segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

2008

Para todos os leitores deste blog, um excelente ano de 2008!

Aviões no Monfurado – 4

Início da série aqui.

Os melhores livros de 2007

Não é mesmo nada fácil a tarefa de escolher os livros do ano de 2007. Falo da ficção. O ano foi mau, não me atrevo a dizer para a literatura mas para mim. Explico… Passei o ano a ver se encontrava alguma coisa de jeito para ler e a verdade é que não tive lá muita sorte. Não me lembro de um ano assim desde há muito tempo. Por isso é que é difícil meter-me em escolhas. Por ter de confessar esta desilusão com a generalidade do que por cá se publicou. Faço um esforço, tento recordar-me do que me interessou mês após mês e o panorama é assustador. Tirando umas poucas excepções, mesmo alguns romances que li com interesse acabam por ter problemas que me levam a não contar com eles, por exemplo traduções descuidadas ou revisões igualmente descuidadas; para não utilizar adjectivos piores.
Este fim-de-semana estava a ver listas do «Expresso», com não sei quantos críticos a apontarem títulos; descobri, meio assustado, que pouco daquilo que referiram poderei eu aqui referir. E descobri, desta vez espantado, que dois livros que considero fabulosos foram simplesmente ignorados, por todos. Noutros balanços que vi, a mesma coisa. São, para mim, os dois livros do ano. Enfim, o problema talvez seja meu. Refiro a seguir os livros, dois romances, um de um autor português e outro de um autor estrangeiro.
Primeiro o português… «O Expresso de Berlim», de António Andrade Albuquerque (editado pela ASA). Falo do livro aqui. O autor é o conhecido escritor de romances policiais assinados com o pseudónimo Dick Haskins. A acção decorre em plena Segunda Guerra Mundial, começando em Lisboa, em Agosto de 1943. Um jovem professor universitário, filho de um português e de uma alemã, vai viver uma aventura extraordinária, em Portugal, em Inglaterra, em França e principalmente na Alemanha nazi. A história é empolgante, consegue sempre agarrar o leitor, e a escrita é simplesmente notável. Ou seja, o romance junta duas coisas que cada vez mais vão faltando à literatura portuguesa, uma boa história e o domínio da língua – em muitos casos, por cá, há histórias interessantes que chegam na escrita ao cúmulo de aparecerem com erros de meia-noite e imagens que chegam lá perto ou até vão até mais tarde; e há histórias bem escritas que se não são impenetráveis acabam mais página menos página por dar cabo da paciência a muito boa gente.
Quanto ao autor estrangeiro… De longe, como no caso português, Santiago Gamboa e o romance «A Síndrome de Ulisses» (também da ASA). Não escrevi sobre esse romance (mas escrevi, por exemplo, sobre o anterior, o inesquecível «Os Impostores» - ver aqui). Santiago Gamboa é um escritor extraordinário, que integra um pequeno grupo de, digamos assim, heróis que tenho na literatura (Javier Cercas, Roberto Ampuero…), heróis dos quais posso comprar qualquer livro de olhos fechados porque tenho sempre uma inabalável confiança de que se trata de algo muito bom. Este «A Síndrome de Ulisses», que tem como pano de fundo a vida terrível de muitos dos imigrantes ilegais de Paris e volta a ter uma personagem principal que imaginamos ser o próprio Santiago Gamboa, confirma tal confiança. Com a vantagem de a tradução ter sido feita por um escritor muito bom, José Riço Direitinho, que infelizmente não publicou nenhum livro em 2007.

Os melhores blogs de 2007

Escolha fácil, mesmo muito fácil. Um blog individual, ou quase individual, («A Origem das Espécies», de Francisco José Viegas, e um blog colectivo («Corta-fitas»). Já para os livros, escolher os melhores de 2007 é uma tarefa mais complicada, como no post seguinte explicarei.

Aviões no Monfurado – 3

Início da série aqui.

Piada é quando o homem quiser

A propósito do post anterior, o Lobo Antunes quando quer também tem alguma piada.

Obs.: a professora de Português que tive no complementar, uma autêntica psicopata a quem nunca deveria ter sido permitida a entrada numa sala de aula (a não ser como aluna), dizia sempre que «é quando» não era português, que se deveria dizer «verifica-se quando»; acho que sim, mas ali no título eu tinha mesmo de usar o «é quando».

Campo da concentração

No campo da concentração editorial parece que a Autoridade da Concorrência não se lembrou ainda de entrar. Telecomunicações, grande distribuição e por aí adiante ainda vá que não vá, agora livros…

domingo, 30 de dezembro de 2007

Um bocadinho de «O Medo Longe de Ti»

(…) Lembras-te? Foi o que disse. E depois, um bocadinho depois, aí é que consegui falar mesmo de forma continuada. Falei muito, disse que não, que talvez a coragem não tivesse voltado, que talvez não fosse falta de coragem a razão do meu silêncio. Talvez até fosse o contrário, talvez a falta de coragem estivesse em dizer que te amava e querer meter-me todo dentro dessa expressão tão pequenina, como se ela me pudesse valer. Mas como fazê-lo de outra maneira que não pelas palavras? Tinha de te dizer que te amava, que te amo, porque não havia, não há, outra expressão, outras palavras, a menos que eu as conseguisse inventar. Mas não conseguia. Não consigo. Ou não queria. Ou não quero. Como eu falava, tanto...
– Penso se não seria preferível não dizer nada. Ficar apenas de mão dada contigo.
Era o que te dizia, que talvez fosse preferível perder-me na cartografia serena e acolhedora que se desenhava nos cantos dos teus lábios quando sorrias. Apenas. Não seria isso, afinal, o amor?
– A sensação de quando se vê o mar pela primeira vez, quando somos pequeninos e alguém nos leva pela mão, e há o medo da areia que nos foge debaixo dos pés…
Sim, era o que te dizia, o meu fascínio pelo mar, que em criança eu via ao longe, do alto da serra, da minha floresta do Sul, o mar, a vinte quilómetros de distância, aonde eu não ia muitas vezes. Era o que te dizia, o que eu falava, todo aquele mar cabia dentro de nós, o mar que por vezes surge também como um reflexo do que trazemos dentro.
– Já nem sei... Tu sabes? O mar que, então, percebemos já conhecer, o mar que mesmo assim nos assusta, mas que ao mesmo tempo nos acalma. Foi dessa forma que te perguntei o nome, talvez não tanto para o saber, mas para o confirmar, nem sei...
Mexeste os lábios. Os pequenos traços que eu já tinha decorado, perto, os pequenos traços no teu rosto, numa agitação breve. Pensei que ias dizer qualquer coisa, mas não, não disseste nada. Falei de novo:
– Foi assim que te perguntei o nome, eu, pequenino outra vez, de frente para o mar, eu, pequenino e sem ninguém, nessa vez, sem ninguém que me segurasse a mão. A minha mãe, ao longe. Eu, pequenino, e a areia a fugir-me debaixo dos pés. Eu, pequenino, com medo de me desequilibrar.
Tu não dizias nada. Largaste a minha mão, e com as duas mãos escondeste o rosto, como se não quisesses que eu te visse a chorar, se chorasses, ou a sorrir, se sorrisses. E eu, atrapalhado, de novo atrapalhado com esse teu gesto, calei-me. Por um segundo pensei que ias desistir, um segundo que me pareceu que poderia demorar quase toda a noite a passar. Olhei para o céu, fiz um olhar de estranheza, sem saber bem por quê. O céu negro, sem uma estrela, sem um rasto da passagem da bruxa dos ciúmes. E o gnomo, na algibeira... Estaria lá? Meti a mão, as duas, as duas ao mesmo tempo na algibeira do lado esquerdo. Era essa. Se não tivesses os dedos a tapar os olhos, irias estranhar tudo aquilo.
(…)

(excerto do meu romance «O Medo Longe de Ti», ed. Temas e Debates)

Aviões no Monfurado – 2

Início da série aqui, com um avião que quase não se vê; mas está lá, entre duas nuvens tímidas, bem acima do montado.

Escritores no meu romance (33)

Michel Folco, França
Mesmo que se trate da guerra, sabe muito bem que os filhos de executores nunca são inscritos nas listas das sortes. O mágico não corre qualquer risco.
(excerto de «O que Entra nos Livros», página 67)

Vale mesmo a pena

Vale mesmo a pena ler o balanço do ano que o Francisco publica no seu «A Origem das Espécies»; aqui, aqui e aqui. Não surpreende, vindo do mais notável autor da blogosfera (acho que se escreve assim) portuguesa.

sábado, 29 de dezembro de 2007

A prova

Os carrinhos que aqui mostrei fizeram mesmo parar um livro de um escritor. Fica esta foto como prova.

Aviões no Monfurado – 1

Uma série de doze fotos de aviões a cruzarem os céus sobre a Serra do Monfurado; tiradas aqui à volta de casa. Esta é a primeira foto.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Um saltinho a Évora

Esta tarde, num percurso diferente do habitual: de carro até Casa Branca, depois a automotora e num quarto de hora a estação na zona industrial, com a cidade depois, atrás das árvores despidas. (três fotos abaixo)







Eu numa história do José Eduardo Agualusa

Esta história já está disponível na Internet, por isso a coloco aqui também. Foi publicada há uns meses pelo José Eduardo Agualusa, na revista do «Público». Dei lá com o meu nome, ou seja, de certa forma posso dizer que eu também entro. Quando o José Eduardo fez a apresentação de um romance meu, acabado de chegar do Brasil (ele, não o romance), eu disse na intervenção que fiz que ele estar ali a apresentar o romance era uma honra tão grande para mim como se de repente tivessem chegado da Colômbia para o fazer ou o nobel Gabriel García Márquez, ou o notável Santiago Gamboa, ou como se numa viagem mais curta, de Espanha, tivesse chegado o fantástico escritor Javier Cercas. Aparecer numa história do José Eduardo Agualusa é quase o mesmo, é como se García Márquez, Gamboa ou Cercas, ou tantos outros escritores de livros para mim inesquecíveis, soubessem que eu existo e me referissem numa história, nem que fosse só a passar numa rua, sem participar em nada, tipo a fazer número. A história do José Eduardo Agualusa chama-se «O meu primeiro livro».
***
O meu primeiro livro
José Eduardo Agualusa
Certa ocasião, numa livraria de Lisboa, um poeta postou-se diante de mim e começou a declamar. Fazia-o com ânimo, com ênfase, os puros olhos rasos de água. Julguei reconhecer alguns dos versos; mais do que isso reconheci-me neles enquanto jovem. Eram, talvez, um pouco ingénuos, da forma apaixonada, desastrada, com que eu mesmo fui ingénuo aos vinte anos. Finalmente o poeta sossegou. Puxou de um lenço e secou as lágrimas. Aclarou a voz:
– Lembras-te?
Puxei pela memória, desesperado (tenho má memória). Ia arriscar um nome quando ele prosseguiu:
– É teu! É um poema teu! Publicaste-o há muitos anos nas páginas do DN Jovem.
A revelação acendeu em mim uma série de imagens. Lembrei-me, claramente, de um grupo de jovens reunidos em torno de uma larga mesa, numa esplanada do Parque Eduardo VII. Voltei a ver o belo sorriso do Manuel Dias, coordenador do suplemento, ao qual devo a publicação do meu primeiro livro, pois foi ele quem entregou o manuscrito ao editor. O DN Jovem foi um espaço importante para mim e para muitas dezenas de outros jovens escritores. Pelas suas páginas passaram nomes como o José Luís Peixoto, Pedro Mexia, José Riço Direitinho, António Manuel Venda, e muitos outros, hoje bastante conhecidos.
– E o Manel? – Perguntei, tentando distraí-lo, fazê-lo esquecer o poema. – Tens sabido do Manel?
O poeta ignorou soberanamente a minha questão.
– Gosto muito daquele teu poema. Não imaginas quanto. Fotocopiei-o, ampliei-o, e tenho-o emoldurado no escritório, pendurado na parede, mesmo diante da minha secretária.
Fiquei sem fala. Ia para agradecer-lhe. Ia para o abraçar. Mas antes que tivesse tempo o poeta disparou, brutal:
– Depois disso nunca mais publicaste nada de jeito!
E foi-se embora, deixando-me ali, atordoado, com meia dúzia de romances e outras tantas colectâneas de contos – vinte anos de trabalho! – que, no entanto, não valem, segundo ele, um único poema escrito no início de tudo.
Lembrei-me deste episódio quando, recentemente, um jornalista me perguntou se voltei a reler o meu primeiro romance e o que acho hoje dele. Respondi-lhe que não, que não o reli porque tenho medo de me envergonhar. O jornalista pensou, e escreveu-o, que receio envergonhar-me com as imperfeições dessa primeira aventura literária. Mas não: receio é envergonhar-me, ao relê-lo, com aquilo que escrevo hoje.
A idade, a experiência, dá-nos um maior domínio das técnicas, uma maior sabedoria, mas desconfio que, com o passar dos anos, se nos vai esmorecendo a paixão. Quanto a mim prefiro a vida, a arder de vida, mesmo com muitos erros, do que uma morta versão da vida, por mais elegante que seja o embrulho. Conta-se que o pintor catalão Jaume Casanovas encontrou um dia numa feira o retrato de uma criada de quarto, e que se deteve, fascinado, a estudá-lo: não obstante certa rudeza havia naquele rosto uma verdade, uma intensidade, que ele procurara anos a fio. Então reparou na assinatura, a um dos cantos, e era a sua. Pintara-a ainda adolescente, e depois esquecera-se dela.
Se não houver emoção pode haver verdade, ou a ilusão da verdade? E o que é a literatura sem a ilusão da verdade? Um bom romance é o que assegura ao leitor, «tudo isto aconteceu», e ele acredita, e se comove – ao menos enquanto o está a ler.
Picasso gostava de dizer que levou a vida inteira para conseguir pintar como uma criança. Foi também ele quem disse, creio, que se leva muito tempo para se ser jovem. Agrada-me esta ideia – e Picasso esforçou-se, com sucesso, para a demonstrar – porque nos devolve a esperança de que é possível recuperar, não a juventude, mas o melhor da juventude: a paixão, certa saudável inconsciência, o olhar inédito sobre as coisas.

Imagem: José Eduardo Agualusa, fotografado por Jordi Burch em Lubango (Angola) – 2005

Perguntas por fazer

Ainda a propósito da entrevista que Filipe Soares Franco pediu e acabou por dar ao jornal «Record», vale a pena ver no «Leão da Estrela» algumas perguntas que os jornalistas (sete ???) se esqueceram de fazer.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

A ditadura

Pode ler-se aqui o que diz Liedson sobre o «ditadura» de Alvalade, a que chama também «quartel-general». No clube ninguém comenta, nem os responsáveis (não devem ser muitos), nem algum dos irresponsáveis. Parecem não se preocupar se Liedson sair. Haverá sempre o Purovic, para mim uma contratação inexplicável, pela indigência a nível futebolístico – a jogar acaba por ser uma espécie de Filipe Soares Franco de calções –, mas para o presidente parece que é um excelente avançado (ainda ontem Filipe Soares Franco disse no «Record» que «a política que o Sporting tem seguido é comprar jogadores ainda jovens, com potencial e que possam valorizar-se», e que «o caso do Purovic é típico»; para dizer isto, só não percebendo mesmo nada de futebol.) Já agora, a entrevista (oito páginas) não foi pedida pelo jornal, foi pedida por Filipe Soares Franco. Se a moda pega…

A banca

O presidente da Caixa Geral de Depósitos passa para presidente do Millenium BCP. O presidente do BPI diz que concorda. Do Banco de Portugal (o tal banco que tem uns créditos à habitação manhosos para empregados a partir de um certo nível e que dá umas reformas também manhosas ao fim de cinco anos, também a partir de um certo nível), do Banco de Portugal, dizia, dão palpites e fazem recomendações. A CMVM diz que vai investigar coisas que no passado foram arquivadas. A Caixa Geral de Depósitos pode ficar com alguém do PS a mandar, ou então com alguém do PSD. Pode ser até que seja o ministro da Economia do PS, o tal da descoberta idiota do «Allgarve» que já foi «quadro de topo» do Banco Espírito Santo. Ou pode ser um do PSD, um que já foi ministro também da Economia, ou outro que foi do Comércio e não sei se ao mesmo tempo do Turismo, ou outro que mandava nos polícias e gostava de mandá-los pelas ruas à bastonada (ou melhor, a darem bastonadas). Eu alterei a minha morada na Caixa Geral de Depósitos há quatro anos (preenchi uns papéis num balcão) mas só há menos de uma semana é que a coisa passou a valer). O ministro das Finanças mandava na CMVM quando as tais coisas foram arquivadas. O presidente do BPI já há uns meses que diz que essas coisas têm que ser investigadas. O governador do Banco de Portugal é do PS. Na Caixa Geral de Depósitos já houve quem depois de ser ministro se abotoasse com quase vinte mil euros por mês e depois se reformasse ainda novo, tipo Campos e Cunha no Banco de Portugal. No balcão da Caixa Geral de Depósitos onde alterei a morada disseram que a falha não era deles (era do outro balcão para onde tinha enviado os papéis, que na volta os tinham perdido). Tenho a conta da Caixa Geral de Depósitos quase parada, mas tiram-me dez euros de três em três meses (despesas). Se puser lá uma certa quantia tiram só cinco. A partir do dobro desse certa quantia não tiram nada. Mas eu agora tenho o dinheiro no BPI. No Millenium BCP nunca pus dinheiro porque tive uma experiência horrível numa coisa de que já pouca gente se lembra, a Nova Rede. Há uns anos eu tinha dinheiro a prazo na Caixa Geral de Depósitos. Uma vez, no fim do ano, estranhei que os juros fossem uma importância irrisória. Fui tentar perceber o que tinha acontecido e disseram-me que o dinheiro afinal estava à ordem. Mas eu tinha os papéis a provar que estava a prazo. O gerente do balcão (Campo Grande, Lisboa) acabou por reconhecer o erro mas a princípio ainda se armou em parvo («Isto o empregado que tratou das coisas já nem trabalha cá!»). Eu escrevi uma carta à «administração» e ao fim de uns três meses os juros lá apareceram. Tinha um amigo a trabalhar na Caixa Geral de Depósitos numa posição mais ou menos e quando lhe contei o caso, a ver se ele de alguma maneira ajudava, ficou muito escandalizado, mas disse que não podia fazer nada. Mas a «administração» (não me lembro se era do PS, se era do PSD) lá resolveu mandar creditar os juros (com a carta mandei cópias dos papéis). Se um dia inventarem um colchão que seja capaz de dar juros (e que ofereça boas taxas), deixo de trabalhar com bancos. Pode ser até que inventem um colchão que empreste dinheiro, que até se meta no crédito à habitação para directores, tipo Banco de Portugal (e eu serei director do meu colchão, já se vê). Até pode ser que dê cartão multibanco, e também cartão de crédito, e que ao fim de cinco anos me atribua uma reforma tipo Campos e Cunha só pelo facto de dormir lá habitualmente. Talvez inventem um colchão desses e eu consiga comprar um. Os americanos. Só mesmo os americanos. Ou então especialistas de algum consórcio europeu.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Importa-se de repetir?

Filipe Soares Franco hoje no «Record» (texto não editado)... «O problema não é das claques mas de alguns grupos de pressão que estão à margem e que, quando estas estão mais fracas, aproveitam-se para tomar um conjunto de atitudes pouco meritórias porque as pessoas não dão a cara. Os grupos de pressão são como bloguistas

Um estranho restaurante de Marselha

Estive a responder a um questionário para o «Jornal de Letras», sobre lugares. Na parte do restaurante não falei de um mas sim de dois, um real e outro de ficção, de um romance. Deixei de fora o que aparece nesta foto, mas poderia tê-lo escolhido. Fica em Marselha, no «velho porto,» e além de muito bom e muito caro não tem nem dois copos, nem dois pratos nem dois talheres iguais. Chama-se «Maurice Brun – Mets de Provence»; Maurice Brun é o dono, um senhor já de idade avançada que apresenta no restaurante o melhor (e por vezes o mais estranho) da gastronomia da Provence.

domingo, 23 de dezembro de 2007

O Natal, por estes dias (V)

Colónia (Alemanha) - 04.12.07

Começou a perseguição

Podia ser a perseguição ao Porto, a começar depois da derrota da equipa de Jesualdo Ferreira com o Nacional. Mas não. É outra coisa. Quanto ao jogo de ontem à noite com o Paços de Ferreira (Sporting 2 – Vukcevic e Romagnoli –, Paços de Ferreira 1), não me pareceu mal, embora também não tenha sido nada por aí além. O jogador do nome de livros de cowboys parece não dar grande segurança, mas é sempre bem melhor vê-lo a jogar do que apanhar com o desastrado (embora esforçado) Anderson Polga na equipa. Paulo Bento, mais uma vez, escolheu apenas dez jogadores para a equipa inicial, mandando também o inclassificável Purovic para o relvado não se percebe bem para quê. Isso dificultou um pouco as coisas. Mas pronto, cumpriu-se o objectivo («grande» objectivo, convenhamos…) de reduzir a diferença para o primeiro de doze para nove pontos. Quanto à perseguição, a verdadeira perseguição, que justifica o título, é esta aqui.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Uma história de Natal

O PEQUENO CONSTRUTOR DE SEARAS

Houve um tempo em que ele construía searas. Na casa da tia, em Novembro, logo em fins de Novembro. Usava latinhas de conserva, sem o papel à volta com a marca, sem que depois se percebesse que vinham de acondicionar filetes de cavala, ou lulas, ou sardinhas, ou carapaus, ou até bocados de atum. Punha água e trigo nas latinhas anónimas e esperava que as searas crescessem, dia após dia, para que no Natal pudesse tê-las no presépio, os verdes campos de trigo, bem viçosos, já com as latinhas escondidas pelo musgo apanhado nas pedras do cerro por cima da fazenda.
Nunca falhou com uma seara, uma só que fosse. A cada ano dos Natais em que construiu searas para representar no presépio os campos de cultivo, nunca falhou. Punha-as sempre à beira do caminho, do risco de areia que arranjava em cima do musgo desde os ladrilhos da sala até à cabana onde colocava o menino, a mãe e o carpinteiro que estava casado com ela. A cabana da estrela de prata de chocolate, do burro cinzento e da vaca cor-de-laranja com um dos chifres partidos.
Ele usava as figuras que já vinham do tempo da avó. O menino, do mesmo tamanho da mãe, do carpinteiro, do burro e da vaca cor-de-laranja, cinco ou seis ovelhas, um músico de Viena, dois patos e um rei solitário, negro, bem negro, sempre montado num camelo a meio caminho entre os ladrilhos e a cabana, todos do tamanho do menino.
Na igreja da vila, no presépio que o prior mandava fazer todos os anos, havia tantas outras figuras, até um pastor para as ovelhas, como o que depois ele conseguiu comprar na loja onde se entregava o totobola. Um pastor para as ovelhas, de capote amarelo e com um ar tão novo entre as figuras do presépio que ele fazia na casa da tia; foi o pastor que acabou por ser a única novidade em tantos anos no presépio das searas. Mas o presépio da igreja... Nesse havia pontes, todas do tamanho do menino e das ovelhas, e castelos, também do tamanho do menino e das ovelhas, e do carpinteiro e da mãe do menino. E poços, desse tamanho também, e fontes, e camponeses, e os três reis magos, e cães, e cavalos, e carros-de-besta (com as bestas), todos do tamanho do menino. Na igreja da vila.
Todas essas figuras, ou umas parecidas, os poços, os camponeses, os cães, os carros-de-besta, os castelos, uma ponte, pelo menos uma, todas ele desejava ter para colocar no presépio da casa da tia. Mas apenas conseguiu o pastor. O rei negro ficava sozinho a meio do risco de areia que levava à cabana do menino, ano após ano. E era apenas disso que ele tinha vergonha, de ter um viajante de terras longínquas sem os dois companheiros de visita, como no presépio da igreja da vila. E a cada final de ano, quando se aproximava o Natal, quando começava a construir searas, ele pensava no que fazer para que os outros dois reis aparecessem. Mas nunca apareceram, nunca, em nenhuma das vezes em que foi buscar a velha caixa de sapatos com as figuras embrulhadas em papel vegetal.
Um dia, na cidade, viu uns presépios diferentes, apenas com o menino, a mãe e o carpinteiro que era o marido da mãe do menino. Nem a cabana aparecia nesses presépios, e do burro e da vaca nem sinal. Só uma caminha de palha para o menino. Nem a estrela que indicava a direcção do menino. Talvez por isso não aparecesse ninguém de visita, nem ovelhas, nesses presépios, talvez por falta da estrela. Foi o que ele pensou, mas aí já não era uma criança; e tinha havia muito tempo deixado de construir searas.

A evolução

«O meu maior sonho é ganhar o campeonato.» Palavras de Filipe Soares Franco, aqui. Para quem há menos de um ano dizia que o ideal era ficar em segundo lugar porque assim poupava-se nos prémios dos jogadores e ia-se na mesma à Liga dos Campeões, é sem dúvida uma evolução. Ou uma mudança. Como alguém disse em tempos, só os burros é que não mudam (ou não evoluem, acrescento eu).

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Filipe Soares Franco apareceu à Porto

Filipe Soares Franco esteve ontem à noite num programa de televisão («Trio de Ataque»). Pareceu-me muito bem: seguro, tranquilo, a irradiar confiança, desenrascado a falar, ponderado, sabendo o que dizia… Foi mesmo o que me pareceu. A certa altura dei comigo a pensar se não seria eu que estava a fazer confusão e o convidado do programa, inegavelmente Filipe Soares Franco, afinal era o presidente do Porto e não o presidente do Sporting. Soares Franco apareceu como se fosse o presidente do clube cuja equipa lidera o campeonato sem precisar de esticar muito a corda. Não fez a coisa por menos. Presidente de um clube que tem a equipa completamente à deriva, marcada por uma planificação que juntou desleixo, incompetência, irresponsabilidade e desvario? Não, nem pensar. Soares Franco apareceu à Porto. O Sporting, bem, o Sporting deve ter ficado para uma próxima oportunidade.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Escritores no meu romance (32)

José Saramago, Portugal
Reparou numa fileira de livros de Saramago, todos de cor igual, só se distinguindo ao longe pela mancha de cada um dos títulos, uns curtos, outros mais compridos, e também pela largura de cada uma das lombadas. A fileira acompanhou-o por uns dois passos no seu percurso em busca de um lugar vazio.
(excerto de «O que Entra nos Livros», página 119)

O Sporting ontem

O Sporting ontem na Madeira frente ao Marítimo… Marítimo 1, Sporting 2 (um auto-golo, Vukcevik). Fez-me lembrar aqueles tempos de marasmo da década de 90 do século passado em que ganhávamos uns jogos pelo meio de derrotas e empates e não passávamos da cepa torta dos lugares secundários. Cada vez mais parece que o Sporting está nas mãos de gente incapaz de conduzir o clube ao sucesso. E depois, ter de ver a equipa a entrar em campo com um jogador (?) como Purovic… Bom, pior é vê-lo depois de um lado para outro, completamente atarantado e sem saber o que fazer se alguma bola lhe chega perto. Faço notar também dois lances do desajeitado Polga: o que lhe valeu o cartão amarelo, quando se enrolou com um adversário com patadas a agarranços, e um remate tresloucado para fora que fez na primeira parte quando a bola lhe foi parar aos pés e ele estava sozinho para atirar para a baliza, no que até seria um golo fácil (para um jogador de alguma classe, já se vê). Boas notícias: Adrien continua a jogar, Liedson parece que tem os problemas resolvidos e Vukcevic apesar de ser um jogador estranhíssimo sempre consegue de vez em quando alguns resultados (ontem foi um golo e meio, se contarmos que o auto-golo acabou por resultar de uma cabeçada sua).

A surpresa do dia

De vez em quando fica-se a saber destas coisas assim de repente. Para mim, foi a surpresa do dia.

domingo, 16 de dezembro de 2007

O Natal, por estes dias (III)

Bruxelas (Bélgica) - 02.12.07


Sequela ou consequência

A propósito do post anterior, uma espécie de sequela (ou antes, uma espécie de consequência) do livro «Eu, Carolina» pode ser acompanhada aqui.

Porto sem sentido

Desta ver vale a pena ler Pacheco Pereira. Também ele leu o livro de Carolina Salgado, quem sabe se comprado agora nalgum «alfarroubista». Eu li já há não sei quantos meses e pouca coisa me surpreendeu na altura.

Futuro complicado

Isto assusta qualquer adepto do Sporting.

sábado, 15 de dezembro de 2007

O Natal, por estes dias (II)

Metz (França) - 07.12.07

Uns dias depois

Só hoje, uns dias depois, escrevo sobre o Sporting 3 – Dínamo de Kiev 0 (Polga, João Moutinho e Liedson). A equipa até nem esteve nada mal, mas o ambiente de descrédito e desvario a que os responsáveis (?) deixaram chegar o clube afasta qualquer brilho. Paulo Bento lá se decidiu a meter Adrien a titular, não sei se contrariando ordens de algum dos gestores, se para obedecer mesmo a alguma ordem, se porque de facto acredita que deve colocá-lo a titular (e Adrien a titular parece ser mais do que óbvio). Farnerud por lá andou. E Polga, apesar daquilo que eu escrevi sobre o cão a disparar na caçada, marcou de penalty com um remate estranhíssimo a que algum comentador daqueles de há uns anos talvez chamasse «cesgado» (desconheço o significado); o guarda-redes pareceu desinteressado do lance e a verdade é que foi golo (pode ser que nalguma caçada, algures aí por essas serras e montados, algum cão também consiga a proeza de disparar e, mais, de acertar num coelho ou numa perdiz que estejam a dormir). Alguns adeptos devolveram as camisolas que lhes atiraram; eu não devolvia, mas eles estão no seu direito e não é nenhum conselho, por mais superior que se considere, que pode meter-se a definir o que cada um deve fazer. No fim, fica a sensação de que o Sporting se tivesse gente capaz na gestão podia perfeitamente ter-se qualificado para a fase seguinte da Liga dos Campeões e apresentar a equipa a lutar pela vitória em todos os jogos. Não me parece que tenha. Rui Meireles, ontem, em entrevista ao «Record», falou de haver apenas «yes men», mas eu acho que é pior do que isso (a entrevista é curiosa, tem o que me parecem ser tristes verdades mas também coisas em que por factos a que assisti não acredito).

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

A bóia

Foi um homem que deixou a bóia naquele lugar. Um velho corcunda que depois se afastou a coxear pela praia fora, com um cão aos saltos e uma gaivota que parecia domesticada. Eu estava um pouco afastado. Fiquei a pensar em quem se poderia salvar nesse dia.

Faz hoje 21 anos

Faz hoje 21 anos que isto aconteceu. Havia pouco mais de um mês que eu tinha começado as aulas na faculdade, em Lisboa, uma cidade que mal conhecia. Foi a primeira vez que entrei no Estádio José Alvalade. Fiquei atrás da baliza onde o Sporting marcou os seis golos da segunda parte (quatro por Manuel Fernandes - na foto a marcar mais um, com Carlos Manuel ao fundo de braços abertos -, um por Raphael Meade e um por Mário Jorge, que já tinha marcado o primeiro golo).

O Natal, por estes dias (I)

Trier (Alemanha) - 07.12.07

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Uma espécie de Ferguson

Como estive fora, pouco apanhei das confusões de Filipe Soares Franco com Carlos Queirós.. De qualquer forma, achei estranho que o treinador tenha sido considerado «persona non grata» (ou lá o que foi) em Alvalade. Não compreendi. O que Carlos Queirós disse de Filipe Soares Franco não tem nada a ver com o Sporting. Esta gente que agora manda no clube confunde tudo e parece gostar das democracias em que todos pensam da mesma forma. Pelo que disse, Carlos Queirós poderá ser considerado «persona non grata» apenas por Filipe Soares Franco, quando muito por toda a família de Filipe Soares Franco. O Sporting não deve ser misturado nestas birras.
Entretanto, recordo aqui um excerto de uma entrevista de Filipe Soares Franco ao «Diário de Notícias» (quatro de Maio de 2007)…
«[DN] Gostaria que Paulo Bento fosse uma espécie de Alex Ferguson do Sporting? Isso é possível numa SAD onde o clube tem maioria?
[FSF] Isso é uma ambição pessoal que, para concretizar-se, precisa de ser correspondida por Paulo Bento e pelos sócios. É evidente que tudo depende de uma mudança cultural no Sporting.»
Dá a ideia de que ter «uma espécie de Ferguson» em Alvalade até lhe agradaria. Mas vejamos agora o que recentemente disse Alex Ferguson, manager do Manchester United, sobre Filipe Soares Franco…
«O presidente do Sporting foi infeliz nos seus comentários e ainda mais ao escolher Carlos Queirós como o alvo. O comportamento de Queirós foi impecável e julgo que o presidente devia retractar-se das suas declarações. Temos uma boa relação com o Sporting e não queremos que seja destruída, mas aquilo que o presidente do Sporting disse sobre Carlos Queirós foi totalmente injusto. Nós não estamos interessados no Miguel Veloso, nem nunca estivemos… A esse respeito a nossa relação com o Sporting tem sido muito boa nos últimos cinco anos. Conversámos com eles sobre Cristiano Ronaldo e fechámos a contratação. O mesmo aconteceu com Nani. Por que razão iríamos agora sondar o jogador se não estamos interessados nele?»
Imagine-se o que seria a vida de Filipe Soares Franco no Sporting se à frente da equipa estivesse «uma espécie de Ferguson»? O que diria essa «espécie» – por cá tão rara – dos sucessivos erros cometidos por Filipe Soares Franco e pelos outros gestores? O que acharia daquela história de preferir o segundo lugar em vez de ser campeão só para poupar nos prémios aos jogadores? O que recomendaria, por exemplo, que se fizesse com Carlos Freitas? E com o próprio Filipe Soares Franco?

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Escritores no meu romance (31)

Dinis Machado, Portugal
Viu lá muitos nomes: Octopus, Computer, Mister DeLuxe, Austin, Zuca, Mandrake…
(excerto de «O que Entra nos Livros», página 156)

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

«Pessoal», edição de Dezembro

Esta é a capa da revista «Pessoal» de Dezembro; trata-se de uma edição especial. O meu editorial está disponível no blog «Mundo RH».
(clicar na imagem para aumentar)

Os últimos dois jogos do Sporting

Não vi os últimos dois jogos do Sporting, para o campeonato (um a um em casa com o Leiria; Izmailov) e para a Taça de Portugal (quatro a zero ao secundário Louletano; Purovic, Purovic, Vukcevic, Izmailov). Fui espreitando num ou noutro site e até consegui ver o penalty falhado por Polga (mandar Polga ir marcar um penalty é o mesmo que numa caçada entregar a espingarda ao cão para ele disparar). E depois dei com aquela coisa preocupante de o Purovic marcar dois golos de cabeça ao Louletano, o que de certeza vai fazer muita gente pensar que temos um grande avançado; na volta até o próprio treinador vai pensar isso.
O Sporting nos últimos tempos tornou-se desinteressante. Os seus gestores (?), já nem sei se por inépcia, se por brincadeira, se por desvario, se por outra razão qualquer, deram completamente cabo da equipa. A sério que não consigo perceber o que lhes vai na cabeça. Por vezes penso se quererão mesmo as coisas assim, embora não dê para perceber por que é que então não mudam de clube e vão ajudar a gerir o Benfica, o Porto ou até um clube com menos aspirações. Mas noutras vezes rendo-me mesmo à ideia de que a incompetência comanda tudo por estes tempos em Alvalade. Talvez o Sporting devesse ter, além de uma academia de jogadores, uma academia de gestores.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Eu ia escrever sobre a entrevista…

Ia escrever sobre a entrevista do primeiro-ministro ao «Expresso», a parecer de encomenda como uma manhosa que o «Sol» publicou em tempos. Mas não vale a pena; eu não andaria muito longe do que escreveu Pedro Correia aqui (post «O homem perfeito», ilustrado com uma foto do Super-homem; uma de Salazar, aí da década de 40 do século passado, também não ficava mal).

De regresso

Regressam os posts, depois das viagens por terras onde às vezes as luzes ficam assim.