Um livro do meu amigo Pedro Correia. Apresentação na
terça-feira, dia 21, a partir das 18H30, na Bertrand do Picoas Plaza, em
Lisboa.
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quinta-feira, 16 de maio de 2013
sábado, 3 de novembro de 2012
Senhor presidente
O
presidente da Comissão Europeia no mais recente livro de José Rodrigues
Miguéis, perdão, de José Rodrigues dos Santos:
«…atirou
um olhar lúbrico para a cama. A loura vaporosa gemia baixinho com as dores.
Como habitualmente, aquilo excitou-o. Deixou o roupão cair na alcatifa, foi
buscar o chicote e, nu e erecto de desejo, abeirou-se da cama.
‘Anda, minha cabra’, rosnou,
desenrolando o chicote. ‘Prepara-te para o segundo assalto.’»
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
Uma história
Maradona esteve brilhante
Chamemos-lhe, por exemplo, Gabriel García Márquez. Ou antes, chamemos-lhe Diego Armando Maradona, que provavelmente ainda é mais conhecido do que o escritor colombiano. É uma das personagens desta história, que aconteceu há alguns anos, em Portugal, durante o primeiro aniversário de uma livraria. Maradona – talvez devesse chamar-lhe García Márquez, já nem sei – estava convidado.
Foi no primeiro aniversário de uma livraria, durante um leilão de livros em que eu próprio dei ajuda. Fiz sugestões para a preparação do programa e também forneci alguns contactos, além, obviamente, de carregar umas boas caixas de livros. Um dia, na preparação da festa, tinha surgido a ideia de fazer o leilão. A ideia foi-se desenvolvendo e então tomou-se à decisão de o leilão ser de livros de viagens, com os próprios autores dos livros escolhidos a marcarem presença. Tudo iria acontecer no largo da câmara, junto à entrada da livraria, e esperava-se que acorressem umas centenas de pessoas.
Muitos dos escritores convidados aceitaram, e entre eles havia gente conhecida, como José Eduardo Agualusa, Miguel Sousa Tavares, Clara Pinto Correia, Robyn Davidson, José Megre, Manuel João Ramos, Miguelanxo Prado ou José Manuel Fajardo. Cada um teria um livro para ser leiloado, depois de dizer algumas palavras, como complemento do texto ou da ilustração que pelo próprio punho teria colocado numa das páginas em branco.
Claro que para fazer o leilão tinha de ser convidada uma pessoa importante, conhecida no meio, digamos assim, literário. Foi então que surgiu a ideia de convidar o tal Gabriel García Márquez de cá, ou antes, o tal Diego Armando Maradona, ou Mário Vargas Llosa, ou Eusébio da Silva Ferreira, enfim, o que se queira. Talvez Maradona seja o melhor. E foi mesmo convidado. As pessoas da livraria achavam que ele não ia aceitar, mas a verdade é que aceitou.
Cá o nosso Maradona aceitou.
Bom, lá chegou o dia do aniversário, com várias iniciativas, até que ao fim da tarde ia começar o leilão. Os escritores que tinha confirmado a presença estavam todos, e tinham devolvido os livros com o texto, o desenho e o autógrafo. Os que só se tinham comprometido a devolver o livro também tinham cumprido. O largo da câmara estava cheio, confirmava-se mesmo a presença de centenas de pessoas. Eu tinha carregado muitas caixas de livros. Tudo corria bem, tirando o caso de Diego Armando Maradona. Não estava presente. Nem ia estar, apesar de ter o nome no programa, confirmado e reconfirmado. Tinha telefonado a dizer que um problema de última hora o impedia.
E então, para fazer o leilão, de repente as pessoas da livraria lembraram-se de mim. Foi desta forma que eu me vi no meio dos escritores, com um pequeno martelo para assinalar cada arrematação. Lembro-me de que havia um Benfica – Porto ao mesmo tempo e que dava na televisão. Se fosse o Sporting a jogar seria uma catástrofe, pensei, mas assim… Curiosamente, o jogo não tinha desmobilizado a assistência. Ainda pensei que poderiam ter vindo pelo Maradona, e depois pensei que ele próprio, o nosso Maradona, era capaz de estar ausente por causa do jogo. Daquele ou de outro qualquer.
Acho que fui escolhido por também ser escritor, embora os convidados fossem dos conhecidos e eu não. Lá me apresentaram, a dizer que era o substituto do leiloeiro Diego Armando Maradona, que também tinha publicado livros e essas coisas. Aí notei que pouca gente da assistência se importou, o que me levou a pensar que estavam mesmo interessados nos autores e nos livros a leilão. Confirmei-o depois, com os valores obtidos em cada martelada.
Lembro-me de que guardei os apontamentos que ia tomando, por isso posso ainda confirmar os valores. Estávamos nos últimos tempos do escudo. O livro de José Eduardo Agualusa, «Um Estranho em Goa», por exemplo, com o preço base de três mil e quinhentos escudos, foi vendido por vinte mil. O de José Manuel Fajardo, «Terra Prometida», que partiu de quatro mil e quinhentos, chegou aos vinte e um mil, o de José Megre, «Trinta Anos de Viagens», com uma base de sete mil e quinhentos escudos, atingiu vinte e cinco mil. Miguel Sousa Tavares (as crónicas de «Sul») ficou-se pelos dez mil, mas Manuel João Ramos («Histórias Etíopes») chegou aos doze e Miguelanxo Prado («Carta de Lisboa») aos quinze. Robyn Davidson («Lugares Desertos») chegou a dez mil e quinhentos escudos e Clara Pinto Correia atingiu os sete mil («The Big Easy»). Pelo meio, ainda foi leiloado um CD com músicas de Lula Pena, uma cantora portuguesa na altura radicada no Luxemburgo, que ia actuar a seguir. Ela não conseguiu conter o espanto quando viu o CD chegar a dezasseis mil e quinhentos escudos. E também foi leiloada uma foto do fotógrafo Vasco Cunha Monteiro, integrada numa exposição sobre uma viagem à Patagónia que estava patente na livraria (e o que é certo é que a foto chegou aos cinquenta e dois mil escudos).
Tudo isto, principalmente para quem anda pelo mundo dos livros, parece muito dinheiro. Ainda por cima tratando-se de autores vivos e parte deles presentes no leilão e a fazerem intervenções. Foi uma surpresa para mim. E também para os autores participantes. José Eduardo Agualusa, antes de regressar ao hotel onde devia descansar um pouco para depois apanhar o avião de regresso a Berlim, onde então estava a viver, veio ter comigo e disse-me: «Pá, tu és mesmo bom!» Por momentos pensei que ele tinha algum dos meus livros e que se calhar andava com ideias de cravar-me um autógrafo, mas logo percebi o que ele queria dizer, ao ouvi-lo falar de novo: «Pá, tu vendeste um livro meu por vinte contos, um livro que nem chega aos três nas livrarias! Tu és mesmo bom!»
Ou seja, o leilão foi um sucesso. As pessoas quiseram falar com os escritores, e eu, com quem ninguém parecia querer falar, afastei-me da mesa e fui ver se era preciso ajudar nalguma coisa, talvez carregar umas caixas de livros se as pessoas já tivessem esgotado os das mesas onde iam fazendo as vendas – de livros, de comidas e de bebidas.
Passados uns dias, saiu no jornal da terra um trabalho sobre a festa. O leilão era o grande destaque. Fui logo ler o texto. Falava-se do projecto da livraria, mas sobretudo dos escritores, dos livros a leilão e dos valores atingidos (trocando alguns em relação ao que eu tinha colocado nos meus apontamentos). A meio da leitura, tive a esperança de que falassem de mim, que tinha sido apresentado para fazer o leilão em vez do grande Maradona. Mas nada. Fui avançando no texto, e nada, mesmo nada. Só a livraria, os livros, os escritores, e até a enorme assistência que tinha enchido o largo da câmara. Tentei colocar-me no meu lugar, pensando até que se falassem de mim como leiloeiro também poderiam dizer das minhas andanças a carregar caixas de livros. E também a dar uma ajuda na zona das mesas de venda de livros, de comidas e de bebidas. Ou seja, eu não tinha que estar a pensar aquelas coisas. Por isso avancei no texto. Mais pormenores dos escritores presentes, com alguma insistência em José Eduardo Agualusa e José Manuel Fajardo. Bem merecida, pelo menos era o que eu pensava. Gostava muito dos livros deles, e inclusive no leilão tinha falado um pouco de cada livro – «Um Estranho em Goa», que tinha lido num Verão, no Algarve, na praia, e a viagem escrita pelo espanhol, que tinha acabado uns tempos antes, depois de ter lido outro livro dele, pequenino, chamado «Carta do Fim do Mundo». De outros escritores no leilão eu também conhecia os livros, e por isso tinha falado deles, e nos casos em que não conhecia por aí além tinha-me refugiado em considerações mais genéricas, inclusive sobre o respectivo autor.
Eu pensava nisto a ler o texto do jornal, aproximava-me do fim e já me tinha esquecido do desejo de ver lá o meu nome a dizer que tinha sido o leiloeiro, ou se quisesse uma linguagem mais elaborada a dizer que tinha tido a meu cargo o leilão dos livros. Mas nada.
Até que a duas linhas do fim, de repente, um parágrafo acabava. E depois, a abrir o último, pequenino, dei com uma frase que me captou ainda mais a atenção. Comecei a ler devagar, tentando apanhar bem cada palavra: «Conduziu – o – leilão – de – forma – brilhante…» Por momentos pensei que mais do que aqueles escritores famosos, uns pelo facto de serem escritores, outros pelo facto de serem famosos de outras coisas e também terem escrito livros, por momentos pensei que no meio deles eu ia ser o grande destaque. Pensei que ia receber, talvez, o maior elogio da festa do primeiro aniversário da livraria. Em vez de avançar até ao fim da frase, decidi recuar, para lê-la toda de seguida, sem pausas. Voltei ao início do pequeno parágrafo e li: «Conduziu o leilão, de forma brilhante…» Já ia lançado a dizer o meu nome, mas não. No jornal o que escreviam era que quem tinha conduzido o leilão de forma brilhante tinha sido, já se vê, Diego Armando Maradona. O nosso Maradona. Como aliás vinha no programa.
sexta-feira, 6 de julho de 2012
Com ênfase
Começo mais um romance. A ler, não a escrever. Li os livros todos do autor, excepto uns que publicou há muitos anos numa série em que assinava com um pseudónimo e tentava aproximar-se de Raymond Chandler. Gosto das histórias dele, mas estou sempre de pé atrás com a escrita, sobretudo com uma coisa irritante que é meter a itálico as palavras que as personagens dizem com ênfase. Escrita visual, ou lá o que é. Já vou com sorte por ele não se ter lembrado de usar maiúsculas nesses casos. Ou bold. Dá sempre confusão. As palavras estrangeiras aparecem também a itálico. Tenho de pensar se é só estrangeiro ou se é estrangeiro com ênfase. A certa altura fico baralhado: aparece um sim que me parece ser dito com ênfase por uma personagem, mas não vem a itálico, vem com tracinhos a separar as letras, uma delas repetida (s-i-i-i-m). Imagino que é uma ênfase diferente ou coisa assim. O autor não sei o que imaginou ao escrever. Mas gosto das histórias dele, por isso tenho de dar o desconto. Até ao facto de o livro vir com a parvoíce do acordo ortográfico, embora isso deva ser opção de cá, da editora, ao fazer a tradução. Nem ligo. Gosto da história. Quando tropeço, levanto-me e continuo. Nas ênfases, com o hábito, já nem tropeço. Ganhei uma certa habituação. A última em que tropecei e caí desamparado, lembro-me, foi uma numa palavra do narrador. Estive um bocado a olhar para aquilo, no chão, e não consegui perceber por que é que o próprio narrador andava com as ênfases nessa parte. Levantei-me e prossegui. Apesar de ter sido uma grande queda. Tão grande como a primeira que dei no romance, logo na primeira linha: «O último esforço de equipa do grupo da festa de despedida...» Ainda no chão, pensei se valeria a pena meter-me naquilo, sujeito a mais quedas. Resolvi que sim, que valia. Porque gosto das histórias do autor. E naquela primeira queda, quem sabe, a corda para me fazer tropeçar foi colocada pela tradutora. «Esforço de equipa do grupo», pensava eu, já mais à frente, tentando perceber se poderia ou não haver alguma situação em que o esforço de um grupo não fosse de equipa, ou de grupo, ou conjunto, ou grupal ou sei lá o que mais. Ainda por cima a abrir o romance. Uma ênfase das complicadas fez-me nessa altura abandonar o esforço para perceber. «Que é que te parece?», perguntou uma personagem a outra, com a ênfase itálica no «te». A outra personagem não respondeu. Reparei que estava confusa. Como eu. Levantei-me e prossegui, com atenção redobrada.
quarta-feira, 30 de maio de 2012
O Alentejo e a minha ficção
Há muitos, muitos anos –
pode-se dizer que eu ainda era uma criança –, escrevi um livro com um título
muito comprido, creio que com pelo menos umas dez palavras. O título refere a
minha terra, na serra do Algarve, e também a visita de um presidente da
república. Recuando aos tempos da publicação, lembro-me de algumas coisas que
foram escritas sobre o livro, e a verdade é que do apoio da crítica não me posso
queixar. Porque tirando o facto de dizerem que a capa era má, pouco havia a não
ser elogios. Era um livro de contos, e eu gostava dele, gostava e ainda gosto,
mas não tinha pensado que muito mais pessoas – com excepção talvez da minha
mãe, do meu pai, do meu irmão e da minha tia – pudessem gostar. Só que houve
mesmo mais pessoas, pelo menos a julgar pelo que eu ia lendo nos jornais, onde
me apresentavam como um jovem autor algarvio, a juntar a vários elogios aos
contos, alguns bastante chamativos. Tão chamativos que até deu para coisas
como, imagine-se, ser convidado para um programa do Manuel Luís Goucha. Eu fui,
por insistência do editor, e ainda me lembro da primeira coisa que o
apresentador televisivo me disse, em directo, depois de ter levantado os olhos
de uma fotocópia do texto do «Expresso» sobre o livro: «Ah, mas você afinal não
é nada jovem!»
Comecei também a ser
convidado para ir a feiras do livro. E aí notei que o livro já era
relativamente conhecido e que até havia pessoas que sabiam quem era o autor. Lá
uma vez por outra, aparecia quem dissesse que tinha lido uma crítica num
jornal, ou ouvido qualquer coisa na rádio. Mas o mais frequente era o
comentário de que me tinham visto no programa do Goucha. Sabiam que eu era do
Algarve e que os contos eram do Algarve, e que o livro tinha um título muito
comprido, tão comprido que quase nunca o sabiam dizer bem, trocando a minha
terra, que o presidente visitava, por outras como Setúbal, Beja (a mais
frequente) e até, vá-se lá saber por quê, Lisboa.
Era um Algarve interior,
da serra, não o Algarve dos turistas e das praias, mas mesmo assim numa ou
noutra história as personagens aventuravam-se até aí. E isso tinha sido notado em
vários dos textos dos jornais. O que não tinha sido notado era o Alentejo, para
aonde as personagens também se aventuravam e onde nalguns casos as próprias
personagens viviam.
A minha terra fica na
fronteira com o Alentejo. Agora já não acontece tanto, mas da altura em que
escrevi o livro, alguns anos antes da publicação, lembro-me de que ainda havia
entre os mais velhos o hábito de dizer «vou lá abaixo ao Algarve» sempre que
era preciso ir a Portimão, a cidade mais próxima. E se fosse preciso falar em
ir a Sabóia, ou a Odemira, ninguém dizia que ia ao Alentejo. Ia mesmo a Sabóia,
ou a Odemira, como se a minha terra e essas terras do Baixo Alentejo fizessem
parte da mesma região. E na minha cabeça faziam, como ainda hoje fazem.
Tudo isto aconteceu há
muitos anos, num tempo em que eu estava longe de imaginar que haveria de passar
a viver no Alentejo, ainda por cima não numa daquelas terras próximas da minha
mas bem mais acima, no caso em Montemor-o-Novo.
Estava longe de imaginar
que os livros que haveria de escrever iriam até falar muito mais do Alentejo do
que da minha terra, o que faria não ter grande sentido o que depois se haveria
de continuar a dizer, de que eu escrevia sempre sobe o Algarve. Isto talvez
tenha sido um segundo choque, depois do primeiro do apresentador televisivo a
reparar que por mais que me chamassem jovem escritor eu, mesmo ainda na casa
dos vinte, afinal não era nada jovem. Tinha escrito as histórias do Algarve,
como no início tinha havido quem assinalasse (nalguns casos até de forma um
pouco depreciativa), e por isso haveria de continuar com elas, mesmo que escrevesse
sobre outra coisa qualquer. Como se uma qualquer lei obrigasse a isso. Era a
conclusão que eu tirava do que lia.
Tenho de pensar um pouco
para ver os livros que escrevi depois. As suas personagens, os seus lugares…
Confesso que na minha cabeça acabam até por se confundir, conhecem-se inclusive
aquelas que nunca se encontraram numa história ou num capítulo de um romance. E
os lugares… Quem andou por onde? Tenho muitas vezes que pensar. O Largo da
Câmara, em Montemor. Os montados da Serra do Monfurado. O Escoural. As viagens
para Évora pela estrada que passa por São Sebastião da Giesteira. As
deambulações por Évora num dos livros, tantas vezes, para os encontros que como
narrador tive com um estranho livreiro a quem um pequeno demónio dos livros
teimava em estragar o negócio. As viagens para a minha terra, cortando o
Alentejo a direito, para sul, e a imagem que de noite – quase sempre a altura
das viagens – mais vezes me ficava num dos livros: a da aproximação a Ferreira
do Alentejo, pelo lado norte, com as luzes amarelas do casario baixo; e bem no
alto, imponente, o edifício dos silos de cereais com as luzes brancas e azuis
que sempre me faziam lembrar – e ainda fazem – uma nave espacial acabada de
aterrar na planície. Ou preparada para zarpar.
Estas coisas dos meus
livros acabam por estar muito coladas às minhas viagens pelo Alentejo. Eu no
carro – ou para Lisboa, por causa do trabalho, ou para o Algarve, onde vivem as
pessoas de que falei no início, as quatro que eu pensava que seriam das poucas
a gostar do meu primeiro livro, mesmo que fosse só para me darem algum alento.
Muitas vezes, nos livros, o
Alentejo é visto de dentro do carro. Um deles, lembro-me, foi apresentado em
Lisboa na Casa Fernando Pessoa pelo escritor José Eduardo Agualusa. Ele leu um texto,
mas no final não mo deu, por isso recordo apenas duas ou três coisas do que
disse. Numa delas falou em narrativa «borgesiana», adjectivo complicado que
interpretei como um elogio, apesar de eu não ser propriamente o fã número um de
Borges. Outra foi que se notava facilmente estarmos em presença de um autor que
conduzia muito. Eu já sabia, na altura, que ele não costuma conduzir,
preferindo o táxi e o avião. E por isso – lembro-me bem –, durante um momento,
um momento muito, muito, muito breve, tive a ilusão, talvez o sonho, de que
esse comentário, de um escritor tão conhecido e, sobretudo, tão talentoso,
pudesse significar um bocadinho de admiração.
Texto escrito a partir das notas de suporte a uma
intervenção nas «Jornadas Literárias de Montemor-o-Novo» (painel «O Alentejo na ficção», que também teve a participação de Mário de
Carvalho, Rui Cardoso Martins e André Gago)
terça-feira, 17 de abril de 2012
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
Um livro
Passei pela editora ontem e ofereceram-me. A primeira coisa que ensina é a «cozinhar um bife e fazê-lo parecer uma obra-prima». Percorrendo as páginas ao acaso fiquei a saber que ensina também a «fingir que [se] gosta de dançar», «fazer anéis de fumo com o cigarro», «pagar a conta do restaurante», «falar com ex-namoradas», «reconhecer seios naturais», «fumar marijuana», «denegrir um rival», «comprar flores para oferecer a uma senhora», «falar de assuntos de sociedade» ou «guiar uma retroescavadora». Se descobrir lá qualquer coisa sobre como gerir um clube de futebol (ou, vá lá, a porcaria de uma sade…), talvez compre um exemplar para mandar pelo correio ao cuidado do senhor ali de baixo..
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João Bonifácio,
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quinta-feira, 10 de setembro de 2009
O meu primeiro livro
Quase que poderia escrever «há muito, muito tempo». Nessa altura, há muito, mesmo muito tempo, escrevi um livro de contos a que dei um título muito comprido: «Quando o Presidente da República Visitou Monchique por Mera Curiosidade», o título de um dos contos. Guardo recortes de jornais dessa época, e nalguns o livro até aparece nos tops das livrarias, nunca em primeiro lugar, mas em certos casos em segundo, batido se não estou em erro por «O Pesadelo de Obélix» ou pelo «Pequeno Livro de Instruções para a Vida». Podia ser pior…
O tempo passou. Habituei-me a que pouca gente conseguisse dizer o título correcto do livro; geralmente as pessoas começavam por «o dia em que o presidente foi» e a seguir atiravam com os sítios mais diversos: Beja, Santarém, Moura, Silves, Setúbal… Metiam tudo e mais alguma coisa no título, tirando, já se adivinha, a minha terra (Monchique). Isso foi nos primeiros anos. Agora já não acontece muito, porque quando me falam no livro é mais para me dizerem que não o encontram; o meu primeiro livro, «o do título comprido». Às vezes, em sessões de autógrafos, aparecem pessoas com outros livros meus e a perguntarem como poderão arranjar aquele, que não vêem em lado nenhum. Eu aí digo que não posso fazer nada, já que depois de esgotadas as edições que foram feitas só se surgir uma nova oportunidade, porque entretanto eu mudei de editora. E ofertas é coisa que não posso fazer, porque a verdade é que me resta apenas um exemplar de cada uma das edições.
Um dia, nem foi há muito tempo, recebi um comentário no meu blog; era alguém que tinha lido um dos meus livros (o romance «O que Entra nos Livros»). Dizia que o tinha comprado em Lisboa, «na Bulhosa do Campo Grande», isto depois de ter ido procurar a «duas livrarias da Bertrand». E que preferia ter começado por «O Medo Longe de ti», o romance que de certa forma dá origem ao que comprou, só que desse nem sinal nas livrarias. Mas o problema até nem era grave… No comentário estava escrito: «Como faz um brevíssimo resumo desse livro, sempre minimiza o desconhecimento do passado.» E depois, uma pergunta: «A propósito, não estão previstas novas edições dos seus livros?» Neste caso não havia uma referência ao primeiro, mas eu não consegui deixar de pensar nele, enquanto escrevia uma resposta a dizer que de alguns dos títulos por certo haveria livrarias com exemplares. O pior era mesmo em relação àqueles dos meus primeiros anos de escrita, que estavam dados como esgotados, e então no caso do primeiro livro devia ser mesmo impossível.
Eu ia todo lançado a escrever isto quando me lembrei de que a pessoa era do Sporting, como eu (no comentário aparecia também isto: «Estive lá, no meu lugar cativo de sofredor, e tive quase orgulho naquela equipa. Estou de acordo com as suas apreciações. Contudo, julgo que é um pouco injusto para com o Polga.»). Eu tinha escrito no blog, a propósito de um jogo das competições europeias entre o Sporting e uma equipa suíça, que o defesa brasileiro Anderson Polga parecia «mesmo talhado para o desastre». E então fiz um acrescento à resposta, pensando ainda no primeiro livro. Falei de um célebre golo de António Oliveira com a camisola do Sporting, marcado em 1982 ao Dínamo de Zagreb, num jogo da Taça dos Campeões Europeus disputado no antigo Estádio José Alvalade. Oliveira marcou os golos todos do três a zero, depois de uma derrota por um a zero em Zagreb. O golo era o terceiro, com Oliveira a avançar pela direita e depois, em vez de fazer um centro, a atirar a bola de uma forma estranha para a baliza, num remate que parece ter sido feito com a sola. No fim do jogo os jornalistas só lhe faziam perguntas sobre aquele golo, e ele acabou por comentar: «Quem viu, viu; quem não viu, já não vê mais!» Talvez eu possa dizer algo parecido sobre o meu primeiro livro: «Quem leu, leu; quem não leu, já não lê mais!» Mesmo o golo sendo do outro mundo e o livro pertencendo a este em que vivemos.
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(nota: em tempos já tinha publicado aqui este texto)
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domingo, 22 de fevereiro de 2009
Ainda o amor, por José Rodrigues dos Santos
Depois disto, mais isto…
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Esperou, por isso, mais uns dias para lhe fazer novas perguntas. Decidiu-se após uma noite em que tinha chovido muito. O dia acordara molhado, com o céu coberto por um manto de bronze gasoso; os telhados gotejavam ritmadamente para os passeios alagados, como se os pingos fossem notas de uma ária, uma suave melodia que fazia da conversa um dueto, ele o tenor e ela o soprano.
O chão estava ensopado, pelo que evitaram a lama acumulada na esquina onde habitualmente se encontravam e cruzaram a rua, contornando as poças de água barrentas e as bostas de bovino espalhadas pelo empedrado.
«Se o teu pai morreu quando eras miúda, vocês vivem de quê?», perguntou Luís quando pisaram terreno mais limpo do outro lado.
Esperou, por isso, mais uns dias para lhe fazer novas perguntas. Decidiu-se após uma noite em que tinha chovido muito. O dia acordara molhado, com o céu coberto por um manto de bronze gasoso; os telhados gotejavam ritmadamente para os passeios alagados, como se os pingos fossem notas de uma ária, uma suave melodia que fazia da conversa um dueto, ele o tenor e ela o soprano.
O chão estava ensopado, pelo que evitaram a lama acumulada na esquina onde habitualmente se encontravam e cruzaram a rua, contornando as poças de água barrentas e as bostas de bovino espalhadas pelo empedrado.
«Se o teu pai morreu quando eras miúda, vocês vivem de quê?», perguntou Luís quando pisaram terreno mais limpo do outro lado.
(excerto do romance «A Vida num Sopro», de José Rodrigues dos Santos)
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sábado, 21 de fevereiro de 2009
O amor, por José Rodrigues dos Santos
O carro de bois avançava devagar pela rua, arrastando um carregamento de azeitonas negras, tão reluzentes que pareciam pérolas. O agricultor que conduzia o carro seguia à frente, enérgico e transpirando, as mãos a puxarem a correia que guiava a direcção do animal.
«Uga! Uga!», repetia o homem, incentivando o boi. «Para a frente, vamos! Arriba!»
Uma bosta tombou da traseira do bovino sobre o empedrado da rua com um ploc espalhafatoso. Logo que o carro de bois passou, Luís cruzou para o outro passeio em ziguezague, evitando os excrementos de animais que se acumulavam pela via.
Foi então que a viu.
«Uga! Uga!», repetia o homem, incentivando o boi. «Para a frente, vamos! Arriba!»
Uma bosta tombou da traseira do bovino sobre o empedrado da rua com um ploc espalhafatoso. Logo que o carro de bois passou, Luís cruzou para o outro passeio em ziguezague, evitando os excrementos de animais que se acumulavam pela via.
Foi então que a viu.
(excerto do romance «A Vida num Sopro», de José Rodrigues dos Santos)
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quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
terça-feira, 30 de dezembro de 2008
O sucesso da rapariga da caixa
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
À solta
Ver aqui. As capas dos novos livros da Quetzal.
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domingo, 10 de agosto de 2008
Ainda sobre a feira
Ainda sobre a Feira do Livro de Faro, mais comentários aqui.
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quinta-feira, 7 de agosto de 2008
Em Faro
Vou estar hoje (21h00) na Feira do Livro de Faro. Ver aqui.
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terça-feira, 5 de agosto de 2008
quarta-feira, 30 de julho de 2008
Em busca do texto mais bonito
Não sei por quê, aparecem frequentemente pessoas neste blog por causa de uma busca feita na Internet: procuram «o texto mais bonito» e são quase sempre do Brasil. Poder-se-ia por isso pensar que esse tal «texto mais bonito» seria um texto meu, mas não. O autor pode ser descoberto seguindo por aqui.
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quarta-feira, 4 de junho de 2008
Quase contradições
Os Livros Ardem Mal ***
– Quanto tempo passou desde que queimou o livro ali no grelhador?
– Cerca de um mês e meio.
»»» Excerto de um diálogo no meu romance «O que Entra nos Livros»
– Cerca de um mês e meio.
»»» Excerto de um diálogo no meu romance «O que Entra nos Livros»
quinta-feira, 29 de maio de 2008
O meio editorial
«Este súbito e significativo interesse (para não dizer ‘assalto’) de alguns grupos financeiros (repare que não digo editoriais) pelo nosso pobre mercado do livro, causa-me bastante admiração, sobretudo se comparado com os quase estagnados índices de leitura e de compra de livros que regularmente são publicados. Será que passámos a ser um país com 100.000 leitores para cada livro? Ou tudo isto não passa de puras operações especulativas num mercado desprevenido; de operações de compra e venda realizadas em cadeia?» (foto: João Andrés)
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sexta-feira, 16 de maio de 2008
Ideias com interesse (inclusive público)
Sobre a feira do livro (convém acrescentar que é a da triste cidade de Lisboa), duas ideias copiadas daqui e daqui.
Post de Pedro Vieira no blog «Irmão Lúcia»
O melhor da aquisição do grupo oficina do livro pela leya é que se abre todo um manancial de hipóteses para romances de fusão. parece que já estou a ver o lançamento de "que farei quando tudo arde? sei lá!" na feira do livro versão 2009, com tendas à cirque du soleil, néons e baldes de pipocas. até o falo do cutileiro vai esguichar de contentamento.
Comentário de Luís Graça no blog da revista «Ler»
LAG (Luís Afonso Graça) propõe uma campanha alternativa, sob o lema:VIVA UM MUNDO DE AVENTURAS!VÁ À FEIRA DO LIVRO DE LISBOA!
Post de Pedro Vieira no blog «Irmão Lúcia»
O melhor da aquisição do grupo oficina do livro pela leya é que se abre todo um manancial de hipóteses para romances de fusão. parece que já estou a ver o lançamento de "que farei quando tudo arde? sei lá!" na feira do livro versão 2009, com tendas à cirque du soleil, néons e baldes de pipocas. até o falo do cutileiro vai esguichar de contentamento.
Comentário de Luís Graça no blog da revista «Ler»
LAG (Luís Afonso Graça) propõe uma campanha alternativa, sob o lema:VIVA UM MUNDO DE AVENTURAS!VÁ À FEIRA DO LIVRO DE LISBOA!
Cansado do casa-trabalho, trabalho-casa?
A aventura está à sua espera na 78ª Feira do Livro de Lisboa.
O Parque Eduardo VII tem tudo, para si e para a família.
Luta na lama (Rosália Vargas---Paes do Amaral); Descidas em rapel (Restaurante Eleven--Estátua do Sebastião Melo), com T-shirts oferecidos pelos actores de "Morangos com Açúcar" aos primeiros cem compradores de "O homem sem qualidades".
Descidas de skate (tandem) por entre os stands da Leya. Se conseguir capturar um balão colorido ou um autor de papelão em tamanho natural, ganha uma colecção de catálogos das 10 editoras com maior número de vendas.
Sábado, 24 de Maio --- Grande PIPOCADA.
Junta-te à festa e partilha do espírito rave. DJ's: José Saramago e António Lobo Antunes. Participação especial de Quim Barreiros, com a comunicação: "A concentração editorial e o futuro do livro na zona do Parque Eduardo VII".
Descobre os autores escondidos nas árvores do Parque Eduardo VII e ganha uma viagem à livraria Lello (Porto, mesmo ao lado da Torre dos Clérigos). Tens "francesinhas" à borla na Lello: Yourcenar, Duras, Simone de Beauvoir.
Domingo, 25 --- I Grande Corrida à portuguesa. 10 km (para romancistas de fôlego), 5 km (para contistas), mini-prova aberta a fumadores (presença garantida de Sócrates, Platão, Aristóteles, Zenão, Tales, Aristófanes e Antígona, representada por Luís Oliveira, que dará o passo de saída).
E MUITO, MUITO MAIS!
Faz um filme com 3 minutos e manda para o You Tube. Os cinco melhores filmes ganham um curso de alfabetização para adultos ou aulas de escrita caritativa com Luís Carmelo e Pedro Sena-Lino.
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