sábado, 29 de julho de 2006

O desconvite

Leio na comunicação social excertos de um comunicado da pianista Maria João Pires. As referências a Portugal, «que se comporta sem qualquer interesse pelas gerações futuras ou por projectos que incentivem valores morais, solidariedade, educação, respeito e amizade», fazem-me recordar um episódio de há dois ou três anos. Passou-se comigo. A biblioteca municipal da minha terra, Monchique, no Algarve, convidou-me para uma das sessões de conversas com escritores que promovia com os leitores. Aceitei e alguns dias depois recebi um exemplar do convite que estava a ser enviado para divulgar a iniciativa. Mais uns dias, já com a data a aproximar-se, telefonaram-me a pedir muita desculpa mas que a sessão ficava sem efeito; tudo porque o vereador da câmara responsável pela cultura tinha mandado cancelar todos os eventos culturais em Monchique durante uma semana (precisamente a que incluia o dia da sessão em causa). Pediram-me também para devolver o exemplar do convite que me tinham dado, mas eu recusei. Ainda hoje o guardo comigo.

sexta-feira, 28 de julho de 2006

Isto promete

Depois da estreia do Sporting ontem à noite em Vila Real de Santo António (Benfica - 0, Sporting - 3), fiquei com a ideia de que isto promete para o lado dos leões. Os golos do Yannick, as tabelas do Rui Costa, os remates de longe do Katsouranis...
Uma curiosidade… A câmara de Vila Real de Santo António tem um vereador – ainda por cima o vice-presidente – que é poeta, além de ser muito sensível às questões do ambiente (foi director do Parque Natural da Ria Formosa, por exemplo); chama-se José Carlos Barros e pode ser lido no blog Casa de Cacela (http://casa-de-cacela.blogspot.com/).

Deve ser castigo

Há uns dias, escrevi aqui que o abandono da selecção nacional de futebol por parte do Pauleta era uma boa notícia (em muitos jogos de Portugal eu costumava dizer, só para mim, «isto não vai com pauletas» – e nunca foi mesmo, apesar dos quarenta e tal golos, a maior parte deles quase sempre quando não era preciso). E agora, o meu clube, o Sporting, anuncia a contratação de um avançado uruguaio que jogava no Paris Saint Germain, um avançado que na época passada não marcou nenhum golo porque estava tapado, imagine-se, pelo Pauleta. Ou seja, o meu clube acaba de contratar o suplente do Pauleta em França. Deve ser castigo… O que eu devia era ter ficado bem caladinho quando o Pauleta disse que ia lá à vida dele e que deixava a selecção em paz.
Mas pode até ser que o uruguaio – Carlos Bueno, assim se chama, mas na América do Sul é conhecido por «El Loco» –, pode ser, dizia, que acabe por fazer boa figura no Sporting. O Nuno Gomes também se fartou de ser suplente do Pauleta na selecção e nem por isso deixa de ser um jogador muito, mas mesmo muito melhor. Isso viu-se bem nos bocadinhos em que jogou neste último campeonato do mundo, na Alemanha, e no Euro 2004, sem esquecer a campanha brilhante que fez no Euro 2000 (depois de ser titular frente à Inglaterra por impedimento do Pauleta, que depois só entrou em campo naquele jogo com a Alemanha que não contava para nada – se não fosse o impedimento do açoriano no jogo com os ingleses, que deu a Nuno Gomes a oportunidade de se afirmar, não sei como é que teria sido aquele campeonato).

terça-feira, 18 de julho de 2006

«Liedson resolve» problema de Scolari

«Liedson está disponível para vir a obter a dupla nacionalidade que lhe possa permitir a sua integração na selecção portuguesa, seguindo exemplos de outros seus compatriotas, caso concreto de Deco, o mais mediático./ ‘Se algum dia for convidado a fazê-lo, não hesitarei em fazê-lo, sinto-me bem em Portugal’, disse o avançado do Sporting ao final desta manhã em conferência de imprensa na Academia.» (tirado esta tarde do site do jornal «A Bola»)
Será que vai ser Liedson a «resolver» o problema de Scolari? A ideia, confesso, não me desagrada.

quarta-feira, 12 de julho de 2006

Não devia contar isto

Eu andava para ir ao médico. Tinha-me aparecido uma borbulha que me parecia estranha e que nunca mais passava. Dias e dias e cada vez pior, até a formar um pequeno volume que me doía se fizesse pressão. A coisa preocupava-me. Tinha de ir mesmo ao médico, provavelmente a uma clínica a que por vezes recorria. Mas para algo assim eu não sabia a que especialidade ir. Então, talvez ir o médico de família fosse o melhor… Mas isso devia demorar um ror de tempo, era o que eu pensava.
Um destes dias, a meio da tarde, uma tarde de calor, mesmo de muito calor, eu ia a conduzir pelas ruas de Montemor-o-Novo. E lembrei-me de ir ao centro de saúde, em tempos hospital, marcar uma consulta. A ver o que dava. Entrei e só vi dois funcionários, cada um no seu cubículo. Uma senhora e um rapaz. A senhora disse-me para falar com o rapaz. Eu disse que era para marcar uma consulta e acrescentei o nome do médico de família (que não conhecia, por ter recentemente transferido o processo de Lisboa).
O rapaz lá teclou umas coisas no computador e depois disse-me que era três euros e meio. Perguntei por quê, se estava apenas a marcar a consulta. E ele esclareceu-me que aquele era o dia em que o meu médico de família estava na urgência e que eu podia ser atendido (assim como poderia ser por outro médico se o dia fosse outro). Tinha consulta para a urgência.
Eu precisava de ir com o meu filho a Évora daí a duas horas. À pediatra (consulta privada, já se vê). O rapaz disse que dava tempo, e ainda me informou que para consultas normais poderia fazer a marcação num sítio que ficava na outra ponta do centro de saúde. Depois mandou-me para a sala de espera.
Mesmo com o aviso do rapaz de que dava tempo, eu disse para comigo que se não fosse atendido na hora seguinte desistia, mesmo tendo pago os três euros e meio. Na sala de espera estava uma pessoa, que foi chamada quando eu ia a entrar. Levava uns papéis na mão, provavelmente para mostrar ao médico, pois saiu daí a uns cinco minutos. Fui chamado a seguir e conheci finalmente o meu médico de família. Disse-lhe ao que ia e ele não demorou muito a tranquilizar-me. Não era nada preocupante o que eu tinha; receitou-me um antibiótico e disse para tomar durante dez dias.
Eu não devia contar isto, porque se algum espertalhão armado em ministro da Saúde sabe ainda manda encerrar o centro de saúde de Montemor-o-Novo e para a próxima tenho de ir a Évora, ou quem sabe a Badajoz.

domingo, 9 de julho de 2006

Acabou o mundial

E pronto, o campeonato mundial de futebol acabou. Ontem à noite, uns minutos depois do golo de Nuno Gomes naquele jogo de consolação (?) cuja existência não tem nenhum sentido. Scolari, mais uma vez, errou em muitas das opções que tomou, mas é dele todo o mérito do que se conseguiu. Só uma liderança como a dele conseguia chegar tão longe. Espero que se mantenha como seleccionador, mesmo havendo por cá muitos treinadores que percebem muito mais de futebol do que ele.
Duas referências, uma para um jogador, outra para um espectador.
O jogador, Pauleta, que anunciou o abandono da selecção. Não tenho feito comentários a escolhas ou a desempenhos, mas neste caso abro uma excepção. O abandono de Pauleta é uma boa notícia. Se ele não abandonasse, Scolari continuaria a convocá-lo e a metê-lo sempre a titular, e a selecção continuaria sem ataque. Pauleta de certeza que iria marcar mais golos aos luxemburgos do futebol e uma vez por outra a alguma holanda momentaneamente distraída; talvez, quem sabe, até duplicasse a marca de Eusébio. Mas abandonou.
O espectador, Cavaco, que há uns anos dizia aos seus «ajudantes» para não se meterem com as gentes do futebol. Foi a Estugarda mais a filha, à pala, e não se lembrou de estar calado para evitar aquelas referências à «energia positiva» que é preciso mobilizar para «reforço do nosso desenvolvimento e das nossas capacidades». Francisco José Viegas escreveu hoje no seu blog «A Origem das Espécies», a propósito disso, que «há gente que não devia ir ao futebol». Não concordo. Deve ir quem quer. Mas para se pôr com umas coisas assim, que compre bilhete (e passagem aérea) e vá para a bancada.
A Itália e a França ainda vão fazer um jogo. Recomendo a consulta do resultado nalgum livro que saia por alturas do próximo mundial.

terça-feira, 4 de julho de 2006

Uma visita ao blog de Pacheco Pereira

Três notas de uma visita ao blog «Abrupto», de José Pacheco Pereira.
Primeira nota…
Li isto, do autor do blog, junto de reproduções de uma capa do Diário de Notícias» e de outra do «Público»: «Pouco pão e muito circo. Notícias da Futebolândia: secção de ‘destaque’ do ‘Público’ (em linha) tem 12 artigos sobre futebol, na secção de ‘opinião’ do ‘Correio da Manhã’ (em linha) há 7 artigos todos sobre futebol. As capas já restauram um certo equilíbrio, dando notícias, que é aquilo para que é suposto os jornais existirem./ Entretanto, não acontece nada no país: deu-se uma importante remodelação governamental, em que foi embora o único ministro com autonomia política, parece que as férias dos portugueses começam a revelar a crise (meio caminho andado para a Revolução), os agricultores vão poder construir casas de primeira habitação em áreas classificadas como Reserva Ecológica Nacional (vão ver o número de agricultores a aumentar...), na Bolívia continua o plano inclinado para a desgraça da América Latina, na Palestina as coisas estão como se sabe, etc. Não acontece verdadeiramente nada que nos distraia do que é importante.»
Bom, eu estive fora, de férias (por isso não tenho escrito aqui, e se calhar nem se perde grande coisa). Lembro-me de que no dia da saída de Freitas do Amaral alguém me perguntou se eu sabia o que tinha acontecido na política, e eu disse que sim, que sabia, que havia troca de ministros. Tinha ligado o rádio do carro e estavam uns tipos a discutir o assunto na Antena 1, e eu só queria era saber o resultado dos penalties da Alemanha com a Argentina, para ver qual das selecções ainda se poderia atravessar no caminho da nossa – e os tipos a insistirem com o caso do governo, e naquela zona não dava para apanhar mais nenhuma estação que pudesse dar notícias dos penalties. Nos jornais do dia seguinte, também não liguei à troca de ministros; claro que me interessei mais pelo que tinha a ver o jogo da selecção frente à Inglaterra. Assistir ao jogo foi para mim (como acredito que foi para a esmagadora maioria dos portugueses) uma experiência inesquecível. Eu pensava que ganharíamos com alguma dificuldade, sem prolongamento nem penalties. Mas não, teve de ser até à última mesmo. Foi uma tarde inesquecível, não mudou a minha vida, mas foi uma tarde inesquecível. E a troca de ministros? Poderá ela mudar a minha vida? E poderá mudar a vida da esmagadora maioria dos portugueses? Deixo-vos adivinhar.
Segunda nota…
Um «bibliotecário intelectual (adepto moderado do Futebol e desporto em geral) de 35 anos, amante da nossa história e deste país com 853 anos de existência que já merecia ser feliz e proporcionar aos seus habitantes uma melhor qualidade de vida», chamado Jorge Lopes, escreve o seguinte: «Que bom que era Portugal estar nas Meias-Finais do Campeonato do Mundo do desenvolvimento científico! Que bom que era Portugal estar nas Meias-Finais do Campeonato do Mundo dos hábitos de leitura e nas práticas culturais! Que bom que era Portugal estar nas Meias-Finais do Campeonato do Mundo da qualidade de vida das cidades e do ordenamento do território! Que bom que era Portugal estar nas Meias-Finais do Campeonato do Mundo do combate às desigualdades sociais e à pobreza! Que bom que era Portugal estar nas Meias-Finais do Campeonato do Mundo da qualidade da educação e da nossa saúde! Que bom que era Portugal estar nas Meias-Finais do Campeonato do Mundo da qualidade dos nossos dirigentes políticos e da capacidade das nossas elites! Que bom que era Portugal estar nas Meias-Finais do Campeonato do Mundo da defesa do nosso património!» Pois, eu acho que sim, que era bom. Mas estou muito contente por pelo menos estarmos nas meias-finais do campeonato do mundo de futebol, e tenho esperança de que a coisa não fique por aqui. Quanto aos outros campeonatos, eles na verdade não existem, com excepção daquele dos dirigentes políticos (sem meter as elites ao barulho); para esse campeonato, nem da fase de qualificação conseguimos passar (ainda por cima, jogamo-la em grupos europeus, como no futebol). É deste campeonato que dependem as outras áreas, e para ele a selecção que podemos enviar é inevitavelmente constituída por gente que envergonha o país.
Terceira nota (por falar em gente que envergonha o país)…
Vi de relance um texto (assinado por Filipe Charters de Azevedo) sobre o ex-ministro Campos e Cunha, que no seu tempo de governante protagonizou uma das mais vergonhosas e chocantes situações da política portuguesa do pós-25 de Abril. Mesmo vendo de relance, deu para perceber o chorrilho de elogios. Fugi o mais depressa que pude.

terça-feira, 20 de junho de 2006

Descubra as diferenças

«Se no futuro Scolari sair da selecção, não seriam dez passos atrás [como tinha referido Costinha um dia antes], seriam vinte.» – Figo, Mundial da Alemanha, 2006
«Os técnicos [que eram quatro, Fernando Cabrita e José Augusto, mais António Morais pelo Porto e Toni pelo Benfica] têm preferido jogar à defesa. Hoje, porém, foi a primeira vez que jogámos ao ataque e acabámos mesmo por ganhar. Foi uma vitória dos jogadores e não dos treinadores que temos. Eu, por exemplo, não admito que um treinador da selecção, o senhor António Morais, pela simples razão de um jogador do seu clube não ter hoje alinhado, não tenha comparecido à palestra e, ainda pior, no final do jogo [o terceiro do grupo inicial, contra a Roménia, ganho por um a zero com um golo de Nené] tenha entrado na cabina sem ter uma palavra para dar aos jogadores. Lá por termos sido apurados, há muita coisa que continua mal.» – Diamantino, Europeu de França, 1984

Coisas discutíveis

Já vai para uns dias (estava o mundial de futebol para começar)… No blog «A Origem das Espécies», de Francisco José Viegas, dei com uma discussão sobre o Scolari – o difícil era não dar com uma discussão sobre o Scolari –, com posts e comentários atrás de comentários e posts. Até que reparei na recomendação de «um post do ‘maradona’, ‘Cá dos rapazes’», que segundo o autor do comentário dizia tudo o que era preciso sobre «Scolari e a sua convocatória». Fui espreitar e encontrei isto, assinado, claro, por «maradona» (com letra minúscula): «Apesar de Luís Felipe Scolari não ser um Professor Doutor Aníbal António Cavaco Silva do futebol, não devemos agora pensar que qualquer crítica é uma boa crítica. Ser um mau treinador não faz dele necessariamente um mau seleccionador. Scolari tem sorte, tem personalidade, tem ascendente, é de uma lealdade agoniante, sabe criar e dar confiança às pessoas; nas mãos dele a Inês Pedrosa era capaz de escrever um texto legível. Declaro que compreendo as suas opções. Foram estes os jogadores que qualificaram a selecção nacional para o mundial da Alemanha, um feito que podia muito bem não ter acontecido: lembremos que Figo, Rui Costa, João Pinto, Fernando Couto e Jorge Costa, na altura bestas de jogadores, não conseguiram ir ao França 98. A melhor selecção portuguesa da actualidade, é inequívoco, não é esta, e temo que o Scolari não saiba isso. Mas, novamente, isso não é suficiente para o condenar. Pelo o actual valor futebolístico, o triângulo de meio campo devia ter Manuel Fernandes e João Moutinho em vez de Maniche e Costinha? Devia. O Hugo Almeida é melhor do que o Hélder Postiga? É. O Miguelito faria melhor do que o Nuno Valente? Faria. Mas, por exemplo, para incluir o Quaresma, cuja não ida ao mundial cega de injustiça, quem é que retiravam? O Figo? Sim, o Figo, eu não convocava o Figo e levava o Quaresma, mas quem mais? A minha equipa seria: a guarda-redes, uma pessoa qualquer cidadã nacional sem ser o Ricardo (o Torres Couto, por exemplo); defesas, Miguelito, Ricardo Carvalho, Caneira e Paulo Ferreira; meio campo, João Moutinho e Tiago; avançados, Deco, Cristiano Ronaldo, Quaresma e Hugo Almeida. E esta equipa, embora passando aos oitavos final, poderia chegar à meia-final? Muito dificilmente. Pior do que isto, nem sei se jogariam bem. Esta coisa das selecções tem muito mais que se lhe diga, e o Scolari ao menos isso percebe. Scolari está desculpado. Desta vez não tem o Mourinho para o levar ao colo até à glória, sente-se sozinho, abandonado, deserdado. Vai tentar fazer sobreviver este casamento com as memórias do passado. Mas umas são excelentes memórias. Se em Setembro, nos primeiros jogos para a qualificação do campeonato da Europa, não começar a fazer a revolução que se deseja, então sim, São Paulo com ele.» [texto editado]
Estas coisas são sempre discutíveis, já dizia não sei quem. As opiniões de cada um, por mais que nos pareçam descabidas (então aquilo do Hugo Almeida e do Manuel Fernandes…), alguma justificação deverão ter. Esqueço por isso os jogadores e passo directamente ao seleccionador, sobre o qual já escrevi que «com ele nada se aprende»… Pois, nada se aprende, mas pensando um pouco há que reconhecer-lhe algum mérito. Obviamente que os seus conhecimentos de futebol são rudimentares, mas o que é certo é que lá vai conseguindo manter na ordem as nossas estrelas do costume, que antes dele nunca se sabia o que a qualquer momento poderiam arranjar. Brilho? Trajectória cadente? Explosão? Apagão? Revolução? Embirração? A verdade é que nunca se sabia. Mas custa pensar que dos treinadores portugueses provavelmente só José Peseiro teria conseguido perder a final com os gregos como o Scolari conseguiu...

segunda-feira, 19 de junho de 2006

Quando os tugas faziam de togas

Togas, claro, são os jogadores do Togo (pelo menos assim os decidi identificar neste texto). Tugas, já se imagina, são os nossos (eu nem gosto da palavra, mas já agora uso aqui).
Veja-se, por exemplo, esta notícia («Jornal de Negócios», 19.06.06; texto de Paulo Moutinho, editado – umas vírgulas, uns acentos, umas maiúsculas): «Os jogadores da selecção do Togo voltam a ameaçar boicotar o jogo de hoje frente à Suíça, a menos que o dinheiro que lhes foi prometido por terem qualificado a equipa togolesa para o campeonato do mundo lhes seja depositado nas suas contas./ A equipa do Togo viajou de Wangen para Dortmund, onde será disputado o jogo com a Suíça, depois de lhe ter sido assegurado o pagamento do prémio monetário por terem conseguido qualificar a selecção nacional para o campeonato do mundo, pela primeira vez na história do país./ Em declarações à UK Press Association, citadas pela Bloomberg, o defesa Jean-Paul Abalo afirmou que a equipa irá discutir sobre se vai apresentar-se no jogo de hoje frente à Suíça./ O seleccionador do Togo, Otto Pfister, tinha abandonado a equipa antes do primeiro jogo do torneio devido ao diferendo quanto aos bónus que a Federação de Futebol do Togo iria pagar aos jogadores da selecção, tendo voltado ao seu posto pouco depois./ O jogo de hoje frente à Suíça é de extrema importância para o Togo, depois de ter sido derrotado por duas bolas a uma frente à Coreia do Sul, no primeiro jogo do grupo G.»
Veja-se agora alguns excertos de um comunicado dos jogadores da selecção portuguesa de futebol que há 20 anos, por esta mesma altura, estava no México para disputar o campeonato do mundo (o comunicado é de ainda antes do primeiro jogo, frente à Inglaterra): «(…) Demos um prazo, até hoje, para que a FPF [a federação], representada pelo seu presidente, Dr. Antero da Silva Resende, dialogasse connosco (…) Até ao presente, apesar dos insistentes pedidos feitos nesse sentido, ninguém deu qualquer resposta (…) Para que não restem dúvidas, esclarecemos as condições em que nos mandaram para o México: 1. quatro mil escudos de diária; 2. cem mil escudos de prémio de presença em cada jogo da fase inicial, se formos afastados da competição; 3. duzentos mil escudos, dados pelo senhor Joaquim Oliveira, e não pela FPF, para envergarmos, nos treinos e nos eventuais jogos de preparação, camisolas com publicidade de determinada marca, quando a federação receberá, segundo consta, cerca de vinte e cinco mil contos (…); 4. obrigatoriedade de usarmos diariamente roupa de uma marca desportiva sem qualquer compensação monetária./ (…) Os profissionais de futebol não são crianças às quais se dão reguadas e se impõem castigos, nem mentecaptos manejados a bel-prazer de quem ocupa cargos directivos. Somos homens a respeitar e a ter em conta, não só quando ganhamos jogos, títulos e qualificações mundiais, mas em todas as alturas. Porque temos a absoluta consciência de que o trabalho da selecção, feito com tanto sacrifício, se pode desmoronar de um instante para o outro pela irresponsabilidade do senhor coordenador [Amândio de Carvalho, que ainda hoje se mantém na estrutura federativa, ocupando uma das vice-presidências], que teima em não nos ouvir, resolvemos o seguinte: a) comparecer ao jogo-treino marcado para amanhã, em Monterrey, com as forças inferiores de um clube local [os Tigres de Monterrey] (…) c) constituir nosso interlocutor o treinador principal, José Torres (…) g) dizer que, sendo a aspiração máxima de um jogador de futebol envergar a camisola do seu país, muito tristes ficaríamos se um dia nos obrigassem a pensar na eventualidade de solicitar dispensa dos trabalhos relativos à selecção (…); h) considerar que obtivemos uma grande vitória, da moral e da liberdade, ao conseguir desmascarar esta situação (…); i) provar que não é a situação financeira que nos perturba, mas sim o facto de não nos tratarem como pessoas, com cabeça para pensar e coração para sofrer (…)»

terça-feira, 13 de junho de 2006

Outra vez Campos e Cunha…

Vai para duas semanas. Já era tarde, a caminho da meia-noite. Eu fazia a viagem de Lisboa para casa, depois do fecho de mais uma edição da revista que dirijo, e de repente dei comigo a ouvir um programa de rádio em que entram Manuela Ferreira Leite e João Cravinho. Comentários, debate, painel, nem sei bem o que é… Os dois falam, creio que com um moderador, que fica sempre bem nestas coisas. A certa altura, começaram a discutir uns investimentos anunciados pelo ministro das Obras Públicas. Grandes Investimentos. Cravinho, mesmo do partido do governo, não ia em grandes entusiasmos. Manuela Ferreira Leite, pior ainda. Achava que não, decididamente, porque na nossa situação prometer investimentos é negativo, porque depois não há dinheiro para pagar e etcétera e tal. E eu a ouvir, mais atento à estrada do que ao que diziam, até que a mulher açambarcou a minha atenção. Pôs-se a dizer que aquilo dos investimentos que depois não se pode pagar ia colocar problemas ao ministro das Finanças, que se calhar até teria de fazer como o seu antecessor, que tinha tido que bater com a porta perante os investimentos que contrariavam a sua política de rigor e mais não sei o quê.
Só me faltava mesmo aquilo… No final de um dia bem cansativo para conseguir deixar todo o trabalho feito, ouvir falar de Campos e Cunha, para mim um dos exemplos mais vergonhosos do mundo da política no Portugal democrático. Ele a sua reforma principesca ao fim de uns poucos anos a ocupar um cargo numa instituição pública que até tem a sorte de ter um fundo de pensões. Lembrei-me da expressão de Fernando Alves numa crónica da TSF na altura do escândalo do homem, «profissionais do saque», uma crónica onde o jornalista falou de um museu da corrupção aberto num país da América Latina para dizer que nós em Portugal poderíamos ter não um museu do género mas um núcleo museológico, a céu aberto.
Só faltava mesmo ouvir falar do rigor de Campos e Cunha… Quem não se lembra dele a agarrar-se aos «direitos adquiridos» quando percebeu que as medidas que apregoava para a generalidade dos portugueses tinham acabado de trazer para a praça pública os seus próprios privilégios. E uns dias antes de rebentar o escândalo, que vergonha vê-lo numa entrevista conjunta para um canal de televisão e um jornal a dizer que as medidas do governo também haveriam de afectá-lo a ele, porque com elas passaria a só poder reformar-se mais tarde… Para depois se descobrir que afinal já estava reformado, e por causa de cinco ou seis anos a ocupar um lugar numa instituição pública. E a sua nova reacção foi dizer que era tudo legal. Por incrível que pareça, Campos e Cunha, enquanto ministro das Finanças, foi das pessoas que mais esperneou neste país para manter seus privilégios, e no fim parece que ainda terá conseguido salvar alguma coisa.
Depois de um dia cheio de trabalho, que rica lembrança me haveria de trazer a senhora…

segunda-feira, 12 de junho de 2006

O regresso à Bananalândia

Com o mundial de futebol em força (estou a escrever isto poucas horas depois da vitória de Portugal no jogo de estreia), uma sugestão, o livro «Fado, Futebol e Farpas» (de Luís Graça, edição do autor). É o regresso ao futebol da Bananalândia, depois das peripécias contadas há dois anos no «Neura 2004» (edição da Oficina do livro). O seleccionador Secalhari, o presidente Clorofenil, o frangueiro Rui Cardo, o treinador do Chelas City Josué Morteirinho e tantos outros cromos do pontapé na bola (e noutras coisas, já se vê) estão de novo em grande forma, pelo menos psicológica. Veja-se esta tirada do seleccionador para o presidente... «Prêsidenti, não tem qui si preocupá com adepto mentecapto. Eles nem sabem o qui é mêlhó pró escrete. Prêsidenti, quem levou o escrete à fináu do ‘Neura-2004’? Fui eu, prêsidenti. Mas podi mi dizê sem problema que não istá satisfeito com meu labor. Sabi qui eu tenho convite como formiga em parede furada di casa velha…»