Foi há pouco mais de um ano. Eu lia «Os Maias». Era a terceira vez, depois do Verão de 1986 e depois de um outro Verão nos tempos finais da faculdade, 1990, ou talvez 1991. Ouvi esta frase: «O lobo mau estava a jogar à bola e de repente passaram-lhe uma rasteira.» Um «excerto» da obra-prima de Eça de Queirós, pelo menos a julgar pelo que o meu filho, então com quatro anos, «leu» a uma das irmãs, então com dois. Isto logo a seguir a tirar-me o livro da mão. Lembro-me de que ia naquela parte em que Ega visita a redacção do jornal «A Tarde».Claro que quando falo em três leituras do romance não conto com uma outra, dos tempos da Escola Manuel Teixeira Gomes, em Portimão. As aulas de Maria Amélia Saraiva, oficialmente professora de português mas na prática uma psicopata que atormentava os alunos aula após aula, ano após ano (e já levava então, de certeza, mais de cinquenta a «ensinar»). «Os Maias», naquelas aulas, não passava de um livro detestável, como qualquer livro que tivéssemos de ler com o acompanhamento de tão sinistra figura. De muitas coisas que poderia recordar desses tempos, deixo uma, a frase que ouvia se não acertava numa resposta sobre o romance: «Os teus Maias não são iguais aos meus. De certeza que os compraste em Monchique.»
Quando no Verão passado ouvi o meu filho falar no lobo mau enquanto olhava para as páginas de «Os Maias», lembrei-me de novo da sinistra professora e da frase que por vezes me era dirigida. E por momentos passou por mim a tentação, mesmo o meu filho não sabendo ler, de ir verificar se naquela edição havia algum problema. E não era a que eu usava nos tempos da Escola Manuel Teixeira Gomes, de capa dura, vermelha, da Livros do Brasil, e que tinha mesmo comprado na livraria de Monchique. Era outra, que muitos anos depois me tinham oferecido.
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