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sexta-feira, 26 de agosto de 2011

António Souto – Crónica (39)


Sol, portanto, e muita água convidativa. Muita praia e muita piscina. Muito vagar e muita animação. Porém uma água nem sempre muito transparente como soía, nem sempre uma animação variada e distinta, nem sempre uma restauração com honestidade sazonal. Um verdadeiro allgarve à portuguesa!

Férias que tanto sim como não

Estas férias estão a ser umas férias assim a puxar para o «discordantes». Estão a ser, porque ainda restam uns dias para o fim delas, só que lhes está faltando aquele gozo próprio que habitualmente as caracteriza, ou me está faltando a mim esse deleite, uma insatisfação que arrasto coincidente com o clima bipolar que nos assola.
Passei por Aveiro, melhor, um pé breve em Angeja, que é mais minha, outro na Barra, coladinha à Costa Nova, ambas mais de Alice Vieira, que amiúde as imprime, e rumei depois para o sul, para próximo da Loulé de Lídia Jorge, com poiso em Quarteira.
Dos chuviscos do norte aos salpicos do sul em pleno Agosto. Em todo o caso, calor suficiente para fazer vermelhos os lácteos corpos, muito menos que em anos anteriores, os corpos, pelo Algarve que vi. A maior parte era gente nossa, com pose e sotaque morcão, sinais da crise que para ali a mandou aos magotes vindos de dentro e de fora, de uma diáspora próxima.
Sol, portanto, e muita água convidativa. Muita praia e muita piscina. Muito vagar e muita animação. Porém uma água nem sempre muito transparente como soía, nem sempre uma animação variada e distinta, nem sempre uma restauração com honestidade sazonal. Um verdadeiro allgarve à portuguesa!
Num dos dias, para fugir à rotina, a experiência da Nacional 125. Rente a Albufeira e a Boliqueime, trânsito doutrinado, paragem no centro de Pêra, ao engano, e logo em Algoz, a norte da via, para visitar a nona edição do «FIESA 2011», as badaladas construções de areia este ano sob o lema «Animalândia». Quatro entradas, em regime familiar, e lá se foram vinte e cinco euros para o reino dos animais, alguns já esboroados por mor do tempo, em questão de hora e meia.
Dali, com desvio certeiro, para Silves. A Feira Medieval encerrara nas vésperas. O castelo, no entanto, estava à vista, sobranceiro ao rio, mas não entrámos nele, sequer subimos o empedrado renovado. Tardava o almoço, o calor apertava, a cidade domingueira estava deserta, fantasmagórica, só uma loja chinesa marcava o ponto às quatro da tarde, e ainda um restaurante, hospitaleiro, fazendo questão de franquear as portas por escassez de clientela.
Pela frescura da Nacional 124, fica para trás a barragem assinalada de Odelouca, não visitada, como o castelo da cidade árabe, por falta de tempo e de querença.
Portimão adivinha-se. Acolhe. Prende-nos a zona ribeirinha e a vastidão do estuário. A praia da Rocha não muito distante, mas ficou adiada também, como adiado ficou, por rematado, o Festival da Sardinha.
De novo pela Nacional 125, em viagem de sol-pôr. O tráfego favorável, nada de reveses, nada de congestionamentos. O Zoomarine e o Aquashow desfizeram-se das filas, já não corre água nos escorregas. A Quarteira entrou no turno da noite e a movida deslocou-se para o calçadão.
Isto foi num dos dias. Nos demais, a rotina.
Ah, mas houve outra, a boa rotina das crónicas de Lobo Antunes cujo Segundo Livro delas aviei espreguiçado junto à piscina antes de meter no bolso o ar da praia.
«Normalmente é no terceiro minuto a partir do crepúsculo que o ar da praia é mais frio do que a água. Não no segundo nem no quarto: no terceiro e durante onze segundos, o que requer discernimento, atenção e paciência. O melhor é encostarmo-nos à muralha, de queixo na palma, vigiar as gaivotas, dar fé da mudança de cor no horizonte e nisto, mal o terceiro minuto começa, tira-se a palma do queixo para que o ar poise nela e aí está: pega-se no ar da praia, mete-se logo no bolso e leva-se para casa sem deixar entornar. Tem de utilizar-se logo visto que no dia seguinte, a partir das dez, já o ar aqueceu.»
E enquanto não acabam as férias, guardo o ar salgado que trouxe e atenuo a vacilante insatisfação com o gozo das palavras que vierem, concordantes.

Crónica de Agosto de 2011 de António Souto para o blog «Floresta do Sul»; crónicas anteriores: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28; 29; 30; 31; 32; 33; 34; 35; 3635; 37;  38.

sábado, 30 de julho de 2011

António Souto – Crónica (38)


É aqui, neste nosso desvão, que a agonia nos bate à porta. E nós abrindo-a, para já um bocadinho só, contrariados, mas logo que sejam passadas as férias, não haverá músculo que a mantenha intransponível. Com as carreiras congeladas e os salários um tanto diminuídos, o pessoal ainda vai achando quase normal dar uma mãozinha, mas quando as bilheteiras reclamarem aumento, e os bens de consumo mais essenciais se tornarem ainda mais essenciais, e o Natal se adivinhar menos feliz, e a saúde menos saúde, e a crise mais crise e mais perdurável, aí é que a porca vai torcer o rabo.

Troikas e baldroikas
Ultimamente tem morrido muita gente. A cada ano que passa fico sempre com a estranha sensação de que morre mais gente, de que se morre mais. Está bem, há defuntos que não me dizem nada e outros que me dizem muito pouco, e com esses não me preocupo, mas a cisma maior é com aqueles por quem nutria alguma consideração, particularmente com aqueles por quem tinha alguma ou muita estima, afeição e amizade, que com estes a tumba brada mais forte, atinge-nos o imo.
Depois acabo fatalmente por concluir que a morte dos outros está na razão directa do meu avelhentar, o que na embocadura dos cinquenta aflige qualquer espírito inconformado.
Agora que está dado o tom, a fugir para o derrubado, podemos saltar solidariamente para aquilo que efectivamente aflige a nossa comunidadezinha de Vila Real do norte a Vila Real do sul, agora e sobretudo aqui (se bem que o próprio universo, que é coisa maior, a continuar este descalabro sistémico, não tarda nada está de rastos e com os pólos invertidos).
Porque é aqui, neste nosso desvão, que a agonia nos bate à porta. E nós abrindo-a, para já um bocadinho só, contrariados, mas logo que sejam passadas as férias, não haverá músculo que a mantenha intransponível. Com as carreiras congeladas e os salários um tanto diminuídos, o pessoal ainda vai achando quase normal dar uma mãozinha, mas quando as bilheteiras reclamarem aumento, e os bens de consumo mais essenciais se tornarem ainda mais essenciais, e o Natal se adivinhar menos feliz, e a saúde menos saúde, e a crise mais crise e mais perdurável, aí é que a porca vai torcer o rabo.
Aí é que os navegadores à deriva de hoje (desempregados «depois de estar a Índia descoberta») vão perceber que a gente não tem mesmo emenda. Pelos vistos, nunca tivemos. Nem mesmo quando fomos grandes, quanto mais agora… E não se diga que não houve em todos os tempos quem, visionariamente, avisasse a tripulação.
Eça, sempre Eça.

«Nós estamos num estado comparável, correlativo à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesmo abaixamento dos caracteres, mesma ladroagem pública, mesma agiotagem, mesma decadência de espírito, mesma administração grotesca de desleixo e de confusão. Nos livros estrangeiros, nas revistas, quando se quer falar de um país católico e que pela sua decadência progressiva poderá vir a ser riscado do mapa – citam-se ao par a Grécia e Portugal. Somente nós não temos como a Grécia uma história gloriosa, a honra de ter criado uma religião, uma literatura de modelo universal e o museu humano da beleza da arte.» («Farpas»)

«Que fazer? Que esperar? Portugal tem atravessado crises igualmente más: – mas nelas nunca nos faltaram nem homens de valor e carácter, nem dinheiro ou crédito. Hoje crédito não temos, dinheiro também não – pelo menos o Estado não tem: – e homens não os há, ou os raros que há são postos na sombra pela Política. De sorte que esta crise me parece a pior – e sem cura.» («Correspondência»)

«Em Portugal não há ciência de governar nem há ciência de organizar oposição. Falta igualmente a aptidão, e o engenho, e o bom senso, e a moralidade, nestes dois factos que constituem o movimento político das nações./ A ciência de governar é neste país uma habilidade, uma rotina de acaso, diversamente influenciada pela paixão, pela inveja, pela intriga, pela vaidade, pela frivolidade e pelo interesse.» («Distrito de Évora»)

«A única crítica é a gargalhada! Nós bem o sabemos: a gargalhada nem é um raciocínio, nem um sentimento; não cria nada, destrói tudo, não responde por coisa alguma. E no entanto é o único comentário do mundo político em Portugal. Um Governo decreta? gargalhada. Reprime? gargalhada. Cai? gargalhada. E sempre esta política, liberal ou opressiva, terá em redor dela, sobre ela, envolvendo-a como a palpitação de asas de uma ave monstruosa, sempre, perpetuamente, vibrante, e cruel – a gargalhada! Política querida, sê o que quiseres, toma todas as atitudes, pensa, ensina, discute, oprime – nós riremos. A tua atmosfera é de chalaça.» («Uma Campanha Alegre»)

As citações são longas, como longas foram as advertências. Só assim se ajuízam as troikas e baldroikas da nossa sina, deste país, destes políticos e, parodiando com graça Branca Flor, que Deus a tenha, das coisas «que eles inventam»!...
Como na morte dos outros, em mim o mal é mesmo capaz de estar na casa dos cinquenta.
Gargalhemos, por isso, enquanto é dia!
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Crónica de Julho de 2011 de António Souto para o blog «Floresta do Sul»; crónicas anteriores: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17,18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28; 29; 30; 31; 32; 33; 34; 35; 36; 35; 37.

sábado, 2 de julho de 2011

António Souto – Crónica (37)

Este cidadão comum não volta. Vai a um particular, logo ao dobrar da esquina, que por cinquenta e cinco euros o consulta, o ausculta e lhe põe nas mãos uma molhada de receitas para uns examezinhos ao sangue, aos pulmões, à próstata, ao abdómen, à tiróide, ao coração e à paciência. Quando houver resultados, o cidadão comum deve voltar para nova consulta…

Tudo por uma carta
Um cidadão comum abre um jornal e depara-se com a notícia de que há centenas ou milhares de condutores em situação de infracção por não terem revalidado a sua carta de condução. A legislação fora alterada e agora a idade que comanda a validade é outra, que é como quem diz, para as categorias e subcategorias mais baixas, aos cinquenta, aos sessenta, aos sessenta e cinco, aos setenta, aos setenta e dois, aos setenta e quatro, aos setenta e seis e por aí fora, de dois em dois até que a morte os separe…
O cidadão comum dá-se conta de que está quase a cumprir meio século de existência, o primeiro prazo de validade. Desencadeia, por isso, o normal processo que qualquer cidadão zeloso dos seus deveres desencadearia.
Começa então por ir ao médico de família, mas descobre acidentalmente que já não o tem. Agora, só às sete da manhã para receber uma senha para outro doutor, assim tipo de substituição, se houver doutor e se houver senhas suficientes, ou então volta no dia seguinte, ou no outro, ou no outro ainda.
Este cidadão comum não volta. Vai a um particular, logo ao dobrar da esquina, que por cinquenta e cinco euros o consulta, o ausculta e lhe põe nas mãos uma molhada de receitas para uns examezinhos ao sangue, aos pulmões, à próstata, ao abdómen, à tiróide, ao coração e à paciência. Quando houver resultados, o cidadão comum deve voltar para nova consulta, trazer um impresso de uma escola de condução, e estando tudo bem pagará outros cinquenta e cinco euros mais o custo da assinatura no tal impresso atestado ou atestado impresso.
Pouco convencido, o cidadão comum, que há poucos meses fizera exames de rotina, decide tentar a sua sorte e bater a outras portas. Abre-se-lhe uma, e em poucos minutos fica o cidadão atestado por uns míseros quinze euros da sua ainda robustez e da sua necessária capacidade para se desembaraçar na estrada com a habilitação devida.
Passo seguinte, tirar um boneco a cores e em fundo branco, fundamental o fundo branco, e ala para um serviço qualquer que receba o pedido de revalidação e o encaminhe para o Instituto da Mobilidade e dos Transportes Terrestres.
A afável funcionária verifica que o cidadão comum tem tudo quanto é exigido para o acto – atestado médico, foto a cores e com fundo branco, cartão do cidadão e carta de condução antiga (o pagamento efectua-se no fim), só precisa mesmo é do código do cartão de cidadão. O incrédulo cidadão ainda arrisca um «qual código?», mas é logo tranquilizado, «o da morada, que vem na carta que recebeu para levantar o cartão, não se lembra?». Lembra-se, o cidadão comum lembra-se da carta, só não se lembra do local exacto onde de certeza a guardou religiosamente há uns dois anos. Voltou o cidadão a casa e não encontra o rasto àquela carta assim do género daquela que às vezes nos chega das Finanças, da famigerada Direcção-Geral das Contribuições e Impostos. Regressa o cidadão ao balcão de atendimento de há pouco e fica a saber que sem o código nada feito, e que se calhar terá de renovar o cartão de cidadão.
O cidadão comum liga para o Portal do Cidadão, e do outro lado confirma o pior, que não se emitem segundas vias dos códigos do cartão de cidadão e que o cidadão desmemoriado terá mesmo de renovar a sua identidade.
O cidadão comum investe para uma conservatória e em menos de uma hora (com muita, muita sorte para um cidadão comum) estava medido e fotografado e digitalizado e tranquilizado, que dali a cinco dias úteis receberia uma carta com uns códigos e que já poderia ir levantar o seu novo cartão com chip para mais uns cinco aninhos.
Quanto à nova carta de condução, bom, é ter o cidadão comum confiança no sistema que, como todos sabemos, existe inequivocamente para auxiliar o comum dos cidadãos, que para isso se descobriu o verdadeiro prodígio do simplex. E pelo meio, por via das coisas, ter muita fé em quem manda nos homens e na terra inteira, sem dramas, que afinal o importante é mesmo ter um código na alma.
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Crónica de Junho de 2011 de António Souto para o blog «Floresta do Sul»; crónicas anteriores: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28; 29; 30; 31; 32; 33; 34; 35; 36.

domingo, 29 de maio de 2011

António Souto – Crónica (36)

Parece que havia diante dele, numa mesinha de ocasião, uma biografia com o seu boneco na capa e um título de arrasar: Paulo Futre – «El Portugués». E no ar, claro, no ar havia um leve sotaque espanholado e um ambiente de fusão transpirando negócio. Parece que havia, porque não a cheguei a topar. Como diria Mia Couto (que não por acaso também lá estava), passei em sua renteza e desamparei a loja.

Desmotivações
No último dia da feira do livro, fui finalmente à feira do livro. Em Lisboa. A feira foi no Parque Eduardo VII, e foi lá que lá fui, como à festa. Uma tarde simpática, um calor suportável, uma vista de postal ilustrado com Tejo ao fundo e alguma animação.
Por quê só no último dia? Calhou, ou melhor, fui adiando. Não é que não tivesse motivação suficiente para lá ir antes, como é hábito meu, pelo menos uma vez ao lançar dos foguetes, outra lá mais para o meio, para o arraial, e outra no fim, para o apanhar das canas; mas desta vez desleixei-me, que é como quem diz, disfarcei com o facto de no último dia haver por lá amigos escritores e muitos outros, muitos outros escritores que não sendo amigos sempre ficam bem no retrato. Tão como fora dele.
Havia por lá muitos, só no espaço Leya era aos punhados, uns muito famosos, outros assim-assim, outros anónimos mas já com tiques de estrelato a sair-lhes com discrição pelo canto dos olhos. E livros, então, às toneladas, quase aos pontapés.
Por falar em pontapés, estava lá o Futre a fazer jus à publicidade, de óculos escuros para dar pinta de celebridade, com uma fila de fãs de fazer inveja aos escreventes todos, e todos juntos. E sempre que saía um livro lá saía uma fotografia. Ele era sorrisos e abraços e beijinhos e poses de camisa arregaçada e fio de ouro ao pescoço com dois amuletos, que a gente sabe como são os internacionais a sério e que se levam a sério. Parece que havia diante dele, numa mesinha de ocasião, uma biografia com o seu boneco na capa e um título de arrasar: Paulo Futre – «El Portugués». E no ar, claro, no ar havia um leve sotaque espanholado e um ambiente de fusão transpirando negócio. Parece que havia, porque não a cheguei a topar. Como diria Mia Couto (que não por acaso também lá estava), passei em sua renteza e desamparei a loja.
Voltemos aos amigos. No centro da romaria, um abraço sentido ao Urbano Tavares Rodrigues, fidalgo das letras e dos afectos, senhor de uma incomensurável abnegação; no lado oposto, mais amainado, um encontro prometido com o António Manuel Venda, escritor de lugares e de vagares, e com ele uns minutos de conversa para rematar a tarde.
Se gostei da feira? Gostei, mas esqueci-me, pela primeira vez, de comprar um livro para mim. Mas também pela primeira vez, creio que pela primeira vez, a fartura que comi à saída, porque motivado, não me causou azia.
Azia que, para falar verdade, é o que muita criatura tem na cabeça quando a razão lhe desce para o estômago. Isto sou eu a lembrar-me agora, como quem foge com o rabo à seringa (digo, à feira), da derrota do Benfica frente ao Braga e do Jorge Jesus, numa espécie de acto de contrição, a desabafar que os seus jogadores precisavam de motivação. De motivação, disse ele. Pelos vistos, não há nada pior de que um plantel de luxo, bem pago e com mordomias desmotivado atrás de uma bola.
Lérias, pois então, dêem-lhes farturas, só farturas, boas e motivadas farturas, e no intervalo delas dêem-lhes livros, muitos livros sobre auto-estima e motivação, e se não souberem ler não faz mal, far-lhes-á bem passearem-se com eles, os livros, debaixo do braço, como quem aspira a novas oportunidades, que o que é preciso é mesmo um pretexto.
Afinal, que motivação têm os tornados na América ou um vulcão qualquer, como um impronunciável Grimsvotn, para as bandas da Islândia? Nenhuma, e no entanto…
E no entanto acabei por ir à feira do livro no último dia da feira do livro.

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segunda-feira, 2 de maio de 2011

António Souto – Crónica (35)

Já pensei em ameaçá-la com o FMI, mas sabemos bem como as aranhas são pouco dadas a palavras mansas e o FMI, esse, pouco dado a lidar com coisas insignificantes e nada proveitosas.
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Aranhas em Abril
Gosto de alguns animais, não gosto de outros. Gosto mais de uns animais, gosto menos de outros. Há outros, ainda, que me são praticamente indiferentes. As aranhas, por exemplo, nem gosto nem desgosto, digamos que convivemos bem. Desde muito pequeno que me habituei a vê-las pelos vários espaços da casa dos meus avós, tanto no exterior como pelo interior. Na minha puerícia, as aranhas eram todas iguais e andavam à solta pelo alpendre, pelo palheirão, pelos currais, pela adega, pela casa da eira. Uma ou outra vez chegavam a aventurar-se pelo corredor do primeiro andar, pela sala de costura, pela sala de visitas, pela sala de jantar, pelos quartos. A verdade é que a minha avó embirrava era sobretudo com as teias dentro de casa, que davam um ar muito feio e descuidado, e se alguém ali viesse em visita era uma vergonha. Por isso, teias dentro da habitação vinham logo abaixo com a vassoura. As aranhas, essas, por lá continuavam, até porque, diziam os meus avós, eram muito úteis na limpeza de alguma bicharada inconveniente. O certo é que nunca as vi comer nada, a não ser algumas moscas mais distraídas que ficavam presas nos seus bem urdidos fios e zumbiam que se danavam, mas em vão. Tudo vai do hábito e da familiarização, e as aranhas, portanto, se metem nojo e apavoram alguns nossos semelhantes, a mim não me aquecem nem arrefecem.
Mas às vezes exasperam e cansam. Cansam-me e afrontam-me.
Então não é que uma delas deu para se acomodar há um tempo no espelho retrovisor do meu carro, do lado do pendura? Vai daí e desata a fazer teias numa tentativa de criar uma ponte entre o espelho e o vidro da porta. Por que razão as faz, não sei, mas lá deve ter os seus porquês. Mas uma teia de aranha num carro, ainda que por fora, causa má impressão, como dizia a minha avó, dá um ar de descuido e de abandono, e o carro ainda vai andando, não está desamparado. Eu bem insisto em limpar regularmente a teagem, mas o raio da aranha pouco tempo depois a repõe com o mesmo cuidado e no mesmo sítio. Já reparei que os outros carros das redondezas também as têm, como se fosse arte de engalanar, mas detesto teimosias. Quando vou lavar o carro, o que faço com relativa frequência, aponto a agulheta para o espelho, para dentro dele, e fico sempre convencido de que a danada não vai resistir à violência do jacto, mas, logo no dia seguinte, lá está a maldita teia, acabada e reluzente. Já pensei em ameaçá-la com o FMI, mas sabemos bem como as aranhas são pouco dadas a palavras mansas e o FMI, esse, pouco dado a lidar com coisas insignificantes e nada proveitosas. Por isso, e enquanto não compro um spray eficaz, resigno-me.
Resigno-me, como quem se molda a um Abril cada vez menos Abril. A este propósito, e enquanto oiço neste dia vinte e cinco a voz de Zeca, fui procurar um texto que lhe dediquei, após o seu passamento, e que saiu no «Diário de Notícias» de três de Março de 1987. Porquê? Porque sim, questão de esperança.
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«Um Cravo Indisciplinado»
A uma dúzia de anos da revolução dos cravos, e já as vozes que então cantaram Abril se ensurdecem, uma a uma, na rouquidão do tempo. E em cada voz um pouco de Abril, que o mesmo é dizer, um pouco de nós.
Morreu Adriano. Seguiu-se-lhe Ary dos Santos. Chegou, (in)esperadamente, a vez de Zeca. Todos três fazendo-se ao rio na idade em que um homem se cumpre.
De Adriano, recordo um serão-convívio na companhia de Sérgio Teixeira (Serginho ou, também para os amigos, o Sérgio Mestre), seu fiel acompanhante. Cantou-se e animou-se «a malta» até às tantas, que a noite, nessas alturas, raro se antecipava.
De Ary dos Santos, a efígie dolente do féretro atravessando, em manhã cinzenta de chuva lacrimosa, a rotunda do Saldanha. Imagem que retive, horas depois, no breve poema «Resistência»: Grito vibrante/ Esbatido/ No vento vago/ Melodiosamente manso/ E um soturno sossego/ Firme/ Avançando lento/ Na noite escura/ Plena/ Rumo ao negro nó/ Do luto.
De Zeca Afonso, que poderei recordar? Por ora, que ainda é cedo, quiçá a súmula dos três, a réstia de esperança inadiável, a força capaz de erguer bem alto um cravo indisciplinado.
Ao Zeca e a quantos o aguardam no além, e que com(o) ele souberam lutar-cantando, que se cumpram, «porque na vida», dizia Camões, «ninguém alcança a glória merecida».
Requiescat in pace!
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Crónica de Abril de 2011 de António Souto (escrita no dia 25 de Abril) para o blog «Floresta do Sul»; crónicas anteriores: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28; 29; 30; 31; 32; 33; 34.

segunda-feira, 28 de março de 2011

António Souto – Crónica (34)

É claro que há coisas piores na vida da humanidade. O quê? Sei lá, um sismo, um tsunami, uma catástrofe nuclear, um conflito armado contra um líder que quer ser líder à força, uma crise política e económica e social aqui mesmo ao lado sem fim anunciado, sei lá…

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Polémica à parte

Há não muito tempo, a imprensa deu conta da anulação de uma tese de doutoramento de uma professora de uma escola superior por, espante-se, plágio. Uma professora-plagiadora, portanto. Reconhecida a inadmissível patranha, fez-se o que deveria ser feito. Há escassas semanas, também, um ministro da Defesa alemão, agora ex-ministro, foi desmascarado pela mesma intrujice. Num caso como noutro, e para além da perda do título, não sabemos das demais consequências, se porventura as houve. No caso português, pelo menos, havendo um compromisso de honra que garante a originalidade dos trabalhos de investigação, os casos de fraude detectados são encaminhados para o Ministério Público para eventual procedimento criminal. O que é grave é que quem tem a obrigação de contrariar estas atitudes – sendo professor ou figura publicamente reconhecida – seja autor destas mesmas atitudes recriminatórias.

Uma das muitas questões que se podem colocar, para além da questão ética, é a de saber quantos pretensos trabalhos científicos não andarão por aí a repetir-se uns aos outros. O delírio de mestrados e doutoramentos é hoje tal, na diversidade como na quantidade, que dificilmente se poderão delimitar as balizas da originalidade e do seu verdadeiro cunho científico. O importante é o título: a emissão do título pelas instituições ‘competentes’, a obtenção do título pelos ‘competentes’ candidatos. Uns e outros em luta pela sobrevivência.

O mal, para quem vê nisto algum mal, parece vir da base, parece medrar de pequenino, de quando se deveria torcer o pepino, de quando se deveria começar a aprender a ser gente e a ser cidadão, de quando se deveria saber o valor dos valores. Porém, do básico ao secundário, e do secundário à universidade, os alunos são discretamente orientados para o facilitismo de um trabalho pouco esforçado, sublinhando-se metodicamente a dimensão lúdica da aprendizagem sem olhar a idades, como se o acto de aprender no decurso do ensino formal se regesse pelos mesmos princípios pedagógicos e pelas mesmas regras da pré-primária aos bancos das universidades. E nisto, a nossa era de novíssimas tecnologias não é alheia à voracidade de querer chegar cada vez mais longe e mais depressa, fazendo-se tábua rasa do proverbial saber de que «depressa e bem não há quem».

Não se leia nestas palavras, contudo, algum conservadorismo nostálgico, nada disso, mas a urgência de cuidar do uso que se faz das insubmissas tecnologias, com a Internet à cabeça. O conhecimento, tão útil à ventura da humanidade, deve ser partilhado e colocado ao serviço de todos, mas não é seguramente aceitável fazer um uso indiscriminado e abusivo da Internet como ferramenta para a apropriação de propriedade intelectual e/ ou artística. O que quero reafirmar é que a escola deve estar na primeira linha na prevenção deste apetite que se inicia na escola e se prolonga fora dela. Primeiro um título, depois uma sinopse, depois uma impressão de leitura, depois uma recensão, depois a obra inteira, depois excertos sobre a obra inteira, depois os excertos todos que interessam sobre todas as obras e todas as reflexões. De um plágio que ainda o não é ao plágio puro que se disfarça vai um pequenino salto, mas um salto que, sendo tolerado, conduzirá a uma única partilha, a do embuste globalizado.

Resta-nos a esperança de que a Internet, hoje utensílio infelizmente facilitador destas tentações por parte de utilizadores despudorados, possa concorrer, também ela, para os desmascarar sem dó nem piedade. Uma esperança.

É claro que há coisas piores na vida da humanidade. O quê? Sei lá, um sismo, um tsunami, uma catástrofe nuclear, um conflito armado contra um líder que quer ser líder à força, uma crise política e económica e social aqui mesmo ao lado sem fim anunciado, sei lá, coisas um bocadinho piores…

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Crónica de Março de 2011 de António Souto para o blog «Floresta do Sul»; crónicas anteriores: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28; 29; 30; 31; 32; 33.

sexta-feira, 4 de março de 2011

António Souto – Crónica (33)

E de novo Eça e Ramalho, em coro: «Vamos rir pois. O riso é um castigo; o riso é uma filosofia. Muitas vezes o riso é uma salvação. Na política constitucional o riso é uma opinião.» É este o meu riso de hoje, só para não chorar…

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O meu riso de hoje
Camilo Castelo Branco era um escritor do seu tempo, de alma e coração, mas atento, e não só de amores perdidos e de amores achados deu forma à criação, mas igualmente de muitas outras coisas do estômago e da cabeça. Sabia ele do que falava, e sabia também quanto urgia ouvir e mudar na sociedade do seu tempo.
Lembrei-me dele por mor de Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, morgado das terras de Miranda, que, eleito deputado, abala convicto para Lisboa. Defensor dos bons modos e dos bons costumes, começa por criticar os gastos supérfluos da nação, os vícios da capital e mais as mentes brilhantes que, aqui chegadas, dignas procuradoras da plebe, cedo se deixam inebriar e de deslumbramento se olvidam das suas origens e dos seus deveres. Mas o peso da urbe fala mais forte, o luxo e a notoriedade castram a singeleza e a honestidade da gente provinciana, e o ilustre parlamentar aos poucos cede e se torna igual aos demais, no trajar por fora como por dentro.
E por arrasto vem o Eça, e com ele Ramalho Ortigão, e as «Farpas» de ambos, como estas: «O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Ninguém crê na honestidade dos homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente. O desprezo pelas ideias aumenta em cada dia. Vivemos todos ao acaso. Perfeita, absoluta indiferença de cima a baixo! Toda a vida espiritual, intelectual, parada. O tédio invadiu todas as almas. A mocidade arrasta-se envelhecida das mesas das secretarias para as mesas dos cafés. A ruína económica cresce, cresce, cresce. As falências sucedem-se. O pequeno comércio definha. A indústria enfraquece. A sorte dos operários é lamentável. O salário diminui. A renda também diminui. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo. Neste salve-se quem puder, a burguesia… explora. A ignorância pesa sobre o povo como uma fatalidade. A intriga política alastra-se. O país vive numa sonolência enfastiada.»
E por que razão há-de vir isto assim à crónica, nem eu sei bem, ou talvez o saiba e me não apeteça dizê-lo por palavras de minha lavra. Porque outros o disseram e dizem melhor, ou porque assim se pode dizer o que se reclama mas com o prazer acrescido da memória. Da memória que me traz de supetão o lema do porco Napoleão – «Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que outros.» – ou a longa «Parábola das tristes décadas» do Baptista Bastos de que aqui, por economia, transcrevo lascas: «Há trinta e cinco anos que vocês nos manipulam, nos dominam, nos mentem, nos omitem, nos desprezam./ Há trinta e cinco anos que nos roubam, não só os bens imediatos de que carecemos, como a esperança que alimenta as almas e favorece os sonhos./ (…)/ Há trinta e cinco anos que criam legiões e legiões de desempregados, de desesperados, de açoitados pelo azorrague da vossa indignidade./ (…)/ Há trinta e cinco anos que embalam as dores de duas gerações de jovens, e atiram-nos para as drogas, para o álcool, para uma existência sem rumo, sem direcção e sem sentido./ (…)/ Há trinta e cinco anos que se alternam no mando, e o mando é a distribuição de benesses, prebendas, privilégios entre vocês./ (…)/ Há trinta e cinco anos que vocês são sempre os mesmos, embora com rostos diferentes./ (…)/ Há trinta e cinco anos que, com minúcia e zelo, construíram um país só para vocês./ Há trinta e cinco anos que moldaram a exclusão social, que esculpiram as várias faces da miséria e, agora, sem recato e sem pejo, um de vocês faz o discurso da indignação./ (…)/ Há trinta e cinco anos que asfixiam o pensamento construtivo; que liquidaram as referências norteadoras; que escarneceram da nossa pessoal identidade; que a vossa ascensão não corresponde ao vosso mérito; que ignoram a conciliação entre semelhança e diferença; que condenam a norma imperativa do equilíbrio social./ Riam-se, riam-se. Vocês são uma gente que não presta para nada; que não vale nada./ Malditos sejam!»
E de novo Eça e Ramalho, em coro: «Vamos rir pois. O riso é um castigo; o riso é uma filosofia. Muitas vezes o riso é uma salvação. Na política constitucional o riso é uma opinião.»
É este o meu riso de hoje, só para não chorar…
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sábado, 29 de janeiro de 2011

António Souto – Crónica (32)

Isto foi quanto senti na antevéspera do escrutínio presidencial, e foi isto que se estirou até à divulgação dos resultados, momento em que um amigo meu, numa curta mensagem, pôs fim a estes devaneios com um conciso «Ora f…-se!». Um desabafo que me encheu a alma, como num intervalo do circo. Os palhaços que me perdoem.
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Janeiro por um fio
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Este é o primeiro mês do ano. Melhor, este é já o final do primeiro mês do ano. E não sei se é por ser o primeiro mês do ano ou se é por este ser o prenúncio de muitos outros que aí vêm de mal a pior, a verdade é que ando com moleza.
A bem dizer, ando com saudades do dia de Natal, só mesmo do dia de Natal (e já agora, por acréscimo, que lhe segue logo a peugada, do primeiro dia do ano), um verdadeiro dia de remanso e de manifesta imperturbabilidade. Não há dinheiro que pague o prazer delongado de um dia assim. A gente pode ficar na cama até tarde, que os afazeres não têm pressa; a gente não precisa de fazer comida, que sobra sempre de véspera; a gente não precisa de lavar a loiça, que a mesa é de petiscar; a gente não é azucrinada pelos telemóveis, que se consumiram os saldos; a gente não tem de responder a mensagens electrónicas, que se gastaram as palavras; a gente não se irrita com o tráfego da cidade, porque os carros fazem birra e não saem do seu canto; a gente não desembolsa o resto do dinheiro, porque o comércio se mantém praticamente encerrado. Estes são privilégios de um dia desigual, ainda por cima quando a estes se juntam outros que nos preenchem positivamente a alma, como uma edição comentada de «Mensagem», ou a voz única de Pavarotti irradiando a «Ave Maria» de Shubert, ou um Placido Domingo ou uma Céline Dion ou uma Mariah Carey ou uma Rita Guerra, à vez, preenchendo o silêncio num aconchego da tarde.
Maus hábitos, dir-se-á, que custam a passar, rematado que é já um mês. Raio de preguiça!
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Este é o primeiro mês do ano. Um mês propício a conjugar discordâncias.
Num dia, potencialmente de inverno, resplandece a nossa convergência europeia e ressurgimos como povo promissor. O Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA) revela-nos o grande salto que deram as nossas crianças e os nossos jovens nos conhecimentos e nas aptidões em matemática, leitura e ciências. Do fundo da tabela, galgámos para a média (quase) dos países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE). Um grande especialista desta organização explica o prodígio «pelas políticas seguidas nos últimos anos e por uma conjugação de factores como a avaliação de professores e um controlo sério da qualidade do ensino». Assim está bem (e somos tentados a coroar o raciocínio parafraseando o poeta – «o que não faz sentido/ É o sentido que tudo isto tem»). Disse também o grande especialista e responsável da OCDE que «diminuiu o peso das repetições», apesar de alto, e que «a diferença entre as escolas melhores e as escolas piores diminuiu», igualmente. Pronto, com tamanha proficiência vinda de fora e de quem sabe, estamos no bom caminho. Estamos?
Num dia, de facto de Inverno, encobrem-se os resquícios de sol e as nuvens fazem das suas. O Gabinete de Avaliação Educacional (GAVE) do Ministério da Educação, por voz autorizada, explica o que «o» Relatório deste serviço já registara quanto ao desempenho dos nossos alunos do oitavo ao décimo segundo ano, que «os estudantes não dominam os conceitos, manifestam falta de rigor científico, dificuldades em interpretar textos e problemas e em articular várias competências». E acrescenta, sem rodeios, que «é preciso tirar consequências das fragilidades detectadas”. Em que ficamos, portanto? Somos nós que nos auto-avaliamos com severidade? São os outros que nos avaliam com demasiada bondade? A «média» europeia é, vistas bem as coisas, tão mediocremente «média» como a nossa nacional?
Tudo reside, afinal, na arte de bem (des)conjugar!
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Este é o primeiro mês do ano. Um mês de dizer adeus aos malabarismos. Mas sem tristeza, pese embora o facto de sempre ter tido uma certa atracção pelo circo.
Primeiro, criança ainda, pelo circo que chegava à aldeia, numa ou em duas ou em três carripanas da altura, gente de miséria que montava arraial na praça local, a céu aberto, sem qualquer resguardo, e ali fazia à noitinha umas acrobacias no chão de terra batida ou a dois metros do solo, suspensa em estacas e varas e cordas de arrepiar. A canalha à volta, empurrando-se para melhor se deliciar, os adultos mais atrás, como quem não quer a coisa, avaros e prontos a desertar quando pressentissem o fim do espectáculo.
Depois, já espigado, pelo circo que se instalava na cidade, semanas inteiras, com imponência e feras de intimidar. A verdade é que ao pasmo da chegada se seguiu em mim constantemente uma inexplicável decepção à saída. O maravilhoso convertendo-se em desventura. A atracção dando lugar à sensação de logro, de vazio.
Foi isto que senti de novo ao ver a debandada do circo que se estendeu de um ano para o outro pela antiga feira popular de Lisboa. Lembrei a sessão a que assistira, empurrado. Pouca coisa para a expectativa do bilhete e de uma empresa de requinte a sério. Agora, mudam de poiso, invadem outro burgo, já só restam no descampado uns quantos atrelados, uns parcos contentores, uma tenda baixa ainda de pé. A desilusão desta grandeza amarga-me infinitamente mais do que a desilusão de outrora, do circo da minha aldeia.
Isto foi quanto senti na antevéspera do escrutínio presidencial, e foi isto que se estirou até à divulgação dos resultados, momento em que um amigo meu, numa curta mensagem, pôs fim a estes devaneios com um conciso «Ora f…-se!». Um desabafo que me encheu a alma, como num intervalo do circo. Os palhaços que me perdoem.
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Crónica de Janeiro de 2011 de António Souto para o blog «Floresta do Sul»; crónicas anteriores: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28; 29; 30; 31.
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sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

António Souto – Crónica (31)

… as chancas gastas e as botas encardidas a secar ao borralho para umas horas mais tarde acolherem os pés ligeiros e as poucas prendas que o menino Jesus acabaria por deixar na sua azáfama de estafeta noctívolo. Camisolinhas de aconchego, dois ou três pares de meias, uns lencinhos às riscas, tudo da loja próxima ou da feira dos vinte e seis. Quase não há lembrança de brinquedos, talvez uma camioneta de chapa muito colorida ou um pífaro de pistões a fingir.
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Um natal que já não é
Este é o último mês do ano. E porque mantemos inalterada a regularidade, esta é a última folha do calendário. De Janeiro a Dezembro, um saltinho de anão, que o tempo não dá tréguas e o que agora é… já foi!
Seria caso para, uma vez mais cumprindo a rotina, fazer balanços, mas não nos apetece, até porque de pouco ou nada servem quando os objectivos são precários ou inexistentes. E depois, sendo os natais o que sempre são, o melhor é pôr de lado os aborrecimentos da computação e cuidar de guardar uns trocos para um bolo-rei, para um qualquer, do mais tradicionalzinho ao gurmê, ao tropical, ao salgado, ao de chocolate ou ao escangalhado, mas um bolo-rei que se traga para a mesa, se possível redondo, para tragar com a natividade dentro.
Bem sei que o natal não é já o que dantes era, quando era mesmo natal, com uma aldeia a sério, e no ventre dela muitas casas escuras e desalinhadas e todas com fumo nas chaminés entupidas de fuligem.
Aquilo é que era lindo, as rachas a arder ao declinar da tarde, com a casca a estoirar quando os toros ainda verdes, e a lenha ali toda à mão para a noite inteira, e o calor que o brasido dava à casa e aos corpos.
A gente ali à espera contando os serões de Dezembro, e quando chegava a véspera do grande dia era uma festa de gestos e de desejos, um remoinho de comeres distintos, mesmo quando iguais, mas provados com o vagar que faltara antes e que faltaria depois, que a lida não se compadecia com delongas e o gado tinha que se alimentar. (E como doía ir para o campo à frente das vacas pelos caminhos de água ou cortar a erva diária nas manhãs de geada, as mãos e os dedos entorpecidos…) E como o jantar se alinhava então com as iguarias de memória… eles eram os bilharacos e as filhoses e as rabanadas e a aletria e às vezes o arroz-doce e também os biscoitos sortidos da Triunfo trazidos por um primo da cidade e as broinhas de mel e os bombons trazidos por parentes da capital!
A gente toda sentada à mesa, naquele dia mais comprida que o habitual, a luz do tecto tremeluzente (com um candeeiro de petróleo de prevenção), um desforrar de estômagos e de conversas vagas. Uma noitada que nos esquecia sempre a missa do galo, que era sempre muito cedo para quem se amesendava sempre tarde, e as castanhas (assadas sob a caruma afogueada) e o bolo-rei faziam pesar demasiado os físicos já cansados e a pedir deita.
Aquilo é que era lindo, as chancas gastas e as botas encardidas a secar ao borralho para umas horas mais tarde acolherem os pés ligeiros e as poucas prendas que o menino Jesus acabaria por deixar na sua azáfama de estafeta noctívolo. Camisolinhas de aconchego, dois ou três pares de meias, uns lencinhos às riscas, tudo da loja próxima ou da feira dos vinte e seis. Quase não há lembrança de brinquedos, talvez uma camioneta de chapa muito colorida ou um pífaro de pistões a fingir. Mas havia também um chocolatinho cobiçado com uma prata muito bonita que a gente esticava cautelosamente e metia no meio de um livro para se alisar com o tempo. Ah, falta ainda acrescentar que naquele dia em que o menino vinha ao mundo, a gente se vestia com roupa nova, que ficava durante muito tempo nova e muito tempo limpa.
Bem sei que o natal não é já o que dantes era, muito mais natal. Mas esta nossa idade, agora de abastança e crise, continua a acreditar num menino que cresceu e se transformou em pai, sobretudo num pai natal aleivoso e mortinho por que acreditem nele. Afinal, em que pode a gente mais acreditar? Voltemos a página!
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sexta-feira, 19 de novembro de 2010

António Souto – Crónica (30)

Nos bastidores, as águas agitam-se. Sugere-se remodelações. Cavaco não dá cavaco. Alegre parece triste. O povo sufoca. O inverno chega de mansinho e os dias são mais pequenos e menos radiosos.
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Um acto com muitas cenas
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(Tudo gira em torno de um orçamento. Tudo se iniciou antes dele, muito antes dele. Tudo se prolongará para além dele, muito para além dele. Um cenário de crise anunciada. Uma crise real, um mau cenário.)
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Cena I
Dia 29 de Outubro, final de um Conselho de Estado e fim de sexta-feira (aziago, como muitas sextas). O presidente da República insiste que há muito sabia dos desatinos e dos sérios problemas que Portugal enfrentava e que não se coibiu de chamar a atenção para eles e etcetera e tal. Mas sempre com a discrição que o assunto exigia. Um presidente, portanto, discretíssimo. O Conselho de Estado, discretamente convocado, por sua discreta iniciativa, confirma que a situação é efectivamente crítica e que urge um entendimento.
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Cena II
Dia 30, sábado de temporal, dia seguinte e véspera do Dia Mundial da Poupança, sabemos que afinal há concertação, mas desconcertada, e que à poupança, a bem ou a mal, ninguém haverá de escapar, mesmo que não tenha mais para poupar do que as unhas, coisa nossa que sempre cresce.
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Cena III
Eduardo Catroga (protagonista da oposição) faz uma extensa e repetitiva declaração. Um delírio de protagonismo pessoal e institucional! O entendimento-acordo fora assinado. Às vinte e três horas e dezanove minutos! A precisão do tempo zelosamente captada. O rigor do espectáculo. Com o artifício das palavras.
«Vou guardar no meu álbum esta fotografia tirada pelo meu staff, para juntar aos milhares de negociações que levo nos meus 68 anos e mais de 45 anos de experiência profissional.»
«As condições minimalistas que eu tinha apresentado na terça aproximavam-se das que agora estão no acordo. Se as tivéssemos aceitado na terça, podíamos ter evitado ao país o espectáculo de quarta, o espectáculo de quinta, o espectáculo de sexta e o espectáculo que estamos a dar hoje aqui».
O espectáculo. O mau espectáculo a condizer com o mau cenário.
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Cena IV
Teixeira dos Santos (protagonista residente), em menos de um terço do tempo, justifica um entendimento que, pelos vistos, não é bem um entendimento. Porém, é tudo a sério, muito a sério. Como as palavras, o artifício também das palavras.
«Este é o orçamento mais importante dos últimos 25 anos.»
«O governo manifestou o seu sentido de responsabilidade e de coragem.»
«Com este entendimento o país vai ter o seu orçamento e evita-se assim uma crise.»
«Um orçamento que vai ter custos, um agravamento em mais de 500 milhões de euros que terá de ser agora compensado.»
«Um orçamento em que o PSD quis dourar a pílula.»
«Agora é preciso que o PSD apoie as medidas necessárias para que se assegure o cumprimento do défice de quatro vírgula seis.»
«Gostaria de ter podido tirar uma fotografia aqui com o senhor professor Eduardo Catroga a assinar o acordo, mas tal não foi possível, já que não houve vontade de conferência de imprensa conjunta.»
Só faltou mesmo a fotografia. E, pelos vistos, faltou igualmente o staff.
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(O cidadão-espectador resigna-se a assistir, com pouca ou nenhuma vontade já de aplaudir, com nenhumas forças para protestar.)
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Cena V
Dia dois de Novembro, um debate muito pouco debate, um debate muito retórico e muito pouco edificante, um debate de acusações que toda a gente já ouviu e leu. Um hemiciclo, afinal, muito redondo.
Questões de fundo, praticamente nada, apenas uma polifonia gasta, reincidente e aborrecida.
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(Mais do que isto, só a repetição incontinente dos comentadores que, em directo, têm o condão de amofinar os telespectadores com interpretações sobrepostas.)
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Cena VI
Meia dúzia de dias após, fim da acumulação das pensões e de salários na função pública.
«Pouco impacto na poupança, mas é uma questão de moralização.»
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(O cidadão percebe agora que são precisos muitos anos para concluir que é imoral aquilo que era já imoral!)
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Cena VII
A dívida pública dispara. Os juros também. Paira o espectro do FMI. Os mercados internacionais fingem ameaçar. Tudo soberano. Tudo enredo. Tudo fábula.
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Outras cenas
Os mercados internacionais indiciam tréguas. As sondagens baralham as intenções de voto. As oposições não são mais do que isso. Nos bastidores, as águas agitam-se. Sugere-se remodelações. Cavaco não dá cavaco. Alegre parece triste. O povo sufoca. O inverno chega de mansinho e os dias são mais pequenos e menos radiosos.
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(Tudo gira em torno de um orçamento. Um orçamento mau e simultaneamente menos mau. Um acordo bom e simultaneamente menos bom e simultaneamente mau. Um encenador fora de cena. Actores definitivamente personagens num mau cenário e numa má peça. Um guião que já não serve.)
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