Só que na vida do cidadão comum, que não tem o privilégio da convocação, os golos rendem muito pouco. Quer assista ao jogo, quer vibre com o jogo, quer se marimbe para o jogo, o campeonato ganha-se ou perde-se no final de cada mês, consoante o salário chega ou não para as despesas.
Que continue o europeu
Ah! que país este, tão bom de mar e de sol, tão cheio de heróis e de santos, de poetas e de fadistas, de camões e de pessoas, de monizes e de saramagos, de carreiras e de ronaldos, ah!, que país este de tanta gente grande e de tanta história!
Este é o país que se não deixa abater com terramotos, enxurradas ou troikas de qualquer espécie, este é o país que revigora com mundiais e europeus, com futebol a sério, com selecções de afoguear o peito e de saciar a danação de quem enxuga sem pagas o suor do rosto.
Este é o país que vai à luta, que ergue bem alto a bandeira e que mesmo em perigo causa perigo, o adversário que se cuide, que estes eleitos da bola, diz Bento, que não é papa, estes homens «já mostraram de que massa são feitos». E não sendo padre-santo, não lhe falta fé, nem lhe faltam indígetes. Assim é o jogo, hoje um desconhecido, amanhã um herói; hoje um herói, amanhã um vilão; hoje um vilão, amanhã um herói. E assim sucessivamente... como na vida! O importante mesmo é marcar golos!
Só que na vida do cidadão comum, que não tem o privilégio da convocação, os golos rendem muito pouco. Quer assista ao jogo, quer vibre com o jogo, quer se marimbe para o jogo, o campeonato ganha-se ou perde-se no final de cada mês, consoante o salário chega ou não para as despesas. Na comum vida do cidadão comum, a realidade não se restringe a quatro linhas nem a sua subsistência depende da macieza e da boa orientação do esférico. Mas se os golos rendem muito pouco ou nada, fazem contudo um bem enorme ao ego, dão às mais sisudas das criaturas a felicidade e a euforia que o demorado inverno reprime.
Foi assim com a passagem aos quartos-de-final, foi assim com a passagem às meias-finais, a convicção incha, as palavras volvem-se vivazes e conciliadoras, o convívio franqueado e amistoso, o país num crescendo mais e mais unido
Porém, com menos ruído – por certo por falta de fôlego para as vuvuzelas – e com menos bandeirinhas – por certo por alguma retracção nas importações chinesas.
E por isso se assiste a toda a gente desenfadando-se com os resultados, alvoroçando-se com os pontos suficientes para que se passe e se prossiga até à vitória final, e os tais que se marimbam para o jogo, que não assistem ao jogo ou que não vibram com ele, esses vão disfarçando o pudor da segregação e, em piano, alinham aos poucos nos festejos.
É vital, portanto, que continue o europeu, e nós nele, ou então será preciso dar largas à imaginação e descobrir outro placebo para as nossas mínguas nacionais e europeias, ou rezar, mas rezar muito, para que se confirme o milagre do ouro em solo alentejano, que o que havia em casa de cada um já foi todo desapossado e as lojas que o mercandavam se vão finando de mansinho.
Quanto ao mais, mantenha-se o fervor, e presentes na alma os versos do poeta: «Mas a chama, que a vida em nós criou,/ Se ainda há vida ainda não é finda./ O frio morto em cinzas a ocultou:/ A mão do vento pode erguê-la ainda.» («Mensagem», Fernando Pessoa)
Crónica de Junho de 2012 de António Souto para o blog «Floresta do Sul»; crónicas anteriores: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28; 29; 30; 31; 32; 33; 34; 35; 36; 35; 37; 38; 39; 40; 41; 42; 43; 44; 45; 46; 47; 48.








