo, houve uma série de casos que vieram a público que demonstram a falta de transparência que existe, a falta de solução para os problemas e muita irresponsabilidade.
Acha que a população de Lisboa tem noção disso? Ou seja, se houvesse eleições rapidamente, acha que alguma coisa iria mudar?
Acho que sim. Quem está à frente da câmara mudava de certeza e só isso era um alívio.
Mas por uma grande hecatombe que houvesse, muito provavelmente o PS e o PSD voltariam a ter uma percentagem muito significativa dos votos, mais ou menos na linha do costume. Os cidadãos votam sempre no mesmo tipo de pessoas…
Acho que a próxima liderança da câmara já não conseguirá ser tão irresponsável como a actual. Acho que este ano e meio serviu para provar que é mesmo preciso mudar. É preciso mudar os partidos, mas, sobretudo, é preciso mudar a política para a cidade. É preciso pensar em prioridades. Há coisas inadmissíveis. Temos bairros em Lisboa completamente degradados, muitos deles ao lado de urbanizações de luxo. As regras urbanísticas exigem que se compense, em benefício da câmara, ou em terrenos ou dinheiro. Normalmente, as compensações que existem são uma piscina ou um equipamento qualquer desse género. Mas em muitos sítios a compensação devia ser a recuperação de um bairro.
Falávamos dos jogos políticos que podem fazer a cidade perder. O que é pior para a cidade, esses jogos partidários, a incompetência ou todos os grupos e interesses que circulam à volta?
As três coisas. Por exemplo, muitos dos vereadores actualmente no executivo são agentes partidários. O que não quer dizer que sejam competentes nem que sejam incompetentes. Mas há visivelmente grande incompetência de alguns vereadores. Depois, há um modo de olhar para a cidade... Eu falo do vereador Fontão de Carvalho, que até percebe de finanças...
Tem, portanto, competências técnicas…
Exactamente. Não é incompetente. Mas, politicamente, o tipo de prioridades que escolhe é contrário aos interesses da cidade, ainda que, provavelmente, ele julgue que não. Ele prefere arranjar receitas para a câmara, para tecnicamente compensar a economia da câmara, através do urbanismo, do que procurar outro tipo de receitas ou trocas. É um bom técnico, mas não para estar como vereador da câmara, porque para isso não chega ser um bom técnico. É preciso ter responsabilidade política.
Mas já foi escolhido por vários partidos…
Pois é. Eu nunca o escolheria. É um bom técnico para estar no departamento a fazer contas. Mas nada que envolva decisão política. Para se ser um bom gestor o mais importante é saber gerir bem as pessoas e as prioridades, e não tanto o dinheiro.
Já entrevistámos Carmona Rodrigues, como presidente da câmara, e em relação às 10 ou 11 mil pessoas da câmara ele disse que era o capitão de equipa. Que comentário é que isto lhe sugere?
Para se ser um capitão de equipa é preciso três coisas. Uma é conhecer as pessoas. Depois, um bom capitão de equipa nunca engana os seus colegas. E consegue unir a sua equipa. Carmona Rodrigues não faz nenhuma destas três coisas.
Então por que é que acha que ele disse aquilo?
Provavelmente foi capitão de uma equipa de rugby e conseguiu fazer isso, mas aqui na câmara é diferente.
Uma ideia muito associada às câmaras é a de corrupção, principalmente pelas ligações ditas perigosas com a construção civil e o futebol. Como vê essa situação?
Com muita preocupação. É preciso haver um combate sério à corrupção, coisa que não tem havido. A actual maioria da câmara de Lisboa também não tem dado passos nenhuns nesse sentido. Um caso que se passou recentemente é paradigmático. Foi constituído arguido um director municipal. Já apareceram nos jornais escutas desse director, que terá dito ao senhor da Bragaparques que me queria esmifrar o dinheiro todo. Esse homem foi o presidente do júri da hasta pública dos terrenos da Feira Popular. Quem é que a câmara depois mandou à assembleia municipal para discutir o problema do Parque Mayer? Esse mesmo director municipal. Quando sabemos que foi constituída arguida uma vereadora que suspendeu o seu mandato. Acredito em presunção da inocência até prova em contrário, mas logo este senhor a ir falar à assembleia…
Como é que uma situação dessas é possível?
Não há responsabilidade nem vontade política para se resolver os assuntos. Como é que se admite que este senhor continue a exercer funções e vá discutir para a assembleia municipal o problema do Parque Mayer, quando ele é um dos protagonistas da polémica?
Confia na justiça para a resolução deste caso, que parece gravíssimo?
Há muitas pressões políticas sobre o sistema judicial, mas eu ainda acredito na justiça. Portanto, tenho esperança de que este caso da Bragaparques, em relação à corrupção que tentou exercer sobre mim, acabe por se resolver. Não tenho dúvidas de que vai a tribunal.
Dizem agora que puseram o seu irmão em tribunal. Já houve uma espécie de contra-ataque?
Sim, mas um contra-ataque sem base nenhuma. É tão fácil dizermos as coisas… Por isso é que a corrupção é muito difícil de combater, e por isso é que este caso é muito importante. A prova está toda de um lado, não é o que se disse e o que não se disse, está lá a prova e foi validada por um juiz. E foi a Polícia Judiciária que fez as gravações das conversas.
É realmente uma situação fora de comum…
Completamente fora de comum, o que também é estranho. É a primeira denúncia de um vereador autárquico, que diz «este senhor tentou corromper-me». E das duas uma, ou nós acreditamos que foi a primeira vez que isto aconteceu em 30 anos de poder autárquico, ou não. Eu não acredito que tenha sido a primeira vez.
Estes casos não se resolvem mais por falta de vontade, ou será uma espécie de fatalidade?
Tem de haver vontade. E resta saber se muitas das coisas não têm a ver com o financiamento de partidos políticos.
O que é que acontecia à sociedade portuguesa se houvesse uma limpeza geral?
Era muito melhor, era tudo mais transparente.
E depois conseguia arranjar pessoas para todos os lugares? Presidentes, vereadores, directores...
Há tanta gente… A maior parte das pessoas é honesta.
Mas fica a ideia de que as pessoas que realmente são honestas e que têm capacidade para fazer as coisas como deve ser não se querem meter na política, porque já sabem como funciona…
A política tem este problema de as pessoas serem bem ou mal remuneradas. Esse é que é o problema…
Acha que passa por aí?
Passa essencialmente por aí. E depois é um problema de convicções. Há aparelhos partidários que estão de facto muito viciados. E isso tem de acabar. Não estou a falar das pessoas individualmente, mas há aqui um vício… Acho que é fácil combater a corrupção, tem é de haver vontade politica para isso. E a primeira coisa é ser transparente. Não haver dossiers fechados, na gaveta. Tem de haver sempre informação disponível em tempo útil para as pessoas. Há cidades na Alemanha, e noutros países, onde os cidadãos é que decidem onde se põe o caixote do lixo, se é bom ou não é bom para o seu quarteirão ou bairro, se o posto de correios deve ser ali ou acolá.
Como é que consegue vender uma coisa assim em Portugal?
Então não consigo?! Por isso é que eu digo que tem de ser a administração. Ela é que tem de incentivar. A primeira regra para combater a corrupção é a transparência, depois é ter regras muito simples. Nós temos sempre a mania de dizer mal dos construtores civis. Há construtores civis óptimos. Aquilo que os construtores civis querem é que as regras sejam claras, e o problema é que as regras nunca são claras, há sempre uma fuga, há sempre um amigo ali e não sei o quê. Se as regras forem claras, é bom para os construtores civis.
Com essa visão das coisas, não acha que é um pouco uma ave rara na política portuguesa?
Acho que não. Há imensa gente assim.
As pessoas estão a ir embora de Lisboa, é pelo menos o que passa para a comunicação social…
Mas é verdade. Sabem que a previsão é de que saiam mais 10.000 pessoas nos próximos dois anos?
Pois, mas há outra coisa menos falada… As empresas também estão a ir embora. Vão para Oeiras, por exemplo. Isso preocupa-o?
A política urbanística dos sucessivos executivos municipais de Lisboa não tem sido eficaz para inverter a situação. Nós temos em discussão uma proposta relacionada com os fogos devolutos, que são 70.000 e que estão à espera da especulação imobiliária. Se começarem a ser taxados de uma maneira superior àqueles que estão ocupados, podem entrar no mercado. Porque o problema tem a ver com o preço. As pessoas saem de Lisboa porque é mais barato viver em Sacavém, na Amadora ou em Almada.
E as empresas? Acaba por ser o mesmo, mas a outro nível…
Exactamente. Lisboa sempre foi uma cidade cosmopolita onde viveram todos os tipos de classes nos mesmos sítios Talvez o último sítio onde isso se sente seja a Avenida de Roma. Aí vive a burguesia, mas há habitação social ao lado, na Avenida da Igreja. Mas foi o último bairro, feito nos anos 50 do século passado. Desde essa altura, Lisboa tem perdido população, porque não tem havido políticas para ter uma cidade integrada. Fizeram-se os guetos para as pessoas que saíram das barracas… Acabar com as barracas, bem feito; mas o tipo de bairros que se fizeram foi uma coisa péssima socialmente, algo que provavelmente, se não houver uma intervenção da câmara ou até da administração central, levará a graves problemas sociais. Outro exemplo, fiz uma proposta para que em todos os loteamentos fosse obrigatório que uma parte substancial se fizesse a custos controlados. É algo que já acontece em cidades francesas, ou em Nova Iorque. Nova Iorque, nesse aspecto, é uma cidade com muito mais preocupações sociais do que Lisboa.
Alimenta-se do capitalismo…
Mas obriga a que qualquer loteamento tenha uma percentagem feita a custos controlados, exactamente para viverem na mesma zona os pobres, os remediados e os ricos. E é uma cidade pujante. Mas Lisboa não pode imitar nenhuma cidade, pode é aprender com outras cidades em termos da maneira como resolveram alguns problemas sociais e urbanísticos, no sentido de juntar pessoas. Eu não quero nenhuma Nova Iorque em Lisboa, mas quero aproveitar uma lei que é boa, e que aliás Barcelona também tem. Apresentei a proposta na câmara e ficou tudo em alvoroço. Acham bem, mas como fui eu que apresentei...
Nas reuniões de câmara, como é que o tratam?
Enfim, há este lado partidário completamente cretino. Como fui eu que apresentei… Em campanha eleitoral toda a gente disse que o plano verde de Gonçalo Ribeiro Teles era uma maravilha. Mas depois foi chumbado. Disseram que não era o momento oportuno. A política, nesse aspecto, não é serena, nem honesta, nem leal.
Por isso é que lhe falámos em fatalidade.
Mas não é uma fatalidade. Não pode ser. Por exemplo, as pessoas têm a mania de que eu estou sempre contra tudo. Mas eu aprovei a maior parte das propostas feitas na câmara. Por exemplo, as salas de injecção assistida, que é um problema social grave... Rejeitaram duas propostas minhas e depois apresentaram eles uma, eles a maioria. Mas eu não me importei e aprovei-a. Para mim não importa ser o A ou o B a apresentar, o que me interessa é se a proposta é boa ou não. Não aprovo é outras coisas, como os exemplos destes últimos tempos. Isso eu não aprovo, porque são as coisas mais estruturantes em termos de dar cabo disto tudo.
Acha que a oposição fica incomodada pelo facto de o senhor apresentar tantas propostas?
Isso é o lado positivo. Antes a aposição não apresentava propostas. Depois de eu aparecer perceberam que isso também é uma maneira de fazer política. E as minhas propostas, ou melhor, as propostas da minha equipa, são apresentadas de uma maneira profissional, não é mandar umas bocas. Por exemplo, estudámos as bibliotecas de Lisboa à lupa, falando com as pessoas de todas elas. Curiosamente, o vereador da cultura não conhecia praticamente nenhuma biblioteca, o que é estranho. Mas eu até simpatizo com o vereador da cultura, e já lhe disse estas coisas.
Acha que se pudesse dedicar-se à câmara a tempo inteiro, em vez das tais 10 horas diárias antes de ir para o seu escritório, poderia fazer mais por Lisboa? Se chegasse ao poder…
Eu não tenho pretensões de chegar ao poder.
Não falamos do poder pelo poder, mas sim no sentido de ser uma ferramenta para fazer com que as coisas aconteçam?
Eu não vou desistir da ideia de que isto pode mudar, seja no poder, seja fora do poder. Não vou desistir.
Mas se se dedicasse a tempo inteiro…
Sim, quanto mais horas melhor.

José Sá Fernandes (n. Lisboa, 1958), licenciado em Direito e advogado desde 1988, é vereador da oposição na Câmara Municipal de Lisboa (eleito como independente nas listas do Bloco de Esquerda nas eleições de nove de Outubro de 2005). Já antes se destacava pela actividade cívica. Entre as suas intervenções individuais no concelho de Lisboa, encontram-se, por exemplo, o Projecto da Administração do Porto de Lisboa para aquilo que denomina como «a construção da absurda oitava colina», o Projecto Alcântara XXI, o Terreiro do Paço (estacionamento, piso, arcadas e metropolitano), o Teatro D. Maria II, o túnel do Marquês e o Parque Mayer. Mas a sua intervenção não se tem limitado à capital. O Algarve, Almada, a Costa Vicentina, Grândola, Monsaraz, Sesimbra e Setúbal, entre outras zonas, têm suscitado também o seu interesse. Também tem apoiado grupos de moradores, movimentos e associações.

Ainda esta manhã

Dois dos cães; as batatas, que foram para a terra há dois dias; rosas que hoje resolveram espreitar.
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Esta manhã, por aqui

As laranjas que ainda vão resistindo; uma velha pereira; uma oliveira com um marmeleiro a meter-se à frente.
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sexta-feira, 20 de abril de 2007

Textos sobre livros – 24

O texto que escrevi quando há dois anos saiu o mais recente volume de aventuras de Astérix, em nova editora e com umas opções esquisitas de tradução.

Livro: «Astérix – O Céu Cai-lhe em Cima da Cabeça», de René Goscinny/ Albert Uderzo (Edições ASA, 49 pp.)

Nem só os romanos são loucos
Pequenix, o gaulês

Trigésima segunda aventura dos irredutíveis gauleses, embora desta vez não tenham conseguido ser tão irredutíveis como isso; pelo menos no que a Portugal diz respeito, pois a verdade é que, assim sem mais nem menos, alguém se lembrou de mudar o nome a muitos deles e os gauleses nem ai nem ui. O protagonista ainda escapou, mas quem sabe se não estivemos perto de ter entre nós as aventuras de um gaulês chamado Pequenix?
Regresso em 2005 dos gauleses da pequena aldeia rodeada por quatro campos romanos, mas trata-se de um regresso com alterações esquisitas (para quem só tinha lido os álbuns da Meribérica). Depois de «Astérix e Latraviata» (2001), eis a trigésima segunda aventura do pequeno gaulês e do seu amigo gordo especialistas em menires (há ainda um outro álbum na colecção, um conjunto de pequenas histórias que foram sendo publicadas na imprensa ao longo de vários anos).
Esta nova aventura surge vinte e oito anos após a morte de René Goscinny, até essa altura o argumentista da série. É a oitavo criada apenas por Albert Uderzo, o desenhador e após 1980 também autor dos argumentos. Entre as primeiras vinte e quatro e as últimas oito há como que uma fronteira, ou melhor, um grande fosso. Aliás, «O Grande Fosso» (que Uderzo já associou ao Muro de Berlim) é precisamente o título da primeira aventura criada apenas por Uderzo, depois da morte de Goscinny em 1977, quando estava para sair o vigésimo quarto álbum, «Astérix Entre os Belgas».
Se os argumentos de Gosciny (cujo nome continua a aparecer nas capas) se centraram nos heróis e na própria aldeia gaulesa, contrapondo-lhes muitas vezes temas do nosso tempo, já a imaginação de Uderzo parece levar sempre a outros caminhos, que talvez não sejam os mais felizes. O aparecimento de extraterrestres nesta última aventura é mais um sinal disso, depois de termos dado de caras com os pais de Astérix e de Obélix e de termos conhecido a vida amorosa do cão Ideiafix (em «Astérix e Latraviata», álbum que homenageou Giuseppe Verdi, no centenário da sua morte, com o nome escolhido para a actriz romana que se transformou numa sósia de Falbala a sair de umas das famosas óperas do compositor italiano). E depois de outra homenagem, desta feita a Kirk Douglas, em «O Pesadelo de Obélix» (a trigésima aventura, de 1996), onde apareceu um tal Spartakis com a cara do actor norte-americano que no filme «Spartacus» desempenhou o papel do lendário escravo que chegou a fazer tremer Roma.
Com a tradição das homenagens, não é de estranhar mais uma agora, em «Astérix – «O Céu Cai-lhe em Cima da Cabeça». Trata-se de Walt Disney, sobre o qual Uderzo escreve: «permitiu, a mim e a alguns companheiros, cair no caldeirão de uma poção da qual só ele detinha o grande segredo». Os extraterrestres são criaturas inspiradas em personagens de Walt Disney («wendysitals», «superclones» que fazem de «xexérifes» ou «nagmas»); são eles o céu que cai em cima da cabeça de todos os gauleses (e dos romanos, já agora, para não falar dos piratas), não apenas de Astérix, como a tradução do título dá a entender.
A propósito de tradução… A mudança de editora implicou novas traduções para as aventuras de Astérix. Mudou muita coisa. Dois dos campos romanos que cercam a aldeia ficam na mesma, mas um terceiro passa de Babaorum a Babácomrum e o célebre Petibonum passa a Factotum. Coisa pouca, mas depois vêm as personagens, e aí é bem pior. Os dois expoentes máximos da mudança são o bardo e o chefe. O velho Abraracourcix passa, imagine-se, a Matasétix (?) e Assurancetourix muda para algo que supostamente deveria ter graça, Cacofonix. Panoramix, o druida, escapa, talvez por artes mágicas, mas do mesmo não se pode gabar o truculento Agecanonix (passa a Decanonix – enfim, o decano). Já o peixeiro Ordralfabetix passa Ordemalfabetix. O cão Ideiafix aguenta-se, assim como o dono, Obélix. E Astérix, a mesma coisa; mas quem sabe se não esteve para passar a qualquer coisa como Pequenix, assim como Obélix pode muito bem ter estado perto de ficar o resto da vida na nova editora condenado a ser o Gordix, ou, seguindo a lógica escolhida para o chefe, o Devorajavalixes, ou o Carregamenirixes. Os romanos, enfim, continuam a ser romanos.
Apesar destas mudanças, e dos caminhos da imaginação de Uderzo, é sempre de festejar cada regresso dos famosos gauleses. Depois de quatro anos sem aparecerem com novidades (tirando aquela colectânea de pequenas histórias, onde começou a trapalhada da mudança dos nomes), já se lhes notava a falta.

quinta-feira, 19 de abril de 2007

A final e uma pergunta

Sporting – 2 (João Moutinho 2), Beira Mar – 1. Passagem à final da taça de Portugal quase nas calmas. Com uma queda de Caneira, o actual sócio de Polga no centro da defesa do Sporting, o Beira Mar ainda conseguiu um golo que deixou a eliminatória em aberto durante mais de meia-hora. Tonel entrou mesmo no fim e pode ser que nos próximos jogos ocupe um dos dois lugares do centro da defesa (embora eu não acredite muito que venha a acontecer); entre Polga e Caneira, qual dos dois escolher como o menos mau para fazer dupla com Tonel?

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Pinho fora de serviço

Terminada mais uma viagem dos governantes da nação – no caso a Marrocos –, não dei por nenhuma trapalhada de Manuel Pinho. Dá a ideia de que José Sócrates desta vez lhe deu instruções para estar calado. «Para trapalhadas agora estou cá eu!», pode muito bem ter sido o argumento apresentado.