sábado, 14 de abril de 2007

Pensamento positivo

Sporting – 4 (Liedson, Romagnoli, João Moutinho, Alecsandro), Marítimo – 0. Fiquei com a ideia de que o Sporting está com capacidade para ir ganhando até ao final do campeonato. Será preciso muita sorte, no entanto, para chegar ao título; vou imaginando derrotas e empates do Porto a ver se ajuda – deve-se pensar sempre em coisas boas.

quinta-feira, 12 de abril de 2007

O técnico

Um dos recentes ex-reitores da Universidade Independente (agora também ela própria a caminho de se tornar uma ex) foi o professor do primeiro-ministro José Sócrates numa das cadeiras que arranjaram para este acabar o curso de Engenharia nem sei bem de quê. Refiro-me à cadeira de Inglês Técnico. Vi, creio que no «Expresso», esse ex-reitor – Luís Arouca – a dizer que muita da documentação da universidade ao fim de cinco anos ia «para o maneta». Sócrates teve sorte em tê-lo na cadeira de Inglês Técnico. Imagine-se se o tivesse apanhado a Português Técnico…

Pequenas histórias - 8

O problema

Umas horas antes de o senhor engenheiro falar à nação, aqui pela zona não se observava vivalma. Tudo por certo já recolhido, na expectativa, a comentar em surdina o que poderia o grande líder esclarecer. Nem uma águia a cruzar os ares. Nem um coelho dos que teimam em aventurar-se de dia pelo montado. Nem uma cobra. Nem um bezerro tresmalhado. Nem mesmo um lagarto armado em importante. Nada. Nem texugos, nem ginetas, nem pardais, nem sapos, nem arvelas, nem ratos. Ovelhas, nada. Rolas, nada. Centopeias, nada. Cucos, nada. Javalis, nada. Uma calmaria até do vento, um silêncio que quase se podia ver. Só ao cair da noite é que haveria palavras do grande líder. Sobre o problema. Mas já estava tudo recolhido aqui pela zona.

quarta-feira, 11 de abril de 2007

Silêncios indecentes

Estive a ver na «SIC Notícias» um debate intitulado «O Silêncio de Sócrates». Fiquei na mesma. Sócrates, provavelmente, também terá ficado na mesma. O resto dos portugueses, se calhar, também. Sócrates fala amanhã (à hora a que escrevo já é hoje), por isso era o derradeiro dia para fazer um programa sobre o seu silêncio. Não sei o que vai dizer amanhã (hoje), nem o que lhe vão perguntar. Se passaram o dia a treinar ou não, se acertaram perguntas e respostas. Do que tenho lido e ouvido a situação é muito esquisita, mas quase que aposto que Sócrates não vai esclarecer nada e que se calhar em menos de uma semana lhe arranjam outro perfil tipo aquele manhoso do «Sol» há umas semanas.
O caso de Sócrates e da sua licenciatura esquisita lembra-me uma situação a que assisti na altura em que estava a acabar o meu curso (Gestão de Empresas, ISCTE, 1986/ 1991). Fui à inspecção militar, a Setúbal. Uma seca. Mesmo uma grande seca. Teve, no entanto, uma coisa que a mim e a muitos dos que lá estavam pareceu estranha, e que ficou sempre em silêncio; a presença do filho do primeiro-ministro (o da altura, já se vê, o que agora é presidente). Para contar o que aconteceu, socorro-me de um artigo que escrevi em Maio de 1999, a propósito da participação portuguesa em operações da NATO nos Balcãs. O artigo chamava-se «A Guerra das Inspecções» e dizia assim…
Ainda não há muito tempo, uma senhora falou-me do medo que sentia por causa de o filho estar quase a ir à inspecção militar. E tudo devido à guerra nos Balcãs, ao envolvimento de Portugal nas operações da NATO e ao perigo que uma guerra de maiores proporções, quem sabe uma Terceira Guerra Mundial, poderia representar para ele, se viesse a ser incorporado. Procurei tranquilizá-la, dizendo-lhe que as coisas não eram bem assim, que quem participava no conflito, pelas tropas portuguesas, eram elementos de unidades especiais e não jovens acabados de incorporar e sem nenhuma preparação. E mesmo aqueles elementos estavam apenas em missões de apoio, porque a verdade é que Portugal não dispõe de tecnologia militar suficientemente avançada para entrar directamente numa situação como a que então se estava a viver na Europa de Leste.
O que não pude foi deixar de pensar na perspectiva de uma generalização do conflito, no que uma guerra na Europa, ou uma guerra a nível mundial, poderia fazer acontecer ao jovem. Aí de certeza que já não seriam só as unidades especiais a participar, e nem as missões haveriam de ser apenas de apoio. Seria ele, jovem incorporado, e se calhar seriam também os que já cumpriram as obrigações militares. Não pude deixar de pensar também em mim, e noutros como eu, e até em pessoas mais velhas. Pode dizer-se que é um exagero, um alarmismo, que a Rússia morre de fome se não for o apoio do Ocidente e que por isso protesta, protesta, mas de concreto nunca tomará posições de hostilidade em relação à NATO. Pode até dizer-se que a China considerará uma coisa de bárbaros que lhe tenham mandado pelos ares, ao que parece por engano, a sua representação diplomática em Belgrado. Pode dizer-se tudo. Mas uma coisa é certa, também pode dizer-se que um belo (?) dia, ou uma bela (?) noite, porque a moda agora parece ser atacar de noite, pela calada, uma bela (?) noite, então, um maluco qualquer ainda é capaz de fazer alguma que depois ninguém há-de saber como parar. E aí, velhos ou novos, incorporados ou por incorporar, quem sabe se não iremos lá todos.
Quando fui à inspecção militar, há uns oito anos, também me falaram na questão da incorporação, sobretudo por causa da Guerra do Golfo. Mas aí o conflito era mais longe e Portugal nem sequer entrava, ou entrava apenas através de algumas medidas facilitadoras, nomeadamente ao nível do espaço aéreo e de instalações militares. Tanto que na altura a minha preocupação não foi com a guerra, mas sim com a própria incorporação. E tinha razões para isso, pois o que é certo é que com as confusões para cá e para lá, até que ficasse tudo resolvido ainda haveria de passar quase dois anos. Com todos os custos que isso implicou para a minha vida pessoal, e também para a profissional, que estava então a começar. O dia da inspecção representou, para mim, o início de um longo período de indefinições, até de muitas irritações, mas não a preocupação que há umas semanas me vieram colocar, tendo presente a tragédia dos Balcãs.
Foi um dia perdido, a ver situações parvas e até humilhantes para meia dúzia de desgraçados. Um porque tinha trinta e sete quilos e porque pela cor da pele e pela fisionomia parecia ser indiano, outro porque era preto («Você é de África?» ouvi um idiota não sei de que patente perguntar-lhe), outro porque pesava de certeza mais de cento e cinquenta quilos, outros porque tinham só a quarta classe e outros ainda porque nem isso tinham. Naquele dia quase tudo se distinguiu, até o filho de um político da primeira linha da altura (primeira mesmo primeira, porque chefiava o governo), que também lá tinha aterrado, embora sem ser de pára-quedas. Teve chamada especial, com o apregoador de serviço (não sei de que patente, não sei se idiota) a mudar o tom de voz e a fazer uns sinais que toda a gente compreendeu, e foi mandado embora quando batiam as onze da manhã. Como o que parecia indiano e pesava trinta e sete quilos e o outro de mais de cento e cinquenta, também ele não servia para aquela vida. Outras melhores, por certo, o aguardavam.

terça-feira, 10 de abril de 2007

As tarefas da oficina

Em tempos, convidaram-me para coordenar uma oficina de escrita. Aceitei, sem pensar muito no que haveria de fazer depois, quando tivesse de propor um plano de trabalhos. E quando tivesse de arranjar tempo para as sessões. Mas tudo se resolveu. Uma das situações que mais me pareceu agradar aos participantes teve a ver com a realização de treze tarefas, que na prática eram catorze. Como primeira tarefa, deviam escrever o início de uma história. Só depois podiam ver a segunda, e assim sucessivamente, até à número treze.
As tarefas eram as seguintes – 1) Escrever o início de uma história, na terceira pessoa; a primeira palavra é «Primeiramente» (não utilizar mais advérbios de modo); tem de haver duas personagens; convém que a história decorra ao ar livre. 2) Rescrever tudo do ponto de vista de cada uma das personagens (a tal tarefa dupla). 3) Rescrever tudo do ponto de vista de uma andorinha que sobrevoa o sítio onde decorre a acção. 4) Rescrever tudo do ponto de vista de um milhafre que sobrevoa o sítio onde decorre a acção. 5) Rescrever tudo de forma a incluir quinze advérbios de modo terminados em «mente». 6) Rescrever tudo de forma a expurgar do texto os adjectivos. 7) Rescrever tudo de forma a incluir dez preposições «que». 8) Rescrever tudo de forma a expurgar do texto todas as palavras começadas por «P». 9) Rescrever tudo através de um diálogo entre as duas personagens. 10) Rescrever tudo através de um diálogo entre a andorinha e o milhafre. 11) Rescrever tudo de forma a incluir um ataque do milhafre à andorinha, de repente, a meio da acção, suscitando comentários das duas personagens. 12) Rescrever tudo, de forma a incluir um ataque do milhafre às personagens, mas do ponto de vista da andorinha. 13) Rescrever tudo, decorrendo a acção num recinto fechado (uma casa, por exemplo); pode incluir o milhafre e/ ou a andorinha.
Bem, a verdade é que acabei por ter de cumprir também as tarefas. Mesmo o efeito da surpresa não existindo para mim. Por mais que tentasse livrar-me, os participantes nunca deixaram de insistir. Afinal, e muito provavelmente, nada mais justo. De forma que lá tive de meter mãos à obra. E as tarefas apareceram escritas (inclusive, ajudaram-me a começar um dos contos do último livro que publiquei – «O Amor por entre os Dedos»). Deixo as primeiras a seguir...

O começo da história
Primeiramente, pode dizer-se que ainda ninguém tinha dito nada a respeito da cruz vermelha cravada mesmo ao lado da porta da câmara municipal. Por mais que a olhassem, uns de lado, mas outros bem de frente, por mais que isso acontecesse, não havia quem se pronunciasse. Nem o novo presidente da câmara, quando passou a caminho da tão aguardada tomada de posse, com a secretária atrás a tentar escovar-lhe o fato junto aos ombros, nem mesmo o presidente pareceu com disposição para abrir a boca. A secretária ainda fez menção de dizer qualquer coisa, mas não saiu das hesitações e acabou por seguir caminho. Via-se bem que ainda tinha muito para escovar antes do início da cerimónia.

O relato do presidente
Começo o meu mandato com uma cruz vermelha à porta da câmara. Já não bastavam os comunistas… Mas pronto, isto o melhor que um político tem a fazer é não ligar a provocações, só que também é bom não esquecer, que é para a rédea não alongar demais. Pulso firme e rédea com o fim bem à vista dos olhos, é o que se pede a quem ocupa certos cargos. Porque nesta vida de político nem nas palmadinhas nas costas se pode verdadeiramente confiar. Aliás, não se pode confiar mesmo nada, senão é a morte do artista, às vezes ainda enquanto jovem, como dizia o outro. Para mim, palmadinhas nas costas, ou nos ombros, só as da minha secretária, que têm razões devidamente fundamentadas. Além da inegável admiração que a rapariga nutre pela minha pessoa…
E quanto à cruz, para acabar, assim que aqui a terra entrar nos eixos, e para isso não reservo mais do que duas semanas, assim que isto entrar nos eixos, vai nem que seja a poder de escavadora. Ai não que não vai...

O relato da secretária
Sempre me interessei por caspa. E então se for caspa de altas figuras, daquelas mesmo importantes, assim de vereador para cima, isto falando em termos locais, que é o tipo de poder a que estou vinculada, ui, se for caspa de altas figuras, nem vale a pena falar.
Poderão as pessoas perguntar, mas por quê uma promissora engenheira, jovem, bem jovem, e bonita, muito bonita até, por quê uma criatura assim sujeitar-se ao papel de secretária? Por quê? As pessoas, ui, as pessoas muitas vezes não sabem o que dizem. A vida não é só prazeres e mordomias. É preciso lutar para se conseguir aquilo que verdadeiramente se quer. E eu, para levar em frente o meu projecto de doutoramento, eu não olhos a meios. Sim, a minha tese assenta na investigação da caspa, nos seus mais ínfimos processos de formação. E agora, ui, estou numa fase em que procuro determinar a verdadeira relação entre a formação da caspa e o stress das mais diversas actividades. Da actividade política, por exemplo. Onde até nem pagam mal.

O relato da andorinha
Construí o meu ninho no beiral da câmara. Não fiz por menos. Igreja, tribunal, casas de ricos, praça do peixe, qual quê… Fui logo para a câmara. Ainda por cima, sendo época de eleições locais, as vistas não haveriam de ser monótonas, pensei. E não me enganei.
Isto, claro, tem sido um fartote. E ainda por cima, ainda por cima quem ganhou as eleições foi o candidato da caspa. Quando nascerem os meus passaritos, boa alimentação para eles ali terei. O pior é a puta da serviçal que sempre acompanha o homem, sempre a recolher-lhe a substância, quem sabe se para enviar para alguns serviços centrais, daqueles que estão sempre à mama.
E depois, bem, depois há uma coisa... Uma noite, bem, foi na véspera da tomada de posse do casposo, uma noite puseram uma cruz vermelha à porta da câmara. Claro que não digo quem foi. Prezo muito a vida.

O relato do milhafre
Os milhafres, em geral, não recuam perante as dificuldades. Só que há dificuldades e dificuldades. Como em tudo na vida. E então deu-se o caso, para passar já à história que aqui me traz, deu-se o caso de que um dia destes vi uma cruz vermelha mesmo à porta de um grande casarão, mesmo no centro de uma vila aqui bem próxima. Ora, nem estive com coisas, fui logo lá pousar, na esperança de até ser um bom ponto de observação.
Estava muita gente presente, parecia até ocasião de festa, mas eu mesmo assim fui. E ninguém me apedrejou. Se calhar, pensando bem, tiveram medo de partir a cruz.
Só que a coisa não correu bem. Nada bem, mesmo. Vi uma rapariga formosa, das bem formosas, e decidi logo. Esta vou besbicá-la... Ai vou, ai isso é que vou… Mas quando levantei voo – vou, voo, boa artimanha discursiva –, quando levantei voo, dizia, quando levantei voo e me preparei para subir o suficiente para sobre a rapariga cair a pique... Miséria… A rapariga ia a recolher caspa de um homem, bem repelente por sinal. E eu caspa, brrrreeeeee... Caspa, para mim, é mesmo o pior que os humanos carregam. Voei para bem longe em menos de um tiro.
E a rapariga era tão formosa...

domingo, 8 de abril de 2007

Uma recordação

Braga – 0, Sporting – 1 (Nani). Muita, mesmo muita, aplicação e as coisas quase sempre controladas, tirando os sustos do centro da defesa (Polga & Caneira Lda). Alecsandro poderia ter ajudado a resolver as coisas, como diria Paulo Bento, «com tranquilidade», mas por vezes fez lembrar David, o talentoso mas adormecido avançado que logo no início da época se mudou para a Turquia. Mais uma vez aquela piada de Custódio entrar em campo no fim. E mais uma vez o gosto de ver a classe de Nani, Liedson, Miguel Veloso, Yannick (embora por vezes a precisar de um pouco de calma), Romagnoli e por aí adiante.
Há uns anos, no tempo do histórico título conseguido com Inácio e Acosta, o Sporting também ganhou em Braga, mas por dois a zero (golos de Ayew e César Prates na parte final do jogo), precisamente na jornada anterior àquela em que venceu o Porto em casa e passou para a frente do campeonato (um golo fabuloso de André Cruz, de livre, e outro de Acosta após um passe inesquecível de Secretário, que nessa noite, mais uma vez, «não gózou»); lembrei-me disso agora, mas a situação está bem mais complicada. Vamos a ver no que dá.

sexta-feira, 6 de abril de 2007

Entrevista a Ondjaki

Há uns dias publiquei aqui um texto sobre um livro de contos do escritor angolano Ondjaki. Referi nessa altura uma entrevista que lhe tinha feito em tempos (após a saída do romance «Quantas Madrugadas Tem a Noite»). Deixo-a agora aqui no blog, quando está a sair um novo livro seu, intitulado «Os da Minha Rua». A entrevista é longa, muito longa, daí ter empurrado o post anterior, sobre um livro de Dan Brown, bem lá para baixo. Dan Brown, quase de certeza, nunca vai saber disto.

À espera da próxima armadilha

O nome Ondjaki chegou-lhe pela literatura, para assinar aquilo que ia escrevendo e que de repente começou a publicar a um ritmo a que nem muitos dos grandes nomes se podem dar ao luxo. Quase uma dezena de livros desde 2000, entre poesia, contos, novela e romance, acabaram por revelar um jovem que pelo que escreve e pelo que vai dizendo em debates e entrevistas parece ser também, afinal, um grande nome. Parece e é; ora vejam já a seguir, o escritor Ondjaki à espera da próxima armadilha da vida.

Li na sua biografia referências a que se interessa pelo teatro, pela pintura e pelo cinema. Como se conjugam esses interesses com a escrita?
São áreas que se interligam através da sensibilidade; eu julgo que é isso que elas, em mim, acabam por ter em comum. Depois, existe também a possibilidade − sempre presente nas artes − de contar uma estória, seja pela pintura, seja, mais concretamente, pelo cinema. E a junção da sensibilidade com a possibilidade de inventar ou dizer uma estória alimenta imenso a minha motivação. Essas três áreas − pintura, teatro e cinema − são zonas de acção para mim, e além de permitirem fazer coisas, permitem receber também, uma vez que há uma interacção com novos motivos e, felizmente, com outras pessoas. Penso que toda a movimentação artística acaba por enriquecer a sensibilidade.
Mas pode dizer-se que a literatura vem em primeiro lugar?
Por enquanto tem vindo em primeiro lugar; a literatura ocupa um espaço enorme na minha vida interna e externa. Acontece-me por vezes olhar o mundo e pensar, dentro de mim, como se já estivesse a escrever algo. E há uma emoção associada à literatura, tanto quando leio como quando escrevo.
Um crítico literário português falou há tempos de os escritores de cá, nomeadamente os jovens, serem muito emotivos, contrapondo um ou outro caso mais racional como dignos de elogio. Como comenta isto, você que fala de uma emoção associada à literatura?
Eu falo até de várias emoções associadas à literatura... Mas não digo que as chamadas opções ou decisões literárias tenham necessariamente que ser emotivas. Mas no momento da criação, da vivência interna antes do momento de escrita, acho que é bom deixar a emoção circular. Provavelmente existem outras possibilidades; eu mexo-me muito em torno da emoção, a emoção que as coisas emanam ou a emoção das coisas reflectidas já em mim. Por exemplo, nos contos, parto muito de emoções, ou de sensações, para escrever. Bom, para ser mais simples: a emoção é uma coisa muito bonita.
Essa frase podia estar num dos seus livros. Concorda se se disser que da sua escrita passa uma imagem de grande simplicidade?
Nalguns casos, sim, a simplicidade vai estando presente. Mas é porque me serve no meu objectivo literário, pelo menos por enquanto parece-me ser isso. Não devo ter a pretensão de ser simples ou complicado na linguagem que uso, isso deve advir do ritmo da estória... Ou seja: essa pergunta é muito difícil.
Passa também da sua escrita, ao mesmo tempo, uma imagem de grande sabedoria...
Aí voltamos ao tempo... A sabedoria está, em quase todas as culturas, associada à idade, à experiência. A sabedoria requer alguma maturação, «repousio», eu diria. Há um certo tempo interno, do qual não quero falar, que já tem, em mim, alguma acumulação. Mas falta muito tempo externo, e só mais tarde poderei falar da sabedoria.
O seu nome, Ondjaki, o que significa?
Ondjaki significa, literalmente, «aquele que enfrenta desafios», e é uma palavra umbundu. Eu era para ser chamado Ondjaki, mas à última hora os meus pais decidiram mudar para outro nome. Quando comecei a escrever achei bem pegar nesse nome que outrora me esteve destinado.
Por que nome o tratam os seus amigos de infância?
Tratam-me pelo meu nome próprio, que é Ndalu. Alguns, agora, por brincadeira, chamam-me Ondjaki.
E na faculdade, como o tratavam? Os professores e os colegas...
Sempre me chamaram pelo meu nome próprio, e muitos nem sabiam que eu escrevia, e mesmo quando comecei a publicar também não se aperceberam. Esse anonimato às vezes é muito bom.
Você estudou Sociologia em Lisboa. O que o levou a tomar essa opção?
O que me levou mesmo a tomar essa opção foi a falta de opções, isto é, internamente eu não tinha definida uma vontade concreta, um caminho rígido e apetitoso. Nunca soube o que queria estudar, sempre soube que teria que ver com a escrita e com as pessoas. Pensei em Comunicação Social, mas não me apetecia também. A Sociologia pareceu-me unir isso da escrita com as pessoas. Mas acabei por não gostar do curso, embora o tivesse terminado. Agora apetecia-me fazer outra formação, um mestrado, e continuo sem saber bem em quê. A vida está cheia de armadilhas; eu espero a próxima.
Voltando à escrita... Parece haver em Portugal como que um fascínio pelo que escreve, tal como acontece com em relação a escritores africanos, nomeadamente a ligação à tradição oral. É uma coisa que não acontece por cá em relação à tradição oral portuguesa. Encontra alguma explicação para isso?
Eu só quero fazer literatura. Se as pessoas ficarem fascinadas por ela, e se isso significa que estou a enriquecer o momento da vida de uma pessoa, fico satisfeito. Mas depois das pessoas, e do julgamento temporário das pessoas, vem o tempo. O tempo é o nosso leitor mais exigente, e eu estou é preocupado com ele. O fascínio pode ser sempre temporário; o tempo é cruel. Eu não encontro explicação para fascínios, sinceramente. Talvez seja um momento oportuno, talvez o que os escritores africanos escrevam vá de encontro a uma qualquer ânsia deste público, mas o que importa é que, em última análise, se faça boa literatura.
E o que é, para si, a boa literatura? Ou mais, o que pode levar um escritor a falar de boa literatura até em relação àquilo que escreve?
Quem sou para definir a boa literatura... É difícil a definição, e seria ingrata a minha missão se fosse tentar dizer aqui o que é a boa literatura. Mas penso que, de certo modo, uma literatura que resista ao tempo, e que sirva, ao longo da História, várias ânsias de várias gentes, talvez possa ser uma boa literatura. Ou, definindo pelo oposto: a boa literatura não deixa ninguém indiferente. Embora, nos tempos que correm, com bons golpes de marketing as pessoas possam ser atraídas para determinados livros... Agora, há também um grau de encontro consigo mesmo, que pode levar um escritor à celebração – consigo mesmo – do seu momento de escrita. Aí ele poderá dizer: «escrevi um livro!», porque se encontrou, porque acasalou o que buscava com o que lhe aconteceu sentir para dizer. Mas não sei se essa busca tem fim.
Algumas pessoas que estavam comigo a ouvi-lo num debate, que não o conheciam, quiseram ir comprar os seus livros. O seu grande golpe de marketing parece-me ser você mesmo, a sua maneira de ser, aquilo que escreve. Acha esta ideia correcta?
Acho que as pessoas que compram livros meus depois de me ouvirem devem ter recebido algo no meu discurso que suscitou interesse. Não digo nada como golpe de marketing, seria até contraditório, uma vez que considero que é ao longo do tempo que as coisas literárias têm de perdurar.
Vi em livros que autografou o desenho de uma planta. Existe alguma razão especial para fazer isso?
Nem sempre é uma planta; é geralmente um desenho abstracto, conforme me apetece no momento, mas a maior parte das vezes assemelha-se a plantas. Mas é só para que o autógrafo não seja sempre igual, repetitivo. Assim, a pessoa pode levar algo diferente com a assinatura. Às vezes perguntam-me «o que é?», e eu digo que também gostaria de saber...
Fale-me um pouco da sua vida e de como chegou à literatura. Por exemplo, na infância, o que é que o fascinava?
Cheguei à literatura pelo fascínio com os livros, como quase toda a gente. Comecei a ler muito tarde, digo, ler com um sentido de compreensão e de apreensão do que lia. Terá sido aos treze, catorze anos que comecei a ler coisas boas. E logo de início me passaram coisas pesadas, Sartre, García Márquez, Graciliano Ramos. É óbvio que na altura devia entender pouco ao ler «A Náusea», mas a verdade é que li. Mas, antes disto tudo, na infância, o que me fascinava era, provavelmente, o que fascinava qualquer criança angolana: a vivência. As brincadeiras na rua, na praia, nas festas; a nossa infância foi muito, muito criativa; inventiva mesmo. Hoje vejo que muito do que escrevo tem a ver com isso, com essas aprendizagens feitas em Luanda. Foi depois dos catorze anos que cheguei à literatura; comecei a escrever nos diários, a ler muito mais, e a primeira «coisa criativa» que publiquei foi um pequeno jornal de oito páginas, que eu fazia com uma amiga. Chegámos a imprimir seis números, e das oito páginas seis eram quase completamente inventadas por mim. A coisa pegou bem junto da malta jovem e lembro-me de que fiquei entusiasmado. Depois escrevi muita poesia fraca, e mais tarde cheguei aos contos. O meu primeiro livro, publicado em Luanda, é um livro de poesia, já menos fraca; gosto muito de poesia, leio e escrevo poemas, mas publico pouca poesia.
Porquê?
Sinto-me demasiado exposto. Quando publiquei o livro de poesia «Há Prendisajens com o Xão» senti-me bem porque não era um livro triste, e a minha poesia tem tendência para ser triste. Dentro de mim também tenho tendência para ser triste, a verdade é essa, e a poesia acaba por sair repleta de «mins». Mas ultimamente tenho estado a pensar em reunir a poesia que eu considero ser boa, independentemente de ser triste, e publicá-la.
Quanto à ficção... Ouvi-o dizer, no debate que referi, que tinha boas fontes de informações para depois escrever, inclusive falou de a sua mãe lhe ter contado um caso que lhe inspirou o romance, «Quantas Madrugadas Tem a Noite». Mas um pouco antes eu tinha-o ouvido falar de uma série de peripécias vividas em Lisboa antes de fazer uma viagem, quando quis saber as vacinas que devia levar e foi parar a uma oficina de escrita, coisa que me pareceu uma criação sua. O que escreve tem sempre uma base real? E qual é o papel da efabulação?
Nem tudo o que escrevo tem uma base real... Não tenho regra quanto a isso, porque mesmo que tenha uma base real rapidamente uma certo ficcionismo me ocupa a escrita − e eu permito. Gosto dessa deambulação sem barreiras entre o que pode ser real e aquilo que, mascarado de ainda-real, já não o é. Às vezes, é a tal emoção do momento que nos arrasta e viajamos por outros caminhos; a literatura é também um labirinto onde por vezes é importante deixarmo-nos perder, para que a intuição e o desejo possam vencer. Depois é que vem o controlo, a correcção dos textos, a lapidação, que é importantíssima. Eu gosto, por vezes, de ser levado pelos momentos, como foi o caso desse dia em que contei a estória das vacinas, tudo perfeitamente inventado, quase no momento.
Como lhe surgiu a situação?
Surgiu por causa da temática do encontro; era um debate com o tema «viagens», eu não sabia muito bem o que ia dizer, e lembrei-me dessa coisa curiosa que é a «consulta do viajante». Decidi que ia partir dessa ideia para poder participar no debate, não ia com nenhuma ideia mais concreta do que essa.
Pode contar aqui o que aconteceu?
Não me lembro de tudo, mas posso resumidamente dizer que eu ia com duas ideias, uma era essa, que era curioso haver algo chamado «consulta do viajante», e outra é que eu gosto de brincar um bocado com o sentido das palavras, e pareceu-me que poderia explorar algo em torno da «vacina amarela». A partir daí imaginei que poderia entrar numa dessas consultas e alguém dizer que aquela não era uma consulta do viajante, mas sim do «viajado», e que essa pessoa gostaria de partilhar comigo, e eu com ela, viagens já acontecidas, sensações, memórias. E à medida que fui falando fui imaginando a estória, até que cheguei a entender a questão da vacina amarela; quer dizer, contei que o médico me queria finalmente dar a vacina contra a febre amarela e eu recusei: «todas as vacinas menos essa, pois já tive outras febres, mas gostaria muito de ter uma febre de cor amarela». E penso que as pessoas reagiram bem; lá está, porque as palavras têm essa função de encantamento, e de repente, para a assistência, já fazia sentido ter uma febre «de cor amarela», e algo desagradável passou a ter uma conotação colorida e poética. É essa a força das palavras e das ideias.
No seu romance «Quantas Madrugadas Tem a Noite» há também algo «desagradável», a morte de uma pessoa. Mas você transforma a situação num romance − pegando nas suas palavras − «colorido e poético». É também assim que sente a vida?
Eu sinto que o lado incrível, inacreditável, patético (no bom sentido) da vida, me fascina. Um sorriso pode ser fascinante, o olhar de uma criança, as falas dos mais velhos, um pássaro na praia em que ninguém repara, um sonho que nos mude a manhã ao acordar; o mundo é mesmo colorido e poético, só que às vezes não observamos isso. Esta frase é, inconscientemente, reflexo de uma outra que o Guimarães Rosa escreveu: «quando nada acontece há um milagre que não estamos vendo». Se calhar os angolanos têm essa tendência de transformar o desagradável em colorido, mas não posso falar por todos. Sinto a vida assim: travessia criativa; poesia e vulcão. Nem sempre se consegue, mas vamos tentando...
O que falou há pouco da lapidação... Acontece-lhe no final da escrita em prosa. Na poesia começa a lapidar logo no início?
Na poesia lapido menos, tanto no início como no fim. Parece-me que há uma espécie de vivência interna do poema, e que ele sai quase pronto, quase nu. Mas isto já é racionalizar sobre o poema, e o poema pode zangar-se comigo. Deus me livre de um poema zangar-se comigo.
Você anda como que num triângulo, Angola, Estados Unidos e Portugal. Onde passa mais tempo? E onde pensa que vai passar mais tempo no futuro?
Vou passar mais tempo onde for mais urgente para as minhas vivências. Oxalá que esse triângulo se alargue; este ano já fui conhecer outros países, isso enriqueceu-me a poesia dos olhos, e a mão da escrita. Oxalá que esse triângulo ganhe muito mais do que três dimensões. Gosto muito do mundo, arredores e becos incluídos.
E nesse mundo, contando com arredores e becos, como vê o seu país?
Vejo o meu país a sair de uma época longa de sofrimento e de coragem, pronto para se refazer, contando com os angolanos e os demais que queiram bem àquela terra. A colonização, as guerras e todos os factores históricos que se cruzam no trajecto daquela nação têm que ser levados em conta para se entender o que já se passou e o que ainda se está a passar. Um dos grandes erros que se comete em relação a Angola é analisar a sua realidade – as suas realidades – com tanta leviandade. Não pretendo fazer isso, portanto deixo aqui apenas o meu testemunho de esperança e de empenho.
Saindo da geografia, entre a escrita de ficção, a poesia, o teatro, a pintura, o cinema, ou até outras formas de expressão, onde acha que vai passar mais tempo no futuro?
Pergunta difícil, mas que está contida nos capítulo das «surpresas humanas». Não quero planificar, quero é surpreender-me. Ou ser surpreendido por urgências de escrita. A ficção é já quase uma constante, os contos, os romances, tenho ainda muitas ideias para trabalhar... Tenho é receio do silêncio, do silêncio interno. Se um dia a voz-que-escreve se calar, terei que parar de escrever...
Tem noção de como é vista a sua obra em Angola? Ouvi o José Eduardo Agualusa dizer que antes de conhecê-lo já lhe tinha chegado aos ouvidos a fama do Ondjaki...
Ele devia estar a brincar, não me parece que seja assim… Em Luanda as pessoas vão-me conhecendo, foram conhecendo aos poucos, já tinha feito lá duas exposições de pintura, e agora na escrita felizmente entendem que eu pretendo fazer um trabalho sério, que encaro a escrita com prazer mas também com respeito. E, sobretudo, o público angolano que me lê com atenção identifica-se com a realidade que descrevo, seja a social, seja a linguística.
Como é a edição dos seus livros em Angola?
Tem sido feita repartidamente pelas duas principais editoras angolanas; tudo o que sai cá sai lá também. É uma das minhas prioridades, ter os meus livros sempre disponíveis em Angola. A outra, que é mais difícil, seria poder lançá-los e distribui-los em todas as províncias, mas tem sido complicado porque nem sempre é possível organizar as coisas. Mas continuaremos a tentar.
Você parece reinventar a escrita, na medida em que segue a reinvenção que o povo faz da língua, algo diferente, por exemplo, de Mia Couto, que parece fazer ele próprio essa reinvenção, por vezes desligada do que fazem as pessoas na realidade. Esta ideia faz sentido para si?
Há sempre uma ideia de equilíbrio entre aquilo que capto e aquilo que invento. Mas agrada-me esse acompanhamento da oralidade, e procuro, sim, nalguns projectos, transpor isso para os livros. Mas é uma parte, a outra parte dessa oralidade também é um pouco inventada. Se há reinvenção na minha escrita, repito, é porque eu preciso desse elemento, dessa máscara, dessa característica, para criar uma estória literária. E assim há-de ser no futuro, penso eu, e só mais tarde se verá que eu não estou experimentando vozes, a minha voz tem várias texturas, os meus livros são feitos a partir de plurais que se complementam. Há que degustar mais do que classificar. O resto é surpresa.
Acha correcta a ideia de reinvenção, ou será mais o próprio desenvolvimento, ou a própria evolução, da língua?
A evolução é mesmo uma reinvenção, não se pode ir contra o movimento natural de milhares de falantes. Mas eu acho que é como na educação das crianças, não se pode permitir tudo, há que ter um molde, uma referência, e o resultado da reinvenção de uma língua é o combate entre o molde e a modernidade.
Haverá então palavras nos seus futuros livros que agora ainda não existem?!
Se os homens pudessem engravidar, além de crianças deveriam poder dar à luz palavras novas; palavras originais não só na sua face fonética mas na sua interna significação. Gosto tanto dessa ideia que um dia inventei dois personagens assim: um velho muito velho que criava palavras e uma velha muito velha que destruía palavras. Pessoalmente, gostaria de poder atravessar a fronteira poética que me separa dessa utopia e estar mesmo grávido de palavras novas. Devolvo a pergunta: estarei já?

Textos sobre livros - 21

Já escrevi o texto abaixo há uns tempos. Uns bons tempos, como se pode constatar com uma rápida leitura. Eu a escrever sobre um livro de Dan Brown… E nem foi a primeira vez (um destes dias ponho aqui o que escrevi sobre «Anjos e Demónios»; já «O Código da Vinci» népia, nem uma linha escrevi, mas li o livro).

Livro: «A Conspiração», de Dan Brown (Bertrand Editora, 580 pp.)

Que farei com este livro?

Nos gelos do Árctico, longe de quase tudo, decorre mais uma história de Dan Brown. Tem os ingredientes que por cá se associam facilmente ao autor e que lhe deram a fama, mas nota-se a falta de Robert Langdon.
Falo por mim, obviamente. A história desta «conspiração» de Dan Brown, que inclui uma corrida eleitoral para o cargo de presidente dos Estados Unidos e um meteorito enterrado nos gelos do Árctico, com a NASA, a agência espacial norte-americana, metida ao barulho, podia muito bem contar com a participação do protagonista de «Anjos e Demónios» e de «O Código da Vinci». Brown escreveu o romance um ano depois (2001) da estreia do simbologista Harvard Robert Langdon a desmascarar em pleno Vaticano uma tramóia que levou à morte do papa e ao aparecimento de um novo, descendo dos céus de pára-quedas – um exagero (como outros da parte final) que transmitia alguma sensação de artificialismo. Terá evitado essa tentação em «O Código da Vinci», que marcou o seu aparecimento por cá e por muitos sítios do mundo, e se calhar isso também contribuiu para o seu sucesso, pois a verdade é que foi com «O Código da Vinci» que chegou à fama. Esquecendo a ordem de escrita dos livros, e pensando na de aparição entre nós, com Langdon a resolver primeiro o caso do «código» e depois o do papa pára-quedista, não seria despropositado esperar encontrá-lo em «A Conspiração», de novo ao lado de uma bela mulher (depois de Sophie e de Vittoria), para dar cumprimento à tradição de haver sempre uma espécie de «bond girl» por perto do simbologista, só que uma «bond girl» além de bonita extremamente inteligente. E em «A Conspiração» até nem haveria dificuldade em consegui-lo: Rachel, a protagonista, encaixaria perfeitamente no perfil.
Talvez por esta falta de Langdon eu tenha andado um bocado a patinar para ler «A Conspiração». Não é que falte o suspense, coisa que inclusive se anuncia na capa, com recurso a uma referência do «The Washington Post», mas falta o simbologista, que ainda por cima eu associei à imagem de Harrison Ford (o que me coloca outro problema, como no final explicarei). E assim, se os outros dois livros de Brown eu li a correr, desejando chegar à última página o quanto antes, com este isso não aconteceu, ou melhor, não tem acontecido; porque eu ainda ando às voltas com ele. Não direi que de repente me senti como se tivesse aberto um livro de Dan Bronw e de repente tivesse dado comigo num de Jeffrey Archer, mas também não fiquei a milhas disso. Tanto que lá vou avançando pelos habituais pequenos capítulos do autor, e um dia, acredito, hei-de chegar ao fim e saber que mistérios encerra o meteorito que obrigou Rachel Sexton a ir até ao Árctico por ordem do presidente das Estados Unidos, o qual tem o pai de Rachel a cobiçar-lhe o lugar. Enquanto não chego, ao fim, bem entendido, pergunto-me muitas vezes o que farei com o livro, se um destes dias começarei a lê-lo mais depressa, à velocidade dos dois anteriormente cá publicados, ou se manterei este ritmo, ou se irei arrumá-lo na estante sem descobrir como Rachel se safou da «conspiração» com a ajuda de um tal Michael Tolland, uma estrela televisiva de programas de divulgação científica, que aqui é uma espécie de «bond…», perdão, de «Rachel Sexton man» saído da imaginação de Brown.
Mas como poderia Brown integrar Langdon em «A Conspiração»? Talvez fosse pedir muito, porque para opinar sobre o meteorito uma personagem como Tolland é a ideal. De qualquer forma, eu gostaria que esta aventura tivesse o simbologista. Tenho de compreender, Langdon ainda não era famoso, nem Brown, e se a fama deste tivesse vindo de «A Conspiração», quem sabe se teria havido «O Código da Vinci»…
Finalmente, o problema de eu ter associado a Langdon a imagem de Harrison Ford (já agora, a Tolland associo a do actor que contracenou com Jodie Foster em «Contacto»), afinal, uma coisa óbvia, por causa dos «Indiana Jones». O actor que no cinema vai dar vida [infelizmente já deu, posso acrescentar agora, em 2007] ao simbologista é Tom Hanks. Quando soube, foi uma desilusão. Acho que nunca me vou habituar, nem que ele faça aquele ar que fez em «O Resgate do Soldado Ryan». Não quer dizer que fossem convencer Harrison Ford, até porque os anos vão passando e o Langdon de Brown parece ter sempre a mesma idade, como os «famosos cinco» dos livrinhos com scones. Mas logo Tom Hanks…

quinta-feira, 5 de abril de 2007

Uma crónica

Deixo a seguir a minha crónica «Os Dias do Blog» deste mês de Abril (revista «Magazine Artes»). Tem quase tudo a ver com coisas que foram surgindo por aqui .

O doutor de Goa
Num dia de Janeiro, eu estava todo descansado a escrever. Era no computador que escrevia, e a certa altura tive de fazer uma consulta na Internet. Foi então que vi, num portal qualquer, a ligação para uma notícia sobre Goa, onde andava o presidente da República mais uma volumosa comitiva de empresários. O presidente à pala, os empresários – segundo ouvi dizer – nem por isso. Lá fui ver até onde a ligação me poderia levar, a ligação que falava de um doutoramento e de uma manifestação de estudantes. Fiquei estupefacto, não por causa da manifestação mas por causa do doutoramento, dado pela Universidade de Goa. Mesmo honoris causa, mesmo descontando isso, não pude deixar de ficar estupefacto. O doutoramento era em Literatura.
Pensei que era no gozo, mas logo descobri que se tratava de algo mesmo a sério. Mais umas notícias, através de outras ligações, e lá continuava o doutoramento, ainda que o facto de ser em Literatura não fosse muito comentado. Como não seria depois. Tudo o que por cá é comentador, ou quase tudo, ignorou a distinção. Excepções, muito poucas... Manuel António Pina, claríssimo na seu espanto, lembrando que a diplomacia fez uma troca muito oportuna (o presidente fala de Economia na Índia, a Índia retribui-lhe com um honoris causa em Literatura) e também o episódio da ignorância sobre o número de cantos de «Os Lusíadas». Clara Ferreira Alves, espantada mas indiferente (que lhe faça bom proveito, ao doutor, o doutoramento, já se vê, era o que dizia no fim de uma crónica sobre outra coisa qualquer).
Este alheamento quase geral, tenho de confessar, deixou-me ainda mais estupefacto do que a idiotice dos doutoradores de Goa. Pela minha parte, envergonhado com a situação, mesmo muito envergonhado, fiz o que pude para exprimir esse sentimento, e a estupefacção. Da Universidade de Goa escrevi a tudo o que tinha o e-mail no site – professores, funcionários, sei lá eu o que mais… Respostas? Coisa pouca. Expliquei a barbaridade que a universidade tinha acabado de cometer; claro, acho que até já o sabia, em vão. Ao mesmo tempo, coloquei no meu blog «Floresta do Sul» uma pergunta… «A que é que se pode comparar a atribuição de um doutoramento honoris causa em Literatura a Cavaco Silva?» Respostas, algumas, bem mais do que de Goa, e nelas pude ler várias comparações bem interessantes. Não as reproduzo aqui, por questões de espaço. Assim consigo incluir o texto integral de um amigo meu, o jornalista e escritor Luís Graça; não é uma comparação, é mais, digamos assim, uma explicação. Ora vejam…
>>> Sabe-se como são estas coisas das visitas de Estado. É preciso obsequiar as visitas. E lembraram-se de um doutoramento honoris causa em Literatura. Também Mário Soares já dispunha de um doutoramento honoris causa em Literatura. Portanto, é uma coisa que fica sempre bem a um presidente. Nunca votei em Cavaco Silva. Nunca votei em Mário Soares. Estou perfeitamente consciente dos defeitos de um e de outro, enquanto políticos e homens. O doutoramento honoris causa em Literatura é mais merecido no caso de Mário Soares, que é um homem que ama os livros. Isso é indiscutível. Mas ainda assim dispunha de uma biblioteca reduzida para a dimensão da sua fundação, quando lá fui assistir a um belíssimo ciclo de cinema russo, há um ano e meio, a celebrar a vitória contra os alemães na Segunda Guerra Mundial. Essencialmente, eram volumes de Ciência Política. Sem desprezar esta área, um doutoramento honoris causa em Literatura deverá assentar melhor a quem disponha de outro tipo de livros na sua fundação. E creio bem que o doutoramento honoris causa de Soares é anterior à existência da fundação. Muito menos me chocaria um doutoramento honoris causa a Manuel Alegre. Poderia muito bem ser uma dádiva política, mas Manuel Alegre é bom poeta e fabuloso declamador. É um homem que está «por dentro» dos livros. Convém não banalizar os doutoramentos honoris causa. Um Lobo Antunes, um Saramago, têm dimensão literária mundial para justificar doutoramentos honoris causa. E não estou a discutir méritos literários de um e de outro. Por acaso até sou mais pró-Nobel para Lobo Antunes. Quanto a Cavaco Silva, o doutoramento é tanto mais injustificado quanto se sabe que no seu «reinado» de dez anos um dos capítulos que ficou mais para trás foi a Educação. Investiu-se em infra-estruturas (aproveitando o dinheiro para os pobres, da Europa), conviveu-se com a corrupção, estimulou-se o mito do «somos tão bons ou melhores do que os outros», fomentou-se o individualismo e o consumismo, esqueceu-se a solidariedade. Deu no que deu. Perdeu-se a batalha da Educação. Cavaco é um tecnocrata. É capaz de achar mais interessante um orçamento de Estado do que o «D. Quixote», de Cervantes. Mas certamente apreciará um doutoramento honoris causa em Literatura. Por motivos de vaidade. Um questionário de cinquenta perguntas sobre Literatura a Cavaco Silva seria arrasador quanto à sua ignorância na matéria. Algumas questões a que ele não saberia responder, na base da minha fé… Sabe qual o livro mais famoso de Elias Canetti?; Qual a mensagem principal de «O Principezinho», de Saint-Exupéry?; De que cor eram os olhos de Joaninha, em «Viagens na Minha Terra»? (esta poderia acertar por sorte, não há assim tantas cores para os olhos dos humanos); «O Primeiro Homem de Roma» põe em confronto duas personagens da história de Roma. Quais?; «Félix Krull, um Cavalheiro da Indústria» é uma série televisiva adaptada de um romance de um Prémio Nobel da Literatura. Qual o seu nome?; Como se chama a figura estilística literária correspondente ao flashback cinematográfico?; António Manuel Venda é um escritor português. Cite três títulos da sua obra e diga em que séculos viveu.
Viveu?! Fogo!... Num século tudo bem, viveu, mas no outro ainda vive, pelo menos enquanto escreve esta crónica.

terça-feira, 3 de abril de 2007

Golos inesquecíveis (2)

Um golo de Pedro Barbosa

Houve tempos em que eu tive uma crónica numa rádio. Era sobre futebol e abria as transmissões dos relatos que lá faziam rádio ao fim-de-semana. Para cada crónica, eu tinha sempre um texto de suporte. Em finais de 2001 não consegui deixar de lado o meu fascínio por um golo de Pedro Barbosa num jogo em que o Sporting foi ganhar ao Funchal, ao Marítimo, por dois a zero. Lembro-me de que o jogo estava um bocado complicado, depois de Jardel ter feito o primeiro golo, de penalty. Pedro Barbosa, com uma jogada deslumbrante, inimaginável antes de acontecer, resolveu as coisas. Foi com a bola até junto da bandeirola de canto do lado esquerdo do ataque do Sporting e depois, de lá, levou-a até à baliza do Marítimo, onde a fez entrar perante o espanto geral. O Sporting haveria de ganhar o campeonato uns meses depois. Essa crónica chamava-se «O génio». O texto de suporte era assim…
O génio… A crónica de hoje é sobre o génio.
Há uns tempos, um jornalista fez um trabalho sobre os convocados para a selecção portuguesa de futebol em que pedia a diversos escritores um texto sobre o seu jogador preferido. Quando me contou a história, alguns dias depois, o jornalista perguntou-me: «Se te tivesse convidado, terias aceite escrever sobre algum dos jogadores?» Disse-lhe que provavelmente não, porque nunca tive ídolos no futebol. Sempre me preocupei com o meu clube, o Sporting, e com a selecção. Fossem lá quais fossem os jogadores das duas equipas, desde que mostrassem resultados...
Mais tarde lembrei-me de que não era bem assim. Eu poderia ter escrito sobre um jogador que sempre tenho considerado uma excepção, Pedro Barbosa. E o título do texto seria, simplesmente, «O génio».
Foi o que pensei. Havia mesmo uma excepção, para além da grande excepção Diego Maradona, que para azar da nossa equipa nacional não nasceu português. Pedro Barbosa, o capitão do Sporting, foi sempre um jogador diferente para mim. Apesar da imagem que lhe associaram, curiosamente a partir de uma referência elogiosa do seu treinador mais marcante, Quinito. A imagem de se arrastar pelos relvados, cansado, sem capacidade de luta.
Para mim, essa é uma das injustiças de apreciação dos muitos intelectuais portugueses do pontapé na bola. Porque sempre vi o capitão do Sporting exactamente como o génio. Com ele em campo, eu sinto uma enorme segurança em relação ao meu clube. Porque sei que com ele as coisas estão controladas, e que a qualquer momento, quando menos se esperar, ele poderá inventar um golo. Como há uma semana, no Funchal, numa das fugazes aparições que o treinador Boloni lhe tem permitido. Com o Marítimo, nos poucos minutos em que esteve em campo, Pedro Barbosa voltou a mostrar que é mesmo o génio; ele, apenas ele.
Num tempo em que os títulos dos jornais raramente vão além de uma palavra – «Confusão», «Guerra», «Lágrimas», «Yes», «Esperança», «Vitória», «Sistema», «Bomba», «Gelo», «Inferno», «Felicidade», «Portugal» e por aí adiante, num tempo assim, Pedro Barbosa, o génio, conseguiu fazer com que um diário desportivo colocasse em título uma frase mais bem composta, «Pedro Barbosa marcou um golo extraordinário». Para seguir a moda, talvez no jornal devessem ter optado apenas por uma palavra. «Génio», obviamente.

Pequenas histórias - 7

Pelo fim da tarde

Pelo fim da tarde, quando muitos dos pássaros das redondezas se atarefam de árvore em árvore antes do descanso da noite, outras criaturas também pensam nas árvores. Algumas, inclusive, já chegaram aos ramos das folhas mais suculentas. E os pássaros que por lá andavam tiveram que sair. Sem uma única explicação. Nem mesmo de Lobo Antunes.

segunda-feira, 2 de abril de 2007

A aproximação

Sporting – 2, Beira Mar – 0 (Abel, Liedson). Muito agradável, mesmo muito agradável o jogo da aproximação do Sporting aos dois primeiros classificados. Algumas notas apenas:
- é bom ter excelentes jogadores e colocá-los na equipa (Nani, Romagnoli, Liedson, Yannick, Abel, Miguel Veloso…);
- Ricardo, felizmente para o Sporting, atravessa uma longa fase de segurança;
- juntar Polga e Caneira no centro da defesa é de os adeptos ficarem sempre com o coração nas mãos – mas enfim, Tonel está lesionado, Polga é visto como um craque e Caneira tem de jogar sempre, nem que seja a vigiar as linhas de marcação ou as bandeirolas de canto;
- o golo de Liedson (cruzamento incluído) foi espectacular – não escrevo «empolgante» porque o adjectivo me faz lembrar outros futebóis, ou melhor, outro tipo de futebolista;
- foi bom ver Paulo Bento de volta à serenidade (em contrapartida, Fernando Santos está sempre «na realidade») – Paulo Bento escusava era de ter feito aquela substituição de mau gosto já sobre o final do jogo (provavelmente os adeptos do Sporting já não se lembravam de que Custódio ainda faz parte do plantel, e de repente viram-no entrar em campo).