sexta-feira, 6 de abril de 2007

Textos sobre livros - 21

Já escrevi o texto abaixo há uns tempos. Uns bons tempos, como se pode constatar com uma rápida leitura. Eu a escrever sobre um livro de Dan Brown… E nem foi a primeira vez (um destes dias ponho aqui o que escrevi sobre «Anjos e Demónios»; já «O Código da Vinci» népia, nem uma linha escrevi, mas li o livro).

Livro: «A Conspiração», de Dan Brown (Bertrand Editora, 580 pp.)

Que farei com este livro?

Nos gelos do Árctico, longe de quase tudo, decorre mais uma história de Dan Brown. Tem os ingredientes que por cá se associam facilmente ao autor e que lhe deram a fama, mas nota-se a falta de Robert Langdon.
Falo por mim, obviamente. A história desta «conspiração» de Dan Brown, que inclui uma corrida eleitoral para o cargo de presidente dos Estados Unidos e um meteorito enterrado nos gelos do Árctico, com a NASA, a agência espacial norte-americana, metida ao barulho, podia muito bem contar com a participação do protagonista de «Anjos e Demónios» e de «O Código da Vinci». Brown escreveu o romance um ano depois (2001) da estreia do simbologista Harvard Robert Langdon a desmascarar em pleno Vaticano uma tramóia que levou à morte do papa e ao aparecimento de um novo, descendo dos céus de pára-quedas – um exagero (como outros da parte final) que transmitia alguma sensação de artificialismo. Terá evitado essa tentação em «O Código da Vinci», que marcou o seu aparecimento por cá e por muitos sítios do mundo, e se calhar isso também contribuiu para o seu sucesso, pois a verdade é que foi com «O Código da Vinci» que chegou à fama. Esquecendo a ordem de escrita dos livros, e pensando na de aparição entre nós, com Langdon a resolver primeiro o caso do «código» e depois o do papa pára-quedista, não seria despropositado esperar encontrá-lo em «A Conspiração», de novo ao lado de uma bela mulher (depois de Sophie e de Vittoria), para dar cumprimento à tradição de haver sempre uma espécie de «bond girl» por perto do simbologista, só que uma «bond girl» além de bonita extremamente inteligente. E em «A Conspiração» até nem haveria dificuldade em consegui-lo: Rachel, a protagonista, encaixaria perfeitamente no perfil.
Talvez por esta falta de Langdon eu tenha andado um bocado a patinar para ler «A Conspiração». Não é que falte o suspense, coisa que inclusive se anuncia na capa, com recurso a uma referência do «The Washington Post», mas falta o simbologista, que ainda por cima eu associei à imagem de Harrison Ford (o que me coloca outro problema, como no final explicarei). E assim, se os outros dois livros de Brown eu li a correr, desejando chegar à última página o quanto antes, com este isso não aconteceu, ou melhor, não tem acontecido; porque eu ainda ando às voltas com ele. Não direi que de repente me senti como se tivesse aberto um livro de Dan Bronw e de repente tivesse dado comigo num de Jeffrey Archer, mas também não fiquei a milhas disso. Tanto que lá vou avançando pelos habituais pequenos capítulos do autor, e um dia, acredito, hei-de chegar ao fim e saber que mistérios encerra o meteorito que obrigou Rachel Sexton a ir até ao Árctico por ordem do presidente das Estados Unidos, o qual tem o pai de Rachel a cobiçar-lhe o lugar. Enquanto não chego, ao fim, bem entendido, pergunto-me muitas vezes o que farei com o livro, se um destes dias começarei a lê-lo mais depressa, à velocidade dos dois anteriormente cá publicados, ou se manterei este ritmo, ou se irei arrumá-lo na estante sem descobrir como Rachel se safou da «conspiração» com a ajuda de um tal Michael Tolland, uma estrela televisiva de programas de divulgação científica, que aqui é uma espécie de «bond…», perdão, de «Rachel Sexton man» saído da imaginação de Brown.
Mas como poderia Brown integrar Langdon em «A Conspiração»? Talvez fosse pedir muito, porque para opinar sobre o meteorito uma personagem como Tolland é a ideal. De qualquer forma, eu gostaria que esta aventura tivesse o simbologista. Tenho de compreender, Langdon ainda não era famoso, nem Brown, e se a fama deste tivesse vindo de «A Conspiração», quem sabe se teria havido «O Código da Vinci»…
Finalmente, o problema de eu ter associado a Langdon a imagem de Harrison Ford (já agora, a Tolland associo a do actor que contracenou com Jodie Foster em «Contacto»), afinal, uma coisa óbvia, por causa dos «Indiana Jones». O actor que no cinema vai dar vida [infelizmente já deu, posso acrescentar agora, em 2007] ao simbologista é Tom Hanks. Quando soube, foi uma desilusão. Acho que nunca me vou habituar, nem que ele faça aquele ar que fez em «O Resgate do Soldado Ryan». Não quer dizer que fossem convencer Harrison Ford, até porque os anos vão passando e o Langdon de Brown parece ter sempre a mesma idade, como os «famosos cinco» dos livrinhos com scones. Mas logo Tom Hanks…

quinta-feira, 5 de abril de 2007

Uma crónica

Deixo a seguir a minha crónica «Os Dias do Blog» deste mês de Abril (revista «Magazine Artes»). Tem quase tudo a ver com coisas que foram surgindo por aqui .

O doutor de Goa
Num dia de Janeiro, eu estava todo descansado a escrever. Era no computador que escrevia, e a certa altura tive de fazer uma consulta na Internet. Foi então que vi, num portal qualquer, a ligação para uma notícia sobre Goa, onde andava o presidente da República mais uma volumosa comitiva de empresários. O presidente à pala, os empresários – segundo ouvi dizer – nem por isso. Lá fui ver até onde a ligação me poderia levar, a ligação que falava de um doutoramento e de uma manifestação de estudantes. Fiquei estupefacto, não por causa da manifestação mas por causa do doutoramento, dado pela Universidade de Goa. Mesmo honoris causa, mesmo descontando isso, não pude deixar de ficar estupefacto. O doutoramento era em Literatura.
Pensei que era no gozo, mas logo descobri que se tratava de algo mesmo a sério. Mais umas notícias, através de outras ligações, e lá continuava o doutoramento, ainda que o facto de ser em Literatura não fosse muito comentado. Como não seria depois. Tudo o que por cá é comentador, ou quase tudo, ignorou a distinção. Excepções, muito poucas... Manuel António Pina, claríssimo na seu espanto, lembrando que a diplomacia fez uma troca muito oportuna (o presidente fala de Economia na Índia, a Índia retribui-lhe com um honoris causa em Literatura) e também o episódio da ignorância sobre o número de cantos de «Os Lusíadas». Clara Ferreira Alves, espantada mas indiferente (que lhe faça bom proveito, ao doutor, o doutoramento, já se vê, era o que dizia no fim de uma crónica sobre outra coisa qualquer).
Este alheamento quase geral, tenho de confessar, deixou-me ainda mais estupefacto do que a idiotice dos doutoradores de Goa. Pela minha parte, envergonhado com a situação, mesmo muito envergonhado, fiz o que pude para exprimir esse sentimento, e a estupefacção. Da Universidade de Goa escrevi a tudo o que tinha o e-mail no site – professores, funcionários, sei lá eu o que mais… Respostas? Coisa pouca. Expliquei a barbaridade que a universidade tinha acabado de cometer; claro, acho que até já o sabia, em vão. Ao mesmo tempo, coloquei no meu blog «Floresta do Sul» uma pergunta… «A que é que se pode comparar a atribuição de um doutoramento honoris causa em Literatura a Cavaco Silva?» Respostas, algumas, bem mais do que de Goa, e nelas pude ler várias comparações bem interessantes. Não as reproduzo aqui, por questões de espaço. Assim consigo incluir o texto integral de um amigo meu, o jornalista e escritor Luís Graça; não é uma comparação, é mais, digamos assim, uma explicação. Ora vejam…
>>> Sabe-se como são estas coisas das visitas de Estado. É preciso obsequiar as visitas. E lembraram-se de um doutoramento honoris causa em Literatura. Também Mário Soares já dispunha de um doutoramento honoris causa em Literatura. Portanto, é uma coisa que fica sempre bem a um presidente. Nunca votei em Cavaco Silva. Nunca votei em Mário Soares. Estou perfeitamente consciente dos defeitos de um e de outro, enquanto políticos e homens. O doutoramento honoris causa em Literatura é mais merecido no caso de Mário Soares, que é um homem que ama os livros. Isso é indiscutível. Mas ainda assim dispunha de uma biblioteca reduzida para a dimensão da sua fundação, quando lá fui assistir a um belíssimo ciclo de cinema russo, há um ano e meio, a celebrar a vitória contra os alemães na Segunda Guerra Mundial. Essencialmente, eram volumes de Ciência Política. Sem desprezar esta área, um doutoramento honoris causa em Literatura deverá assentar melhor a quem disponha de outro tipo de livros na sua fundação. E creio bem que o doutoramento honoris causa de Soares é anterior à existência da fundação. Muito menos me chocaria um doutoramento honoris causa a Manuel Alegre. Poderia muito bem ser uma dádiva política, mas Manuel Alegre é bom poeta e fabuloso declamador. É um homem que está «por dentro» dos livros. Convém não banalizar os doutoramentos honoris causa. Um Lobo Antunes, um Saramago, têm dimensão literária mundial para justificar doutoramentos honoris causa. E não estou a discutir méritos literários de um e de outro. Por acaso até sou mais pró-Nobel para Lobo Antunes. Quanto a Cavaco Silva, o doutoramento é tanto mais injustificado quanto se sabe que no seu «reinado» de dez anos um dos capítulos que ficou mais para trás foi a Educação. Investiu-se em infra-estruturas (aproveitando o dinheiro para os pobres, da Europa), conviveu-se com a corrupção, estimulou-se o mito do «somos tão bons ou melhores do que os outros», fomentou-se o individualismo e o consumismo, esqueceu-se a solidariedade. Deu no que deu. Perdeu-se a batalha da Educação. Cavaco é um tecnocrata. É capaz de achar mais interessante um orçamento de Estado do que o «D. Quixote», de Cervantes. Mas certamente apreciará um doutoramento honoris causa em Literatura. Por motivos de vaidade. Um questionário de cinquenta perguntas sobre Literatura a Cavaco Silva seria arrasador quanto à sua ignorância na matéria. Algumas questões a que ele não saberia responder, na base da minha fé… Sabe qual o livro mais famoso de Elias Canetti?; Qual a mensagem principal de «O Principezinho», de Saint-Exupéry?; De que cor eram os olhos de Joaninha, em «Viagens na Minha Terra»? (esta poderia acertar por sorte, não há assim tantas cores para os olhos dos humanos); «O Primeiro Homem de Roma» põe em confronto duas personagens da história de Roma. Quais?; «Félix Krull, um Cavalheiro da Indústria» é uma série televisiva adaptada de um romance de um Prémio Nobel da Literatura. Qual o seu nome?; Como se chama a figura estilística literária correspondente ao flashback cinematográfico?; António Manuel Venda é um escritor português. Cite três títulos da sua obra e diga em que séculos viveu.
Viveu?! Fogo!... Num século tudo bem, viveu, mas no outro ainda vive, pelo menos enquanto escreve esta crónica.

terça-feira, 3 de abril de 2007

Golos inesquecíveis (2)

Um golo de Pedro Barbosa

Houve tempos em que eu tive uma crónica numa rádio. Era sobre futebol e abria as transmissões dos relatos que lá faziam rádio ao fim-de-semana. Para cada crónica, eu tinha sempre um texto de suporte. Em finais de 2001 não consegui deixar de lado o meu fascínio por um golo de Pedro Barbosa num jogo em que o Sporting foi ganhar ao Funchal, ao Marítimo, por dois a zero. Lembro-me de que o jogo estava um bocado complicado, depois de Jardel ter feito o primeiro golo, de penalty. Pedro Barbosa, com uma jogada deslumbrante, inimaginável antes de acontecer, resolveu as coisas. Foi com a bola até junto da bandeirola de canto do lado esquerdo do ataque do Sporting e depois, de lá, levou-a até à baliza do Marítimo, onde a fez entrar perante o espanto geral. O Sporting haveria de ganhar o campeonato uns meses depois. Essa crónica chamava-se «O génio». O texto de suporte era assim…
O génio… A crónica de hoje é sobre o génio.
Há uns tempos, um jornalista fez um trabalho sobre os convocados para a selecção portuguesa de futebol em que pedia a diversos escritores um texto sobre o seu jogador preferido. Quando me contou a história, alguns dias depois, o jornalista perguntou-me: «Se te tivesse convidado, terias aceite escrever sobre algum dos jogadores?» Disse-lhe que provavelmente não, porque nunca tive ídolos no futebol. Sempre me preocupei com o meu clube, o Sporting, e com a selecção. Fossem lá quais fossem os jogadores das duas equipas, desde que mostrassem resultados...
Mais tarde lembrei-me de que não era bem assim. Eu poderia ter escrito sobre um jogador que sempre tenho considerado uma excepção, Pedro Barbosa. E o título do texto seria, simplesmente, «O génio».
Foi o que pensei. Havia mesmo uma excepção, para além da grande excepção Diego Maradona, que para azar da nossa equipa nacional não nasceu português. Pedro Barbosa, o capitão do Sporting, foi sempre um jogador diferente para mim. Apesar da imagem que lhe associaram, curiosamente a partir de uma referência elogiosa do seu treinador mais marcante, Quinito. A imagem de se arrastar pelos relvados, cansado, sem capacidade de luta.
Para mim, essa é uma das injustiças de apreciação dos muitos intelectuais portugueses do pontapé na bola. Porque sempre vi o capitão do Sporting exactamente como o génio. Com ele em campo, eu sinto uma enorme segurança em relação ao meu clube. Porque sei que com ele as coisas estão controladas, e que a qualquer momento, quando menos se esperar, ele poderá inventar um golo. Como há uma semana, no Funchal, numa das fugazes aparições que o treinador Boloni lhe tem permitido. Com o Marítimo, nos poucos minutos em que esteve em campo, Pedro Barbosa voltou a mostrar que é mesmo o génio; ele, apenas ele.
Num tempo em que os títulos dos jornais raramente vão além de uma palavra – «Confusão», «Guerra», «Lágrimas», «Yes», «Esperança», «Vitória», «Sistema», «Bomba», «Gelo», «Inferno», «Felicidade», «Portugal» e por aí adiante, num tempo assim, Pedro Barbosa, o génio, conseguiu fazer com que um diário desportivo colocasse em título uma frase mais bem composta, «Pedro Barbosa marcou um golo extraordinário». Para seguir a moda, talvez no jornal devessem ter optado apenas por uma palavra. «Génio», obviamente.

Pequenas histórias - 7

Pelo fim da tarde

Pelo fim da tarde, quando muitos dos pássaros das redondezas se atarefam de árvore em árvore antes do descanso da noite, outras criaturas também pensam nas árvores. Algumas, inclusive, já chegaram aos ramos das folhas mais suculentas. E os pássaros que por lá andavam tiveram que sair. Sem uma única explicação. Nem mesmo de Lobo Antunes.

segunda-feira, 2 de abril de 2007

A aproximação

Sporting – 2, Beira Mar – 0 (Abel, Liedson). Muito agradável, mesmo muito agradável o jogo da aproximação do Sporting aos dois primeiros classificados. Algumas notas apenas:
- é bom ter excelentes jogadores e colocá-los na equipa (Nani, Romagnoli, Liedson, Yannick, Abel, Miguel Veloso…);
- Ricardo, felizmente para o Sporting, atravessa uma longa fase de segurança;
- juntar Polga e Caneira no centro da defesa é de os adeptos ficarem sempre com o coração nas mãos – mas enfim, Tonel está lesionado, Polga é visto como um craque e Caneira tem de jogar sempre, nem que seja a vigiar as linhas de marcação ou as bandeirolas de canto;
- o golo de Liedson (cruzamento incluído) foi espectacular – não escrevo «empolgante» porque o adjectivo me faz lembrar outros futebóis, ou melhor, outro tipo de futebolista;
- foi bom ver Paulo Bento de volta à serenidade (em contrapartida, Fernando Santos está sempre «na realidade») – Paulo Bento escusava era de ter feito aquela substituição de mau gosto já sobre o final do jogo (provavelmente os adeptos do Sporting já não se lembravam de que Custódio ainda faz parte do plantel, e de repente viram-no entrar em campo).

sexta-feira, 30 de março de 2007

Às quinhentas

Às quinhentas, quando ninguém deve estar a ver, coloco aqui o título do romance que vou publicar no início de Maio (edição da AMBAR, na colecção «Literatura Universal»). Chama-se «O que Entra nos Livros». Mais uns dias e mostro aqui a capa.

quarta-feira, 28 de março de 2007

Kasparov e Saramago

O antigo campeão mundial de xadrez Garry Kasparov esteve em Portugal há não muito tempo. Uns meses, três ou quatro. Ouvi-o falar numa conferência para gestores. Estratégia, tomada de decisão, inovação, empreendedorismo, por coisas como estas andou o discurso de Kasparov. A certa altura, surpreendeu-me ao falar de José Saramago; a propósito de inovação. Não o fez pela opção única do Nobel português de escrever com uma pontuação bem peculiar, marcada sobretudo pela frugalidade, que permite uma leitura ao ritmo da própria respiração. Não, foi por algo que também será propício à inovação, à capacidade de inovar: as dificuldades da vida, principalmente aquelas que são experimentadas em criança. Para isso, recorreu a uma frase de Saramago… «As crianças crescem melhor à sombra do que ao sol.» Kasparov não referiu, no entanto, uma sombra absolutamente fantástica do criador de «Memorial do Convento», a de uma figueira junto da qual, nas tardes de Verão, o rapazito Saramago se deitava muitas vezes, para se proteger do calor. A mesma figueira que depois, a cada noite, o voltava a acolher; a ele, Saramago, que embalado pelas histórias do avô via as estrelas por entre os ramos. Como escreve no discurso de Estocolmo… «No meio da paz nocturna, entre os ramos altos da árvore, uma estrela aparecia-me, e depois, lentamente, escondia-se por trás de uma folha, e, olhando eu noutra direcção, tal como um rio correndo em silêncio pelo céu côncavo, surgia a claridade opalescente da Via Láctea…»

sábado, 24 de março de 2007

Um outro blog

Ali ao lado, na «Nota Biográfica», está o link para um outro blog que criei. Chama-se «Mundo RH». Ainda só lá coloquei um texto, do qual retirei para aqui este excerto… «Chamava-se Agostinho da Silva esse filósofo e pelo tempo em que deu essa resposta estava a ser como que redescoberto, ou talvez apenas descoberto, depois de durante décadas ter sido por cá ignorado. Gozava os últimos anos da sua vida, numa casa da zona do Príncipe Real, em Lisboa, com alguns gatos por companheiros e com a lida da casa a ser assegurada pela empregada de uma amiga que vivia perto. A empregada chamava-se Manuela e eu lembro-me de a ver de vez em quando em casa de pessoas conhecidas, numas visitas a correr, invariavelmente a falar do ‘senhor professor’ e dos gatos, e sempre bem disposta, sorridente, por vezes a soltar uma gargalhada, e por vezes também a meter nas frases uma expressão brejeira ou até um palavrão. Isto era no final da década de 1980…»

Borges ou Maradona?

Há uns anos fui a Madrid fazer uma entrevista a Jorge Valdano, então director desportivo do Real Madrid. Foi uma entrevista sobre gestão e liderança, e acabou por ficar bem longa. A certa altura a conversa passou pela literatura – eu tinha acabado de ler uma colectânea de contos editada em Portugal pela Relógio d’Água, e Valdano era um dos participantes. Deixo a seguir essa pequena parte da entrevista…
Há um conto seu, numa colectânea em que participam escritores famosos, no qual fala de um guarda-redes que defendeu um penalty no último minuto de um jogo, mas que depois entrou na baliza para ir buscar o boné, levando a bola bem segura nas mãos... Isso aconteceu mesmo ou foi você que inventou?
Eu ouvi contar isso desde pequeno, mas não é uma situação real.
De qualquer forma, seria uma situação possível no futebol...
Sim, por isso a contei. Uma das muitas histórias de perdedores... Mostra as duas faces do futebol em poucos segundos, o herói e o proscrito.
Como se sentiu no meio de uma parada de estrelas da literatura? Foi mais difícil do que jogar ao lado de Maradona ou Burruchaga, por exemplo?
Bom, o futebol é o meu mundo…
Todos aqueles escritores adoram futebol. Javier Marías, Alfredo Brice Etchnique...
Eu sinto-me muito bem com eles. Tenho muitos amigos na literatura, de todas as gerações. Sinto-me muito bem no meio de gente como Mario Benedetti, Francisco Umbral, Manuel Vásquez-Montalban...
Javier Marias é do Real Madrid...
Sim, é adepto do Real Madrid.
...
A verdade é que eu gosto muito de escrever, mas gosto ainda mais de ler. Enfim, se tivesse de escolher entre ser Borges ou ser Maradona, haveria sempre de optar por ser Maradona.

sexta-feira, 23 de março de 2007

Pequenas histórias - 6

Rosa foge

Nunca foi assim, desde tempos – como diriam alguns profetas, perdão, alguns patetas, perdão de novo, alguns poetas, e também poetisas, é claro, apesar de a palavra não ser aconselhada em certos círculos – imemoriais; nunca foi de facto assim, desde tempos imemoriais. Mas agora uma rosa foge, e foge para o lado esquerdo. Na verdade, a fuga é para a direita, isto vendo as coisas a partir da roseira, que tem uma parede atrás. Toma-se o lado esquerdo como o que acolheu a fuga por via das tendências eleitorais, ou antes, eleitoralistas, como diriam alguns profetas, ou eleitoraleiras, como diria um, e apenas um, dos patetas (poetas e poetisas, neste caso, não têm por hábito pronunciar-se).

Alarvis affair

Pensava não referir mais o assunto aqui, mas tem de ser. Soube ontem que afinal aquela parvoíce do Algarve com dois éles poderia ter dado noutra coisa. Parece que em discussão estiveram três alternativas: o tal «Allgarve», um estranho «Algarvis» e um estranhíssimo «Algarve Affair». Soube também (tinha-me passado completamente ao lado) que o mesmo Pinho dos dois éles (e respectiva tropa, obviamente) já no ano passado tinha feito algo parecido, numa campanha para o país todo, intitulada «Portugall Summer» (ao que se diz, nas duas primeiras semanas de Agosto, já o «summer» ia adiantado, terão sido torrados um milhão e meio de euros).

quinta-feira, 22 de março de 2007

Sejamos justos

Sejamos justos. Pinho anuncia finais de crise, mas este senhor aqui ao lado há não muitos, mesmo não muitos anos, chegava a anunciar um oásis já não digo por semana, mas pelo menos um por mês. Sempre no mesmo sítio, claro.