sexta-feira, 9 de março de 2007

Textos sobre livros – 17


Livro: «Na Pista da Dança», de Fernando Sobral (Teorema, 184 pp.)

Saiu um novo romance de Fernando Sobral. Chama-se «O Navio do Ópio» e a edição é da Oficina do Livro. Ainda não li (ou antes, li um bocadinho, porque espreitei um ficheiro com umas trinta páginas que em tempos o autor me enviou). O que deixo a seguir é um pequenino texto sobre um romance anterior de Fernando Sobral, chamado «Na Pista da Dança» e de cuja leitura gostei muito.

«Na Pista da Dança», assim se chama, primeiro romance do jornalista Fernando Sobral (saiu em 2000), oferece-nos a possibilidade de olhar para um mundo de onde a ficção costuma andar afastada. Pelo menos a ficção portuguesa. É o mundo da música, entre o rock e a tecnho, no meio de copos, raves, sexo e droga, com a Internet e a cada vez mais velha e gasta nova economia sempre de soslaio. No Barreiro, na ressaca da grande aventura industrial da margem sul do Tejo. «Os subúrbios têm segredos», pode ler-se na badana. «Escondem muitas coisas que não nos querem dizer. Sabem demasiadas coisas que não nos podem revelar. São territórios que muitos julgam conhecer, mas que nunca conhecerão.» Pior ainda, e pegando numa imagem feliz do autor, «se são subúrbios com subúrbios à volta».
Um mundo povoado de gente pouco afeita a grandes combates, sem paciência para mais revoluções. O mundo deste livro. «O Barreiro já não era nem uma cidade industrial nem um subúrbio. Pelo contrário, tornara-se, a pouco e pouco, um território deserto, ocupado ao fim de semana pelos jovens dos subúrbios que se tinham criado à volta.» O mundo de Rita, a jovem vocalista dos Croma, que não acredita em bruxas, embora admita que se alguma vez existiram no Barreiro «já foram todas de barco para Lisboa». E o mundo de David Guerra, ou apenas David, regressado de Cabo Verde com a ideia fixa de fazer uma editora discográfica, que talvez alguém se encarregue de transformar numa dotcom.
No Ás de Copas, o «bar da moda» do «subúrbio com subúrbios à volta», David e Rita… «Ela sentou-se e David não deixou de a achar bonita. Morena, muito morena, com uns olhos verdes que pareciam ainda mais brilhantes naquele cruzamento de cores do bar./ – Desculpe ter pensado neste sítio, mas é quase sempre um hábito para mim nos últimos tempos. – Não faz mal. Eu não conhecia. Foi aqui que mataram aquela rapariga, há uns anos, não foi?/ David acenou com a cabeça. Perguntou-lhe o que queria beber e pediu dois runs. O dela é Cuba Livre. Depois falou-lhe da sua ideia de fundar uma editora. Um sonho que estava quase a concretizar-se. A culpa é de ter passado anos a ouvir rock, entre ganzas e cervejas. Ia chamar-se Pirotechnia. Rita riu. Eu não gosto muito de tecnho, disse. Nem eu espero que goste, disse David. A única razão porque se chama assim é porque gosto de fazer trocadilhos com as palavras.» É apenas o primeiro encontro dos dois. Num bar do «subúrbio com subúrbios à volta».

Já fora do pequeno texto sobre «Na Pista da Dança», uma nota relativa ao autor. Fernando Sobral começou no jornalismo no «DN Jovem», o histórico suplemento do «Diário de Notícias», tendo trabalhado depois nos jornais «Semanário», «O Independente» e «Diário Económico». Foi também chefe de redacção do jornal «Se7e». Actualmente, é jornalista do «Jornal de Negócios» e colaborador do «Correio da Manhã» e da revista «Sábado».

quinta-feira, 8 de março de 2007

Palhaço indigno e outras coisas do Sporting


Outro comentário, deixado ali abaixo, sobre o «palhaço indigno», expressão criada por Eduardo Barroso durante um descontrolo que teve na última segunda-feira em directo na Antena 1… «Um palhaço indigno é todo o espectador de futebol que se recuse a aceitar o futebol como aquilo que deveria ser sempre: apenas um jogo./ O Pedro Tochas é um grande palhaço (premiado internacionalmente). Mas há palhaços que são indignos. Aqueles que não percebem que um sorriso de criança pode ser uma coisa preciosa./ O futebol está cheio de bandalhos. Não metam os palhaços nisto. Ricos ou pobres.»
Apesar de não ser novidade para mim, não consegui deixar de intrigar-me com a despropositada parcialidade de Eduardo Barroso (a teima de que Liedson não merecia ter sido expulso em Leiria). Não basta o Sporting estar completamente descredibilizado pelos seus responsáveis, ainda aparecem os adeptos com estatuto de comentador a dizer asneiras em programas de grande audiência. Como se não bastasse, depois de ouvir a figura triste de Eduardo Barroso, dei com Rui Oliveira e Costa na televisão a insistir no assunto e depois a meter-se a opinar sobre alguns jogadores do Sporting. Ajudou-me a perceber que muitas vezes são os próprios adeptos do clube que ajudam a afundá-lo ainda mais, pela parcialidade e pelo desconhecimento que revelam. A certa altura, Rui Oliveira e Costa meteu-se a jogar com as palavras e a falar do empolgante Polga no jogo de Leiria, presumo que por causa de uma das corridas à maluca do medíocre, embora esforçado, central do Sporting. Caneira, outro do género de Polga, com a agravante de lhe faltar a capacidade de luta do colega, não foi referido, mas creio que poderia muito bem ter sido, se a Rui Oliveira e Costa tivessem dado mais uns minutos de análise. Mesmo assim, este comentador ainda teve tempo para lamentar a substituição de Romagnoli pelo, como ele dizia, «Parreirinha». Os comentadores do Porto e do Benfica bem que tentaram corrigi-lo, mas ele nada, insistia no «Parreirinha». «Parreirinha» para aqui, «Parreirinha» para ali… E por isso o jovem substituto de Romagnoli, Bruno Pereirinha, ficou por nomear no programa.
Nisto do «Parreirinha» (provavelmente na foto acima), Rui Oliveira e Costa fez-me lembrar um dirigente do Sporting (creio que um que em tempos se especializou em navios de cruzeiro atracados, vazios e alugados a peso de ouro) que uma vez numa entrevista a um jornal se meteu a falar da festa que fez no jogo do título de 1982, ainda um jovem, em Alvalade e curiosamente contra o Leiria; um jogo com uma vitória por três a zero. Dizia que nunca mais se haveria de esquecer dessa festa. Mas não, não era nada disso; ele já se tinha esquecido. A festa foi a do título de 1979. A de 1982 foi bem diferente, embora a vitória tenha sido também por três a zero, ou antes, zero a três; foi num jogo no Estoril, na ante-penúltima jornada, sendo um dos golos marcado de muito longe. Depois ainda haveria um jogo de sete a um (em Alvalade com o Rio Ave, talvez prenúncio dos sete a um de quatro anos depois com o Benfica) e na despedida do campeonato uma derrota nas Antas por dois a zero, com um avançado portista minúsculo (Jacques) a ganhar por um golo (o que marcou nesse jogo) a Bola de Prata a Jordão (27 contra 26). Seria pedir muito, pela tradição destes últimos anos, a um dirigente do Sporting que se recordasse destas coisas correctamente. E a Rui Oliveira e Costa? E, já agora, a Eduardo Barroso, o criador da expressão «palhaço indigno»? Seria também pedir muito? A verdade é que não sei.

terça-feira, 6 de março de 2007

O lateral

Este post não é sobre o treinador que aparece na foto, mas sobre outro, precisamente o que hoje foi eliminado por ele. Entre muitas das considerações que o treinador eliminado fez retive uma sobre o golo que deu a vitória ao Chelsea sobre o Porto. Disse Jesualdo Ferreira que aquele golo era típico das equipas inglesas. Achei piada. Um cruzamento longo para a área, os centrais do Porto às aranhas, um jogador da Costa do Marfim cabeceia para um da Ucrânia, que por sua vez cabeceia para um da Alemanha, e este faz o golo. Assim aconteceu a vitória do Chelsea, uma equipa treinada por um português (que tem adjuntos de Portugal e do Brasil) e pertencente a um multimilionário russo. Mas atenção, o cruzamento foi feito por um defesa lateral inglês.

Ainda aquilo do palhaço indigno

Ainda a propósito do que escrevi ali abaixo, depois do empate do Sporting em Leiria e do descontrolo radiofónico de Eduardo Barroso, deixo aqui excertos de duas das mensagens que recebi a propósito da pergunta que fiz, se alguém me sabia dizer o que é um palhaço indigno. A primeira apareceu nos comentários ao post. A segunda foi apenas para o meu endereço de e-mail. Primeira: «Um palhaço indigno é aquele que devia ser expulso da Ordem dos Palhaços, a qual se não há devia de haver, até porque o país está cheio deles, mais até dos indignos, porque os dignos ainda se dignam ganhar a vida dignissimamente. O palhaço indigno faz falsas palhaçadas, porque devia estar quieto e não torrar o dinheiro e o juízo ao portuga. O palhaço indigno é digno de profundo desprezo.» Segunda, mais um reparo do que uma resposta: «Atenção, há palhaços muito dignos. Em miúdo adorava vê-los a calcorrear os palcos circulares, cheios de cor e de música…»

Textos sobre livros – 16


Livro: «Parque Gorki», de Martin Cruz Smith (Edições ASA, 456 pp.)

Num mundo desaparecido

Um dos mais notáveis romances sobre um mundo desaparecido, o da Guerra-fria, escrito poucos anos antes da queda do Muro de Berlim e da derrocado da União Soviética. «Parque Gorki» é o primeiro título de uma trilogia do escritor norte-americano Martin Cruz Smith.
Uma noite escura. Um Inverno ameno. Os faróis ofuscantes da carrinha de uma brigada de homicídios. Estamos em Moscovo, no célebre Parque Gorki. Da neve que cobre o parque surgem três cadáveres. Talvez «um trio embriagado de vodka que morrera alegremente de frio». Seria um trabalho comum para a brigada de homicídios. Mas não, os três cadáveres têm também por perto, e com um estranho interesse, gente do KGB. Não são bêbados mortos de frio, são três desconhecidos, com os rostos e os dedos mutilados; quem lhes levou a vida parece ter querido esconder as suas identidades para sempre, esconder tantas coisas.
É a partir deste episódio que começa uma investigação do polícia criado por Martin Cruz Smith, representado no grande ecrã – no caso de «Parque Gorki» – por William Hurt (o romance, escrito no início da década de 1980 foi rapidamente adaptado ao cinema por Michael Apted, tendo Hurt a seu lado nomes como Lee Marvin, Joana Pacula ou Brian DeNehy). Chama-se Arkadi Renko esse polícia e é filho de um herói soviético da segunda guerra mundial, a quem parece ter desiludido. «A estas horas podias ser general. O filho do Govorov comanda a região militar de Moscovo inteira. Com o meu nome ainda podias ter subido mais alto. Bem, eu sabia que não tinhas tomates para comandar a unidade de blindados mas, pelo menos, podias ter-te tornado um desses imbecis da secreta.» Isto diz o general ao filho, já «comido de cancro, bichoso», comido também pelas recordações, devorado por elas, sem um mínimo de piedade.
Mas Arkadi Renko não é bem o que diz o velho general. O pacato polícia, que tem por missão investigar os crimes banais de uma cidade que a ditadura comunista transformou num lugar onde nada acontece, vai viver a aventura da sua vida, estranhamente uma aventura que não parece representar nada de novo para ele. A procura da verdade vai levá-lo para bem longe do seu mundo limitado, e ele mantém-se imperturbável, seja com a vida pessoal completamente de pantanas, seja às voltas com o KGB, seja bem longe, no coração da própria América.
Esta primeira aventura de Renko (a ASA prevê publicar proximamente as outras duas, «Havana Bay» e «Red Star») acaba por constituir um retrato por vezes minucioso de uma União Soviética em decadência, devassada pelos espartilhos do regime de Moscovo, pela corrupção das elites e por uma miséria que parece endémica. É sem dúvida uma viagem apaixonante a um mundo desaparecido, o da Guerra-Fria, um mundo de cuja implosão ficaram muitos estilhaços. Recomenda-se cuidado nos pormenores, pois a história que Martin Cruz Smith conta tem por vezes aspectos à primeira vista um pouco confusos.

Alguém me sabe dizer o que é um palhaço indigno?

Leiria – 0, Sporting – 0. Cheguei há bocado a casa (ou como diria o Alberto João Jardim, «há pedaço»). De Lisboa até aqui (é depois da estrada que coloco na foto), entre outros programas ouvi um da Antena 1 sobre futebol, com um comentador do Porto, outro do Benfica e outro do Sporting. O do Sporting era (acho que sempre tem sido) Eduardo Barroso. Estava de cabeça perdida e ameaçava mesmo desistir de participar em programas do género daquele (e incitava outros sportinguistas comentadores a fazerem o mesmo). O problema era o jogo de ontem, sobretudo a confusão que antecedeu a expulsão de Liedson. Não concordava com ela. Achava que Liedson não agrediu ninguém. Depois já achava que sim, mas que não era bem uma agressão e que por isso não dava para cartão vermelho; já só pensava no amarelo a Rossato, um defesa brasileiro do Leiria (um amarelo muito estranho, de facto), e num penalty a favor do Sporting, que bem poderia ter ajudado. Eduardo Barroso disparava «palhaços» a torto e a direito, ainda por cima «indignos», além, é claro, de «palhaçadas». O árbitro, o fiscal de linha que avisou o árbitro da agressão de Liedson, o agredido defesa do Leiria que ajudou à festa, tudo uns «palhaços», só que dos «indignos». Mas alguém me sabe dizer o que é um palhaço indigno?
É óbvio que Liedson foi bem expulso. Contrariamente ao que pensei logo a seguir, mesmo assim a equipa aguentou-se e poderia muito bem ter ganho nas calmas (e se alguns jogadores no momento de rematar tivessem tido calma). A ideia com que fiquei após o jogo foi a de que o Sporting está mesmo numa fase má para a qual parece não haver solução. Paulo Bento, a quem – volto a dizer – sempre apoiei para treinador, parece-me ultrapassado pelos acontecimentos e agora até já diz uma ou outra parvoíce no fim dos jogos. Os responsáveis do clube (ou da sade, ou lá o que é), desses é melhor nem falar para não ficar ainda mais pessimista. Com esses responsáveis (?) os problemas são bem mais graves do que aqueles dos desequilíbrios da equipa, em que à mistura com verdadeiros craques aparecem jogadores absolutamente medíocres. Temo que o Sporting esteja mesmo numa situação muito complicada, e mais do que apenas ao nível da equipa de futebol. Os problemas parecem-me estar a um nível global, com a gestão entregue a gente que cada vez mais se mostra absolutamente incapaz.

domingo, 4 de março de 2007

Segunda edição

Quarta-feira, 12 de Julho de 2006. Nesse dia publiquei aqui um pequeno texto intitulado «Não devia contar isto». Publico-o agora de novo. Parece-me actual, sobretudo devido às teimas do tipo que se pode ver na fotografia aqui ao lado; teimas em retirar a hipótese de milhares de portugueses terem acesso a serviços de saúde, mesmo que muito maus. Uma nota para um pormenor da fotografia. No púlpito aparece a expressão «novas fronteiras»; vem mesmo a propósito, pois as teimas que referi podem muito bem, com o passar do tempo, dar origem a novas fronteiras para Portugal, fazendo com que toda a zona interior passe a ser uma região de Espanha. O pequeno texto então, a itálico…
Eu andava para ir ao médico. Tinha-me aparecido uma borbulha que me parecia estranha e que nunca mais passava. Dias e dias e cada vez pior, até a formar um pequeno volume que me doía se fizesse pressão. A coisa preocupava-me. Tinha de ir mesmo ao médico, provavelmente a uma clínica a que por vezes recorria. Mas para algo assim eu não sabia a que especialidade ir. Então, talvez ir ao médico de família fosse o melhor… Mas isso devia demorar um ror de tempo, era o que eu pensava.
Um destes dias, a meio da tarde, uma tarde de calor, mesmo de muito calor, eu ia a conduzir pelas ruas de Montemor-o-Novo. E lembrei-me de ir ao centro de saúde, em tempos hospital, marcar uma consulta. A ver o que dava. Entrei e só vi dois funcionários, cada um no seu cubículo. Uma senhora e um rapaz. A senhora disse-me para falar com o rapaz. Eu disse que era para marcar uma consulta e acrescentei o nome do médico de família (que não conhecia, por ter recentemente transferido o processo de Lisboa).
O rapaz lá teclou umas coisas no computador e depois disse-me que era três euros e meio. Perguntei por quê, se estava apenas a marcar a consulta. E ele esclareceu-me que aquele era o dia em que o meu médico de família estava na urgência e que eu podia ser atendido (assim como poderia ser por outro médico se o dia fosse outro). Tinha consulta para a urgência.
Eu precisava de ir com o meu filho a Évora daí a duas horas. À pediatra (consulta privada, já se vê). O rapaz disse que dava tempo, e ainda me informou de que para consultas normais poderia fazer a marcação num sítio que ficava na outra ponta do centro de saúde. Depois mandou-me para a sala de espera.
Mesmo com o aviso do rapaz de que dava tempo, eu disse para comigo que se não fosse atendido na hora seguinte desistia, mesmo tendo pago os três euros e meio. Na sala de espera estava uma pessoa, que foi chamada quando eu ia a entrar. Levava uns papéis na mão, provavelmente para mostrar ao médico, pois saiu daí a uns cinco minutos. Fui chamado a seguir e conheci finalmente o meu médico de família. Disse-lhe ao que ia e ele não demorou muito a tranquilizar-me. Não era nada preocupante o que eu tinha; receitou-me um antibiótico e disse para tomar durante dez dias.
Eu não devia contar isto, porque se algum espertalhão armado em ministro da saúde sabe ainda manda encerrar o centro de saúde de Montemor-o-Novo e para a próxima tenho de ir a Évora, ou quem sabe a Badajoz.

Textos sobre livros – 15

Livro: «A Família de Pascual Duarte», de Camilo José Cela (Círculo de Leitores, 179 pp.)

O primeiro livro do viajante incansável
As linhas que vêm a seguir a este parágrafo foram escritas já há uns anos. São de um texto que fiz para uma rubrica sobre livros que tive numa rádio – o autor do livro em causa é o escritor galego Camilo José Cela (1916 – 2002).
«A Família de Pascual Duarte», um romance que fez sair a literatura espanhola dos campos ermos em que se encontrava. É o primeiro livro do escritor espanhol Camilo José Cela, celebrado Prémio Nobel da Literatura em 1989. Em 1942, ano em que foi publicado pela primeira vez, constituiu uma autêntica revelação, pela audácia, pela originalidade do tema e pelo carácter bronco e desgarrado do clima humano que ressalta a cada página. Com este livro a literatura espanhola regressou ao mundo popular, o mundo campestre, povoado por seres absolutamente primários. Seres com instintos básicos e paixões selvagens que traduzem a barbárie ancestral de uma terra marcada pelo violência e pelo ódio. Em plena ressaca da Guerra Civil de Espanha, a um livro como este nada de bom se auguraria por terras de Espanha, onde um verme criminoso, baixote e barrigudo começava a deixar as suas marcas no papel de ditador. Assim, o livro teve a sua primeira edição na Argentina, o que não impediu um sucesso imediato. Haveria de tornar-se um dos mais lidos da língua castelhana.
Camilo José Cela nasceu na Galiza, em 1916, na localidade de Iria Flávia, filho de pai espanhol e mãe inglesa. Estudou Direito, Medicina e Filosofia, mas essencialmente acabaria por ser um escritor. Mais do que um romancista, um escritor, dono de um talento verbal difícil de igualar, com um estilo meticuloso, muito elaborado, misturando habilmente a rudeza e a ternura. A sua obra é multifacetada. Nela destacam-se os contos e, principalmente, os livros de viagens, como o célebre «Viaje a la Alcarria», incluído entre nós num volume das Edições Asa de título «Vagabundo ao Serviço de Espanha». Cela sempre foi um viajante incansável e provavelmente não há caminho em Espanha que não tenha calcorreado. Conheceu o êxito, mas também atraiu o ódio de muita gente, pela escrita, pelos temas que abordava, pelas opiniões que emitia. Tornou-se um dos mais traduzidos e estudados escritores espanhóis, mas também um dos mais polémicos. Nos últimos anos da sua vida, por exemplo, deram brado em Espanha as suas opiniões sobre a homossexualidade de Lorca.
O romance «A Família de Pascual Duarte» trata da história de um camponês dos arredores de Badajoz, filho de mãe espanhola e pai português (de seu nome Estêvão Duarte Diniz). A trama enquadra-se na perfeição no clima de ódio e vingança decorrente dos anos da guerra fratricida que envolveu o país vizinho. Camilo José Cela, curiosamente, dedica o livro aos seus inimigos, que – afirma – tanto o ajudaram na sua carreira. E autodenomina-se um «transcritor». É ele que acha o manuscrito de Pascual Duarte numa farmácia de Almendralejo, perto de Badajoz. É Almendralejo a terra de Pascual Duarte, uma terra que muitas décadas depois se tornaria bem conhecida com uma efémera subida do seu modesto clube, o Extremadura, à multimilionária primeira liga do futebol espanhol.
O «transcritor» acha que finalmente chegou a hora de publicar as folhas do manuscrito maldito (em 1942, três anos depois de o ter encontrado). «… só Deus sabe», diz ele, «que mãos desconhecidas ali as deixaram – fui-me entretendo de então para cá a traduzi-las, a ordená-las, uma vez que o manuscrito – em parte devido à má letra, em parte porque encontrei as folhas sem numeração e desordenadas – era pouco menos que ilegível.» Pascual Duarte, segundo Cela, «é um modelo de comportamento; não um modelo para imitar mas para ouvir; um modelo perante o qual apenas se pode dizer:/ – Vês o que faz? Pois faz o contrário do que devia.» E depois acrescenta: «... talvez seja essa a única razão por que o trago à luz».
Pascual Duarte, tal como o «transcritor», dedica o seu manuscrito. Se Cela o faz a todos os seus inimigos, Pascual é mais modesto. Dedica-o assim: «À memória do insigne conterrâneo Dom Jesus Gonzáles de la Riva, conde de Torremejía, que no momento em que o autor desta narrativa o ia matar, lhe sorria e lhe chamava Pascualzinho.» Dom Jesus Gonzáles de la Riva era o amante da mãe de Pascual Duarte. Tanto ele como ela morreram às mãos do descontrolado Pascual. Pascual que no fim do relato conta a parte do assassinato da mãe. E depois acrescenta: «Larguei-a e saí a fugir. Choquei com a minha mulher; apaguei-lhe a candeia. Alcancei o campo e corri, corri sem descanso, horas sem fim. O campo estava fresco e dava-me uma sensação de alívio que me inundava as veias.../ Podia respirar...»
Uma curiosidade final: já na década de 1990, bem depois de ter ganho o Prémio Nobel da Literatura, Camilo José Cela inscreveu-se num concurso literário. Fê-lo sob anonimato, como mandava o regulamento, e acabou por ganhar.

sexta-feira, 2 de março de 2007

Alface

«Deixem que esclareça um aspecto: dia em que o senhor Branco caísse na asneira de cogitar, de se debruçar sobre si próprio, meditando e especulando, empinando o juízo como se montasse um alazão a gasóleo, um dia assim era dia em que pessoa alguma conseguiria aguentar-se nas suas imediações. Nem mais perto.» Escrevia assim João Alfacinha da Silva (n. Montemor-o-Novo, 1949), que assinava os livros com o pseudónimo «Alface». Escrevia assim, e escrevia muito bem. É um bocadinho de um dos seus livros que fui roubar. Soube que morreu hoje. Uma notícia muito, muito triste.

Textos sobre livros – 14


Livro: «Diário Remendado – 1971-1975», de Luiz Pacheco (Publicações Dom Quixote, 286 pp.)

Imaginação para quê?

O diário de Luiz Pacheco em Massamá, com alguns cortes. Quatro anos que ajudam a compreender boa parte da sua vida, e boa parte da sua obra. Ou como o escritor libertino que chegou a duvidar da sua própria imaginação, afinal, teve sempre por perto matéria capaz de acudir a alguma eventual deficiência.
É uma sensação estranha a que me provoca a leitura do «Diário Remendado» de Luiz Pacheco. O autor, nascido a sete de Maio de 1925, começa o diário com 46 anos e termina-o com 50. E conta a sua vida, toda a enxurrada de acontecimentos (e desacontecimentos) que a vão tornando digna de nota, nem que seja nos cadernos onde vai escrevendo na casa alugada de Massamá. Só que a imagem que eu tenho de Luiz Pacheco – a imagem, entenda-se, imagem de foto; as ventas, ou as fuças, como talvez ele escrevesse – é a dos últimos anos: Pacheco já velho, no lar, mas com a desenvoltura de sempre no palavreado. E o «Diário Remendado» conta a vida dele a caminho dos 50 anos. Por isso é estranha a sensação (ainda por cima com as seis fotos do velho Pacheco na contracapa), eu a ler o que vai acontecendo na vida e na cabeça do escritor libertino, na primeira metade da década de 1970, e ao mesmo tempo com a imagem de um Pacheco de há poucos anos bem presente na minha cabeça. Daí a estranheza, e os esforços sucessivos que tenho de fazer para acreditar no que conta o autor sobre os seus dias – e os seus pensamentos, os seus sonhos, tantas coisas suas – de Massamá. Uma ajuda, no entanto, chegou-me há uns dias: um exemplar dos «Exercícios de Estilo» de Pacheco, a terceira edição da Estampa, com um Pacheco aí de uns 50 anos – parece-me – na capa; talvez consiga ler de forma diferente o «Diário Remendado» numa outra ocasião. Se mesmo assim não conseguir, problema meu, dirá muita gente (já Pacheco dirá coisa pior, por certo); mas adiante…
Veja eu a imagem de um velho a viver os acontecimentos do diário, ou faça já alguns progressos a ver o Pacheco aí com uns 50 anos da referida edição dos «Exercícios…», espanto-me com a sua vida imaginosa, com as suas tropelias por vezes inimagináveis, e continuo a ler. Não consigo desistir, por mais que o diário se meta por caminhos que, o mais certo, tratando-se de outro autor, seria fazerem-me arranjar-lhe logo um merecido (?) descanso na estante. Leio então, e espanto-me, é de novo a estranheza, mas não com a falta de verosimilhança de ver o tal Pacheco velho a viver as tropelias do Pacheco mais novo. É outra estranheza, a das dúvidas colocadas, a certa altura, pelo escritor libertino em relação à sua imaginação. Ele interroga-se… «E aqui bate o ponto que esta manhã me ocorreu: terei eu imaginação?» Continua no parágrafo seguinte… «A verdade, é fácil reconhecê-lo, é que até agora fiz muito pouco uso da imaginação nos meus escritos.» Depois mete-se a dar exemplos, referindo partes de escritos seus como «O Teodolito» ou «O Caso das Criancinhas Desaparecidas». Mais adiante escreve… «(…) das duas uma: ou não tenho imaginação que preste ou não soube até agora e por escrito fazer uso dela» E segue… «E esta hipótese lisonjeira é que me tenta. Se eu não tivesse imaginação nenhuma, como explicar então os meus sonhos quase todas as noites e à dúzia por noite? Ainda esta noite [de 27 para 28 de Abril de 1973, portanto], sonho portentoso e longo, a costumada viagem de comboio (necessidade de evasão?), agora com o Américo Thomaz e uma rapariga não identificada, mas em que me pareceu reconhecer, predominante na mistura de sugestões, a Rapariga da Testa Alta, por causa de quem escrevi ontem ao Jorge Ramos, poeta-bancário de Mangualde, o Manias que gosta de oferecer as mulheres aos amigos, convidá-los a irem para a cama com elas (a mim, com a Rapariga da Testa Alta, queria-me pagar dormida num hotel de Lisboa).
Parecem dúvidas desnecessárias estas do Pacheco a caminho dos 50, ou do Pacheco de agora. Porque a verdade é que não as retirou da edição que foi feita do diário, como fez com outras partes. Será importante saber se Luiz Pacheco tem ou não imaginação? Se a tem agora ou se a tinha em 1973, ou nalguma outra altura da sua vida em que escreveu? A vida de Luiz Pacheco, que é muito do que está na sua obra (e este diário é um exemplo disso), essa sua vida não será já suficientemente imaginosa para que ele dispense a imaginação quando escreve a contar o que lhe vai acontecendo e o que ele próprio vai fazendo acontecer? Talvez não tenha mesmo sido presenteado com uma grande imaginação, mas se tivesse, e em abundância, será que isso não teria contribuído para que na escrita contasse outras coisas e não aquilo que a ele próprio dizia respeito? Talvez conhecêssemos hoje um outro Luiz Pacheco, ou nem sequer o conhecêssemos. Isso é que seria, obviamente, de lamentar.

Académica e Aves


Sporting – 2 (Liedson), Académica – 1. Lá continuamos a ver se com a Taça de Portugal depois dá para dizer que a época fica salva. Não me parece que ganhar a taça sirva de grande desculpa para as asneiras do campeonato, mas enfim, sempre é a Taça de Portugal. Deste jogo, de que não consegui ver a segunda parte, mas sobre a qual li alguma coisa, parece-me que a ideia que fica é a de uma inversão do que é habitual na actuação do Sporting, com a primeira parte sem aflições (que chegaram na segunda), ao contrário do que é habitual. Nota ainda para o facto (relevante e provavelmente inspirador para a equipa) de o capitão (?) Custódio nem no banco se ter sentado. Quanto ao Aves, deixo a seguir o que escrevi depois do jogo da última sexta-feira (empate a zero)…
Das últimas viagens de regresso a casa, do escritório de Lisboa para Montemor, a de sexta-feira à noite terá sido das mais irritantes. Foi a ouvir a primeira parte do jogo do Sporting com o Aves, sabendo o que seria mais provável que acontecesse, que a equipa emperrasse e depois do intervalo, já comigo em casa, desse para ver o jogo como que do início, na televisão; e talvez o Sporting, mesmo atrofiado, ganhasse, nem que fosse apenas por um golo ou dois, ajudado pelo árbitro ou não. Por mais mal que as coisas estivessem, não me parecia possível que uma equipa que se tem apresentado muito limitada, como o Aves, pudesse causar um problema tão grande como aquele que causou. Ainda por cima com um treinador que lá vai sempre fazendo o discurso vazio de que é preciso acreditar, lutar e mais uma série de palavras igualmente vazias (com o tempo a passar e a equipa a não fazer pontos), um treinador que ainda teve a lata de dizer que não ia jogar tão defensivo como o Chelsea no campo do Porto na última jornada da Liga do Campeões – asneira com que também se saiu Jaime Pacheco, isto quando o Chelsea na maior parte do tempo dominou completamente o Porto e ficou a sensação, por vezes, de que só não ganhou porque não quis, enquanto que o Porto para empatar, e até para ganhar, porque também poderia ter ganho, precisou de jogar nos limites. Mas adiante… O treinador do Aves saiu-se com a asneira de se meter a comparar o seu clube com o Chelsea, ele que há muitos anos, mais de vinte, quando apareceu no mundo da bola, precisamente por fazer subir o Aves à então denominada primeira divisão, uma vez deu uma longa entrevista creio que à extinta «Gazeta dos Desportos» em que fazia afirmações, no mínimo, estranhas, sobre as quais dizer que estava com a mania das grandezas era pouco. Uma dessas afirmações, lembro-me, era de que na tropa já havia uns superiores que quando o olhavam diziam que ele tinha qualquer coisa de especial e que haveria de chegar longe; enfim, não terá sido exactamente com estas palavras, mas terá andado perto. Bom, o Aves empatar em Alvalade, e ainda por cima com este treinador, não me parecia possível. Mas vejamos melhor as coisas. O problema do treinador… Se fosse assim o Benfica não teria ganho nas calmas em Alvalade com Fernando Santos a treinador. E outra comparação, o discurso para o futuro do treinador do Aves, sem que a equipa passe da cepa torta... Não é o mesmo discurso de Paulo Bento, aquelas tretas de lutar, dos objectivos e mais uma data de coisas metendo pelo meio a tranquilidade (como Fernando Santos mete a expressão «na realidade», que até rima)? E a equipa? Será que eu estava a ver bem as coisas ao pensar que a do Aves era limitada? Repare-se na equipa inicial do Sporting frente ao Aves. Tire-se os bons jogadores: Liedson, Nani, João Moutinho, Yannick e Miguel Veloso. Tire-se ainda Bueno e Ronny, que estão uns furos abaixo mas sabem jogar à bola. Vejamos os outros, que ainda são quatro e podem fazer a diferença. Ricardo, o Ricardo certinho, de uma boas defesas de vez em quando, de uns penalties defendidos quando o rei (ou a rainha de Inglaterra) faz anos. Será que Ricardo é melhor do que o guarda-redes (Nuno) que o Aves apresentou? Duvido muito. Caneira, o jogador que até faz uns cortes e atrapalha os adversários se não for para correr muito, mas que não tem a mínima ideia do que fazer se for preciso construir uma jogada de ataque pelo seu corredor. Será que algum dos defesas do Aves, por exemplo o lateral direito, que creio se chama Anilton e de quem eu nunca tinha ouvido falar? Polga, o desportista que se enganou na modalidade. Será que é melhor do que algum dos defesas do Aves, por exemplo Sérgio Nunes? Não tenho duvidas de que não. E o capitão (?), o impressionante capitão (?) Custódio, impressionante, explico, porque nunca o Sporting terá chegado a este descaramento (de quem decide) de ter como capitão, em toda a sua história, um jogador tão lento e desleixado, com tiques de vedeta que sabe que não se deve esforçar muito. Comparar Custódio com quem no Aves? Com Filipe Anunciação, por exemplo? Nem vale a pena comparar. Custódio, que pela sua postura na equipa lembra-me um dos bonecos da Marvel, o enérgico Capitão América, só que ao contrário, uma espécie de Capitão Amélia capaz de enlear qualquer equipa em que o ponham a ver se faz de capitão. Ou seja, eu admito que estava a ver mal quando pensava que o Sporting de qualquer maneira ganhava ao Aves. Misturando estes quatro problemas da equipa com os craques e mais Bueno e Ronny, pode muito bem dar uma coisa parecida com o Aves. E o empate, por isso, até era um resultado possível.
Claro que tudo isto que coloquei neste longo parágrafo são pormenores. Bastaria que houvesse dirigentes verdadeiramente profissionais e com capacidade de liderança, com dedicação e empenho, para que não permitissem estes desequilíbrios gravíssimos na equipa que é a principal bandeira do clube. Repare-se no que pode acontecer no caso de Nani, por exemplo… No dia do jogo com o Aves, saiu nos jornais a notícia de que afinal o ordenado dele não chega a três mil contos por mês. Muitas pessoas gostariam de ganhar o que ele ganha e que mesmo assim acha pouco? Mas a comparação a fazer não é essa. O que se pode perguntar é: será justo que se pague muito mais, mas mesmo muito mais, a jogadores como aqueles quatro de que falei e deixar assim um verdadeiro craque, ainda por cima bastante jovem… Na sexta-feira à noite, algum dirigente do Sporting poderia ter perguntado isso a um jogador do Aves (Artur Futre) que ele ter-lhe-ia explicado que não e até lhe citaria o exemplo de um tio dele que acabou por mandar o Sporting à fava no final da adolescência porque ganhava cinquenta contos, não sei quantas vezes menos do que alguns colegas que estavam a anos-luz do talento dele.
Penso que nesta altura só poderia haver a solução de os dirigentes controlarem as coisas, mas esses são o que toda a gente sabe e deles não se pode esperar nada. O treinador, Paulo Bento, não me parece que seja de considerar para esta discussão. Tenho achado desde a sua entrada na equipa principal que é um bom treinador para o Sporting, mas começo a duvidar disso. Não vejo nenhuma sensibilidade para os problemas de agora, como teve por exemplo para os da disciplina, quando mostrou alguma fibra. Mas agora mostra que ao mesmo tempo também é fraco, sobretudo nas conferências de imprensa, que enche de banalidades e de reflexões que deveriam ficar para ele e para a equipa. E há as apostas na mediocridade, e coisas lamentáveis como aquilo de se meter a responder ao outro que antes treinava o clube e de que já pouca gente se lembra, ou de ter ficado traumatizado com a rábula que sobre ele fez o líder dos Gato Fedorento. Além de, depois de pensar um pouco, eu ver que o discurso dele afinal é igual ao do treinador do Aves. Não sei, não tenho a certeza de isto que vou escrever ser justo ou não, mas talvez fosse altura de Paulo Bento pensar na hipótese de se demitir. Mas depois, com a equipa (?) de gestão (??) que o Sporting tem, o que poderia acontecer? Quem iria essa equipa arranjar para fazer de treinador? No fundo, a pergunta a que eu não consigo responder é mais terra-a-terra. Como, vendo as coisa do ponto de vista do adepto, poderá ser possível ter o Sporting a jogar só com bons jogadores? Como ter a equipa a entrar em campo com um guarda-redes de alto nível que defenda o que é defensável e de vez em quando segure até algumas bolas impossíveis? Como entrar em campo com uma defesa em que não apareça a mediocridade de Polga e de Caneira? Como deixar de emperrar à volta, imagine-se, do próprio capitão da equipa?

quinta-feira, 1 de março de 2007

Mais um bocadinho


Mais um bocadinho do meu próximo romance (sai em Maio, ed. AMBAR). A cidade onde quase tudo acontece é Évora, como referi num post de há dias, mas neste bocadinho falo de Lisboa.
(…) Achava que Lisboa era uma cidade absolutamente caótica, sem futuro, condenada nem eu sabia bem a quê, uma cidade que só me despertava algum interesse quando a observava do meio do tabuleiro da nova ponte, diante de mim, a descer para o rio, ameaçando afundar-se a qualquer momento. De longe parecia bonita, não se via o lixo, a degradação dos edifícios, a publicidade, nem se percebia a confusão das ruas; os caixotes de apartamentos quase que faziam algum sentido e até os aviões, a voarem um pouco acima do volume que descia para o Tejo, pareciam ter uma certa graça, tanto que eu observava-os com um bocadinho do mesmo fascínio com que no montado que cercava o monte observava as águias uns metros acima de mim. Às vezes ia no carro pela estrada de terra que atravessava o montado até à estrada de alcatrão e via à minha frente uma sombra; travava então um pouco e uma águia surgia a voar uns dez metros acima do chão, enorme, quase do tamanho de uma galinha, mas vigorosa, dona dos ares, a águia a dar a ideia de que era capaz de ser dona de tudo o que quisesse naquele momento.
Curiosamente, os aviões que eu via pequeninos de cima do tabuleiro da nova ponte de Lisboa, esses aviões quando eu já conduzia na Segunda Circular, mesmo ao lado do aeroporto, surpreendiam-me como as águias ao passarem de repente uns metros acima do carro, se calhar apenas trinta ou quarenta metros nalgumas das vezes. Quase que me causavam a surpresa das águias, não fosse o ruído tremendo que de repente surgia nem eu sabia de onde, como se o mundo estivesse mesmo a acabar e no momento decisivo chegasse a algum deus com currículo a ideia de tocar um gongo para assinalar devidamente a ocasião. Mas depois o mundo continuava, sempre, a cada avião que me passava por cima, às vezes a dar a ideia de que poderia riscar-me a pintura do tejadilho do carro com o trem de aterragem. Já com as águias, na estrada de terra do montado, eu não pensava nisso, quando me voavam por cima do carro e eu as percebia pela sombra que no chão as denunciava se os dias fossem de sol. No montado o voo das águias não era o prenúncio do fim do mundo, não era o prenúncio do fim de nada, nem do princípio de nada. O mundo no montado parecia ser algo que permanecia, mas sempre a mudar, a transformar-se, sempre diferente, tão diferente que por vezes as águias até voavam baixinho, a um ou dois metros de altura, evitando os troncos dos sobreiros e das azinheiras com um à-vontade de que eu não poderia nunca gabar-me em relação ao que fazia com as pedras que de surpresa apareciam na estrada de terra a atirarem olhares de cobiça a algum dos pneus.
(…)