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segunda-feira, 2 de julho de 2012

António Souto – Crónica (49)



Só que na vida do cidadão comum, que não tem o privilégio da convocação, os golos rendem muito pouco. Quer assista ao jogo, quer vibre com o jogo, quer se marimbe para o jogo, o campeonato ganha-se ou perde-se no final de cada mês, consoante o salário chega ou não para as despesas.

Que continue o europeu
Ah! que país este, tão bom de mar e de sol, tão cheio de heróis e de santos, de poetas e de fadistas, de camões e de pessoas, de monizes e de saramagos, de carreiras e de ronaldos, ah!, que país este de tanta gente grande e de tanta história!
Este é o país que se não deixa abater com terramotos, enxurradas ou troikas de qualquer espécie, este é o país que revigora com mundiais e europeus, com futebol a sério, com selecções de afoguear o peito e de saciar a danação de quem enxuga sem pagas o suor do rosto.
Este é o país que vai à luta, que ergue bem alto a bandeira e que mesmo em perigo causa perigo, o adversário que se cuide, que estes eleitos da bola, diz Bento, que não é papa, estes homens «já mostraram de que massa são feitos». E não sendo padre-santo, não lhe falta fé, nem lhe faltam indígetes. Assim é o jogo, hoje um desconhecido, amanhã um herói; hoje um herói, amanhã um vilão; hoje um vilão, amanhã um herói. E assim sucessivamente... como na vida! O importante mesmo é marcar golos!
Só que na vida do cidadão comum, que não tem o privilégio da convocação, os golos rendem muito pouco. Quer assista ao jogo, quer vibre com o jogo, quer se marimbe para o jogo, o campeonato ganha-se ou perde-se no final de cada mês, consoante o salário chega ou não para as despesas. Na comum vida do cidadão comum, a realidade não se restringe a quatro linhas nem a sua subsistência depende da macieza e da boa orientação do esférico. Mas se os golos rendem muito pouco ou nada, fazem contudo um bem enorme ao ego, dão às mais sisudas das criaturas a felicidade e a euforia que o demorado inverno reprime.
Foi assim com a passagem aos quartos-de-final, foi assim com a passagem às meias-finais, a convicção incha, as palavras volvem-se vivazes e conciliadoras, o convívio franqueado e amistoso, o país num crescendo mais e mais unido
Porém, com menos ruído – por certo por falta de fôlego para as vuvuzelas – e com menos bandeirinhas – por certo por alguma retracção nas importações chinesas.
E por isso se assiste a toda a gente desenfadando-se com os resultados, alvoroçando-se com os pontos suficientes para que se passe e se prossiga até à vitória final, e os tais que se marimbam para o jogo, que não assistem ao jogo ou que não vibram com ele, esses vão disfarçando o pudor da segregação e, em piano, alinham aos poucos nos festejos.
É vital, portanto, que continue o europeu, e nós nele, ou então será preciso dar largas à imaginação e descobrir outro placebo para as nossas mínguas nacionais e europeias, ou rezar, mas rezar muito, para que se confirme o milagre do ouro em solo alentejano, que o que havia em casa de cada um já foi todo desapossado e as lojas que o mercandavam se vão finando de mansinho.
Quanto ao mais, mantenha-se o fervor, e presentes na alma os versos do poeta: «Mas a chama, que a vida em nós criou,/ Se ainda há vida ainda não é finda./ O frio morto em cinzas a ocultou:/ A mão do vento pode erguê-la ainda.» («Mensagem», Fernando Pessoa)

Crónica de Junho de 2012 de António Souto para o blog «Floresta do Sul»; crónicas anteriores: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28; 29; 30; 31; 32; 33; 34; 35; 36; 35; 37; 38; 39; 40; 41; 42; 43; 44; 45; 46; 4748.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

António Souto – Crónica (48)


Tem dentro dele uma história, uma história triste, de abandono em lugar de amparo e de chuva em lugar de lágrimas, mas tem sobretudo no seu âmago a tessitura aprimorada do texto, o rigor extremo do verbo, a delicadeza da palavra, a harmonia do som, a consciência dos limites do silêncio, a liberdade dos sentidos.

Conto exemplar
Já lá vão muitos anos desde que, por feliz acaso, me chegou às mãos uma então muito recente antologia de contos de Portugal e do Brasil, dezasseis ao todo, contidos e agradáveis de ler, e por isso interessantes para um público estrangeiro, especialmente para jovens estudantes franceses. Uma colectânea com a chancela Le Livre de Poche, na colecção «Lire en…», no presente caso «en Portugais».
Foi há vinte e três anos, leccionava eu a nossa língua e uma (a)mostra da nossa literatura em Estrasburgo, e desse conjunto de contos houve um em particular que me seduziu. Um conto breve, mas muito rico, muito burilado, muito realista, muito poético, muito exemplar. Li-o várias vezes e o prazer de o ler crescia numa permanente descoberta de pintura fascinante.
Ainda hoje o leio para alunos portugueses quando lhes quero mostrar a arte de contar e quero que sintam (sentirão?) a grandeza e a força das palavras. E a par, quase sempre, uma crónica de Lobo Antunes, mestre também em condensar um mundo inteiro em meia dúzia de linhas.
Mas voltemos ao conto, àquele que, de forma peculiar, me cativou. Leva por título «Uma vela para Dario» e narra-nos o episódio de um cidadão comum que se sente mal em plena cidade, dá-lhe um fanico, cai na calçada, alguns «passantes», com o pretexto de o ajudar, vão-lhe roubando os poucos haveres que transporta, a população assiste comprazida ao longo espectáculo da morte, um menino negro acende-lhe uma vela, a chuva cai, a vela apaga-se.
Uma circunstância corriqueira para quem se acostumou com o arrastar da vida a desacreditar na bondade do ser humano e na sua reclamada solidariedade, um acontecimento que daria para um vulgar apontamento de pasquim a somar a muitos outros que se esquecem antes de terminada a leitura.
Porém, este caso é um conto. Este caso tornou-se um conto. Este caso saiu da rua, saiu da cidade, fez-se texto e, por magia, converteu-se em matéria poética. Pouco importa a tonalidade com que se pinta a indiferença, a crueldade, a dor, ou, pensando bem, talvez assim importe mais, e pela coloração da arte o sofrimento entre mais fundo, para lá dos olhos, e o coração do leitor se revigore e a pessoa que é, também por magia, passe a ser mais pessoa.
Regressemos ao nosso conto, chamemos-lhe assim, agora nosso, porque partilhado. Tem dentro dele uma história, uma história triste, de abandono em lugar de amparo e de chuva em lugar de lágrimas, mas tem sobretudo no seu âmago a tessitura aprimorada do texto, o rigor extremo do verbo, a delicadeza da palavra, a harmonia do som, a consciência dos limites do silêncio, a liberdade dos sentidos. Exemplar, portanto, como se disse já, e tudo condensado em seiscentas e vinte e seis palavras.
Nunca li o livro de onde este conto foi extraído («Vinte Contos Menores», Editora Record, 1979), por nunca me ter cruzado com ele, sequer tive curiosidade em saber pormenores do seu autor; poucos portugueses, de resto, terão tido notícias dele e da sua obra. E o Brasil, contudo, aqui tão perto e em português também.
Não fora o «Prémio Camões» deste ano e não o descobriríamos, avesso que é como poucos à notoriedade e ao mercantilismo livresco que transfigura lugares-comuns em best sellers. Em Curitiba continua, e continua escrevendo e esquivo nos seus sossegados 87 anos. Consta-se que não virá a Portugal receber o prémio, para fazer jus à sua caturrice, mas dele não se livrará, porque é justo e devido. Um conto lhe bastaria. Parabéns, Dalton Trevisan!

Crónica de Maio de 2012 de António Souto para o blog «Floresta do Sul»; crónicas anteriores: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28; 29; 30; 31; 32; 33; 34; 35; 3635; 3738;   39; 40; 41; 42; 43; 44; 45; 46; 47.

terça-feira, 1 de maio de 2012

António Souto – Crónica (47)



Só não se percebe muito bem é por que razão, sabendo todos como o moderníssimo fogo-de-artifício não tem canas, haja quem ainda desperdice tempo a apanhá-las.

Casos e acasos
Como se não houvesse já casos de sobra para nos entreter o miolo, este Abril que finda (sem ironia) foi pródigo em novos casos e casos repescados, recasos para alimentar pretextos e disfarçar a crise que nos vai amolgando. Para o caso, porém, pouco importa se muitos ou poucos, se frescos ou não, se bem ou mal intencionados, embora estejamos em crer que todos eles acusem enfermidade crónica de difícil emenda.
Caso buraco madeirense com muito artifício. Depois das contas esburacadas do continente, os olhares voltaram-se todos para o arquipélago. E por lá andam e andarão, de descoberta em descoberta, olhares atónitos de dívidas não saldadas. Diz quem lá manda que se não foram liquidadas em devido tempo é porque não foram facturadas, e se quem o diz é quem manda, quem é a gente de cá para duvidar da boa fé e das contas à moda da região, se ainda por cima é autónoma? Só não se percebe muito bem é por que razão, sabendo todos como o moderníssimo fogo-de-artifício não tem canas, haja quem ainda desperdice tempo a apanhá-las. Então não era já tempo de saber que depois de um Carnaval vem sempre um outro Réveillon?!
Caso Isaltino e o gozo de recorrer. Bem prega o bastonário que a justiça anda pelas ruas da amargura. O povinho descrente, que é cidadão comum, insiste que não se fia nela, mas toda a nobreza continua a achar que não, que tem confiança na justiça do nosso país. E a verdade é que o nosso país sempre teve boa justiça exemplar, durante o Estado Novo e não só, por isso é que todas as pessoas inconformadas podem recorrer, todas em pé de igualdade e com custas e custos muito ajustados a todas as bolsas. E também ninguém se pode queixar da falta de celeridade nos processos, o que há é um país de processos muito complicados, mesmo muito complicados, quase tão complicados como o próprio país. O povo é que, mesquinho, não alcança estes desembaraços, problema dele que, recorrendo todo o mundo, vê estranheza em haver recursos crónicos nuns quantos. Então mas não é no teimar que está o gozo?!
Caso Camarate e mais uma comissão de inquérito. Já lá vão nove, e nada de consistente. Agora, sim, dezoito páginas de um ex-espião e preso efetivo e a investigação tem pernas para andar. Venha, por isso, a décima comissão de inquérito e ponha-se um ponto final nesta urdidura de quase trinta e dois anos. Mas que venha depressa, e ligeira meta mãos à obra antes que o autor confesso volte atrás e jure que tudo não passou de entretenimento de quem se cansa de não fazer nada enjaulado em quatro paredes – não seria coisa inédita, que quando jornalistas de investigação se metem nestes imbróglios…
Caso Maddie e o achamento de mais 195 novos dados para investigação. Ora cá está mais um assunto que ganha fôlego. Um Portugal-Inglaterra (ou um Inglaterra-Portugal) com final sem prognóstico ao fim de cinco anos. O que é estranho é que enquanto a nossa Polícia Judiciária afirma não ter novas provas para reabrir o processo, a Scotland Yard garante ter quase duas centenas de dados novos. Uma fartura! Está bem, quer dizer, alguma coisa está mal, então mas com tamanha abundância de elementos convincentes estão à espera de quê, de fazer uma foto simulada todos os anos? Vá lá, abram mas é uma comissãozinha de inquérito!
Caso Santuário de Fátima e o milagre de despejar uma idosa. Esta história não lembraria ao diabo, passe o mau gosto. A senhora, agora com oitenta anos, vivia com a irmã num anexo de uma casa que aquela doara ao Santuário de Fátima. A irmã morreu há quatro anos, e esta decidiu continuar no anexo até, também, ao último chamamento. Mas o Santuário não foi em cantigas, doação é doação, e vá de avançar para o tribunal. O tribunal deu razão ao Santuário. A idosa tem mesmo de sair, a bem ou à força (isto somos nós a imaginar já o clero todo a empurrar a idosa pelo anexo fora, até porque a dita necessita de «apoio de terceiros»). E mais, como o Santuário exigia o pagamento retroactivo dos meses em que a idosa ocupou «abusivamente» o espaço, o tribunal também nisto concordou com o Santuário e condenou a idosa ao pagamento de catorze mil e cem euros de indemnização – trezentos eurinhos por cada mês em atraso. O tribunal deve ter agido bem, nem outra coisa se espera da justiça, que como acima se disse é boa e exemplar, mas o Santuário, para mais sendo de Fátima, bem podia perdoar. Esta graça, contudo, é reserva de Deus e a crise, pelos vistos, já alastrou ao céu…
Caso Abril com tolerância zero. Isto começa mesmo a ficar negro. Os cravos bem espargiram o hemiciclo no dia vinte e cinco em tom de encarnado, mas o cinzento das nuvens coseu-se a algumas palavras em jeito de ameaça. Um mês antes da cerimónia já tinha sido dado o sinal nuns breves confrontos no Chiado. O relatório, inequívoco, esclareceu que manifestantes desordeiros haviam provocado agentes da autoridade e destruído uma esplanada de café, justificando-se, por isso, a carga policial. E quem anda à chuva… Mas o feito, mesmo, nem foi a batalha campal, foram as palavras sinistras que anunciaram «tolerância zero para as manifestações do 25 de Abril», as palavras que ficaram a pairar para o primeiro de Maio e para todas as manifestações que houver pela troika fora. Há palavras que não combinam nada com o Abril que finda. Ou é porque finda (sem ironia)?

Crónica de Abril de 2012 de António Souto para o blog «Floresta do Sul»; crónicas anteriores: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28; 29; 30; 31; 32; 33; 34; 35; 3635; 3738;   39; 40; 41; 42; 43; 44; 45; 46.

quinta-feira, 29 de março de 2012

António Souto – Crónica (46)



A Primavera veio quando devia vir, embora se tivesse anunciado bem antes por árvores e arbustos em colorações, pólenes e irritações.

Variações, em baixa
Este mês de Março foi rico em variações: variou na estação, variou na hora, variou na velocidade. Só não variou muito na esperança, que continua candidamente em baixa.
A Primavera veio quando devia vir, embora se tivesse anunciado bem antes por árvores e arbustos em colorações, pólenes e irritações. Não veio a chuva, ou em salpicos apenas, e isto apesar das muitas súplicas e das muitas fés de gente crente e menos crente, que a seca toca a todos, e ao povo muito mais, sobretudo àquele que não desertou do campo e vive dele, do campo e do monte, e vê a sua vida a andar para trás, ainda mais para trás, a monte, que as sementeiras são incertas como incertas serão as colheitas, e o gado não tem que comer, e a necessidade que temos do gado, bovino seja, ou suíno, ou caprino, ou ovino ou de capoeira, sim, que o peixe não puxa carroça e mesmo que puxasse também ao preço a que anda, que é ao preço da morte, sucumbíamos todos só de o apetecer. Mas a Primavera, como a procissão, mal chegou ao adro, e por isso as águas mil podem fazer jus ao rifão e não dar mãos a medir a quantos cântaros houver para encher e vazar.
A hora mudou quando devia mudar. Avançaram sessenta minutos de um sábado para um domingo, a noite ficou um pouco mais pequena para uns quantos, de menos dormir e de mais sono, para outros ficou na mesma porque o acordar ao domingo não tem o mesmo rigor que aos dias úteis, exactamente porque sábados e domingos são inúteis para a maioria. Mas não se creia que fazer desaparecer assim num ápice seis dezenas de minutos é coisa inocente e de inocentes, que não é, porque sempre são três mil e seiscentos segundos de ócio que se esfumam, e o reflexo positivo que isto terá na produtividade do país durante o período de Verão, que é quando dá mais para a moleza, e só em Outubro é que se voltará à normalidade, se é que pode haver normalidade depois de corpos e mentes se habituarem ao quebranto. E se não é coisa inocente e de inocentes, também não é coisa inofensiva, pode até este passe de mágica transtornar ficheiros importantíssimos e dar azo a uma guerra ainda maior do que a guerra de audiências, sobretudo por ficarem as televisões desprovidas de medição credível às suas bélicas audiências e, o mais sério, a pairar uma desconfiança assombrosa sobre o mercado publicitário.
A velocidade abrandou quando devia abrandar, e para um país que já se afez a mover-se paulatinamente (e há beleza no advérbio), ora para a frente ora para trás, este afrouxamento principiou antes mesmo de ter principiado, tudo porque a vontade de andar na mecha não passara de um projecto anunciado, desejo de vencer fronteiras num piscar de olhos, determinação de encurtar distâncias a grande velocidade para bem das migrações e da economia, e agora fica a gente em média velocidade, mais ao nosso ritmo, mais à medida dos nossos apertos, mas esperançosos, nós, de que, com o andar das carruagens que sobrarem, havemos de chegar aonde houvermos de chegar, e antes isto do que acabarmos em pequena ou em nenhuma velocidade, inertes, portanto, como estamos quase e quase sem darmos por isso.
Esperançosos, nós? Quem disse que não estamos precisados de uma esperança rectificativa? Venha ela, se vier em alta!

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domingo, 11 de março de 2012

António Souto – Crónica (45)



Por muito que me tenha disciplinado, entrei neste universo dos incumpridores e falhei a pontualidade desta crónica que, devendo ser de Fevereiro, é já de Março adiantado.

Quando as voltas se trocam
A escrita anda muitas vezes associada à leitura (e vice-versa). Precisamente por assim ser é que quando tentamos conjugar ambas as actividades as coisas nem sempre correm como desejamos, e depois vamos adiando ora uma, ora outra, e os compromissos acabam por se arrastar. Primeiro um dia, a seguir mais um ou dois, logo passa uma semana, e logo quinze dias, e aquilo que era para ontem passa para o mês seguinte e deixa de haver desculpa que nos valha – somos num ápice uns irresponsáveis. Por muito que me tenha disciplinado, entrei neste universo dos incumpridores e falhei a pontualidade desta crónica que, devendo ser de Fevereiro, é já de Março adiantado. E isto porquê (em jeito de desculpa)? Porque me tinha apalavrado que nesta crónica daria notícia de um livro de um amigo, não por ser amigo (que seria já razão para o fazer), mas porque comecei a ler o ensaio e comecei a gostar dele e comecei a cogitar que merecia ser apregoado (passe a imodéstia minha de me julgar consultado). O problema é que ia eu a meio da dita leitura e entrei pelo último Mário de Carvalho adentro enquanto o diabo esfrega um olho, perdão, pelo «quando o Diabo reza», assim mesmo, com um pós-título apelativo, «vadiário breve», e deixei-me seduzir com os enredos do casal Bartlo e Cíntia. O problema é que ia eu agora em leitura adiantada desta peripécia e mete-se a talho de foice a releitura do «Memorial do Convento» e d’ «Os Maias», questão de dever, questão de relembrar o que a escola e a vida, felizmente, nos não consentem esquecer. O problema é que quem muitos burros toca, algum fica para trás, e ficou, como se notou e vê.
E que ensaio era aquele merecedor de pregão? Um texto de pendor filosófico ou, como escreve o seu autor, «Um divertimento político-filosófico acerca da profundidade do quotidiano». Assim é este «Podemos Matar um Sinal de Trânsito?», uma deambulação entretecida a partir de um sinal de sentido proibido que deixou de estar onde estava, numa rua de sentido único, porque tombado. Para além dos sérios riscos que esta «ausência» pode causar aos automobilistas que por lá passam, é o olhar atento e a reflexão complexa de Porfírio Silva, em primeira pessoa, que nos conduz pelos meandros da aventura do «pensamento estruturado» como quem conta uma história – uma maneira enganadora de nos fazer parecer fácil o que é deveras complexo, ou uma maneira cativante de nos revelar a complexidade do muito que julgamos fácil, só porque deixamos de ver o que olhamos distraidamente no quotidiano.
Este é o ensaio que me trocou as voltas à crónica que deveria ter sido alinhavada em devido tempo, e não foi. Este o livro que ficou a meio, mas que não tardarei a rematar, antes mesmo de deslindar o andamento da reza do Diabo.
É só darem-me o tempo suficiente para orientar o Saramago e o Eça, ou orientar neles os alunos que deles precisam como de pão para a boca, não tanto das criaturas e dos seus ensinamentos, mas de classificações exibíveis, para que não deprimam. Sim, para que não deprimam. Que, pelos vistos, pior do que o estado das escolas é o estado psicológico dos alunos, jovens debilitados, com a auto-estima em baixo, porque os professores, os mesmos que andam a chumbar menos nos últimos anos, teimam em ser parcimoniosos nas notas que atribuem, e aí é que reside o mal do nosso país que há e há-de vir, termos um mundo de alunos infelizes por terem notas baixas, apesar de transitarem, mais infelizes do que aqueles que reprovam pela segunda ou terceira vez, pois nestes o «autoconceito académico já estabilizou», pelo menos assim reza um estudo recente do ISPA – como as rezas do Diabo.
Portanto, e porque quero contribuir para levantar a auto-estima dos meus alunos, preciso de arrumar devidamente os clássicos para me voltar para os meus coevos amigos, o Porfírio que me perdoe. Matar por matar, matemos os sinais!

Crónica de Fevereiro de 2012 de António Souto para o blog «Floresta do Sul»; crónicas anteriores: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28; 29; 30; 31; 32; 33; 34; 35; 3635; 3738;   39; 40; 41; 42; 43; 44.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

António Souto – Crónica (44)


O que nos vale é termos uma ministra diligente e entendida em matéria de cristas, e que já fez saber que, apesar do atraso, Portugal avançará com a brevidade possível no cumprimento da legislação comunitária. Fiquemos, pois, tranquilos.

Doidas, doidas as galinhas?!
Ainda não há muito tremíamos com o sintoma das vacas loucas e fungávamos com o prenúncio de umas aves longínquas que nos queriam arrastar para um estado gripal pandémico e dizimador, maldizendo assim uns quantos animais ameaçadores quando afinal não há animal mais facínora do que o homem, que, sendo como se sabe o lobo do homem, persegue e ataca igualmente todos os outros animais sem qualquer apelo nem agravo.
Felizmente, há uma união europeia vigilante, e nela uns quantos serviços zelosos que vão cuidando do bom relacionamento entre as espécies, daí que quando algum país prevarica não se coíbem de aplicar com o rigor que se exige a legislação que tão primorosamente produziram.
E o que observamos é que praticamente metade dos países europeus não leva a sério os animais seus semelhantes, crendo que estes, com os quais convivem, na rua como na mesa, não são mais do que animais, seres subalternos que, desprovidos de razão, são igualmente desprovidos de direitos e de honrarias (ah, com que deleite traumático assistíamos na infância às galinhas degoladas correndo pelo pátio fora, ou aos coelhos pendurados e esfolados a quente, ou ao porco de dez arrobas sangrado e chamuscado e esventrado junto à salgadeira…). Não senhor, se é preciso continuar a dedicação aos nossos canídeos e felinos, é também urgente curar de proteger os bovinos e os suínos, gado que tão maltratado tem sido por eurocidadãos desapiedados. E porque não há bela sem senão, os galináceos também não escapam ao ensejo protector das directivas, como agora se regista: «A diretiva 1999/74/CE exige que, a partir de 01 de janeiro de 2012, todas as galinhas poedeiras sejam mantidas em ‘gaiolas melhoradas’, com mais espaço para fazerem ninho, esgravatarem e empoleirarem-se, ou em sistemas alternativos.»
É claro que esta directiva especifica a casta das galinhas, casta nobre responsável pelo princípio do mundo e pela qualidade superior dos nossos idiossincráticos pastéis de nata, e não de qualquer variedade rafeira, tipo garnizés. E determina também as características das jaulas: «Só podem ser utilizadas gaiolas que prevejam, para cada galinha, pelo menos 750 cm² de superfície da gaiola, um ninho, uma cama, poleiros e dispositivos adequados para desgastar as garras, que permitam às galinhas satisfazerem as suas necessidades biológicas e comportamentais.» Ora aí está o busílis da questão, bichos engaiolados sem os devidos requisitos deprimem, e galinhas deprimidas é meio caminho para uma produção deficitária de zigotos e para uma multa mais que certa para os aviários infractores. O que nos vale é termos uma ministra diligente e entendida em matéria de cristas, e que já fez saber que, apesar do atraso, Portugal avançará com a brevidade possível no cumprimento da legislação comunitária. Fiquemos, pois, tranquilos.
Tranquilos, é como quem diz, que nos continuam faltando muitas mais directivas, ordenações imprescindíveis para a protecção do assédio turístico aos golfinhos do Tejo ou das investidas gastronómicas aos desventurados passarinhos fritos ou aos empalados leitões da Bairrada, que o que nos não falta é gente desumana e lambona que não olha a meios quando se trata de petiscos.
E agora que se acaba nas escolas a Formação Cívica, como hão-de as pessoas sensíveis de amanhã aprender a deixar de comer galinhas?

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sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

António Souto – Crónica (43)


… já que entrou na agenda, e se emigrássemos e deixássemos os reis barrigudos a pregar para os peixes?!

E tudo o resto a menos
Ontem foi feriado, talvez um feriado a menos que, não faltando, poderá vir a faltar-nos. A história dos homens faz-se com a história dos homens – com os factos, com os mitos, com os simulacros, com as ausências, com os vazios.
Para o ano, a nossa história será diferente, forçosamente outra, mais triste e mais pobre, e não apenas por falta de feriados nem por falta das «festas» que etimologicamente representam. E se para além de tudo quanto cessar houver ainda menos feriados, haverá seguramente feriados a menos, porque todos, cada um a seu modo, serão para muitos um mal necessário, um dia de folgança a menos que tornará o ano mais longo, mais pesado e mais macambúzio. Tão ou mais do que a baixa lisboeta sem iluminação, sem uma árvore içada por uma estrela, sem um vestígio de natal.
Está bem, ele há gente virtuosa que sabe que os feriados são quase todos dissonantes e escusados e infecundos, mas é admirável que quem tem o dom de ter o rei na barriga – que é quem manda em nós – só descubra estes ignóbeis adjectivos quando a crise bate à porta e é preciso mostrar aos outros (sempre aos outros) que há que manter bem firmes as rédeas, bem firmes e curtas, porque a verdade é só uma (é sempre só uma) e há que evitar o dilúvio causado pelos outros (sempre pelos outros), por aqueles que precederam estes e por aqueles que precederam os que precederem estes e por aí fora...
E a tristeza e a pobreza acrescida do próximo ano levará ainda em cima com uns dias de férias a menos a juntar aos feriados a menos e ao salário a menos e aos subsídios a menos e às deduções a menos e aos descontos a menos e a tudo o resto a menos.
Hoje, no dia seguinte a uma provável comemoração a menos, tenho diante de mim vinte e tal alunos tentando buscar sentido a algumas palavras do Pe. António Vieira: «A primeira coisa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande.»
Mas estes jovens que me acompanham na leitura têm alguma dificuldade em enxergar nos dias de hoje e nestas bandas de cá desedificações assim tão escandalosas, porque a noção de «circunstância», mitigada pela escola, não é ainda matéria com que se defrontem, daqui a meia dúzia de anos, sim, que é quando se perderão na «cidade», como num «açougue». E não haverá nessa altura feriados a menos nem feriados a mais, haverá porventura uma porta sem saída. A única saída.
[Ontem foi o 1º de Dezembro. Ontem estive muito perto das palavras do Pe. António Vieira.]
Bem sei que não é original, mas já que entrou na agenda, e se emigrássemos e deixássemos os reis barrigudos a pregar para os peixes?!

Crónica de Dezembro de 2011 de António Souto para o blog «Floresta do Sul»; crónicas anteriores: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28; 29; 30; 31; 32; 33; 34; 35; 3635; 3738;   39; 40; 41; 42.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Hoje


Hoje ao fim da manhã, na Escola Secundária de Camões (antigo Liceu Camões), em Lisboa. Cerimónia de apresentação do livro «Ex Abrupto – Crónicas de Tempos Vagos», de António Souto (edição DebatEvolution, 2011). Na foto, Helena Vidinha Trindade (professora, directora do «Jornal de Angeja»), António Costa Valente (editor da DebatEvolution, professor da Universidade de Aveiro, realizador, produtor, director do Cineclube de Avanca ), eu, José Jorge Letria (escritor, presidente da SPA – Sociedade Portuguesa de Autores), João Jaime Pires (director da escola) e o autor do livro (que é professor na escola).

Foto: M. Cabeleira Gomes

Um muro invisível

Tenho uma relação especial com as crónicas do António Souto, por isso sempre insisti em publicá-las no meu blogue, desde os tempos em que saíam num jornal da sua terra. Nunca como agora houve tantos cronistas, pelo menos é isso que noto ao folhear muitos dos jornais e muitas das revistas que por cá se publicam, ou até a andar pelos blogues. Mas apesar desta fartura, nem sempre encontro o que ler; muitas vezes começo uma e outra crónica e aquilo que me aparece é um muro invisível logo por alturas das primeiras linhas. Não sei de que cor é, nem que altura tem, nem de que material é feito, mas vou lá bater de cada vez que tento a leitura. Um muro invisível, um muro duro, tanto que com o tempo habituei-me a só bater lá com a cabeça uma vez, a não insistir, para evitar males maiores. Nunca dei por esse muro nas crónicas do Miguel Sousa Tavares, tal como não dei nas que me apareceram assinadas por nomes como Pedro Mexia, Luis Sepúlveda, José Eduardo Agualusa, José Luís Peixoto, Clara Ferreira Alves, António Lobo Antunes, Maria Filomena Mónica ou Pedro Correia, neste último caso nos blogues. É o mesmo que acontece com as crónicas do António Souto, daí o gosto que tenho, a cada mês, em que sejam publicadas. Se calhar o problema é meu e não de nenhuma crónica, de nenhum autor. Se calhar os muros não existem nas crónicas, nem muros visíveis, nem muros invisíveis. Pode ser mesmo um problema meu, ou antes, um problema da minha imaginação. Começo a ler e penso em muros, e depois, logo na segunda ou na terceira linha, bato com a cabeça. E desisto. Mas nas crónicas do António Souto, como nas dos outros nomes que referi, não penso nisso. E avanço. Concentrado. Interessado. Até ao fim.

NOTA: Texto escrito para o livro «Ex Abrupto – Crónicas de Tempos Vagos», de António Souto (que escreve regularmente no «Floresta do Sul»). O livro foi apresentado hoje ao fim da manhã, na Escola Secundária de Camões (antigo Liceu Camões), em Lisboa. O texto vem na contracapa do livro, que tem edição da DebatEvolution.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

António Souto – Crónica (42)


Sou até capaz de a trazer comigo pela mão e perder-me com ela pela baixa da cidade, este ano sem as luzinhas do costume e com as montras repletas de azedume no lugar de azevinho, e descermos ambos até ao Tejo e daí acenarmos ao Cristo Rei e implorar-lhe baixinho que lá de cima roube uma estrela e a lance aos espíritos cegos que nos dominam, para que lhes dê um pouco de luz e de discernimento.

Leopopotinices
Ainda hoje ela não tem a certeza do que aconteceu realmente naquela noite. A Leopoldina não é mulher para alimentar frivolidades, mas aquela noite ainda não lhe saiu completamente da ideia apesar de bem casada há mais de vinte anos e mãe de dois filhos varões que são uns amores de jovens, isto pelo menos é o que ela não se cansa de dizer sempre que a conversa, apesar de breve, roça a família, e eu acredito.
A princípio achei-lhe graça ao nome, tinha assim um não sei quê de misterioso que ia bem com a graça do corpo, um corpo de curvas nutridas, em equilíbrio perfeito, tudo sensual, tudo requerendo impressões digitais. Depois achei-lhe graça a toda ela e em três tempos aquilo evoluiu para o regalo do tapete e para o palrar de uma televisão tão abandonada como o periquito opalino da cozinha. A sala foi nessa circunstância um céu na terra. Leopoldina a única estrela polar. A noite, mágica. Um episódio.
A peripécia ficou por ali e a ausência foi longa. Até hoje. Hoje o dia em que ela achou não ter a certeza do que aconteceu naquela noite. Eu também não. Há noites assim. Mas uma coisa é a gente não ter a certeza do como, outra é a gente não se lembrar do quê. Bem entendido que não arrisquei confessar-lhe que durante estes últimos anos a rememorei regularmente quando, chegado Dezembro, me abastecia de natais num certo hipermercado. E que a comprei sempre com satisfação solidária só por lhe achar graça ao nome. A amizade não se esquece.
Mas este natal estou convencido de que o gesto não será o mesmo, e é bem possível que a ausência volva a ser longa e que aquele acaso celeste não suba mais à tona. Disto não falámos hoje. Também se calhar não nos encontraremos nos anos mais próximos, ou talvez só quando os seus dois filhos varões deixarem de ser uns amores, porque já então haverá netos, e as palavras, como diria o poeta, é possível que estejam já gastas de não terem tido uso.
Este natal, se me for fornecer dele a um certo hipermercado, o meu gesto solidário será agora para a Popota e não terei motivos para evocar mais ninguém, nem mesmo quem certa vez fez mágica uma noite e me criou incertezas.
(Começo a estar cansado de incertezas. Ou será que são as certezas que me cansam?) Sou até capaz de a trazer comigo pela mão e perder-me com ela pela baixa da cidade, este ano sem as luzinhas do costume e com as montras repletas de azedume no lugar de azevinho, e descermos ambos até ao Tejo e daí acenarmos ao Cristo Rei e implorar-lhe baixinho que lá de cima roube uma estrela e a lance aos espíritos cegos que nos dominam, para que lhes dê um pouco de luz e de discernimento. De certeza que a Popota não levará a mal o atrevimento.
E se levar, dá-lhe Popota, que este Natal é só diversão! Um episódio. A Leopoldina que o diga!

Crónica de Novembro de 2011 de António Souto para o blog «Floresta do Sul»; crónicas anteriores: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28; 29; 30; 31; 32; 33; 34; 35; 36; 35; 37; 38; 39; 40; 41

sábado, 22 de outubro de 2011

António Souto – Crónica (41)

Por falar em apardalado, deixo-me levar nas asas do adjectivo para o quintal e para a quinta e para os campos próximos da minha infância onde, com uma atiradeira (uma fisga, para os putos da cidade), o meu irmão e eu caçávamos uns pardais-ladrões…


Em abono da verdade
Um dia destes, de regresso às crónicas de Lobo Antunes, deliciei-me com uma antiga, uma que levou em cima com o título «Crónica escrita depois de ter bebido dois copos de vinho tinto ao almoço». Uma crónica a valer e a condizer com a profusão do enredo, rio sinuoso que não avista nunca a foz, que a crónica tem destas alforrias.
(Convém sublinhar que me regalo sempre com as crónicas de Lobo Antunes, com as primeiras, mais de memórias, com as outras que a seguir são mais de noite nostálgica, com as mais recentes que vão aportando, fotográficas e precisas, e trazem dentro o verdadeiro «sentido íntimo das coisas». Enfim, com todas me contento.)
Mas com esta antiga muito em particular. Porque esta me fez exactamente pensar, pelo desvario, na insânia etilizada que nos invadiu neste treze de Outubro. O sol não cirandou, baixou literalmente ao horizonte e desapareceu, e com ele se sumiram os horizontes de quem ainda acreditava em milagres. Afinal de contas, um prodígio bem ao jeito de uma crónica de uma morte lenta que levará à agonia milhares ou milhões de criaturas, gente séria, cidadãos deste tempo e de tempos vindouros, que o flagelo veio para perdurar.
E há nisto ironia, num destempero que vem de longe, que atravessou séculos, justificou mitos e nos mantém bichos da terra suspensos numa chama toldada que só «a mão do vento» poderá erguer. Poderá?
Porque manda quem pode e obedece quem deve, e toda a gente sabe que é sempre o povo quem deve, o povo todo, não vale a pena o povo lamentar-se (nem lamentar-se o povo), nem esmorecer, nem deprimir, mas dar-se por feliz por ter um país em crise. Um país em crise que pode finalmente desobrigar-se de subsídios de férias e de subsídios de Natal, benefícios completamente desajustados de um calendário de doze meses. Se alguém quisesse que o ano civil tivesse catorze meses a sério teria inventado mais dois nomes a sério para os excedentes, o que não foi o caso. Sempre aprendemos em casa e na escola que o ano vai de Janeiro a Dezembro, e ponto final.
Só que quem pode parece não querer poder a valer, que isto no meu humilde entendimento ou se faz tudo a eito ou fica um travo na boca que arrelia. Bem sei que quem manda não precisa de sugestões alheias, mas não seria mais sensato acabar-se igualmente com as férias e o Natal? É que a fazer fé (e em questões de fé até nem somos maus) no ditado de que quem não tem dinheiro não tem vícios, de uma assentada se abatia mais dois coelhos, e com singeleza se limpava do mapa as férias, agora desnecessárias, e se mandava o Natal de Dezembro às urtigas. De resto, já quase ninguém dá valor às prendas avaras das lojas dos trezentos, isto por um lado, e por outro, que piada tem haver Natal sem iluminação nas ruas ou Natal com bolos-reis sem brinde?
É claro que o povo, o povo todo, é capaz de demorar algum tempo a habituar-se à ideia, e até é capaz de ficar um bocadinho apardalado, mas a crise também não tem pressa e as tristezas, como é público, nunca pagaram dívidas, muito menos as nossas.
Por falar em apardalado, deixo-me levar nas asas do adjectivo para o quintal e para a quinta e para os campos próximos da minha infância onde, com uma atiradeira (uma fisga, para os putos da cidade), o meu irmão e eu caçávamos uns pardais-ladrões que depois, com a cumplicidade da minha avó, assávamos na lareira ou fritávamos no fogão a gás em momentos de gula e de festa.
Saliente-se, em abono da verdade, que na altura não havia dois copos de vinho tinto a acompanhar. Como agora não há, que me mantenho abstémio, mas é como se.

Crónica de Outubro de 2011 de António Souto para o blog «Floresta do Sul»; crónicas anteriores: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9,   10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28; 29; 30; 31; 32; 33; 34; 35; 3635; 3738;   39; 40.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

António Souto – Crónica (40)

Se ao menos, aproveitando as derradeiras réstias de sol, tivéssemos castanhas e as soubéssemos pilar para mais tarde dulcificarmos a ilusão de fortuna havida… Mas não cremos mais em nós nem em quem nos governa, de dentro como de fora, que a Europa continua jacente e sem mensagem, e os pessoas deste reino estão emudecidos.

Portugal a entristecer
Não sei se por ter partido José Niza, se por o seu passamento me ter trazido à memória uma vez mais Ary dos Santos, ou se por esta lembrança arrastar consigo a voz de Carlos do Carmo, dei comigo a cantarolar por dentro esta quadrinha-refrão: «Quem quer quentes e boas, quentinhas?/ A estalarem cinzentas, na brasa./ Quem quer quentes e boas, quentinhas?/ Quem compra leva mais calor pra casa.» Não sei. O que sei é que Setembro, que bem poderia ser o mês inaugural das costumeiras castanhas assadas, quando agora começa o tempo delas, será muito certamente o mês primeiro da austeridade a sério, o primeiro dos muitos meses de muitos ouriços e de poucos magustos.
Parece irónico que tenhamos de saber nos bolsos e nos palatos o verdadeiro valor e préstimo dos castanheiros. Num elogio que faz à árvore e ao fruto, ilustra Miguel Torga: «Assada, no S. Martinho, serve de lastro à prova do vinho novo. Cozida, no Janeiro glacial, aquece as mãos e a boca de pobres e ricos. Crua, engorda os porcos, com a vossa licença…».
E o S. Martinho, que não tarda está aí, vai ter de andar doravante por perto com a sua capa solidária para nos proteger do frio que vem para durar pelas estações adiante. E por muito que a parta e reparta, será sempre pouca para agasalhar os défices e as misérias da nossa circunstância. A lenda, como a boa ficção, acaba por superar esta nova realidade de agora, mais que o fogo-fátuo do Portugal pessoano a entristecer.
Se ao menos, aproveitando as derradeiras réstias de sol, tivéssemos castanhas e as soubéssemos pilar para mais tarde dulcificarmos a ilusão de fortuna havida… Mas não cremos mais em nós nem em quem nos governa, de dentro como de fora, que a Europa continua jacente e sem mensagem, e os pessoas deste reino estão emudecidos.
Abranda a economia, quebranta o investimento, adensa o desemprego, encolhem os salários, declina o poder de compra, afrouxa o consumo, abranda a economia, quebranta o investimento, adensa o desemprego, encolhe, declina e afrouxa tudo, só não afrouxa o eufemismo de quem vê poesia nas migalhas deixadas em fim de festa sobre a toalha de ninguém.
As migalhas que restam para os meninos de amanhã, e depois, ah!, Manuel da Fonseca, «Depois quando/ com o tempo/ a criança/ vem crescendo/ vai a esperança/ minguando./ E ao acabar-se de vez/ fica a exacta medida/ da vida/ de um português.».
Não que seja o mal apenas nosso, mas bem podemos nós com o mal alheio, e o nosso mal é também e sobretudo culpa nossa, que atirámos castanhas aos porcos, como pérolas, e os engordámos a tal ponto que desmesurados se cevaram igualmente de nós. E na caruma do magusto assamos em turba toldados de ouriços pelos Outonos adentro.
Pessimista, eu? Não, só como no «Só» de António Nobre: «Amigos,/ Que desgraça nascer em Portugal!»…

Crónica de Setembro de 2011 de António Souto para o blog «Floresta do Sul»; crónicas anteriores: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28; 29; 30; 31; 32; 33; 34; 35; 36; 35; 37; 38; 39.