terça-feira, 8 de agosto de 2006

O Sporting

Um post de Carlos Leone (06.08) no «Esplanar» (http://www.esplanar.blogspot.com/), depois do jogo do Sporting em Braga para a apresentação do clube local (1-1). Título: «Espero bem enganar-me». O texto… «O empate de ontem foi justo, e bom para arrefecer o entusiasmo prematuro. O pior é que as coisas vão sendo como esperado: jogar com Deivid é jogar com dez, Polga continua um susto, Paredes não tem ritmo para uma época no futebol europeu numa equipa que queira ganhar, Liedson parece em queda e Bueno não engana, é outro flop. O banco, ou é serviços mínimos ou é muito novo. Se Ronni, Romagnoli e Carlos Martins continuarem assim, por um tempo disfarçam isto. Mas sem um trinco que filtre bem, e o Sporting não o tem (Custódio é demasiado leve para a posição), aquela defesa vai envergonhar muito o clube na Champions.»
Concordo com algumas das observações, mas não estou muito pessimista. Pode ser uma boa época se a equipa se aguentar a jogar certinho. O Benfica pode vir a ser um desastre (Fernando Santos) e no Porto desconfio que aquilo vai dar confusão (por exemplo, a história de não terem um avançado, e a esperança era um tosco holandês de nome dificilmente pronunciável no mundo do futebol). Mas claro que o Sporting tem problemas: Polga é um desastre (quase tão mau como Luisão, e vai ser titular); Tonel tem problemas que disfarçaria com um central de jeito ao lado, mas com Polga nada é garantido). Caneira é uma ameaça, porque Paulo Bento pode metê-lo a jogar no lugar de Ronni, que é um bom jogador; entre Paredes e Custódio pode ser que a escolha recaia sobre Custódio, que ainda por cima foi nomeado capitão, e se isso acontecer as coisas não serão famosas naquele meio-campo; na frente, para jogar ao lado de Liedson provavelmente só Yannick (David tem talento mas dorme a jogar e Bueno traz a marca de ter sido suplente do sofrível Pauleta); já na baliza, Ricardo pode arranjar problemas, mas também pode ser que não arranje. No fundo, o importante é não termos nenhum Peseiro na liderança(?) da equipa nem nenhum Cunha a chatear.
Acho que Paulo Bento vai escolher esta equipa: Ricardo; Abel, Polga, Tonel e Caneira; Paredes, João Moutinho, Carlos Martins e Romagnoli; Liedson e Yannick. A vermelho estão os problemas e a laranja os possíveis problemas. Soluções: Ricardo – torcer para que tudo corra bem; Polga – sem solução; Tonel – torcer para que tudo corra bem; Caneira – torcer para que Paulo Bento opte por Ronni; Paredes – torcer para que Paulo Bento não escolha Custódio, e se isso acontecer torcer para que o próprio Paredes apareça em boa forma, ou para que Paulo Bento o troque por Farnerud (não sei se é assim que se escreve) ou por João Alves e que corra bem. Além disto, torcer para que Douala, quando entrar, faça umas jogadas de jeito.

sexta-feira, 4 de agosto de 2006

PT

O presidente da Portugal Telecom (PT), Henrique Granadeiro, deu ontem uma longa entrevista à SIC – não vi toda, apenas uns excertos nos noticiários, mas deu para perceber que falou de grandes mudanças e também de tecnologia, sendo que aqui a PT faz uma forte aposta. Cabo, voz, dados, cobertura, rede ou clientes empresariais foram expressões que retive num discurso que me pareceu credível. Não consegui foi deixar de pensar que aqui por casa (por acaso, não fica muito longe de um monte alentejano que Henrique Granadeiro tinha, ou ainda tem), aqui por casa quando chove o telefone avaria logo a seguir (portanto no Inverno telefone a tempo inteiro é mentira), a linha não suporta ADSL nem nada parecido e a cobertura de telemóvel (tenho TMN) não existe. Mais, se eu quiser mandar este texto para a PT só por fax, porque para lá não se pode reclamar, por exemplo, através de e-mail.
Isto não faz sentido nenhum. Poderia eventualmente fazer nos tempos de Murteira Nabo à frente da empresa (foi demitido de ministro depois das confusões com a sisa do apartamento para onde se ia mudar – na mesma altura, eu comprei um apartamento em Lisboa e de sisa paguei quase dois mil contos, coisa que até fez com que uma vez, ao saber do valor, uma pessoa me perguntasse se eu tinha comprado algum palacete – e a seguir a ser demitido, Murteira Nabo, em vez de ficar impedido de voltar a exercer cargos públicos, foi nomeado presidente da maior empresa portuguesa, uma empresa com capitais públicos, precisamente a PT, e a ganhar bem mais do que como ministro).

quinta-feira, 3 de agosto de 2006

Se eu fosse escravo…

Numa das primeiras edições de 2004 da revista que dirijo («Pessoal»), publiquei o texto que deixo a seguir (O título é o que está ali em cima, «Se eu fosse escravo…»); fala de uma estranha escravatura nova e foi escrito para uma das secções habituais da revista («RH Ontem» nessa altura, tendo depois mudado para «Pessoal Ontem», designação que ainda se mantém).
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[Entrada] Se eu fosse escravo, o que acontecia é que levantava-me às sete da manhã, tomava «um belo de um pequeno-almoço», isto para adequar a linguagem aos novos tempos, e depois lá ia para o trabalho, no banco de trás do carro, com os jornais da manhã, o portátil e dois ou três telemóveis a distâncias convenientes. As confusões do trânsito, enfim, o motorista que se preocupasse com isso.
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O problema é que não sou escravo, e quanto ao trânsito tenho de ser eu a preocupar-me. Fica assim o telemóvel (um apenas) em descanso, já para não falar dos jornais. Portátil, por enquanto, ainda não se arranjou nada. Mas se eu fosse escravo tudo seria diferente, pelo menos se fosse um «novo escravo», para utilizar a expressão que aparece numa edição da «Pessoal» de 1999. Pedro Martins, consultor, na altura a «percorrer solitariamente o planeta», sempre «com encontro marcado com o desempenho excepcional», não era bem o seu criador, da expressão, entenda-se, mas quase. A entrevistadora (Madalena Avillez) colocava-a no título, no plural, a partir da resposta de Pedro Martins a um comentário seu sobre «a marginalização impiedosa e passiva dos candidatos a emprego», que segundo Viviane Forrester, no livro «O Horror Económico», «o futuro ia trazer». Quase cinco anos depois, e sendo que isso já dá margem suficiente para se dizer que agora estamos mesmo no futuro daquele presente de 1999, o passado de agora, 2004, vejamos a resposta de Pedro Martins, no parágrafo seguinte…
«Hoje em dia falar da gestão das pessoas, de como elas são importantes e devem ser valorizadas, é um tema muito quente, mas que a mim me parece uma grande hipocrisia. Enquanto há uns anos atrás se falava nos processos e na organização do trabalho, e antes nas próprias máquinas, hoje falamos nas vantagens distintivas das pessoas. As pessoas passaram a ter uma importância muito grande, não porque são pessoas, mas porque o resultado das empresas depende mais delas do que da organização e dos instrumentos de trabalho. Nunca foram tão escravizadas como hoje. Dantes havia escravos e senhores. Agora todos são escravos. Ninguém é mais escravo que o presidente de uma grande empresa. Aquela oligarquia antiga em que ele ficava um pouco acima da absorção pelo trabalho, já não existe. Um presidente de uma empresa de elevado desempenho dorme muito pouco e está sempre a trabalhar. Este é o reverso da medalha da valorização das pessoas. Passei os últimos anos a partilhar o meu tempo com essas pessoas. Acho que elas são felizes. Provavelmente não fazem é ninguém feliz ao lado delas.»
Enfim, talvez me tenha precipitado em dizer que o problema é não ser escravo; talvez até já o seja e não tenha nunca dado por isso. Há os escravos mesmos escravos, os de sempre, a que poderemos chamar velhos, e depois os «novos», os presidentes das «grandes empresas», os que antes estavam «um pouco acima da absorção pelo trabalho», e um pouco acima de outras chatices capazes de estragarem por completo a vida de um presidente à boa maneira… Ia escrever portuguesa, mas não vamos a tanto, à boa maneira antiga, sim, talvez seja melhor. Devia ter cuidado com estas opções e assegurar-me do tipo de escravatura que me esperava, ver se incluía motorista (que trás sempre carro incluído), secretária, telemóvel, assessores (e assistentes), cartão de crédito, viagens, package salarial de acordo com isto e mais isto e mais uma data de coisas com a ressalva de não descer do nível tal tal tal… E por aí adiante. Devia assegurar-me se à espreita está a «nova» escravatura ou se, bem pelo contrário, está a do costume, aquele que é pensada e bem repensada nos altos domínios das «oligarquias» do tal nível «um pouco acima da absorção pelo trabalho».
«Grandes empresas» e «novos escravos» fazem-me lembrar de um senhor que era ministro e que depois foi para escravo, dos «novos», já se vê, exactamente na mesma altura em que comprei uma casa e tive de pagar de sisa quase dois mil contos (na altura ainda usávamos contos, escudos e outras coisas daquele presente em que se perspectivava como futuro este presente de agora). O senhor comprou uma casa e achou que não devia pagar a tal sisa, que o seu chefe primeiro-ministro ainda por cima considerava «o imposto mais estúpido do mundo». Talvez só mesmo quem negociou com uma empresa a sério, com as contas bem certas, é que devesse pagar tudo normalmente, como eu. Nunca o senhor ministro. Claro que depois foi apanhado e teve de pagar o imposto, mas se não tivesse sido lá tinha continuado ministro por mais uns anitos, provavelmente até ao dia em que o chefe se demitiu. Enfim, foi para escravo, para a presidência de uma «grande empresa». E a ganhar não sei quantas vezes mais é bem provável que tenha sido feliz. E se calhar até fez muita gente feliz ao seu lado.

O estranho recorde de Fernando Santos

Julgo que consigo perceber o que sentem os benfiquistas por estes dias. Também já senti o mesmo quando Fernando Santos passou pelo Sporting. Por esses tempos, mal ouvi anunciarem o seu nome como que visualizei imediatamente o desastre que haveria de ser a época (2003/ 2004). Claro que o futuro ainda reservava um pesadelo pior (José Peseiro), mas isso estava eu longe de imaginar. O saldo foi o terceiro lugar no campeonato (atrás do Porto e do Benfica), a eliminação em casa logo no primeiro jogo da Taça de Portugal (0-1 com o Setúbal) e a saída à segunda da Taça UEFA (depois de passar os suecos do Malmoe e de um empate em casa dos turcos do Gençlerbirligi, derrota em Portugal por três a zero com esses mesmos turcos de nome esquisito).
Ontem, e a propósito de Fernando Santos, um amigo falou-me de um estranho recorde que o homem detém: é o único treinador que em Portugal conseguiu perder um campeonato tendo o Jardel na equipa (o de 1999/ 2000, quando treinava o Porto e ficou a ver navios perante o Sporting de Augusto Inácio e, assinale-se também, de «Beto» Acosta).
A coisa não é bem assim, mas é como se fosse. Explico… Quando jogou no Porto, Jardel foi campeão durante várias épocas (inclusive na de 1998/ 1999 treinado por Fernando Santos, que então passou por uns tempos a ser conhecido por uma expressão quase a tocar o mau-gosto, nem mais nem menos do que «engenheiro do penta»); até que chegou a tal época de 1999/ 2000 em que Fernando Santos conseguiu o recorde referido por aquele meu amigo. Depois Jardel sairia para a Turquia, regressando a Portugal para jogar no Sporting (2001/ 2002), sendo campeão com Lazlo Boloni. E é a seguir que vem a tal falha (embora sem importância) das contas do meu amigo. Na época seguinte, de novo com Lazlo Boloni a treinar o Sporting, Jardel não foi campeão; acredito que teria sido (mesmo com o efeito José Mourinho no Porto), se não tivesse havido a enorme confusão de que muita gente se recorda, que o levou a fazer cerca de metade dos jogos e muitos deles incompletos. Ou seja, nessa época foi como se Jardel não tivesse estado por cá.
O mais provável é que o recorde de Fernando Santos só seja verdadeiramente igualado no final da época que agora começa, quando o Beira Mar de Augusto Inácio e de Jardel não conseguir ser campeão (curiosamente, Augusto Inácio é o treinador que pelo Sporting «ajudou» Fernando Santos a chegar ao estranho recorde).

Os frutos e a cor da terra

Por falar em José Carlos Barros (post «Isto promete», logo abaixo), deixo a seguir o texto que sobre ele escrevi há cerca de um ano para a revista «Pessoal» (secção «Stress? Relax»), intitulado precisamente «Os frutos e a cor da terra».
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[Entrada] Um homem do mundo, mais do que da sua terra natal, ou do que da terra onde vive. José Carlos Barros, um arquitecto paisagista que ainda não há muito tempo era director do Parque Natural da Ria Formosa, fala do seu percurso profissional e dos hobbies que não dispensa, nem que seja lá de tempos a tempos. E fala da Casa de Cacela, onde acorda com as aves pousadas nas árvores do jardim e vê os frutos a crescer e a terra a mudar de cor ao longo do ano. Trabalho ou hobby, fica-se na dúvida, mas esclarecê-la nem é o mais importante.

José Carlos Barros, transmontano de Boticas, estudou arquitectura paisagista em terras do sul, em Évora, e vive ainda mais a sul, no Algarve, tocando o mar, em Cacela. «Nasci em Trás-os-Montes. Vivi no Alentejo. Vivo no Algarve, onde tenho a minha vida. Mas sou, sobretudo, do mundo, de uma parte do mundo da qual a ruralidade não desapareceu, onde ainda sabemos o nome das árvores e vemos os frutos a crescer. É daí que eu sou.»
Profissionalmente ligado ao ordenamento do território e à conservação da natureza, José Carlos Barros pertence aos quadros da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve, tendo nos últimos anos sido director do Parque Natural da Ria Formosa e da Reserva Natural do Sapal de Castro Marim e Vila Real de Santo António. Classifica estas experiências como «as mais fascinantes e simultaneamente as mais constrangedoras». O fascínio, esse justifica-o com «os desafios colocados à gestão de espaços de elevadíssimo valor natural, ao desenvolvimento de acções de conservação da natureza, à gestão na perspectiva da compatibilização entre conservação de valores e recursos naturais e aproveitamento económico desses mesmos recursos»; já aos constrangimentos associa a ideia de que «gerir parques naturais, em Portugal – e sobretudo no caso da Ria Formosa, como resultado das pressões permanentes de alteração do uso do solo –, é uma espécie de missão impossível», em grande parte devido à «falta de pragmatismo que se verifica ao nível da decisão política». Explicando melhor… «Ficamo-nos quase sempre pelas meias tintas, ou alterando o discurso conforme as circunstâncias. E no intervalo destas indecisões e indefinições vale tudo. O que não é bom para a conservação da natureza, mas também não é bom para os verdadeiros empresários, que nunca conhecem as regras com clareza. Assim, mais do que gerir conflitos, dirigir um parque natural é, na maior parte das vezes, gerir indefinições.»
A estes constrangimentos, porém, já José Carlos Barros estava habituado, devido à passagem de dois anos pelos meios governamentais, em Lisboa, trabalhando com o secretário de Estado-adjunto da ministra do Ambiente. «Trabalhar junto do poder dá-nos a ilusão de poder. Digo ilusão porque na realidade a maior parte dos processos que implicam mudança acabam por ser lentos, tropeçam em teias burocráticas, encontram resistências administrativas muitas vezes difíceis de compreender.» Mesmo assim, a experiência terá sido gratificante, pelo menos por duas razões, em primeiro lugar por ter trabalhado com pessoas fabulosas – «e as pessoas são sempre o que maisfica» –, depois porque «apesar de tudo foi possível dar passos decisivos em matéria ambiental, nomeadamente com o programa ‘Litoral’, que em finais dos anos 90 colocou a gestão da orla costeira nas prioridades de intervenção do ministério, algo que nos anos mais recentes, infelizmente, não tem merecido a atenção e os esforços de actuação política que justificava e continua a exigir».

»»» Isso dos hobbies
E o que diria este homem do ambiente se lhe pedissem para revelar os seus hobbies? Talvez não fosse difícil acertar se se apostasse na natureza… «Se tivesse que escolher uma única coisa, diria que era a pesca às trutas. Embora actualmente só vá à pesca uma ou duas vezes por ano. Mas quando vou, geralmente, são quatro dias a dormir numa pequena casa de montanha sem electricidade nem água canalizada, sem linhas telefónicas nem rede de telemóvel. Com amigos. É muito mais do que pescar: é estar no rio. Em rios de montanha, perdidos do mundo, onde o contacto com a natureza é ainda uma realidade. Rios cavados no fundo dos vales, paisagens belíssimas, o silêncio dos montes, o voo das aves, os ruídos dos animais que se escondem nas margens. E as árvores: os amieiros, os freixos, os negrilhos, os carvalhos, as tílias, os vidoeiros. E a água: a água límpida das nascentes, a água do degelo das altas cumeadas. Os rios Beça, Mente, Rabaçal…»
Quanto a coisas mais próximas de casa, o mar, a praia e a ria… «Vivo a menos de dois quilómetros do mar, e a menos de dois quilómetros da Ria Formosa. Gosto imenso da praia, sobretudo no Inverno. E da ria, de estarna ria; quando chegar o Outono, é certo que lá estarei, a andar de kayak com a minha filha.»
Confissões de quem pela década de 1980 podia ser encontrado quase todas as semanas, às terças-feiras, nas páginas do suplemento «DN Jovem», do «Diário de Notícias», com poemas que invariavelmente eram premiados. «Com a literatura tenho uma relação estranha, porque não sou escritor, porque não levo muito a sério o que escrevo, mas simultaneamente porque não posso deixar de levar a sério o que escrevo… Escrever, mesmo não sendo escritor, não é um hobby. Nem sei… talvez acabe por escrever por todas estas contradições.» José Carlos Barros escreve sobretudo poesia, tendo alguns livros publicados, «quase sem circulação comercial». «Como concorri a prémios literários e ganhei, resultou que me publicassem alguns livros. Mas parece-me que de um modo geral os exemplares impressos ficaram mais em depósitos húmidos, nas caves das autarquias, por exemplo, do que transitando por aí. De resto, não gosto de escrever. Não saberia muito bem explicar por que escrevo. Porque também não sinto que não possa passar sem escrever. Eu não poderia passar era sem estar com os amigos, sem ir com eles à pesca uma vez por ano, sem nos encontrarmos por acaso e julgarmos que a felicidade é também isso: encontrarmo-nos e podermos estar juntos durante algum tempo a falar mal do mundo em geral, e da literatura e da política em particular.»
Ainda José Carlos Barros e a poesia… «Escrevo essencialmente poesia, sim, porque não exige disciplina. Posso escrever uns dez poemas numa noite e depois estar seis meses sem esboçar uma estrofe. Ou mais. Embora esta coisa dos blogs tenha alterado a regra. Mas passava bem sem a escrita. Penso que é para esse lado que durmo melhor.» Quanto a publicação em livros que sejam capazes de escapar aos «depósitos húmidos», a coisa parece difícil… José Carlos Barros tem muita coisa preparada, mas até agora ainda não mandou a nenhum editor. «E não é de supor que eles venham por aí abaixo de rota batida bater-me à porta e perguntar, ansiosos, se podem espreitar as minhas gavetas. O silêncio com o silêncio se paga. É assim, e parece-me bem: eu distancio-me do mundo, é justo que o mundo faça os possíveis por se distanciar de mim.»
Ficam então em resguardo algumas das mais belas palavras do autor da letra do futuro hino do Algarve, uma letra onde cada cantinho da região encontra lugar, e onde o futuro da própria região também tem lugar reservado. Apesar de tudo o que lhe tem acontecido. «A devastação maior que o Algarve sofreu» – diz José Carlos Barros – «nem é bem ambiental; é, antes de mais, cultural. Como se tivéssemos perdido a memória. O mais veio por acréscimo deste esquecimento. É certo que a construção sem regras assolou o litoral e foi caminhando, por vezes impune, barrocal adentro. Não sou de grandes optimismos, mas acredito que não há sístole sem diástole, acção sem reacção. Claro que muitas coisas se perderam irreversivelmente. Mas há muitos algarvios que não se conformam, e os sinais positivos começam a surgir. A impunidade começa a ser vigiada. Aprendemos com os erros. Claro que tudo leva o seu tempo; mais depressa adoecemos do que encontramos a cura. Mas sinto que vivo numa terra fantástica, numa terra com futuro.» Talvez seja também por isso que José Carlos Barros decidiu aceitar o desafio de participar mais activamente na vida política, sendo actualmente candidato – como independente, pela lista do Partido Social Democrata – à vice-presidência da Câmara Municipal de Vila Real de Santo António.

[Caixa] A Casa de Cacela
O projecto é antigo, mas só há cerca de dois meses [declarações feitas há cerca de um ano] foi concretizado. A Casa de Cacela (http://www.casadecacela.com/) é uma unidade de agro-turismo, em Vila Nova de Cacela, entre Tavira e Vila Real de Santo António, no Algarve. É aí que vive José Carlos Barros, «no meio do campo, numa fazenda, a ver crescer as árvores, a ver crescer os frutos» (a propósito de ver crescer as árvores e os frutos, sugere-se uma visita a dois blogs de José Carlos Barros, http://casa-de-cacela.blogspot.com/ e http://presadopadrepedro.blogspot.com/, embora este último esteja agora sem actualizações). Ele próprio apresenta a sua casa… «Eu e a minha mulher é que tratamos disto – eu agora estou de férias, depois logo se vê. Gostaria de conseguir ficar último esteja agora sem actualizações). Ele próprio apresenta a sua casa… «Eu e a minha mulheraqui a tempo inteiro… O projecto é antigo, mas só há cerca de dois meses é que começou a funcionar. Foram precisos três anos para se conseguir o licenciamento; porque foi integralmente concretizado com financiamento próprio e recurso a crédito bancário, sem um cêntimo de apoios no âmbito do sistema de incentivos ‘SIVETUR’, vocacionado também para o apoio ao chamado turismo sustentável, mas que no Algarve tem servido essencialmente para financiar projectos turísticos de grandes grupos económicos. Ou seja, o equilíbrio, mais uma vez, não tem sido conseguido, e continuamos a não saber aproveitar os fundos comunitários para as mudanças de que o Algarve tanto necessita. O meu trabalho, actualmente, divide-se também por aqui – embora a gestão da casa seja feita essencialmente pela minha mulher. No fundo, tratou-se de recuperar as antigas instalações agrícolas e habitacionais e, com este projecto, permitir a continuação das actividades agrícolas que se desenvolviam na propriedade. Porque os agricultores, actualmente, ou são subsídio-dependentes ou ficam à mercê de intermediários: é como se fossem considerados um estorvo. E aqui desejávamos continuar a fazer agricultura. São seis hectares de hortas e pomares, sobretudo de amendoeiras, damasqueiros, ameixeiras, alfarrobeiras e figueiras. No fundo, a concretização do projecto está também ligada ao desejo de viver aqui, um pouco fora do mundo. Acordar com as aves pousadas nas árvores do jardim, ver os frutos a crescer, ver a terra a mudar de cor ao longo do ano.»

sábado, 29 de julho de 2006

O desconvite

Leio na comunicação social excertos de um comunicado da pianista Maria João Pires. As referências a Portugal, «que se comporta sem qualquer interesse pelas gerações futuras ou por projectos que incentivem valores morais, solidariedade, educação, respeito e amizade», fazem-me recordar um episódio de há dois ou três anos. Passou-se comigo. A biblioteca municipal da minha terra, Monchique, no Algarve, convidou-me para uma das sessões de conversas com escritores que promovia com os leitores. Aceitei e alguns dias depois recebi um exemplar do convite que estava a ser enviado para divulgar a iniciativa. Mais uns dias, já com a data a aproximar-se, telefonaram-me a pedir muita desculpa mas que a sessão ficava sem efeito; tudo porque o vereador da câmara responsável pela cultura tinha mandado cancelar todos os eventos culturais em Monchique durante uma semana (precisamente a que incluia o dia da sessão em causa). Pediram-me também para devolver o exemplar do convite que me tinham dado, mas eu recusei. Ainda hoje o guardo comigo.

sexta-feira, 28 de julho de 2006

Isto promete

Depois da estreia do Sporting ontem à noite em Vila Real de Santo António (Benfica - 0, Sporting - 3), fiquei com a ideia de que isto promete para o lado dos leões. Os golos do Yannick, as tabelas do Rui Costa, os remates de longe do Katsouranis...
Uma curiosidade… A câmara de Vila Real de Santo António tem um vereador – ainda por cima o vice-presidente – que é poeta, além de ser muito sensível às questões do ambiente (foi director do Parque Natural da Ria Formosa, por exemplo); chama-se José Carlos Barros e pode ser lido no blog Casa de Cacela (http://casa-de-cacela.blogspot.com/).

Deve ser castigo

Há uns dias, escrevi aqui que o abandono da selecção nacional de futebol por parte do Pauleta era uma boa notícia (em muitos jogos de Portugal eu costumava dizer, só para mim, «isto não vai com pauletas» – e nunca foi mesmo, apesar dos quarenta e tal golos, a maior parte deles quase sempre quando não era preciso). E agora, o meu clube, o Sporting, anuncia a contratação de um avançado uruguaio que jogava no Paris Saint Germain, um avançado que na época passada não marcou nenhum golo porque estava tapado, imagine-se, pelo Pauleta. Ou seja, o meu clube acaba de contratar o suplente do Pauleta em França. Deve ser castigo… O que eu devia era ter ficado bem caladinho quando o Pauleta disse que ia lá à vida dele e que deixava a selecção em paz.
Mas pode até ser que o uruguaio – Carlos Bueno, assim se chama, mas na América do Sul é conhecido por «El Loco» –, pode ser, dizia, que acabe por fazer boa figura no Sporting. O Nuno Gomes também se fartou de ser suplente do Pauleta na selecção e nem por isso deixa de ser um jogador muito, mas mesmo muito melhor. Isso viu-se bem nos bocadinhos em que jogou neste último campeonato do mundo, na Alemanha, e no Euro 2004, sem esquecer a campanha brilhante que fez no Euro 2000 (depois de ser titular frente à Inglaterra por impedimento do Pauleta, que depois só entrou em campo naquele jogo com a Alemanha que não contava para nada – se não fosse o impedimento do açoriano no jogo com os ingleses, que deu a Nuno Gomes a oportunidade de se afirmar, não sei como é que teria sido aquele campeonato).

terça-feira, 18 de julho de 2006

«Liedson resolve» problema de Scolari

«Liedson está disponível para vir a obter a dupla nacionalidade que lhe possa permitir a sua integração na selecção portuguesa, seguindo exemplos de outros seus compatriotas, caso concreto de Deco, o mais mediático./ ‘Se algum dia for convidado a fazê-lo, não hesitarei em fazê-lo, sinto-me bem em Portugal’, disse o avançado do Sporting ao final desta manhã em conferência de imprensa na Academia.» (tirado esta tarde do site do jornal «A Bola»)
Será que vai ser Liedson a «resolver» o problema de Scolari? A ideia, confesso, não me desagrada.

quarta-feira, 12 de julho de 2006

Não devia contar isto

Eu andava para ir ao médico. Tinha-me aparecido uma borbulha que me parecia estranha e que nunca mais passava. Dias e dias e cada vez pior, até a formar um pequeno volume que me doía se fizesse pressão. A coisa preocupava-me. Tinha de ir mesmo ao médico, provavelmente a uma clínica a que por vezes recorria. Mas para algo assim eu não sabia a que especialidade ir. Então, talvez ir o médico de família fosse o melhor… Mas isso devia demorar um ror de tempo, era o que eu pensava.
Um destes dias, a meio da tarde, uma tarde de calor, mesmo de muito calor, eu ia a conduzir pelas ruas de Montemor-o-Novo. E lembrei-me de ir ao centro de saúde, em tempos hospital, marcar uma consulta. A ver o que dava. Entrei e só vi dois funcionários, cada um no seu cubículo. Uma senhora e um rapaz. A senhora disse-me para falar com o rapaz. Eu disse que era para marcar uma consulta e acrescentei o nome do médico de família (que não conhecia, por ter recentemente transferido o processo de Lisboa).
O rapaz lá teclou umas coisas no computador e depois disse-me que era três euros e meio. Perguntei por quê, se estava apenas a marcar a consulta. E ele esclareceu-me que aquele era o dia em que o meu médico de família estava na urgência e que eu podia ser atendido (assim como poderia ser por outro médico se o dia fosse outro). Tinha consulta para a urgência.
Eu precisava de ir com o meu filho a Évora daí a duas horas. À pediatra (consulta privada, já se vê). O rapaz disse que dava tempo, e ainda me informou que para consultas normais poderia fazer a marcação num sítio que ficava na outra ponta do centro de saúde. Depois mandou-me para a sala de espera.
Mesmo com o aviso do rapaz de que dava tempo, eu disse para comigo que se não fosse atendido na hora seguinte desistia, mesmo tendo pago os três euros e meio. Na sala de espera estava uma pessoa, que foi chamada quando eu ia a entrar. Levava uns papéis na mão, provavelmente para mostrar ao médico, pois saiu daí a uns cinco minutos. Fui chamado a seguir e conheci finalmente o meu médico de família. Disse-lhe ao que ia e ele não demorou muito a tranquilizar-me. Não era nada preocupante o que eu tinha; receitou-me um antibiótico e disse para tomar durante dez dias.
Eu não devia contar isto, porque se algum espertalhão armado em ministro da Saúde sabe ainda manda encerrar o centro de saúde de Montemor-o-Novo e para a próxima tenho de ir a Évora, ou quem sabe a Badajoz.

domingo, 9 de julho de 2006

Acabou o mundial

E pronto, o campeonato mundial de futebol acabou. Ontem à noite, uns minutos depois do golo de Nuno Gomes naquele jogo de consolação (?) cuja existência não tem nenhum sentido. Scolari, mais uma vez, errou em muitas das opções que tomou, mas é dele todo o mérito do que se conseguiu. Só uma liderança como a dele conseguia chegar tão longe. Espero que se mantenha como seleccionador, mesmo havendo por cá muitos treinadores que percebem muito mais de futebol do que ele.
Duas referências, uma para um jogador, outra para um espectador.
O jogador, Pauleta, que anunciou o abandono da selecção. Não tenho feito comentários a escolhas ou a desempenhos, mas neste caso abro uma excepção. O abandono de Pauleta é uma boa notícia. Se ele não abandonasse, Scolari continuaria a convocá-lo e a metê-lo sempre a titular, e a selecção continuaria sem ataque. Pauleta de certeza que iria marcar mais golos aos luxemburgos do futebol e uma vez por outra a alguma holanda momentaneamente distraída; talvez, quem sabe, até duplicasse a marca de Eusébio. Mas abandonou.
O espectador, Cavaco, que há uns anos dizia aos seus «ajudantes» para não se meterem com as gentes do futebol. Foi a Estugarda mais a filha, à pala, e não se lembrou de estar calado para evitar aquelas referências à «energia positiva» que é preciso mobilizar para «reforço do nosso desenvolvimento e das nossas capacidades». Francisco José Viegas escreveu hoje no seu blog «A Origem das Espécies», a propósito disso, que «há gente que não devia ir ao futebol». Não concordo. Deve ir quem quer. Mas para se pôr com umas coisas assim, que compre bilhete (e passagem aérea) e vá para a bancada.
A Itália e a França ainda vão fazer um jogo. Recomendo a consulta do resultado nalgum livro que saia por alturas do próximo mundial.

terça-feira, 4 de julho de 2006

Uma visita ao blog de Pacheco Pereira

Três notas de uma visita ao blog «Abrupto», de José Pacheco Pereira.
Primeira nota…
Li isto, do autor do blog, junto de reproduções de uma capa do Diário de Notícias» e de outra do «Público»: «Pouco pão e muito circo. Notícias da Futebolândia: secção de ‘destaque’ do ‘Público’ (em linha) tem 12 artigos sobre futebol, na secção de ‘opinião’ do ‘Correio da Manhã’ (em linha) há 7 artigos todos sobre futebol. As capas já restauram um certo equilíbrio, dando notícias, que é aquilo para que é suposto os jornais existirem./ Entretanto, não acontece nada no país: deu-se uma importante remodelação governamental, em que foi embora o único ministro com autonomia política, parece que as férias dos portugueses começam a revelar a crise (meio caminho andado para a Revolução), os agricultores vão poder construir casas de primeira habitação em áreas classificadas como Reserva Ecológica Nacional (vão ver o número de agricultores a aumentar...), na Bolívia continua o plano inclinado para a desgraça da América Latina, na Palestina as coisas estão como se sabe, etc. Não acontece verdadeiramente nada que nos distraia do que é importante.»
Bom, eu estive fora, de férias (por isso não tenho escrito aqui, e se calhar nem se perde grande coisa). Lembro-me de que no dia da saída de Freitas do Amaral alguém me perguntou se eu sabia o que tinha acontecido na política, e eu disse que sim, que sabia, que havia troca de ministros. Tinha ligado o rádio do carro e estavam uns tipos a discutir o assunto na Antena 1, e eu só queria era saber o resultado dos penalties da Alemanha com a Argentina, para ver qual das selecções ainda se poderia atravessar no caminho da nossa – e os tipos a insistirem com o caso do governo, e naquela zona não dava para apanhar mais nenhuma estação que pudesse dar notícias dos penalties. Nos jornais do dia seguinte, também não liguei à troca de ministros; claro que me interessei mais pelo que tinha a ver o jogo da selecção frente à Inglaterra. Assistir ao jogo foi para mim (como acredito que foi para a esmagadora maioria dos portugueses) uma experiência inesquecível. Eu pensava que ganharíamos com alguma dificuldade, sem prolongamento nem penalties. Mas não, teve de ser até à última mesmo. Foi uma tarde inesquecível, não mudou a minha vida, mas foi uma tarde inesquecível. E a troca de ministros? Poderá ela mudar a minha vida? E poderá mudar a vida da esmagadora maioria dos portugueses? Deixo-vos adivinhar.
Segunda nota…
Um «bibliotecário intelectual (adepto moderado do Futebol e desporto em geral) de 35 anos, amante da nossa história e deste país com 853 anos de existência que já merecia ser feliz e proporcionar aos seus habitantes uma melhor qualidade de vida», chamado Jorge Lopes, escreve o seguinte: «Que bom que era Portugal estar nas Meias-Finais do Campeonato do Mundo do desenvolvimento científico! Que bom que era Portugal estar nas Meias-Finais do Campeonato do Mundo dos hábitos de leitura e nas práticas culturais! Que bom que era Portugal estar nas Meias-Finais do Campeonato do Mundo da qualidade de vida das cidades e do ordenamento do território! Que bom que era Portugal estar nas Meias-Finais do Campeonato do Mundo do combate às desigualdades sociais e à pobreza! Que bom que era Portugal estar nas Meias-Finais do Campeonato do Mundo da qualidade da educação e da nossa saúde! Que bom que era Portugal estar nas Meias-Finais do Campeonato do Mundo da qualidade dos nossos dirigentes políticos e da capacidade das nossas elites! Que bom que era Portugal estar nas Meias-Finais do Campeonato do Mundo da defesa do nosso património!» Pois, eu acho que sim, que era bom. Mas estou muito contente por pelo menos estarmos nas meias-finais do campeonato do mundo de futebol, e tenho esperança de que a coisa não fique por aqui. Quanto aos outros campeonatos, eles na verdade não existem, com excepção daquele dos dirigentes políticos (sem meter as elites ao barulho); para esse campeonato, nem da fase de qualificação conseguimos passar (ainda por cima, jogamo-la em grupos europeus, como no futebol). É deste campeonato que dependem as outras áreas, e para ele a selecção que podemos enviar é inevitavelmente constituída por gente que envergonha o país.
Terceira nota (por falar em gente que envergonha o país)…
Vi de relance um texto (assinado por Filipe Charters de Azevedo) sobre o ex-ministro Campos e Cunha, que no seu tempo de governante protagonizou uma das mais vergonhosas e chocantes situações da política portuguesa do pós-25 de Abril. Mesmo vendo de relance, deu para perceber o chorrilho de elogios. Fugi o mais depressa que pude.