sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Fim

A última crónica de Pedro Rosa Mendes na RDP pode ser ouvida aqui. Enquanto caminhamos a pouco e pouco para o fascismo.

Gralhas

Vejam esta gralha da SIC sobre o Carvalho da Silva.
Eu já o entrevistei para a revista. Lembro-me dos cuidados extremos que dessa vez tivemos na revisão, e o mesmo acontece com outros Carvalhos que têm sido entrevistados ou que têm assinado artigos de opinião, ou simplesmente que têm sido referidos em reportagens, por exemplo.
Acho que a pior gralha que me aconteceu foi esta: um português, director da filial em Portugal de uma multinacional, foi convidado para assumir responsabilidades a nível europeu, com o nome do cargo em inglês: Head of Strategy. No texto que eu escrevi saiu uma gralha, ficando o cargo Dead of Strategy. Uma pessoa da empresa telefonou-me a pedir explicações. Disse-lhe que uma das hipóteses poderia ser uma traição do corrector e pedi desculpa pelo sucedido. Ele queria uma nota na edição seguinte da revista. Disse-lhe que era melhor não, que mais valia esquecer o assunto do que voltar a referi-lo. Ele não pareceu convencido. E então eu disse-lhe que a nota seria mais ou menos isto: «No texto tal tal da edição passada, sobre o novo cargo do senhor tal tal, quando se referiu Dead of Strategy queria-se referir Head of Strategy.» E aí ele ficou convencido, dizendo que voltar a falar em Dead of Strategy nem pensar.
Há muitos anos, eu próprio fui a vítima. Um jornal da minha terra convidou-me para fazer uma pequena crónica semanal e pediu-me que arranjasse um nome genérico para ela. Já não sei por quê, lembrei-me de «O Varredor de Luas». Quando recebi o jornal com a primeira crónica, a primeira coisa que vi foi que o nome tinha mudado. Mandei um mail para o jornal a perguntar o que tinha acontecido. Disseram-me que o revisor tinha visto «O Varredor de Luas» e que tinha achado que eu me tinha enganado, daí ter mudado para «O Varredor de Ruas».

Por aqui


Uma lógica

Em tempos de tão pouca independência, não fiquei nada espantado por um dos feriados escolhidos para acabar ter sido aquele em que se comemora a restauração da nossa independência. Estranhamente, quem pareceu espantado foi o próprio tipo que fez o anúncio, de olhos esbugalhados como se atrás de alguma das câmaras que o filmavam estivesse um fantasma, ou na volta o deputado do PCP Bruno Dias, que numa comissão parlamentar o fez passar uma vergonha histórica; ou então algum padre/ sacerdote de Braga.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Como os responsáveis do Sporting envergonham o clube


Não sei de quem foi a ideia de colocar estas imagens lamentáveis no acesso a um dos balneários do estádio do meu clube, no caso o da equipa visitante. Presumo que a intenção fosse de alguma forma afectar os jogadores adversários (como noutros estádios é de uso fazer utilizando para isso seguranças contratados para provocações), mas duvido que consigamos ganhar campeonatos à custa disto. Godinho Lopes fica muito mal na fotografia, pior até do que alguns dos modelos das imagens. Nunca tive boa opinião sobre ele e isto agora ainda contribui mais para que isso se mantenha. Embora reconheça que ele, ao pé do anterior, José Eduardo Bettencourt, pode ser considerado uma espécie de Prémio Nobel do futebol. Mas isso é numa comparação única, com o mais vergonhoso presidente da história do Sporting, ao pé do qual, como em tempos escrevi, Jorge Gonçalves merece já não digo uma estátua mas pelo menos um busto. Godinho Lopes e o grupo de pessoas que o acompanha na gestão do Sporting envergonharam o clube com esta parvoíce. Não afectaram os adversários, afectaram-nos foi a nós. Denegriram a nossa imagem. Imagino que os jogadores do Porto se devem ter rido daquilo ao passarem por lá, assim como os de outras equipas. Imagino que se devem ter rido de nós todos. Devia haver no Sporting um órgão qualquer que pudesse actuar quando nos fazem passar estas vergonhas – a Assembleia Geral, o Conselho Leonino, o Grupo Stromp, sei lá, algo que nos deixasse a salvo da estupidez de quem tem o poder de tomar decisões que nos afectam a todos enquanto sportinguistas.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Um título no meu pequeno caderno


O primeiro jogo do Sporting que vi ao vivo realizou-se fora de Alvalade, em Portimão, e acabámos por perder (já o primeiro jogo no nosso estádio, esse deu uma vitória por sete a um, frente a uma equipa das redondezas). Procuro a data do jogo de Portimão num pequeno caderno onde nessa época ia apontando tudo jornada após jornada. E lá está, a quatro de Abril de 1982. Íamos bem lançados para ser campeões, mas durante cerca de um mês trememos. Foi a nossa pior fase num campeonato que eu acompanhava com a certeza de que o título não nos escaparia. Já no Verão de 1981 eu pensava assim, com o que ouvia na televisão e lia nos jornais sobre o estágio da equipa na Bulgária, ainda por cima com um novo guarda-redes que alguns jornalistas diziam ser capaz de fazer defesas impossíveis.
Vejo agora no pequeno caderno com mais de um quarto de século a sucessão de maus resultados que poderiam ter deitado tudo a perder. Um empate em casa com o Espinho, uma derrota no estádio do Boavista, depois uma vitória sofrida em casa (com a tal equipa dos sete a um apalavrados pelo destino para daí a quatro anos), até que chegou a visita a Portimão, vinte quilómetros abaixo da serra onde eu morava. Lembro-me de a minha mãe me ter dado dinheiro e de me falar em poupar nesse dia o mais que pudesse porque o bilhete ia ser bem caro, se eu conseguisse arranjá-lo. Fui para o estádio sem certezas, ainda por cima gastando logo uma parte no autocarro porque era época de férias das aulas num liceu de Portimão e o passe não contava nesses dias.
Eu passava muitas vezes perto do estádio do Portimonense no caminho para o liceu. Era um lugar tranquilo, mas naquela tarde de domingo uma multidão tinha mudado tudo. Tanta gente por causa da visita do Sporting... E as bilheteiras fechadas. Já não havia bilhetes quando cheguei, e isso por momentos fez-me entrar em pânico. Mas de repente apareceu-me alguém pela frente com um maço de papelinhos. Bilhetes… Só podia ser, não ia andar ali um tipo a vender rifas ou coisa do género… Era mesmo bilhetes, e ele pedia trezentos escudos por cada um. Pensei que não teria tanto dinheiro, mas lá contei e a verdade é que tinha, mesmo quase não dando para mais nada, nem para o autocarro, nem para comer alguma coisa de jeito. Decidi depressa. Comprei um bilhete e corri para a entrada de uma zona onde se ficava de pé, lembrando-me do que tinha ouvido falar de bilhetes falsos e quase tomado pelo medo de ser apanhado com um. Mas consegui entrar, e ainda a tempo de ver a parte final do aquecimento dos jogadores.
Pouco depois vi o guarda-redes húngaro, muito magro, de cabelo comprido e com um bigode enorme. Aproximava-se da baliza atrás da qual eu me tinha conseguido colocar, junto ao gradeamento, a mesma baliza onde tinha acabado de fazer o aquecimento o guarda-redes do Portimonense. A claque do Sporting estava por perto e por isso a agitação era enorme. Tinha de ter atenção, ainda por cima tendo ficado junto ao gradeamento, mas não me preocupava. Estava a ver o Sporting ao vivo pela primeira vez e isso é que me importava. Nem o Portimonense me preocupava.
Eu tinha a certeza e que ia colocar no pequeno caderno mais uma vitória do Sporting, para confirmar a do fim-de-semana anterior frente à equipa da vizinhança e acabar definitivamente com a fase má. Porque acreditava que estávamos na caminhada para mais um título de campeões. Só que o jogo começou e o Sporting não jogava. O Oliveira estava de fora. O Manuel Fernandes, o Jordão, o Lito (que duas décadas depois haveria de ir bater com o carro dele no meu, no Estoril), o Carlos Xavier (que um pouco antes do desastre com o Lito, no casamento de um amigo comum, me tiraria uma fotografia quando já estava um bocado alegre e depois ao ver-se a foto lá estava ele, porque tinha a máquina virada para o próprio rosto), o Mário Jorge, o Eurico… Simplesmente não jogavam, por mais que o treinador inglês, Malcolm Allison, lhes gritasse lá de longe, do banco dos suplentes.
Os jogadores que jogavam eram os do Portimonense. E eu, agarrado ao gradeamento, a dois metros do guarda-redes Meszaros (de quem já sabia dizer bem o nome, depois das confusões iniciais), nem queria acreditar. E apareceu um penalty contra nós, que eu pensei que ele mesmo enervado com o comportamento dos colegas haveria de defender sem problemas. Mas não defendeu. O penalty foi marcado por um brasileiro pequenino e de cara grande, muito redonda e com barba. Chamava-se Tião, como um dos bonecos dos livros do Tio Patinhas que eu começava a deixar de ler. Mesmo assim não desesperei, pensei que com o decorrer do jogo haveríamos de recuperar. Mas sobre o intervalo apareceu um jogador alto do Portimonense, chegado da Bélgica, um português que por lá tinha andado emigrado e tinha um nome que parecia estranho para jogador de futebol, Norton de Matos. Só que desenrascava-se a jogar, principalmente quando o punham a avançado. Nessa jogada, apanhou a bola à entrada da área, andou às voltas e disparou. O Meszaros ia defender, voltei a pensar, mas ele não defendeu. E de repente estávamos a perder por dois a zero.
Era a primeira vez que eu via o Sporting a jogar sem ser na televisão, e íamos perder. Como as coisas estavam, como depois recomeçavam na segunda parte, senti que íamos perder… E foi assim. O jogo ficou em dois a zero, e nem foi azar, porque nesse domingo à tarde a equipa do Sporting não parecia a mesma que ia à frente do campeonato.
Lembro-me de voltar para casa à boleia, fazendo contas, nos meus catorze anos, aos pontos e aos jogos que nos faltavam. E de pensar em como haveríamos de acabar com aquela fase má em que só conseguíamos ganhar à equipa da vizinhança. Mas mesmo assim os maus resultados continuaram, primeiro um empate em casa com o Leiria e depois outro em Guimarães. Foram seis jogos do campeonato em que só ganhámos um, o jogo em que nosso capitão levou um murro do guarda-redes adversário, dentro da área, murro que valeria um dos dois penalties assinalados e concretizados pelo Jordão.
Mas tudo acabou por correr bem. Voltámos às vitórias, duas seguidas, ambas por três a zero, em casa com uma equipa chamada Amora e depois no Estoril, onde garantimos o campeonato. O meu primeiro campeonato, porque antes eu pouco ligava a futebol. No único jogo que vi ao vivo, quando o Sporting foi jogar perto da minha casa, perdemos. Mas fomos campeões, como eu sempre acreditava a cada jogo que apontava no pequeno caderno, mesmo que por vezes não apontasse uma vitória.