quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

Textos sobre livros – 9

Este «textos sobre livros», o número nove, aparece depois do número seis; mas não é um salto, porque ali abaixo estão dois textos, um sobre «A fórmula de Deus», de José Rodrigues dos Santos, e outro sobre um belíssimo romance de uma jovem escritora galega chamada Rosa Aneiros (são eles o número sete e o número oito). Quanto ao número nove, aqui fica, por causa da morte de Pinochet, no domingo.
O livro chama-se «Pinochet, Epitáfio para um Tirano», foi escrito durante o ano de 1999 pelo jornalista e escritor chileno Pablo Azócar e publicado em 2000 (li-o nesse ano) pela editora Campo das Letras. Primeiro comentário: o título, bem explícito, com o nome do ditador e a palavra tirano, e também a palavra epitáfio. Creio que está tudo na medida certa.
Pablo Azócar, a partir da detenção de Augusto Pinochet em Londres, depois da feliz acção do juiz espanhol Baltazar Garzón, mostra quem foi verdadeiramente o todo-poderoso senhor do Chile durante 17 anos (de 1973 a 1990). Mostra-o desde a infância, como passou de burro – na escola – a tenente (esse é aliás o título de um dos capítulos, «De burro a tenente»), como foram importantes na sua vida duas mulheres – a mãe e a esposa –, como progrediu na carreira militar. E como dois dias antes do golpe de 11 de Setembro de 1973 ainda se mantinha fiel ao governo de Salvador Allende. E também como, à última hora, integrou o grupo de generais revoltosos e acabou por imergir como principal figura da junta militar. Para depois ser a figura única.
Este livro mostra também os podres dos governos da transição chilena, após 1990. Denuncia o branqueamento do papel miserável dos figurões da ditadura, com Pinochet à cabeça. Mostra como tentaram – e como conseguiram – transformá-lo num avozinho incapaz de ter algum dia feito mal a uma mosca.
Só para deixar as coisas bem claras, não resisto a trazer aqui alguns diálogos gravados no dia do golpe, desde o posto de comando das operações:
Pinochet – Tenho a impressão de que o senhor civil (refere-se a Allende) arrancou nos blindados. E Mendoza não tem contacto com ele?
Carvajal – Não, mas nos blindados não fugiu. Os carros de assalto partiram antes e eu posteriormente falei com ele pelo telefone.
Pinochet - De acordo. Nesse caso, é preciso impedir a saída e, se ele sair, é preciso prendê-lo.
Carvajal - Também falei depois com o ajudante de campo naval, que me confirmou que Allende está em La Moneda.
Pinochet - Então, devemos estar prontos para actuar em relação a ele. É melhor matar a cadela e assim acaba-se a cria!
Mais adiante:
Pinochet - Rendição incondicional! Nada de parlamentar, rendição incondicional.
Carvajal - Muito bem, de acordo. Rendição incondicional para quem for preso e prometendo respeitar a sua vida, digamos assim.
Pinochet - A vida e a sua integridade física e de seguida despacha-se para qualquer lado.
Carvajal - De acordo. Ou seja, mantém-se a oferta de o fazer sair do país.
Pinochet - Mantém-se a oferta de o fazer sair do país... E o avião pode cair, por ser velho, quando estiver no mar.
Seguiram-se alguns risos.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

Houve tempos em que as coisas eram piores

Sim, é verdade, as coisas não estão nada boas no Sporting, e era fácil de ver no que iam dar certas apostas, nomeadamente aquela de meter à mistura com os jovens craques alguns jogadores ou maus ou medíocres. Mas já houve tempos em que as coisas estiveram piores. Veja-se, por exemplo, este texto que escrevi em Fevereiro de 1998…


»»» O Leandro é um bom miúdo
Nos últimos três jogos do campeonato nacional de futebol, em nove pontos possíveis o Sporting conquistou um. A equipa caiu na classificação até ao quinto lugar, escapando do sexto porque o Salgueiros escorregou. Está a dezassete pontos do Porto, a sete do Benfica, a seis do Guimarães e a um do Rio Ave. Para além de tudo isto, como se o cenário não fosse já suficientemente mau, foi eliminado da Taça de Portugal pelo Sporting de Braga, equipa a que também não conseguiu ganhar em casa, há menos de um mês, jogando contra nove adversários. Carlos Manuel, o popular (?) Carlão, tem-se desdobrado em explicações; quer dizer, desdobrado mesmo no verdadeiro sentido da palavra, porque as explicações são as mais variadas. No início da deplorável saga, perdendo, ganhando ou empatando, Carlão dizia sempre que a equipa tinha trabalhado bem, que estava com uma boa atitude, que tinha sido séria, além de outras banalidades que não se deviam admitir nem a um entregador de
pizzas, quanto mais a um treinador de um clube de futebol que dirige a equipa que dirige e parece que ganha cinco mil contos por mês. Mas Carlão dizia outras coisas nessa altura, como o futuro ser já amanhã, o Leandro ser um bom miúdo, um campeão, e que era preciso trabalhar bem, de novo ter atitude, ser sério e trabalhar sempre de uma forma séria. Carlão estava na fase da seriedade.
Um dia o Leandro não gostou de uma decisão de Carlão e mandou-o dar uma volta, abandonando o treino em seguida. Da mesma maneira que antes tinha mandado dar uma volta o «Chico Vital» (como chamava José Roquette a Francisco Vital). Carlão não convocou o Leandro para o jogo seguinte, contra o Rio Ave, mas mesmo assim conseguiu arrancar um empate a ferros em Vila do Conde. Dias depois vieram as pazes, Carlão perdoou o Leandro e voltou a convocá-lo, e o Leandro marcou três golos a uma fragilizada equipa do Belenenses. O «miúdo sério e campeão» finalmente deu um ar da sua graça. Um dos raríssimos ares da sua até então escassa graça, e aceitou mesmo, uns dias depois, ir levar um bolo de aniversário a Carlão acompanhado por uma equipa de reportagem da SIC. O «miúdo», a caminho da casa do treinador, nem sabia o que haveria de vir a dizer, mas à chegada lá se desenrascou. Carlão ficou de boca aberta, mas depressa se recompôs e começou com as afirmações da praxe. Que o Leandro, «aquele malandro!», era «um bom miúdo». E que tinham de ficar para jantar, e que não era por aquilo que o Leandro ia jogar se não trabalhasse e se não fosse «um miúdo sério». Era a fase de bem receber do popular (?) Carlão.
Depois Carlão entrou na fase de se trocar todo. Empatou em casa com o Braga, a jogar contra nove esgotados minhotos, e ainda teve a lata de dizer que tinha jogado contra a equipa mais defensiva do campeonato. Passados uns dias, essa mesma equipa tão defensiva despachou-o da Taça de Portugal com três a um. Ainda pior do que o modesto Chaves entretanto fizera, depois de Carlão ter dito que esperava que em Trás-os-Montes não viesse a faltar a luz durante o jogo. Era melhor que tivesse mesmo faltado. Carlão já começava a fazer experiências com os mais novos jogadores da equipa, alguns deles do clube-satélite. O Leandro, o «miúdo sério», tinha que ser acompanhado por outros miúdos, senão era capaz de se zangar outra vez. Ele parecia contentar-se cada vez menos só com doze ou treze mil contos por mês. Precisava de um ambiente mais alegre, e além disso apregoava na capa de uma revista que queria uma namorada. Demonstrava que, além de ser «um miúdo sério» e de ser «um malandro» («Oooolhó malandro do Leandro, veio-me trazer um bolo de aniversário!!»), demonstrava, dizia, que não era nada parvo.
E a fase do trocar-se todo instalou-se mesmo. Carlão entregou os cordelinhos da equipa ao pequeno Afonso Martins. E deu-se mal, tanto mais que o talentoso Pedro Barbosa logo para azar entrou num período em que pouco se mexia pelo relvado. Para ajudar à festa, o marroquino Hadji já há muito que desertara para o Coruña, enquanto que o antes tão estranhamente elogiado Didier Lang mostrou definitivamente o artista que era na realidade. Assim como muitos outros confirmaram também aquilo de que quase toda a gente já desconfiava. Tanto que o Sporting caiu até ao quinto lugar. E o futuro, para Carlão, passou a ser não já amanhã, mas sim bem no próprio futuro, talvez para a próxima época. E a equipa deixou de ser «séria», e de «trabalhar», e de «ter atitude», e de «meter o pé». De forma que as responsabilidades de Carlão, na óptica dele, dele Carlão, entenda-se, só lhe podem por isso começar a ser assacadas na próxima época, para a qual já começa a ter grandes planos de cobiça a alguns jogadores do Salgueiros.
Mas Carlão não tem culpa de tudo; o popular (?) Carlão está inocente. Assim como o popular Quim Barreiros estaria inocente se também o tivessem escolhido para treinador do Sporting. Se calhar Carlão nem tem culpa de nada. Afinal, não foi ele quem se pôs lá, nem foi ele quem gastou dois milhões de contos em meia-dúzia de jogadores que pelas provas dadas poderiam facilmente ser substituídos por um grupo de jovens da divisão de honra. Nem foi ele que escolheu para seu antecessor um treinador que se tinha distinguido precisamente a treinar o Famalicão. Assim como não foi ele que contratou o despropositado Vicente Cantatore para fazer a ligação de vinte dias entre os dois. Além disso, não foi ele que negou apoio ao mesmo Cantatore quando este, mesmo despropositado, começou a querer desfazer-se dos indesejáveis do plantel. E também não foi ele quem fez com que Octávio Machado, que tinha a equipa a lutar em todas as frentes, se demitisse para não ter de aturar aqueles que não passam um dia sem disparar contra os próprios pés. Ou melhor, contra as patas do desgraçado do leão.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

O fim confirmado

Como escrevi ali abaixo, depois da desgraça com o Benfica, aconteceu aquilo que se esperava: a humilhação perante uma equipa dos escalões secundários da Europa do futebol [Sporting – 1 (Bueno), Spartak de Moscovo – 3]. Os equívocos que têm vindo a suceder-se deixavam entender um desfecho assim. Não consigo imaginar o que será por estes tempos o dia-a-dia de toda aquela gente que está envolvida no futebol do Sporting… Atente-se em alguns pormenores… Miguel Veloso estava a revelar-se no início da época como um jogador promissor e mesmo quando jogava abaixo do que tinha mostrado antes nunca desistia de lutar; havia ainda Carlos Paredes, que em melhor ou em pior forma é sempre um jogador de topo – mas a opção recaiu num jogador medíocre como Custódio mal este recuperou de uma lesão. O exemplo que se está a dar é arrasador para qualquer estrutura: a valorização do estatuto (que não consigo perceber onde Custódio arranjou) em detrimento do mérito. Mais um pormenor… Que exemplo se dá aos jovens em quem tanto se aposta, por exemplo jovens defesas centrais dos escalões juniores e juvenis, quando se tem na equipa um jogador como Anderson Polga, que está a anos-luz de ter lugar nem digo na equipa inicial, mas no plantel? Outro pormenor… Que exemplo se dá a Rui Patrício quando se confia a baliza a um guarda-redes como Ricardo? É um pouco como dizia o Nobel espanhol da literatura, de 1989, Camilo José Cela, sobre a sua personagem mais famosa, um tal de Pascual Duarte: «vês o que faz, pois faz exactamente o contrário daquilo que deveria fazer». Paulo Bento, que é um treinador a quem reconheço valor, está a falhar nos exemplos que dá, está a fazer em muitas situações exactamente o contrário daquilo que deveria fazer. Isso espanta-me, porque ainda acho que ele é muito valioso para o Sporting, e tão mais valioso se nos lembrarmos dos exemplos de mediocridade que deixaram os dois treinadores anteriores (José Peseiro e Fernando Santos). Mas não sei se Paulo Bento conseguirá segurar as coisas no ponto em que estão. Quanto aos dirigentes, como habitualmente, não é de esperar que façam grande coisa.

sábado, 2 de dezembro de 2006

O fim

Parece-me que a época terminou ontem à noite para o Sporting. Não é por uma derrota que se compromete um percurso de dez meses, mas ontem à noite foi diferente. Eu tenho vindo a manter a esperança de que apesar de ter alguns jogadores medíocres no plantel (jogadores que com Paulo Bento fazem o papel de figuras nucleares) com os restantes é possível ir vencendo as dificuldades. Mas ontem à noite (Sporting – 0, Benfica – 2) convenci-me de que não. A equipa, mesmo jogando mal, poderia ter marcado um golo ou dois e se calhar até ganharia o jogo sem grandes dificuldades; talvez partisse, se os marcasse, para uma vitória por mais do que um ou dois golos, até porque a equipa do Benfica é fraca e tem um mau treinador (que o Sporting, infelizmente, bem conhece, embora ele nunca tenha chegado aos níveis indigentes de José Peseiro). Mas sofrendo os dois golos que sofreu, nem pensar em vitórias; dois golos que mostram os perigos de ter na equipa jogadores medíocres como Polga (é mesmo difícil arranjar palavras para descrever um jogador tão mau), que deitou tudo a perder ao nem se preocupar com o jogador do Benfica que marcou o primeiro golo, ou como Custódio, que se desviou para Simão passar e fazer o segundo golo. Polga foi campeão mundial com Scolari, mas ser escolhido para uma equipa de Scolari não é garantia de ser um bom jogador, como se sabe, e Custódio é o capitão do Sporting, mas isso eu nunca serei capaz de perceber como poderá ter sido possível. Uma última nota, para uma situação que ocorreu já perto do final, a da expulsão de Polga: agrediu um jogador do Benfica, e foi bem expulso, o mesmo jogador que depois agrediu João Moutinho, sendo igualmente bem expulso; mas Polga não agrediu com um pontapé, um com uma cotovelada, como agora parece ser moda no futebol português, agrediu com um coice – até nas agressões aquele que é inacreditavelmente considerado por muita gente como um esteio (uso esta palavra por ser frequente vê-la nos nossos jornais do pontapé na bola, quase tão frequente como pilar) da defesa do Sporting mostra como de facto não nasceu com vocação para ser futebolista.

Os «uhs» das personagens de Rodrigues dos Santos

Deixo a seguir um texto que escrevi há poucos dias para uma revista mas que acabou por não ser publicado – tem a ver com o mundo dos blogs e com o novo romance de José Rodrigues dos Santos.

Ao contrário do que esperava, não dei por que fosse grande o falatório sobre o novo romance de José Rodrigues dos Santos no mundo dos blogs. No anterior a coisa teve mais destaque, muito à custa de uma cena que o mesmo protagonista deste romance – um professor de História da Universidade Nova de Lisboa – tinha com uma suposta estudante sueca do Programa Erasmus (cena que metia uma sopa feita com o próprio leite). Desta vez, dei apenas com alguns textos, digamos assim, de divulgação e com uma entrevista simulada (que um tal General Pum Pum assina).
Para exemplo do que encontrei, deixo um excerto do blog «Os Livros»; a certa altura pode ler-se isto: «Uma história de amor, uma intriga de traição, uma perseguição implacável, uma busca espiritual que nos leva à mais espantosa revelação mística de todos os tempos.» E depois continua… «Baseada nas últimas e mais avançadas descobertas científicas nos campos da física, da cosmologia e da matemática, ‘A Fórmula de Deus’ transporta-nos numa surpreendente viagem até às origens do tempo, à essência do universo e o sentido da vida.». No fim, aparece isto: «Sem dúvida uma leitura imperdível para os apreciadores do género e que fará qualquer um repensar a sua vida e o mundo que nos rodeia.»
Eu li o livro e não repensei a minha vida (e até ver também não repensei o «mundo que nos rodeia»). Gostei de ir acompanhando a história, como já tinha acontecido com as duas anteriores – aquela em que o tal professor se meteu a deslindar uma investigação sobre Cristóvão Colombo feita por um velhote, também professor, e a outra que tem como pano de fundo a participação portuguesa na Primeira Guerra Mundial. É um pouco como os livros de Dan Brown, nos quais avancei com uma curiosidade que até me fez desculpar os pontapés na gramática ou coisas mais inesperadas como uma do último título que até cá chegou («Fortaleza Digital», de 1998, ou seja, anterior ao «Código da Vinci»), nem mais nem menos do que um mercenário lisboeta chamado Hulohot, surdo, com uns óculos ligados a um computador alojado no peito, fazendo as pontas dos dedos de teclado, isto além de o homem falar sempre em castelhano.
De «A Fórmula de Deus», portanto, posso dizer que gostei de acompanhar os acontecimentos até ao fim. Claro que teria sido mais cómoda a leitura se em vez de levar apenas uma revisão científica (a de Carlos Fiolhais) o livro tivesse também levado uma revisão a sério do português (um dos muitos exemplos é a proliferação de situações do género «por causa do tipo tal tal tal ter chegado» em vez do que seria correcto, «por causa de o…), o que é preocupante num texto já de si literariamente pobre e com imagens em que tudo parece servir para fazer comparações (veja-se as descrições de Coimbra, a cidade onde vivem os pais do protagonista, bem distintas das que se podem encontrar, por exemplo, no belíssimo capítulo inicial do romance «Os Sinos de S. Bartolomeu», de Nuno de Figueiredo).
Para terminar, uma situação que nunca tinha encontrado. As personagens de «A Fórmula de Deus», quando falam (e algumas falam muito, pois boa parte do livro é feita de diálogos nos quais, na maioria dos casos, são descritas teorias científicas e enumerados dados científicos, além de que havendo nacionalidades tão diferentes normalmente não se sabe que idioma é usado, presumindo-se que seja o inglês), as personagens, dizia, quando falam recorrem com frequência ao uso de um enigmático «uh», na maior parte dos casos quando têm hesitações, ou quando se admiram devido a alguma coisa. Deixo alguns exemplos… Tomás, o protagonista («Uh… sim, claro… conto-vos tudo em função… uh…»); um iraniano que está feito com a CIA («Segurança nacional, uh?»); um físico da Universidade de Coimbra («Uh… bem… sim.»); o pai de Tomás («Bem… uh…); o «adido cultural» (exactamente assim, entre aspas) da embaixada norte-americana em Lisboa («Uh… Ele deve estar a chegar.»); um coronel do exército iraniano («Vai queixar-se a quem? Uh? À sua mãezinha?»).
Soa a repetitivo, obviamente. Mas há mais… A mãe de Tomás («Não há hipóteses de tu e a Constança… uh… vocês…»); um alto responsável da CIA que umas vezes diz «You’re a fucking genius.» e outras «Você é um fucking génio.» («Hmm… sensível, uh? Já vi que está apaixonado…»); o médico do pai de Tomás («Bem… uh… isso depende dos casos, não é?); uma aluna da Universidade de Coimbra («Bem, professor… uh… eu não sei… não sei.»); a iraniana com quem Tomás se envolve («Eu… uh… sou um caso especial.»); um aluno da mesma universidade («Bem… uh… acho que… acho que é a primeira letra do alfabeto grego.»); um iraniano que faz de motorista («Uh?»); e por aí adiante.
Mas no livro nem toda a gente aparece com esta estranha insistência no «uh»? Entre outras personagens, há dois monges tibetanos em relação aos quais não dei por nada, embora um tenha a certa altura ameaçado com um agá seguido por dois émes a denotar, pareceu-me, que qualquer coisa estava a intrigá-lo; quem sabe, não percebia a razão pela qual Rodrigues dos Santos não lhe tinha arranjado nem um único «uh» enigmático.

Blogs que consultei:
- http://oslivros.blogs.sapo.pt/ («Os livros»), com textos assinados por «O Crítico»;
- http://textosparatudo.blogspot.com/ («Textos para tudo»), com textos assinados por «V. F.»;
- http://memoriavirtual.wordpress.com/ («Memória virtual), mantido por Leonel Vicente;
- http://mardeross.wodprss.com/ («A vida é um mar de rosas»), com textos assinados por «arlequim».

terça-feira, 28 de novembro de 2006

Dois jogos

Em viagem por terras ao que dizem mais civilizadas do que as nossas, não consegui ver o Inter – 1, Sporting – 0; ou melhor, vi um bocadinho (ia numa rua, quando o jogo estava no intervalo, e de repente dei na televisão de um restaurante com a repetição do golo do Inter; já no hotel acabei por ver os últimos cinco minutos do jogo). Do golo, retive uma coisa extraordinária do incorrigível Ricardo: com o argentino Crespo pela frente, a rematar isolado, antes de se fazer à bola lembrou-se de ajeitar os calções com as luvas (ou quem sabe as luvas com os calções), e repetiu a graça num lance já perto do final. De qualquer maneira, o golo não foi nenhum frango como o que deixou no jogo de Lisboa frente ao Bayern e que começou a estragar a carreira do clube na liga dos campeões.
Já o Naval – 0, Sporting -1 (Ronny) deixou-me preocupado, pela inoperância da equipa em muitos períodos do jogo, parece-me que em parte emperrada pelo sofrível Custódio, que Paulo Bento insiste em fazer jogar em vez de Miguel Veloso. Quanto ao golo, o injustiçado Ronny (não cabe na cabeça de ninguém estar tapado por um jogador – ? – como Caneira) acabou por ter uma pequena vingança.
O quarto jogador-problema do plantel, Polga, em ambos os jogos, por lá andou. Não se pode negar que é esforçado, mas a falta de jeito de vez em quando estraga tudo (e com falta de jeito pode-se perder um campeonato, por exemplo).

terça-feira, 21 de novembro de 2006

Uma esperança

Marítimo – 0, Sporting – 1 (Rodrigo Tello). Uma nota de esperança para a estreia do jovem Rui Patrício na baliza do Sporting. Pode ser que esteja a aparecer finalmente um guarda-redes de jeito para o Sporting ao fim de vários anos. E já não será necessário andar sempre a fazer figas para o Ricardo não afundar a equipa.

Uma nota inexplicável

Vi um bocadinho do último programa de Marcelo Rebelo de Sousa na RTP. E por esse bocadinho consegui perceber que achou a entrevista de Cavaco Silva na SIC muito fraquinha (foi mesmo muito fraquinha e outra coisa não seria de esperar de Cavaco). O problema, de Marcelo, parece-me a mim, foi a nota que não resistiu a dar: treze – ou, com um bocadinho de «caridade cristã», catorze. Eu pensava que coisas fraquinhas levavam chumbo, ou então, com caridade (cristã ou de outro tipo) um dez, para desenrascar, mas catorze… Enfim, no meio disto tudo, Marcelo acabou por estar ao nível de Cavaco; e o episódio ficou ao nível daquilo do «não li, mas gostei» da divulgação de livros.

terça-feira, 7 de novembro de 2006

O jogo com o Braga

Sporting – 3 (dois autogolos; Alecsandro), Braga – 0. Tudo tranquilo. Paulo Bento continua com a rotatividade, mas não há meio de abdicar dos quatro jogadores-problema do plantel (Ricardo, Caneira, Polga e Custódio). Dentro do ambiente tranquilo, destaque para as aflições de Polga (se num jogo destes é assim, então num jogo à séria…).

segunda-feira, 6 de novembro de 2006

A propósito de «Os Grandes Portugueses»

Não tenho tido ocasião para ver o programa de televisão sobre os grandes portgueses, tenho é acompanhado o ruído em volta dele e o aparecimento de coisas do género os pequenos portugueses, os portugueses médios ou o pior português; a propósito deste último, ouvi inclusivamente alguém enganar-se e sair-se com uma coisa deliciosa – um concurso para encontrar o melhor português, sim, mas do mundo (José Júdice, no programa da SIC Notícias «O Eixo do Mal). José Júdice, clarifique-se, foi o autor do engano, não o vencedor do concurso, claro (nem sequer foi aberto, mas como neste país já quase não é precio abrir concurso para nada...).
Do ruído desta coisa toda que começou com os grandes portugueses, o que mais me tem pasmado tem a ver com o Salazar e com as opiniões absolutamente antagónicas que desperta. Acho que nunca vou entender como isto é possível, mas também não estou a pensar fazer nenhum esforço especial para o conseguir. Tenho bem claro o lugar que um criminoso como Salazar deve ter em qualquer iniciativa que pretenda distinguir (no bom sentido) as pessoas notáveis da nossa História.
Para que se possa reflectir sobre o regime deste grande criminoso português (num concurso sobre os grandes criminosos portugueses, aí sim, Salazar haveria de distinguir-se), deixo a seguir um texto que escrevi acerca de um romance de uma jovem escritora espanhola (da Galiza) e uma entrevista que fiz com ela. O romance chama-se «Resistência» (Publicações Dom Quixote, 259 pp.) e a autora Rosa Aneiros. Uma última nota: na entrevista, Rosa Aneiros fala de Álvaro Cunhal; também não me parece que haja lugar para ele nos grandes portugueses – os extremos tocam-se.

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Texto sobre o romance «Resistência» [escrito em meados de 2004]

Por cá, resiste-se

«Resistência» é um extraordinário romance que acompanha várias histórias de amor, numa das quais se luta quase até à morte contra a ditadura criminosa de Salazar e de Caetano, e contra o destino. Escreveu-o uma jornalista galega.
É o Portugal pequenino, enjaulado e sem futuro do Estado Novo que se mostra em «Resistência», mesmo que o romance avance até épocas bem mais próximas, já muito depois da revolução de Abril de 1974. O país que agora vai ficando esquecido, para o bem e para o mal. Talvez possa parecer estranho esta história ter sido escrito por uma pessoa de outro país, mas se calhar acaba por ser o mais natural. A vergonha da ditadura de Oliveira Salazar e de Marcello Caetano, dois criminosos a quem em Portugal ainda muita gente se refere como doutor Salazar e professor Marcello Caetano, tem andado muito afastada da nossa literatura, pelo menos dos seus actores mais destacados. À semelhança do que tem acontecido noutras áreas, como se o importante fosse mesmo esquecer, ou fazer de conta que afinal tudo não passou de um pesadelo. Por cá resiste-se, resiste-se a falar, a escrever, a filmar, a representar.
Rosa Aneiros (n. 1976, Galiza), jornalista de profissão, aventura-se no romance, com um intenso trabalho de documentação que incluiu entrevistas com Álvaro Cunhal, depois de escrever contos e um livro juvenil. Acompanha quatro histórias de amor, todas elas marcadas de forma trágica. A de Rui Rodrigues, um rico industrial fixado em Coimbra, e da galega Inês; a de Leonor, mãe de Rui Rodrigues, e do «seu homem» que «marchara para o Brasil»; a de Isaura, analfabeta, uma mulher só, e do operário vidreiro António Gonçalves; e a de Filipa, filha do industrial, e de Dinis, fruto da união sempre mantida em segredo entre Isaura e António. Filipa e Dinis conhecem-se muito novos, ainda adolescentes, em São Pedro de Moel. Mal se vêem, começa a sua história, quase secreta, interrompida tantas vezes, pela necessidade de esconderem o namoro entre a filha de um industrial e de um operário, pela guerra colonial, pela prisão da ditadura. É para Peniche que Dinis acaba por ir, feito um farrapo. Já está ligado ao Partido Comunista, e Filipa ligar-se-á a seguir à prisão, ela que o levou a aprender ler, ela que lhe permitiu a descoberta de tantas coisas, nos livros, nela própria.
Dinis sai da prisão com o 25 de Abril. Filipa está no Brasil, julgando-o morto. Vinte anos mais tarde, em 1994, Filipa visita Peniche, visita um museu inaugurado pela câmara municipal em 1984. «- Tivemos a alma da resistência entre estes muros durante 40 anos.» Filipa está no mesmo local onde visitou Dinis uma única vez, uma visão fugaz de Dinis quase irreconhecível. «Bateram-lhe nos olhos então mais textos, uma dúzia deles com uma caligrafia infantil extremamente familiar. Era indiscutivelmente Dinis.» É o mesmo ano do início do livro... «Naquele dia de Verão de 1994, Dinis estava sentado, no alto de uma falésia em São Pedro de Moel, como tantas outras tardes. Tinha a cana de pesca lançada ao mar e o anzol brincava por entre as ondas atlânticas num jogo de sedução mortal.» E o mesmo do fim, com Filipa. «Entrou no carro e partiu de Peniche tão confusa como apressada. Tomou a estrada que ligava à A8 e acelerou tanto quanto o veículo permitiu.» Tinha «uma sentença», escrita por Dinis, entre tantas coisas... «Aguarda-me, Filipa, aguarda-me. Eu aguardar-te-ei sempre.»

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Entrevista com Rosa Aneiros [feita em meados de 2004]

Procurada pelas personagens

Na antiga prisão de Peniche, a jovem escritora galega Rosa Aneiros deu de caras com os contos do primeiro preso que de lá saiu depois do 25 de Abril. Chamava-se Dinis Miranda esse preso, e com os seus escritos como que lhe pedia que fosse contada uma história como a do romance «Resistência». A quantos portugueses não o teria já feito até então? Talvez tenha pedido a muitos, mas a literatura de cá do sítio nunca prestou especial atenção aos tempos da ditadura da Salazar e de Marcello Caetano. Nem interessa agora estar a remoer nas razões para ter sido assim. Olhemos antes para o que escreve em terras da Galiza uma jovem que afirma serem as personagens a procutrá-la. Por exemplo, Dinis, uma das principais de «Resistência».

Como surgiu a ideia de escrever «Resistência»?
Há dois verões, passei férias nos lugares em que decorre o romance: Marinha Grande, São Pedro de Moel, Coimbra, Leiria, Nazaré e, finalmente, Peniche. Marcou-me muito, especialmente o Pinhal do Rei, essa imensa extensão de pinheiro bravo que um rei mandou cultivar e que viria a fornecer a madeira para a construção das naus das expedições portuguesas pelo mundo. E as fábricas do vidro. E aquele Atlântico aberto em canal. E Peniche, onde descobri um museu no qual, entre outras salas, reconstruíram a parte do cárcere para presos políticos. Aí estiveram durante décadas e décadas os presos da ditadura primeiro de Salazar e depois de Marcello Caetano. Foi reabilitada a sala do parlatório, onde os presos comunicavam com os seus familiares, reconstruídas as celas, a biblioteca onde tinham os livros e também várias salas com documentação retirada aos presos e folhas com apontamentos da PIDE sobre os mesmos. Umas cartas que o preso Dinis Miranda escreveu da prisão às suas filhas chamaram-me muitíssimo a atenção. Eram uns contos ilustrados, lindos, que a PIDE não deixou sair das paredes do cárcere por haver a hipótese de conterem mensagens clandestinas. A partir daí, decidi construir uma história de ficção, mas que respeitasse o máximo possível a verdade das pessoas que viveram essa situação penosa. Foi um sábio conselho que me deu o senhor Álvaro Cunhal e que eu quis seguir à letra. Tudo foi sendo retirado de um fio narrativo e a construção das personagens e das situações veio um pouco solta... Precisei de muita documentação, tanto escrita como de pessoas que viveram as situações que em «Resistência» se relatam.
...
Creio que escrever uma história sobre Portugal não foi uma decisão livre e voluntária. Diria mais que Portugal me escolheu a mim. Houve algumas personagens que me chegaram à cabeça e decidiram que queriam - mais, exigiam - contar-me a sua história. Eu dei-lhe corpo de romance.
A ditadura de Franco, que andou muito a par da portuguesa, embora tenha terminado de maneira bem diferente, poderia ter-lhe inspirado um romance como «Resistência»?
Sim, claro que sim. Poderia dar para uma história como «Resistência», mas não igual. Apesar de terem sido ditaduras coexistentes no mesmo momento histórico, as suas condições foram diferentes, as derrotas dos ditadores também e, sobretudo, a transição para a democracia foi bem diferente. Aqui é costume dizer que o ditador morreu na cama e isso é algo que a juventude, de certa maneira, atira à cara da geração anterior. Não o derrubaram, morreu de velho. Um das coisas que mais me chamou a atenção em Portugal foi, precisamente, a existência de um museu que recorda as vítimas da ditadura, os presos políticos e todas as pessoas que sofreram por expressarem as suas ideias. Em Espanha não existiu essa fase. Colocou-se terra em cima de tudo o que foi o franquismo, e por não existir não existe nem um reconhecimento às vítimas caídas durante a guerra ou durante a ditadura. Não se fala disso. As associações pela recuperação da memória histórica que pretendem recuperar os cadáveres dos «paseados» têm problemas para serem reconhecidas em muitas comunidades e não lhes permitirem a exumação de corpos soterrados em valas comuns. Não existem museus, e quase não se trata do assunto nas escolas. Colocou-se um manto sobre ele para não reavivar feridas e, não obstante, os mortos estão aí, na mente dos perdedores. Há duas Espanhas que não se encontraram ainda. Isto é bem diferente de Portugal. Além do mais, aqui existem muitas, muitíssimos, romances − ocorre-me particularmente «O lápis do carpinteiro», de Manuel Rivas − que falam sobre as vítimas da guerra civil espanhola. Apetecia-me mudar de cenário, sobretudo pelo desafio que supunha chegar-me, outra história, outra gente, outro espaço.
Isso de existirem em Espanha muitos romances sobre a guerra civil... A Portugal têm chegado alguns, o que referiu, ou «Soldados de Salamina», ou até a obra de Cela, por exemplo «A família de Pascual Duarte», editado há muitos anos e depois reeditado em clube de livro, ou a «Mazurca...», embora não retratem directamente a guerra. Acontece o mesmo sobre os tempos posteriores?
Sobre a guerra civil existem muitos romances, e também sobre o duro tempo do pós-guerra e do exílio. Falando do conflito em si, além do já citado de Manuel Rivas ou de «Soldados de Salamina» há muitos outros relacionados também com o «romanticismo e idealismo», por exemplo, dos brigadistas internacionais, visto por autores de fora como Hemingway, mas nem só romances, também fotos (a famosa de Frank Kappa) e muitos filmes, «O sonho de Carol», «A língua das borboletas», «Terra e liberdade»... Do pós-guerra também temos muitos trabalhos artísticos, creio que por ter sido um período muito duro e negro da história de Espanha, com muitas vinganças nos primeiros anos, fome, obscurantismo religioso... «Vento ferido» ou «Os mortos daquele Verão», de Carlos Casares, e vários relatos de Méndez Ferrín são as primeiras que se me vêm à cabeça, mas existem muitas outras, sem centrar-se exclusivamente no tema da guerra, que descrevem a Espanha desta época. É curioso, mas em muitas obras, mesmo actuais, aparece alguma personagem ou algum assunto que menciona a guerra. Continua a ser um assunto muito vivo, tanto criativamente como memoristicamente falando.
Perguntei-lhe isto porque a ficção de Portugal explora pouco a ditadura de Salazar e Caetano, ou os tempos em que se deram os acontecimentos que lhe puseram termo, que talvez marquem na história portuguesa o mesmo que os tempos da guerra civil marcam em Espanha, salvaguardadas as devidas diferenças. Inclusive, nas comemorações oficiais deste ano perdeu-se o «R» de revolução, falando-se em evolução, embora tenha de se dar o desconto de o ministro responsável por tal aberração não conseguir pronunciar os «érres». Isto mostra, no fundo, que por cá todos parecem de acordo com o fim da ditadura, divergindo no entanto sobre o caminho que depois se seguiu. Há quem diga que Abril não se cumpriu, há quem diga que sim; talvez se possa também falar de dois países, num dos quais vive claramente, por exemplo, o seu herói Dinis, na data mais avançada do livro, em 1994. Como são as duas Espanhas de que falou?
A transição política espanhola foi vista como modelar, por ter sido pacífica e aparentemente conciliadora. Não obstante, deixou assuntos por resolver que a longo prazo se agudizarão. Existe actualmente tal idolatria política do que foi aquele tempo que, por exemplo, para falarmos de possíveis reformas constitucionais existem grandes problemas e censuras, porque certos sectores tomam a Constituição de 1978 como um texto sagrado e intocável. Em Espanha, estamos a viver um momento, suponho que também marcado pelos resultados eleitorais do passado dia catorze de Março, em que se estão removendo muitas coisas que durante os oito anos do intransigente e intolerante José María Aznar estavam amordaçadas. É o caso da política externa, dos direitos dos homossexuais, da educação ou das reformas dos Estatutos de Autonomia, para dar apenas alguns exemplos. Creio, no entanto, que as pessoas estão satisfeitas com a forma como decorreu todo o processo da transição. Isso não se questiona demasiado a nível social. O que está a começar a aparecer é o sentimento de necessidade de avançar nos direitos e no poder das autonomias, dar um novo salto e encontrar um equilíbrio entre as diferentes nações que constituem o Estado espanhol, aceitando a pluralidade cultural e linguística dos múltiplos bocadinhos que constituem este puzzle espanhol. Mas, se bem que com a transição exista um contentamento mais ou menos generalizado, não é assim com o reconhecimento das vítimas. Para não criar tensões, para não avivar a dor, optou-se por colocar um manto de terra em cima dos anos da ditadura. Isto explica que a única homenagem que se lhes fez no parlamento espanhol fosse há menos de um ano − e para isso com a ausência do Partido Popular −, que não se permita em muitos lugares a exumação de cadáveres ou que não haja reconhecimento dos mortos do lado republicano. Muitos líderes do regime franquista são familiares de líderes políticos espanhóis actuais − com extraordinária presença no Partido Popular − e mesmo alguns dirigentes continuam no poder − caso do presidente da Junta da Galiza, Manuel Fraga Iribarne −, pelo que as iniciativas para promover reconhecimentos públicos são logo paralisadas. Há muitas pessoas que estão insatisfeitas com isto, e muito, pelo que suponho que nos próximos anos e com a aparente abertura do novo governo se multiplicarão as iniciativas.
Fale-me do percurso de «Resistência» em Espanha.
O romance está escrita em galego, e não foi traduzido − pelo menos por agora − para castelhano. Assim, devemos cingir-nos apenas à Galiza como âmbito de impacto e difusão. «Resistência» vai na já na terceira edição, com mais de 3.000 exemplares vendidos, e a repercussão a nível social está a ser boa, principalmente devido ao «Prémio Arcebispo Juan de Sanclemente», que deu um impulso importante, por se tratar de uma distinção com prestígio.
Sendo Espanha um país com uma literatura muito rica, isso pode constituir uma dificuldade para um jovem autor, ou pode ser uma oportunidade?
Volto a cingir-me à Galiza. Aí, publicam-se muitas e muito variadas obras, mas creio que ser novo é sempre aliciante. Os temas, a maneira de contar, a frescura e inclusive a imagem fazem com que os jovens autores sejam atractivos para o mercado. Já a consolidação das carreiras é outra coisa, mas as novas vozes no campo literário vão sendo bem recebidas.
E de Portugal, que ecos lhe têm chegado acerca do romance?
Por agora, opiniões soltas, referências, comentários... Mas não tenho dados sobre as vendas. Estou muito contente porque as notícias de leitores, que me chegaram pelo correio, são muito boas. Isso é uma coisa que dá sempre ânimo.
Essa opiniões têm mais, digamos assim, um cunho literário ou um cunho político?
Para dizer a verdade, nem um nem outro. É mais a surpresa por uma autora nova de outro país reparar numa história como a de Portugal no último século. Apesar de a mim não me parecer um assunto extraordinário para um romance. A verdade é que não sei por que surpreende. O vosso passado é admirável e, como costumo dizer, eu não escolhi a história, ela é que me escolheu a mim.
O que conhece da literatura portuguesa?
Pessoa, Lobo Antunes, Saramago, Lídia Jorge, Manuel Jorge Marmelo, José Luís Peixoto, Manuel Tiago (risos), João de Melo... Acho que vocês têm uma literatura extraordinária, que tem um marco tão amplo como o espaço lusófono, que navega de África à América numa só língua. Agrada-me na literatura portuguesa o facto de ser muito pura, muito directa, falando abertamente das vísceras do ser humano. Suponho que isso é muito provocado pelo idioma.
Em relação à história, ou antes, em relação às quatro histórias de amor de «Resistência»... Nenhuma acaba por ser uma história feliz. Qual a razão para tê-las escrito assim?
Essa é uma razão pessoal que não sei explicar. Em geral, todas as histórias e todas as personagens que construo tendem para a melancolia, para a tristeza, talvez porque não acredito na felicidade eterna. Apesar disso, acho que as minhas personagens, no fundo, procuram essa tristeza porque têm consciência de que na luta aberta pelos seus sentimentos não vencem; mas serão sempre coerentes. São elas mesmas que lutam pelas histórias mais arriscadas e nessa batalha de morte não há finais fáceis, não se deixam seduzir pela acomodação. Elas estão preparadas para tudo, e por isso têm derrotas. No fundo, sabem que só podem ser felizes assim.
Fale-me da investigação que fez... O dia-a-dia de São Pedro de Moel nos anos 40, 50 ou 60, por exemplo, as fábricas da Marinha Grande, a guerra colonial portuguesa, a prisão de Peniche... Da sua narrativa, consegue-se como que respirar aqueles ambientes como nós, portugueses, sabemos que eram...
Através da documentação, dos dados, digamos, empíricos, mas também através da literatura, das canções ou de filmes, no caso do 25 de Abril. O que é realmente maravilhoso no ser humano é que a partir de alguns dados objectivos somos capazes de recrear outras cenas, suponho que pelo nosso dom de universalidade, de que, apesar de diferentes países, culturas ou tempos, os sentimentos se regulam pela mesma bússola, instalada no coração. Creio que aí está uma das razões para que «Resistência» toque fundo nos leitores, mostro as personagens abertas e muita gente pode reconhecer-se nelas; e as sensações, por exemplo as de António e Isaura no meio do pinhal, são iguais às de um casal de namorados na Galiza naquela época e com as mesmas condicionantes.
Que ideia lhe ficou de Álvaro Cunhal, das conversas que teve com ele?
Fiquei maravilhada com el. Penso que é, acima de tudo, um cavalheiro, e um cavalheiro com um grande sentido do humor. Estou-lhe muito grata porque às vezes penso que sem ele talvez «Resistência» não chegasse a ter sido escrito. Era a primeira história mais longa que escrevia e não estava segura de que a conseguisse acabar, mas quando passava momentos de dúvida ou de cansaço sempre pensava: se houve pessoas que sentiram na própria carne a dor que eu relatava, como não ia eu ser capaz de escrevê-la comodamente no sofá da minha casa? Álvaro Cunhal sempre esteve presente, do princípio ao fim, e agradecerei sempre o seu conselho. Ele disse-me algo como eu poder inventar o que quisesse mas respeitando sempre as pessoas que viveram os acontecimentos. E essa foi uma máxima que tive sempre presente. Mas o que mais me entusiasmou, sinceramente, foi a humildade de uma pessoa que, apesar de ser um líder político de grande envergadura, tinha um momento para perguntar-me pelo romance ou para enviar-me os seus livros. Acho que o que realmente fala pelas pessoas é a sua humanidade, e o senhor Álvaro Cunhal parece-me uma belíssima pessoa. Estou-lhe muito agradecida.
E em relação a Dinis Miranda?
Não o conheci. Vi os contos que dedicou às filhas, em Peniche. E também a foto dele, como primeiro preso que saiu depois da revolução dos cravos.
Conhece o percurso dele depois da prisão? Foi deputado pelo Partido Comunista, no pós-25 de Abril...
Sei que foi um grande lutador da causa da melhoria das condições de trabalho no mundo rural português, uma realidade que ele viveu muito de perto durante a sua juventude e em relação à qual acabou por fazer reinvidicaçõe de âmbito político. Sei também que integrou a comissão política do Partido Comunista Português entre 1976 e finais dos anos 80 e que morreu em 1991.
Inês, a mãe da principal personagem feminina, é galega. Há alguma razão especial para isso?
É uma homenagem a Inês de Castro, além de que me apetecia estabelecer algum vínculo com a Galiza, algo que parecesse próximo aos leitores do outro lado do Rio Minho.
Como vê a proximidade entre galegos e portugueses do Norte, bem diferente da que existe entre, por exemplo, algarvios e andaluzes? Eu sou algarvio e nunca dei por uma afinidade igual à do Norte Peninsular?
Acho que são muitos os factores, alguns relacionados com questões materiais, como o contrabando na raia seca durante a ditadura ou a emigração de numerosos galegos para Portugal e para o Brasil, e outros aspectos mais culturais. A língua acaba por ser fundamental neste sentido, já que a sua proximidade e as suas regras comuns servem de via de comunicação directa entre os dois povos.
Voltando a «Resistência... Por mais que sofram, por mais que sejam contrariados pelo que os envolve, pares como Isaura e António, ou sobretudo Filipa e Dinis, parecem bafejados pelo destino, por terem encontrado o amor. Ao mesmo tempo, outros, como o Antoninho, por exemplo, por mais coisas que consigam da vida, parecem talhados para uma existência sem história. Acha que é mesmo assim na realidade?
O Antoninho e também o André creio que são duas personagens apenas esboçados, das quais conto poucas coisas, mas deram-me muito que pensar. É curioso... Deles sabemos pouco, quase nada, e no final, especialmente o André, revela-se uma pessoa com uma história própria, que é negada pela autora. Penso que nesta vida há muitas pessoas que consideramos cinzentas, às quais não prestamos atenção, porque passam aparentemente despercebidas, e depois descobre-se que são interessantíssimas, até heróis ou heroínas dentro dos seus círculos particulares. O André é assim. Quanto ao Antoninho, é o homem sem escrúpulos, com os olhos sempre postos em valores que não lhe servem para ser feliz.
Há uma escritora portuguesa que escreveu que «o amor é uma coisa rara, a mais subtil e preciosa essência, difícil de encontrar, e que só aparece a poucos». Isto pode encontrar justificação no seu romance?
Sim e não − esta é uma resposta muito galega. Efectivamente, o amor é uma preciosa essência, mas não estou de acordo com que apareça a poucos. É questão de ser valente. Para amar é preciso ser muito valente, porque significa renunciar a muitas coisas próprias e expor-se diante de outra pessoa, coisa que nunca é cómoda nem fácil. Se as circunstâncias externas são também adversas, então o amor complica-se mais, e por isso é questão de valentia, de atrever-se a amar. Daí haver muitas pessoas que carregam amantes na cabeça com os quais nunca concretizaram uma história, por medo, por comodidade ou por preguiça. São essas histórias sem concretização que talvez me venham a dar um romance.
Rosa, a mulher de um preso político, refere-se a Marcello Caetano como «o grande cabrão», «o grande filho da puta», coisa que tem verosimilhança. O curioso é que não se encontra muito estes termos nas personagens da ficção portuguesa, quando se referem aos dois ditadores do Estado Novo. Parece haver uma certa contenção... Inclusive, em Portugal há pessoas que se referem aos dois, mesmo não concordando com o que foi o seu regime, como «doutor Salazar» e «professor Marcello Caetano», o que me parece despropositado. Acha que há uma tendência para se relativizar a actuação de alguns ditadores, com o passar do tempo?
Acho que sim. Sempre relativizamos as coisas. Eu creio que uma das vantagens que tive para escrever «Resistência» foi a distância, o que me permitiu ter menos prejuízos. A velhice também influi, fazendo com que os idosos nos pareçam ter uma áurea de ternura, apesar das mil barbaridades que tenham feito antes, e isso acontece também com os ditadores. De todos modos, devo confessar que se não fosse por Rosa ser uma personagem exaltada, que vivia cada instante como se fosse o último, totalmente embriagada com a causa política anti-ditatorial, não teria escrito esses qualificativos. Mas a personagem, pela sua maneira de ser, exigia-mo. Tanto que a deixei falar. Mas isso de o tempo fazer abrandar creio que não acaba por ser mau de todo. Sem isso o ser humano morreria angustiado pelo seu próprio rancor.
O facto de a personagem se chamar Rosa tem algo a ver com o seu nome ser também Rosa?
Não, claro que não. Parece-se com outra Rosa que conheço, não comigo. Eu não tenho o valor da Rosa, nem a fé profunda numa causa política.
Para terminar... Fale-me daquele romance que disse talvez vir a escrever, das pessoas que nunca concretizam os seus amores. Também foi procurada por algumas assim, para lhes dar voz?
São sempre os protagonistas que me sussurram ao ouvido, pedindo-me que conte as suas historias. Nunca consegui sentar-me e decidir contar uma história com um tema em abstracto, só através das personagens que me falaram e solicitaram tomar corpo de papel. Creio que se trata de uma das melhores maneiras de fazer literatura, porque vai até ao mais fundo do ser humano, e porque na verdade todas as histórias do mundo têm um ponto de vista antropocêntrico. Nem podía ser de outra maneira. Quanto a novas coisas, não sei se alguma vez escreverei um romance em que o tema central sejan os amores não materializados, digamos assim, mas estes aparecen em muitas historias − que já escrevi e que escreverei. Acho que reflectem muito bem a natureza humana. É no amor que se mede o valor e também a cobardia, ele é a balança onde se pesam os nossos instintos e as nossas prioridades. Agora estou a escrever um história sobre a saudade e a neurose de uma vida «afogante». Mas isso já não é assunto para esta entrevista.

quarta-feira, 1 de novembro de 2006

A coragem

Bayern – 0, Sporting – 0. Ricardo, Caneira, Polga e Custódio na equipa inicial; ao menos pode dizer-se que Paulo Bento teve coragem (eu não me atreveria a fazer entrar uma equipa para um jogo contra o Bayern de Munique com aqueles quatro artistas; enfim, nem contra o Beira Mar).

Textos sobre livros - 6

Um romance fabuloso que me ofereceram no Natal de 2003. O texto é do início de 2004.

Livro: «Bebendo o Mar», de Xavier Queipo (Deriva Editores, 198 pp.)

Ensaio para a cegueira

Francis, um galego que vive na Califórnia, compromete-se a traduzir o último romance de um português a quem, «com toda a certeza», vão atribuir o Prémio Nobel de Literatura. Trata-se de «um tal Saramago». Francis acaba de saber que ficará cego em seis meses.

Há poucos anos, um crítico escreveu sobre o primeiro livro de Saramago, apresentando as frases inicias, que «depois de um começo assim não há livro que se aguente». «Bebendo o Mar», do galego Xavier Queipo, trazido para Portugal pela «jovem» Deriva Editores, começa da seguinte forma. «Conheceram-se no cinema. Numa sala enorme, dessas que já quase não existem. Era a reposição de ‘Apocalipse Now’, a emocionante parábola de Coppola, baseada no ‘Coração das Trevas’ de Conrad. Na cena dos helicópteros avançando sobre os vietcongs ao som de Wagner, a sala encheu-se de luz e explosões de napalm. Foi ao primeiro olhar, quando as sombras deram lugar à luz. Foi então que ela disse, automática e sinceramente, com aquela segurança estóica das mulheres que se sabem fazedoras de sonhos:/ - Deixa-me dar-te a mão. Sinto um não sei quê desconfortável./ Está bem. Não te preocupes. Vou ficar aqui até ao fim do filme - respondeu Francis com uma segurança recém adquirida.»
Foi assim o meu primeiro contacto com o escritor galego (n. Santiago de Compostela, 1959). Não pensei naquele começo, se um livro depois dele se «aguentaria» ou não, o que recordo apenas é que avancei pela leitura como se estivesse a ouvir o próprio autor a contar a história de Francis. Não posso fazer maior elogio. A leitura de «Bebendo o Mar» como que me envolveu num ambiente mágico, um ambiente do qual a pouco e pouco começava a ficar com pena de ter de vir a sair mais cedo ou mais tarde, assim que lesse a última frase. E sempre a pensar que naquele autor eu confiava, assim, a contar as coisas daquela maneira, tranquilamente, com fluência, como se escrever para ele não fosse - não seja - muito diferente de respirar; assim, pensava eu, ele há-de segurar até ao fim o ambiente de magia.
Francis, o tradutor galego que conhece Rose no cinema quando inesperadamente ela lhe pede para darem as mãos, mergulha na obra de Saramago para traduzir «Ensaio Sobre a Cegueira», então o último romance do «tal» escritor português muito falado para o Prémio Nobel de Literatura. Tinha acabado de descobrir, depois de um exame médico de rotina, um problema nos olhos. «Daqui a seis meses estará completamente cego. Sem cura. É a única coisa que lhe posso dizer. Sem cura conhecida.» São as palavras do médico, que fazem Francis pensar numa «condenação pura, de gume de navalha de barbeiro, de dissecação e rotura, de relâmpago frio». E a «parábola» de Saramago para traduzir, uma «parábola milenarista de desestruturação da sociedade e de ausência de esperanças». E Francis com esperanças, a princípio, «as dúvidas sobre o diagnóstico, reforçadas, obviamente, pela ausência de um quadro sintomático sério e pelo receio de acreditar nos médicos como xamãs de uma cultura alheia e reacionária, e sobretudo no que se diz, linguagem mágica e hermética, afastada da realidade». E depois a realidade, os sintomas, a tradução do «ensaio» de Saramago... «Fumou um cigarro, olhando a praia. As ondas. O mar imenso. Os chafarizes das baleias de bossas erguendo-se imponentes a duas marcas da costa. Os surfistas. O sol brincando atrás de umas nuvens improváveis com aquele tempo, com aquele calor abafante, com aquele vento. Umas nuvens irreais, de miragem ou de maremoto interno. As ondas.» É uma praia da Califórnia, é outro mar que não aquele que banha a Galiza. Mas Francis ainda conseguirá ver também o da sua terra natal. Mais do que isso, bem mais.